Governo federal ideologiza assunto científico

Presidente da Anvisa,William Dib: “Eles estão ideologizando um assunto científico. Não dá para discutir ciência e religião. Ideologia e ciência não dá”

LUIS MACEDO/CÂMARA DOS DEPUTADOSWilliam Dib, presidente da Anvisa, critica forma como governo Bolsonaro trata de maconha medicinal.

‘Estão ideologizando um assunto científico’, diz presidente da Anvisa sobre maconha medicinal

Prestes a deixar a presidência da agência reguladora, William Dib critica postura de ministros de Bolsonaro ao misturar ideologia e ciência.

A dez dias de deixar a presidência da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), William Dib comemora a liberação da venda de produtos à base de Cannabis e critica a postura de integrantes do governo de Jair Bolsonaro sobre o uso da maconha medicinal. Para o médico e ex-deputado federal, a limitação do plantio no Brasil irá atrasar em duas décadas a pesquisa científica na área.

“Eles estão ideologizando um assunto científico. Não dá para discutir ciência e religião. Ideologia e ciência não dá”, afirmou Dib em entrevista ao HuffPost Brasil em seu gabinete nesta terça-feira (10), ao se referir à postura dos integrantes do primeiro escalão do Executivo.

Para o presidente da Anvisa, não há justificativa técnica para o argumento de que a permissão do plantio da Cannabis estimularia o consumo da erva para uso recreativo, conforme afirma o ministro da Cidadania, Osmar Terra, principal opositor da liberação do cultivo da planta no Brasil. “Não existe possibilidade de você imaginar que alguém vai plantar para fazer uso recreativo se no mercado do lado, na esquina, você compra por um preço irrisório para uso recreativo”, afirmou.

Dib também disse que o ministro mente ao afirmar que há registro de canabidiol sintético no Brasil e rebateu a ameaça feita por Terra de fechar a agência, caso o plantio fosse liberado. “Se fechar a Anvisa, para o País”, afirmou.

Em 3 de dezembro, a Anvisa aprovou normas para regular a venda em farmácias de produtos à base de maconha. No mesmo dia, contudo, o colegiado rejeitou proposta que permitia o cultivo da planta para fins medicinais. A resolução era restrita a empresas, com plantio feito em locais fechados e cujo acesso seria controlado por portas de segurança e com uso de biometria. Também seria exigida a apresentação de planos de segurança para evitar desvios, e as empresas seriam alvo de inspeções periódicas.

Apesar da derrota, Dib vê com bons olhos a permissão dos produtos em farmácias e aposta que o Congresso Nacional irá avançar na regulação. Na Câmara dos Deputados, o relator do projeto de lei sobre o tema, Luciano Ducci (PSB-PR), defende uma proposta de plantio similar à rejeitada pela Anvisa.

Desde 2017, a agência permite a produção e comercialização do Metatyl, medicamento à base de maconha, indicado para adultos com rigidez muscular excessiva relacionada à esclerose múltipla. A medicação é composta tanto pelo THC quanto CBD.

Hoje, o CFM (Conselho Federal de Medicina) só reconhece o uso medicinal da erva em casos de pacientes com epilepsia refratária e menores de idade. Estudos já mostram a eficácia dessa aplicação também para casos de autismo, dor crônica, mal de Parkinson e alguns tipos de câncer.

Com o avanço de evidências científicas dos benefícios da Cannabis para a saúde, têm crescido nos últimos anos decisões judiciais que permitem o cultivo ou a importação de substâncias. Segundo dados da Anvisa, mais de 7 mil pacientes conseguiram aval para importar esse tipo de produto, com base em laudos médicos.

HuffPost Brasil: Em vigor desde 2006, a Lei de Drogas prevê que a União pode autorizar o plantio de “vegetais e substratos dos quais possam ser extraídas ou produzidas drogas” exclusivamente para “fins medicinais ou científicos”. Em setembro, a Procuradoria-Geral da República enviou um parecer ao Supremo Tribunal Federal em que afirmou que houve “omissão inconstitucional” do poder público na implementação das condições necessárias ao acesso ao uso medicinal da Cannabis. O que impede a regulação do plantio?

William Dib: A agência trabalhou esses anos todos sob a seguinte métrica: o que a sociedade quer, o usuário, a classe científica, a academia, e o que a gente podia oferecer. A equipe técnica fez um desenho, visto que há cinco anos eram dezenas de casos de autorização judicial de plantio e hoje são milhares de casos. Antes eram entidades. Passou para indivíduos e agora teve até uma ação de uma empresa. Tudo que a sociedade quer e você não regulamenta vira um caos. A Anvisa se viu no dever, não só no direito – o direito estava na lei – de fazer algo que pudesse ser incorporado à legislação brasileira e aos compromissos internacionais que o Brasil tem de controle e prevenção de danos.

A gente estudo o modelo canadense, israelita, de Portugal, pouquíssimas contribuições americanas. Juntando isso a gente fez um projeto, que resultou num pedido de consulta pública aprovado por unanimidade. Foi para consulta e voltou. A gente fez uma redação final. Nisso aumentou muito a pressão do governo. Faz parte, eu acho, do processo democrático. O governo tem duas alegações. Uma de que a Anvisa não detém o direito de regulamentar, apesar de PGR ter dito que é obrigação. E outra de que não estava claro o grau de segurança desse plantio.

Para o senhor está claro que a Anvisa tem o poder legal de regulamentar o plantio [da erva]?

Para mim está claro, tanto que mantive meu voto. Acho que está claro também que o modelo proposto era seguro. A gente tem de respeitar as opiniões. Não passou, mas passou o registro mais ágil [de produtos à base da Cannabis]. Isso apaga um quase que totalmente a derrota [sobre o plantio]. É um grande avanço. A obrigação da agência é dar acesso a um produto de qualidade, segurança e eficácia. Isso a gente vai conseguir com produtos importados, seja o produto final ou o insumo produzido aqui que a gente vai poder fiscalizar, fazer análise.

Sem a permissão para o plantio, as empresas que podem vender esses produtos à base de Cannabis são obrigadas a importar esses insumos. É possível chegar a um valor acessível de fato, com essa limitação?

Não saberia dizer porque não há patente de Cannabis. Conforme aumenta o consumo, aumenta a produção. Ninguém produz para estocar. Quando isso existe, pode existir uma concorrência que vai reduzir o preço. Óbvio que no começo, primeiro, segundo ano, pode não haver nenhuma redução. Pelo contrário, vai haver um acréscimo porque não tem tabela. Então cada um vende seu produto pelo preço que quiser.

Ficamos à mercê do mercado internacional. E da boa vontade disso. Por exemplo, a legislação de Israel permite o cultivo, mas não permite a exportação. De alguns estados americanos você também não pode plantar.

A proposta de plantio feita pela Anvisa só permitia o cultivo por empresas, em ambientes fechados, com diversas limitações de segurança. Apesar disso, integrantes do governo disseram que ela poderia levar ao plantio para fins recreativos. Há argumentos concretos para esse tipo de argumento?
Eu não consigo absorver isso. A gente precisa partir de uma realidade. A realidade é que você acha Cannabis por um preço baratinho, irrisório, quando ela é de uso recreativo. A Cannabis medicinal, por uma série de motivos, de quantidade de CDB, de THC, ela já fica mais cara mesmo na produção outdoor. Na produção indoor, fica violentamente mais cara. E a produção indoor, monitorada 24 horas, com íris de reconhecimento digital, ainda mais cara.

Não sei quem consegue entender que isso vai estimular o consumo de Cannabis. A filosofia, a base científica disso, eu desconheço. Nunca ouvi uma justificativa técnica que pudesse me convencer de que isso era verdade. Seria capaz de mudar minha opinião. Não consigo mudar de opinião porque não consigo ver essa versão como passível de existência.

Há um discurso moralista que dificulta um debate com foco nos pacientes que precisam desse tipo de medicamento?

[Esse discurso] Inibiu o debate e uma coisa mais importante, que é aumentar a dependência brasileira para insumos. Isso é ruim demais. Mas eu insisto que a gente deve ter ficado feliz de ter passado a regulação da venda dos produtos. Acho que é de questão de dias, de meses, para o Congresso assumir esse papel de regular até porque o governo vai durar mais três anos. Isso não vai ficar assim.

E está havendo uma articulação no mundo para retirar a Cannabis da lista de drogas proibidas. Isso pode ocorrer ano que vem. Se isso acontecer, nem plantio indoor vamos precisar discutir.

Mas não precisaria de a Anvisa também retirar da lista de drogas proibidas no Brasil?

Seria uma decisão da ONU [Organização da Nações Unidas]. O Brasil é signatário de convenções internacionais. Se uma convenção tirar da lista, nós assinamos que ela saiu da lista. Acabou.

As pessoas poderiam plantar [maconha medicinal] então?

Igual à rosa, arroz, feijão.

O relator do projeto de lei na Câmara dos Deputados, Luciano Ducci (PSB-PR), é a favor do plantio em termos similares ao proposto pela Anvisa. Alguns deputados conservadores também, mas há resistência de integrantes da bancada evangélica. Ainda assim, o senhor acha que essa proposta será aprovada?

Alguma coisa será aprovada. O Congresso é mais liberal do que a Anvisa, com certeza. Todos os Congressos são mais liberais do que as agências. As agências são mais restritivas porque mexem com a segurança da saúde das pessoas. Os congressos são mais abertos. No governo da Dilma [Rousseff] a proposta era liberar o cultivo. Não era regulamentar o remédio. Dois anos depois, muda tudo.

A proposta da Anvisa liberava o cultivo só para empresas e houve críticas de que não atenderia às demandas das famílias de pacientes e associações. É viável liberar o plantio para atender a esses grupos?

O presidente da Anvisa tem de responder por leis específicas. As leis brasileiras são restritivas. A Anvisa faz regulamentações restritivas.

O senhor entende que para as pessoas poderem plantar em casa seria necessário mudar a lei então?

Isso. Quem tem que fazer isso é o Congresso. A Anvisa não discute o uso recreativo. Não discute liberação de droga de nenhuma ordem. A Anvisa discute o seguinte: tem uma doença que precisa de um remédio e eu preciso garantir o acesso a um produto de qualidade dessa pessoa.

Se fosse em outro governo, seria possível aprovar uma proposta mais liberal?

Se fosse no governo da Dilma, eles teriam ficado bravos de não ter liberado tudo.

Considerando a posição do presidente Jair Bolsonaro e de ministros como o da Cidadania, Osmar Terra, então foi uma vitória o que se conseguiu aprovar?

Foi uma grande vitória da sociedade. Não minha, muito menos da Anvisa, em regulamentar o uso medicinal. Isso é o produto final. Não adiantava liberar o plantio e não garantir o remédio de qualidade. O nosso papel era o remédio. Com certeza é mais importante que o plantio. O plantio só vinha organizar a sociedade.

Quase todas as sentenças de autorização de plantio o juiz escreve ‘autorizo o plantio até a regulamentação pela Anvisa’. A agência é um problema para a sociedade. Alguém pedia um remédio e demorava 9 dias. Agora demora 60. Por quê? Porque aumenta o número de receitas e não aumenta o número de funcionários [da Anvisa]. Não dá para fazer mágica.

Mas as pessoas ainda podem pedir para importar…

Mas aí é um pedido que não preciso mais regulamentar caso a caso. Aqui eu faço um por um porque é um pedido individual e dose individual. O grande foco dessa alteração é que mesmo que tiver um pedido de importação, ninguém vai importar mais um vidrinho. Vai pedir autorização para um contêiner.

O senhor sentiu diferença com a mudança de governo na postura de integrantes do Executivo sobre a Anvisa votar a regulamentação do uso medicinal da maconha?

Estou acostumado…

Mas houve uma grande mudança de 2016 para 2019?

Eu diria para prestar atenção nas votações. Se teve uma votação há 90 dias e todo mundo votou em conjunto, 60 dias depois votaram diferente, você conclui…

Houve algum pedido do governo para que a regulação não fosse votada?

Para mim, não.

O ministro Osmar Terra é crítico à liberação do plantio e defende o canabidiol sintético. Essa solução é viável?

Noventa e nove porcento dos medicamentos tiveram origem vegetal. Quando o consumo começa a crescer e é difícil plantar, vem um geniozinho da lâmpada e consegue sintetizar esse produto. Fica um pouco mais caro, mas quando todo mundo consome o sintético, fica mais barato. Essa é a história de praticamente todo medicamento. Óbvio que um dia vai ter o canabidiol sintético, só que o que tem hoje não serve para nada. A classe médica odeia. Não tem registro. Ele [Osmar Terra] diz que tem registro aqui no Brasil. É tudo mentira. Não sei de onde ele tira essas coisas da cabeça.

Não existe o produto sintético. Existe no laboratório. Tem o registro? Não. Por quê? Porque não funciona.  Por que não funciona? Segundo os israelenses que estão mais avançados na depuração dos canabinoides, é porque quando precisar tomar você precisa de 411 canabinoides e ninguém conseguiu sintetizar 411. Consegue sintetizar o CBD e mais alguns. Precisa tomar o xarope com o óleo total para provocar o efeito [medicamentoso] que precisa. A chance de ter um produto sintético em pouco tempo é muito remota porque é muito complexa a formulação.

O senhor entende que essa discussão sobre a separação do THC tem uma base científica ou também é um debate ideológico?

A Cannabis sem THC não tem nenhum efeito deletério, nem psicotrópico. Tanto é que o [Donald] Trump autorizou o plantio do que eles chama de hemp, o cannabidiol puro, com menos de 0,2% de THC. Não precisa de autorização; você planta. Assim como planta milho, planta Cannabis. Eles têm o cânhamo, indústria têxtil, agropecuária, serve para várias outras fontes. Esse plantio do canabidiol sem o THC nem isso nós conseguimos [aprovar no Brasil]. Agora, determinadas patologias precisam de uma quantidade de THC para ter efeito. Só em um remédio registrado no Brasil.

O Metatyl, que tem THC…

E não é pouco. É 50%. A maior parte dos remédios que circulam nos países que têm a cultura científica do uso, a proporção entre CBD e THC máxima é essa. Quase todos produtos com maior eficácia têm THC. Tirar todo THC limita muito o espectro da autorização.

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, afirmou que o canabidiol pode ser incluído no SUS, mas criticou normas que permitem o registro de produtos que contenham THC. Sendo assim, na prática, a distribuição desses produtos pela rede pública seria inviabilizada?

Será que ele sabe que já tem um remédio que o Ministério da Saúde receita que já têm 50% de THC? Eu não sei se ele sabe. Não é vontade cultural. É um problema ideológico. Eles estão ideologizando um assunto científico. Não dá para discutir ciência e religião. Ideologia e ciência não dá.

É complicado demais. Eles querem [misturar os temas], mas não sei como eles conseguem. Desculpa. Com todo o respeito que tenho aos ministros – o ministro [da Saúde] é meu colega médico — mas não sei se ele sabe. Eu tenho dúvidas porque ele já autoriza [o uso de medicamento com THC]. Ele acha que não, mas já autoriza.

Daqui a três anos essa liberação da venda de produtos à base de Cannabis pode ser revisada pela Anvisa. O que pode acontecer? Voltar a proibir?

Acho que não. A ciência tem de estar de cabeça aberta se isso é bom mesmo. Se os resultados para sociedade vão ser positivos. O pouco que eu estudei, eu vejo um campo magnífico para desenvolvimento para o uso da Cannabis e acho que vai ser um sucesso. Mesmo assim, acho que tem de se revista a legislação. Estamos fazendo uma legislação em que a comprovação científica é o menos importante. Agora é a comprovação de que não têm efeitos deletérios. É garantir que você não está usando um remédio que vai te fazer mal. Se não resolver seu problema, daqui a três anos vou ter de tirar ele do mercado.

Pesquisadores apontam algumas dificuldades nas exigências de evidências científicas, como desenvolver os  chamados estudos multicêntricos randomizados duplo cego, o padrão mais elevado, por ser muito caro. A regulação da venda de produtos vai ter algum impacto nessa dificuldade de pesquisa?

A ideia do plantio era porque a convenção que assinamos era para produtos medicinais, mas o mais importante era para pesquisa. Retirando o cultivo, a pesquisa vai atrasar uns 20 anos. Não é função da agência produzir ciência, mas também não é dificultar. Quando a academia pede semente e planta para pesquisa, a gente autoriza, mas eles [pesquisadores] que pagam.

Acho que pode haver alguma facilidade porque os laboratórios que vão lançar seus produtos vão querer se associar à academia para fazer pesquisa para ganhar tempo e eficácia. Isso pode baratear a pesquisa.

E o laboratório pode fazer pesquisa para doença que não está registrada. Só precisa se cadastrar. Se o laboratório que vai produzir aqui vai ganhar mercado e reconhecimento científico, isso não tem preço. Então pode ser que esse seja um facilitador. É óbvio que não estamos falando de universidades. Universidades precisariam do plantio.

O Conselho Federal de Medicina (CFM) só reconhece o uso medicinal da erva em casos de pacientes com epilepsia refratária e menores de idade. Com a regulação da venda de produtos, deve haver uma revisão desse entendimento?

Sou médico, não posso dar palpite. Mas acha que algum médico leva em consideração o que o CFM fala? Não há possibilidade de a Anvisa fazer receita. Quem prescreve é a classe médica, que responde ao Conselho. Mas alguém ouve o Conselho?

O ministro Osmar Terra chegou a falar em fechar a Anvisa, caso o plantio fosse liberado. O senhor acredita que haverá algum tipo de retaliação do governo, se a agência ampliar o acesso à maconha medicinal?

Se fechar, para o País. A Anvisa tem um reconhecimento no mundo, muito alto. E tem aqui dentro. Ela é fundamental para a indústria farmacêutica. Quando a Anvisa foi criada, a indústria farmacêutica tinha duas empresas brasileiras entre as vinte maiores. Hoje das dez maiores empresas [do mundo], sete são brasileiras. A Anvisa não atrapalha ninguém. Ela regulamenta mercado.

Governo Pede Liberação Da Publicidade Infantil E Conanda Reage

“… tanto o Estado quanto a família e a sociedade têm responsabilidade para colocar a criança a salvo desse tipo de assédio mercadológico. Então, nós entendemos ser uma constatação equivocada [a do Ministério] e que não observa a nossa Carta Magna”

Pesquisas nacionais e internacionais apontam que publicidade direcionada a crianças compromete o desenvolvimento psicossocial / Agência Brasil/Arquivo

Governo pede liberação da publicidade infantil e Conanda reage

Medida é critica também por pesquisadores, que destacam poder simbólico do incentivo ao consumo

A liberação da publicidade direcionada a crianças voltou ao debate público no Brasil. O pontapé para o retorno da discussão veio do governo federal, que solicitou, por meio do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, uma revisão da norma que veta a publicidade infantil e o uso de personagens infantis em anúncios comerciais.

O pedido foi encaminhado ao Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) por meio de uma nota técnica assinada pelo diretor de Formação, Desenvolvimento e Fortalecimento da Família, Paulo Tominaga, em março deste ano. Em abril, após ser oficialmente notificado, o colegiado emitiu, em resposta ao Ministério, um documento que se contrapõe à manifestação da pasta.

Na exposição de motivos, o Conanda sublinha que a Resolução nº 163, que proíbe conteúdos publicitários dirigidos a crianças e foi editada pelo colegiado em 2014, está respaldada pelo artigo 227 da Constituição Federal. O dispositivo prevê que os direitos de crianças e adolescentes devem ser promovidos e protegidos pelo Estado, pela família e pela sociedade.

A colocação rebate um dos argumentos utilizados pelo governo na nota técnica, segundo a qual essa competência seria exclusivamente da família, não cabendo a intervenção do poder público.

“Nessa questão do direcionamento de publicidade não é diferente: tanto o Estado quanto a família e a sociedade têm responsabilidade para colocar a criança a salvo desse tipo de assédio mercadológico. Então, nós entendemos ser uma constatação equivocada [a do Ministério] e que não observa a nossa Carta Magna”, afirma o coordenador de relações governamentais do Instituto Alana, Renato Godoy.

A entidade, que atua há mais de dez anos no tema, é uma das representantes da sociedade civil que têm assento no Conanda.

O posicionamento do Conselho também está alinhado com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que veda qualquer tipo de exploração desse público. O Conanda afirma que a publicidade dirigida ao segmento costuma violar a norma ao desrespeitar a condição de desenvolvimento de crianças e adolescentes e estimular problemas como o consumismo, a erotização precoce, os transtornos alimentares e comportamentais, entre outros.

Renato Godoy salienta que a orientação também se apoia no Código de Defesa do Consumidor (CDC).A legislação veta publicidade enganosa ou abusiva, o que inclui as que se aproveitam do pouco discernimento da criança para vender produtos ou práticas de consumo. Por esse motivo, as campanhas publicitárias somente podem ser dirigidas aos pais.

O entendimento tem jurisprudência consolidada no Brasil. Em 2016, por exemplo, a publicidade infantil foi considerada ilegal pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) no julgamento de uma ação do Ministério Público de São Paulo (MPSP) que questionava uma campanha para promoção de panetones.

Os produtos vinham acompanhados de relógios de um personagem infantil e, por isso, tinham apelo mercadológico direcionado a crianças. Na ocasião, a empresa foi condenada a pagar R$ 300 mil de indenização.

“Reflexão crítica”

Outro argumento utilizado pelo governo no pedido de revisão da norma é o de que seria fundamental as crianças aprenderem a lidar com a publicidade e desenvolverem uma “reflexão crítica sobre a vida essas influências externas”.

Renato Godoy sublinha que o entendimento do ministério vai de encontro ao conhecimento já consagrado por especialistas do Brasil e do mundo de que o consumo de publicidade na infância é prejudicial ao desenvolvimento.

“Nós entendemos ser um sofisma, uma afirmação que não condiz com a realidade. Não há qualquer evidência empírica desse benefício de a criança entrar em contato com a publicidade. Ao contrário, temos inúmeras evidências de que a exposição delas à publicidade e aos estímulos consumistas traz uma série de consequências negativas pro desenvolvimento biopsicossocial. Publicidade não é educação”, sustenta o coordenador.

Pesquisas

A professora Inês Vitorino, vice-coordenadora do Laboratório de Pesquisa da Relação Infância, Juventude e Mídia da Universidade Federal do Ceará (LabGrim/UFC), também contrapõe as premissas apresentadas pelo governo.

Ela destaca que, ao questionar a norma que proíbe a publicidade infantil, o ministério deixou de observar as diferentes pesquisas que versam sobre o tema, incluindo as que foram financiadas pelo próprio Estado brasileiro. Entre elas, está um estudo financiado pelo Ministério da Justiça em 2014 para averiguar os impactos do consumo da publicidade por crianças de 9 a 11 anos.

Coordenada pelo LabGrim, a pesquisa entrevistou moradores de todas as regiões do país e identificou que os anúncios chegavam a provocar, por exemplo, conflitos entre pais e filhos; competição e violência entre crianças; sentimentos de frustração, tristeza e ira; além de desejo de consumo ligado a uma necessidade de aceitação entre grupos sociais.

“A publicidade, com muita perspicácia, dentro de uma lógica mercadológica, vende a essa criança que o produto vai trazer a alegria, a amizade de um colega, o amor e o reconhecimento das pessoas por ela e que ela precisa ter mais, mais e mais. É uma abordagem que desvirtua inteiramente o processo formativo”, analisa Inês Vitorino.

O estudo traz, entre diferentes orientações, a necessidade de atuação do Estado no que se refere ao acesso de crianças e adolescentes à comunicação de mercado. A vice-coordenadora do LabGrim ressalta que a intervenção estatal nessa área tem referência mundial.

“Ao nível internacional, a maior parte dos países considerados democráticos tem processos de regulamentação muito fortes em relação à publicidade, alguns mais, outro menos, porque isso depende de disputas de interesse de mercado nessas várias sociedades. Cada país encontrou seu caminho, suas formas de lidar com essa situação”, afirma. 

Na região do Quebec, no Canadá, por exemplo, campanhas dessa natureza foram proibidas desde os anos 1980, em um processo que venceu o lobby de fabricantes de brinquedos e da indústria alimentícia. Países como Argentina, Inglaterra, França, Alemanha e Suécia também impõem restrições à publicidade infantil, com base no indicativo científico de que a prática tem efeitos danosos no desenvolvimento das crianças.

Diante disso, Inês Vitorino afirma que, além de dar um passo para trás, o Brasil tende a se colocar na retaguarda do mundo democrático caso decida banir a norma que proíbe a publicidade infantil.

“Eu pergunto: a quem serve essa lógica? É à lógica da criança ou à do mercado publicitário? É extremamente importante que a sociedade brasileira esteja atenta aos riscos que significam retirar a proteção legal que a criança hoje tem em relação ao direcionamento de publicidade pra ela”, defende a professora.

Ministério

O Brasil de Fato procurou ouvir o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos a respeito do tema e também especificamente sobre o posicionamento oficial emitido pelo Conanda, mas não houve retorno da assessoria de imprensa da instituição.

Fonte: Brasil de Fato

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O perigo da medicina alternativa, da pseudoterapia e da pseudociência

“Trocar o sistema de saúde pelas pseudoterapias pode ser um prejuizo grave e inclusive provocar a morte precocemente”. “A homeopatía pode ficar na mesma categoria dos caramelos”

Los cinco ataques de Pedro Duque* a las pseudociencias y la homeopatía

"La homeopatía puede estar en la misma categoría que los caramelos".

Acabar con las pseudociencias se ha convertido en uno de los objetivos a corto plazo de la comunidad científica. Casi 400 médicos y científicos firmaron un texto en septiembre de 2018 para pedir al Ministerio de Sanidad una línea de actuación, y éste recogió el testigo en el mes de noviembre al presentar a los colegios profesionales el borrador de su plan de ataque.

Era el primer paso de un camino que el Gobierno pretende seguir recorriendo durante 2019 y al que se ha referido el ministro Pedro Duque en una entrevista con Diario Médico. El responsable de la cartera de Ciencia y Educación ha atacado abiertamente este tipo de tratamientos e incluso se ha mojado sobre una de las cuestiones más polémicas: ¿debería la homeopatía salir de las farmacias?

A continuación recogemos algunas de sus declaraciones más combativas.

— “Lo que no esté validado por la ciencia [las pseudociencias] no puede ser un servicio sanitario”.
— “Las pseudociencias son un problema muy importante, pero incipiente en el sistema sanitario”.
— “Hay gente que abandona el sistema sanitario para acudir a pseudoterapias, lo que puede afectar gravemente la salud e incluso causar muertes tempranas”.
— “Dentro del Sistema Nacional de Salud las pseudoterapias afectan poco, pero hay que eliminar del todo su influencia, dejarla a cero”.
— “[En las farmacias] La homeopatía puede estar en la misma categoría que los caramelos, sin ningún problema”.

El plan del Gobierno

En la lucha contra las pseudoterapias, el Gobierno maneja plazos cortos y Pedro Duque ha anunciado que “a lo largo de 2019 saldrán de los centros sanitarios y de la formación especializada”.

Para ello, el astronauta* pide tiempo porque quieren que el listado de pseudociencias tenga “absoluta exactitud”. “Hay cosas bastante obvias, pseudoterapias sobre las que no hay que pensar mucho porque está claro que lo son, pero debemos ser escrupulosos con otras áreas y pretendidas terapias sobre las que puede haber dudas”, ha asegurado el ministro, que dice que el Gobierno pondrá “a gente a trabajar con ese objetivo: todo el SNS, los centros sanitarios y sus profesionales, deben estar alineados con esta política”.

LATE MOTIV – Elena Campos, una biomédica contra la pseudociencia. | #LateMotiv254 – YouTube
La doctora en biomedicina Elena Campos preside la Asociación para Proteger a los Enfermos de la Terapias Pseudocientíficas (APETP) y nos habla de sus intentos, sus logros y los riesgos de las pseudoterapias.
* Pedro Duque, ministro de Ciencia,Innovación y Universidades é um ex-astronauta e político espanhol, veterano de duas missões espacial.
 

O Doutor Google mente e as mentiras médicas

Um dos objetivos é atacar as vacinas/medicina preventiva. A vacina da gripe provocaria o autismo. A vacina contra o virus do papiloma humano provocaria convulsões.

Wenting Li

Doctor Google miente

Comenzó durante una clase de yoga. Sintió un jalón extraño en el cuello, una sensación absolutamente desconocida para ella. Su amiga sugirió que fuera a urgencias de inmediato. Resultó que estaba teniendo un ataque cardiaco.

La paciente no encajaba en el estereotipo de una persona con probabilidades de padecer un ataque cardiaco. Hacía ejercicio, no fumaba y cuidaba su alimentación; sin embargo, al revisar su historial médico, descubrí que sus niveles de colesterol estaban elevadísimos. Le habían recetado estatinas para reducir el colesterol, pero nunca surtió su receta debido a las cosas terribles que había leído en internet acerca de estos medicamentos. Fue víctima de un padecimiento que está convirtiéndose a toda velocidad en una pandemia de la era moderna: las noticias médicas falsas.

Aunque la desinformación ha sido objeto de gran atención en el ámbito político, la desinformación médica podría provocar bajas aún más numerosas. Como sucede con lasnoticias falsas en general, las mentiras médicas suelen tenermayor alcanceen internet que las verdaderas y tienen repercusiones bastante reales.

Muchos estudios han demostrado que los beneficios de las estatinassuperan ampliamentelos riesgos, en especial para aquellas personas con riesgos elevados de sufrir una cardiopatía. No obstante, estos fármacos se han vuelto el blanco de un grupo discrepante en línea que incluye fanáticos paranoicos, gente que vende terapias alternativas y aquellos que solo buscan obtener clics. Una cantidad incalculable de sitios web y publicaciones en redes sociales exageran los riesgos que en realidad son poco frecuentes y fomentan aseveraciones infundadas, desde afirmar que las estatinas provocan cáncer hasta sugerir que un nivel bajo de colesterol es dañino para la salud.Un estudio de 2016reveló que incluso los artículos que se limitan a sopesar los riesgos y los beneficios de las estatinas se asociaron con pacientes que interrumpieron su tratamiento para reducir el colesterol, lo cual se relaciona con un aumento en la incidencia de ataques cardiacos.

La información médica falsa también puede ocasionar que los pacientes presenten mayores efectos secundarios a causa del “efecto nocebo”. En ocasiones, los pacientes mejoran con una intervención quirúrgica solo porque creen que así será, ese es el efecto placebo. El efecto nocebo es lo opuesto: los pacientes pueden presentar efectos secundarios solo porque estaban predispuestos a experimentarlos. Esto mismo sucede con las estatinas.En experimentos a doble ciego, los pacientes que son tratados con estatinas no son más propensos a reportar dolores musculares que aquellos que toman el placebo. Aun así, de acuerdo conun estudio, en la práctica clínica casi una quinta parte de los pacientes que toman estatinas reporta efectos secundarios, lo cual provoca que muchos suspendan el medicamento.

¿Qué otro objetivo tienen en la mira las noticias falsas? Como siempre, las vacunas. Según una historia engañosa que se hizo viral este año, el cadáver de un epidemiólogo de uno de los Centros para el Control y la Prevención de Enfermedades de Estados Unidos fue encontrado en un río después de que expresó preocupación acerca de la vacuna contra la influenza. La semana pasada, Mark Green, un médico de Tennessee, recién electo para el Congreso, repitió la falsedad ampliamente desmentida de que las vacunas pueden provocar autismo (después dijo que sus comentarios habían sido “malinterpretados”).

Las falsas preocupaciones de que la vacuna contra el virus del papiloma humano provoca convulsiones y otros efectos secundarios redujo los índices de cobertura en Japón del 70 por cierto a menos del 1 por ciento en años recientes. Quienes aplican la vacuna contra la polio en Pakistán son atacados con frecuencia por militantes, pues creen que la vacuna tiene el objetivo de esterilizar a la población local.

El cáncer es otro gran objetivo de quienes fomentan la desinformación médica; muchos de ellos ganan dinero con terapias alternativas.En un artículo falso se lee lo siguiente: “Aunque mucha gente cree que los tumores cancerosos son malos, en realidad es la forma en la que el cuerpo busca detener las células dañinas”. Esta noticia sugiere que una intervención quirúrgica “implica el riesgo de propagar las células dañinas”, y advierte que “los medicamentos recetados provocan un aumento de la acidez en el cuerpo, lo cual incrementa las mutaciones celulares incontrolables”.

Enun estudio de 2017se descubrió que cuando los pacientes con cáncer recurren a terapias alternativas como las dietas, las hierbas y los suplementos en lugar de las terapias convencionales, la probabilidad de que fallezcan es 2,5 veces mayor. Al explotar el temor de las personas, quienes disuaden a los pacientes de recibir un tratamiento basado en pruebas tienen las manos manchadas de sangre.

Los médicos y enfermeras con frecuencia tratan de desalentar a los pacientes de buscar respuestas en internet. Aun así, los pacientes siguen consultando a Google sobre sus síntomas y medicamentos porque en internet no hay necesidad de hacer citas ni de esperar mucho tiempo, no hay prisa, la redno emite juicios, no requiere un deducible cuantioso y a menudo provee información que parece fácil de comprender.

Silicon Valley debe hacerse cargo de este problema. No soy abogado especializado en la libertad de expresión, pero cuando la salud de las personas está en riesgo, quizá debería responsabilizarse a los motores de búsqueda, las plataformas de redes sociales y los sitios de internet por promover o alojar información falsa.

La comunidad científica debe hacer lo que le corresponde en cuanto a educar al público respecto de los conceptos clave en las investigaciones, como la diferencia entre estudios observacionales y estudios aleatorios de calidad más alta. La transparencia es crucial para mantener la confianza del público, y noticias como la que muestra que los investigadores de los Institutos Nacionales de Saludhabían solicitado y recibido financiamiento de la industria del alcohol para realizar un estudioacerca de los beneficios de la ingesta moderada demuestran la rapidez con la que esa confianza puede ser socavada.

Por último, los periodistas pueden hacer un mejor trabajo al difundir información veraz. Hay más probabilidades de que los sitios de noticiascubran estudios observacionales llamativosque estudios aleatorios controlados, quizá porque es menos probable que estos últimos generen resultados sorprendentes. Ese tipo de cobertura puede exagerar los beneficios al asegurar, por ejemplo, que las estatinas pueden curar el cáncer o contribuir a que los hombres tengan erecciones; también puede exagerar el énfasis en los riesgos potenciales, como sugerir una correlación engañosa con la demencia. (Aunque una pequeña cantidad de personas parece tener episodios de fallos de memoria temporales después de tomar estatinas,ningún estudio aleatorio controladoha comprobado una asociación entre el medicamento y las fallas cognitivas y ciertamente tampoco entre este y la demencia).

No obstante, presentar los hechos podría no ser suficiente. El efecto búmeran, en el que la gente se engancha aún más con las creencias falsas cuando se les presentan los hechos, también puede ocurrir cuando se ponen en duda conceptos médicos erróneos. Para convencer a mi paciente de que la estatina era lo mejor para ella, no le proporcioné únicamente la información clínica, sino que le compartí una historia personal: después de que mi papá tuvo un ataque cardiaco, le pedí a sus médicos que comenzaran de inmediato el tratamiento con estatina y con la dosis más alta. Le dije a la paciente que, aunque la estatina no podía garantizar que no sufriera otro ataque cardiaco, deseaba que mi padre tuviera la mejor oportunidad de tener una vida sana. Fue entonces cuando accedió a tomar la receta.

Para tener la mínima oportunidad de ganar la guerra de la información, los médicos e investigadores debemos entretejer nuestras historias con hechos científicos. Esta es la única manera de zanjar la brecha que se ha abierto entre la medicina y las masas, y que ahora es explotada por los comerciantes de la desinformación médica.