Reações ao racismo do presidente de clube de futebol

É sintomático que figuras exponenciais da assim chamada elite política e econômica tenham vindo em socorro do dirigente. Para essa elite, se tratou apenas de um comentário infeliz que não deveria ser sobrevalorizado. Fica-se com a  impressão de que, para o andar de cima da sociedade, o discurso da dignidade da pessoa humana, da ética, dos valores da inclusão de todos é um discurso para boi dormir, especialmente quando um de seus integrantes é acusado de racismo e discriminação. 

Clemens Tönnies ficará três meses afastado da direção do Schalke 04

A fala racista do presidente do Schalke e o poder do vil metal

Após o bilionário Clemens Tönnies insultar africanos, fica-se com a impressão de que, para a elite, o discurso da dignidade humana é para boi dormir, especialmente quando um de seus integrantes é acusado de racismo.

Clemens Tönnies ficou bilionário com sua empresa de produtos alimentícios (Tönnies Holding, de carnes e salsichas) em Rheda-Wiedenbrück, pequena cidade de 48.500 habitantes a pouco mais de 100 quilômetros de Gelsenkirchen, casa do Schalke 04. O time sempre foi a grande paixão de Tönnies e, desde 2001, ele é o presidente do clube.

Na qualidade de empresário, e como um dos homens mais ricos da Alemanha e do mundo (atual nº 1.349 da lista da Forbes), ele foi convidado pelos organizadores do evento Dia do Ofício, em Paderborn, a falar perante 1.600 convidados no começo deste mês.

Um dos temas do seu discurso foi a possível instituição de um imposto para combater as mudanças climáticas, especialmente em países da África. Em vez de mais um imposto, Tönnies propôs o financiamento e construção de 20 usinas elétricas na África por ano.

Ele justificou sua proposta com o seguinte argumento: “Assim, os africanos parariam de derrubar árvores e de produzir crianças quando fica escuro.”

Além da estapafúrdia afirmação racista, talvez um dos aspectos mais assustadores tenha sido a não reação da plateia. Ninguém protestou. Ninguém vaiou. Ninguém se levantou e deixou o recinto como atitude simbólica de repulsa. Nem o arcebispo convidado de honra sentado na primeira fila foi capaz de um mínimo gesto de desaprovação. Pelo contrário, ao final, o discurso foi aplaudido pelos presentes.

Não bastasse isso, após a repercussão negativa de sua fala, o próprio Tönnies propôs ao Conselho de Ética do Schalke 04 o seu afastamento temporário da presidência do clube por três meses. Ditou a sua própria sentença, que foi aceita sem mais delongas pelo conselho, com a justificativa de que a acusação de racismo contra o presidente é “infundada”.

É o caso de se perguntar: o que mais precisa ser dito para considerar como racista uma afirmação que insulta toda população da África?

Houve, porém, algumas vozes que se levantaram contra o racismo explícito manifestado pelo dirigente.

Pablo Thiam, por exemplo, que nasceu na Guiné e cresceu em Bonn, onde seu pai trabalhava como diplomata. Durante anos, Thiam jogou na Bundesliga, em clubes como Colônia, Wolfsburg, Stuttgart e Bayern. Atualmente, dirige o departamento dos times de base do Wolfsburg, além de ser o responsável pelo setor de integração que luta contra discriminação e racismo.

“Estou estupefato. Simplesmente me faltam palavras. Nem sei o que dizer. Com seu discurso, o presidente do Schalke contraria frontalmente todo trabalho que estamos desenvolvendo pelo diálogo e pela integração de migrantes e refugiados”, disse.

Para Thiam desculpas não bastam: “São desculpas de meia-pataca. Por acaso ele se desculpou com a população africana que insultou? Não. O seu pedido de desculpas se dirigiu exclusivamente aos próprios alemães. Nenhuma palavra sobre os africanos alvos da sua manifestação.”

Hans Sarpei, de origem africana e ex-jogador do Schalke, foi no mesmo diapasão: “Do clube e do senhor Tönnies espero que as palavras sejam seguidas por ações. É preciso se distanciar claramente de toda e qualquer discriminação e xenofobia. O presidente deve pedir desculpas publicamente a todos os africanos.”

Peter Lohmeyer não é apenas um dos atores de cinema mais conhecidos da Alemanha, mas também um dos mais famosos fãs de carteirinha do Schalke 04. Só que depois da difamação dos africanos pelo presidente do clube e da generosa pena de três meses de suspensão do cargo, Lohmeyer decidiu devolver a carteira de sócio.

“Faço isso porque sou fanático pelo Schalke, clube que sempre esteve na vanguarda e na luta contra discriminação e racismo. Tenho muito orgulho disso. Agora vem um açougueiro rico e questiona essa postura. O clube sempre se orgulhou de mostrar o cartão vermelho para palavras e atos racistas. Quem contraria esse preceito não é Schalke de coração. Está lá por outros motivos; quiçá por interesses pessoais”,a firmou o ator.

Na TV alemã pipocaram depoimentos de torcedores, especialmente das torcidas organizadas, muito contrariados com as declarações do dirigente. Muitos pediram sua renúncia. Na partida do Schalke pela Copa da Alemanha sábado último, centenas de fãs levantaram cartões vermelhos exigindo a saída do presidente.

É interessante verificar que a maioria das críticas veio de pessoas da grande massa torcedora, dos assim chamados cidadãos comuns. Também era de se esperar que a classe dirigente deste meganegócio chamado futebol se posicionasse claramente sobre o assunto.

Cartolas influentes, como Watzke, do Dortmund, ou Rummenige e Hoeness, do Bayern, todos muito falantes quando do alto do pódio fazem discursos sobre responsabilidade social, mantiveram silêncio sepulcral e se fecharam em copas. Não reações, como se sabe, na verdade representam uma tomada de posição, porque quem cala, consente.

O próprio arcebispo de Paderborn, Hans-Josef Becker, presente no evento, só se manifestou discretamente alguns dias depois, através de comunicado oficial, ressaltando que o arcebispado é contra qualquer tipo de discriminação, seja por palavras ou atos. Aproveitou para dizer que Tönnies já havia pedido desculpas, dando assim o caso por encerrado.

Não resta dúvida de que Tönnies é muito importante para o Schalke. Basta lembrar que foi a figura-chave na obtenção do patrocínio milionário da empresa russa Gazprom e que pessoalmente injetou recursos financeiros consideráveis no clube quando necessário. Além do mais, como um dos homens mais ricos da Alemanha, é muito bem relacionado nas altas rodas políticas e empresariais, não só do país como também da Europa.

É sintomático que figuras exponenciais da assim chamada elite política e econômica tenham vindo em socorro do dirigente. Para essa elite, se tratou apenas de um comentário infeliz que não deveria ser sobrevalorizado. Fica-se com a  impressão de que, para o andar de cima da sociedade, o discurso da dignidade da pessoa humana, da ética, dos valores da inclusão de todos é um discurso para boi dormir, especialmente quando um de seus integrantes é acusado de racismo e discriminação. 

Tönnies ficará três meses afastado da direção do Schalke 04, pelo menos formalmente. Nem pensa em renunciar ao cargo. Em novembro estará de volta. É tempo suficiente para refletir e se lembrar de que o mínimo a fazer é pedir desculpas publicamente a todos os africanos que insultou com seu discurso.

Fonte:  Deutsche Welle

Os que subornam as universidades e a justiça

Para algumas famílias há tres maneiras de suborno para entrar nas universidades dando toneladas de dinheiro: a porta principal, a porta traseira e a porta lateral. É o caso em que “o dinheiro não fala, insulta”, como disse Bob Dylan.

El escándalo de los sobornos universitarios y la uberización de la corrupción

“No puede haber un sistema de admisiones universitarias aparte para los ricos”, dijo Andrew Lelling, el fiscal estadounidense del distrito de Massachusetts, cuando anunció los cargos por una extensa confabulación en la que decenas de padres adinerados están acusados de sobornar para que sus hijos entraran a universidades estadounidenses de élite. “Y agregaré que tampoco habrá un sistema de justicia penal aparte”.

No me opongo a los cargos, pero, en cuanto a los comentarios de Lelling acerca de la supuesta vigilancia contra la desigualdad en nuestro país, solo me queda reír.

Siempre ha habido un sistema de admisiones universitarias distinto para los ricos, así como siempre ha habido un sistema de justicia penal distinto para ellos. (VéaseManafort, Paul).

La verdadera noticia en la conspiración de sobornos universitarios no es que los ultrarricos hayan descubierto un atajo para ingresar a las universidades de élite. Más bien, la verdadera historia en este caso tiene que ver con los pequeños encantos de los burgueses no tan ricos. En vez de las perfidias de la gente con cientos o miles de millones de dólares, los cargos ilustran la ansiedad que aflige a las personas que están justo por debajo de lo más alto en la jerarquía social.

Si observamos a los padres acusados sabremos que simplemente son minititanes de la tecnología, las finanzas, la abogacía y el entretenimiento, la mayoría perteneciente a una categoría que el multimillonario Peter Thiel alguna vez describió con adolorida simpatía como “los millonarios de un solo dígito”.

Mientras que los multimillonarios están aplastando a la sociedad a gran escala, los millonarios de un solo dígito se están esforzando para aplastarla solo un poco.Más allá de lo que dice el ardid de sobornos sobre la integridad del sistema educativo estadounidense, los cargos cuentan una historia acerca de la democratización de los sobornos o, lo que podríamos llamar de manera acertada, su uberización.

Una de las principales funciones de la economía de los últimos años ha sido permitir que la gente en los más bajos niveles del uno por ciento viva como los más ricos, en el nivel del 0,1 por ciento al proporcionar conductores, cocineros, asistentes personales, empleados de limpieza, mayordomos, aviones privados y servicios de entrega de comida con tan solo oprimir un botón a cualquiera que tenga la suerte de tener más dinero que tiempo.

Ese tipo de conveniencia de solo oprimir un botón ha llegado al negocio de los favores especiales. Los multimillonarios compran a los senadores y a los presidentes, así como alas de museos y cátedras subvencionadas.Los millonarios de un solo dígito, que buscan imitar a sus colegas más adinerados, participan en formas de corrupción de menor escala pero no menos corrosivas, quizá porque se han acostumbrado socialmente a superar todos los obstáculos a través de una aplicación.

Debido a que cuando eres rico estás rodeado de un mar de personas que no lo son, todos los problemas comparten la misma solución: ¿a quién le hago una transferencia para que me solucione esto?

Esta verdad se observa de manera vívida en la denuncia penal sobre los sobornos universitarios. En un fragmento, William Singer, el fundador de un negocio de preparación para la universidad que, según las autoridades, fue el creador de la confabulación, explica su plan a un posible cliente.

“Todos los años hay un grupo de familias, sobre todo donde estoy ahora en el área de la bahía, Palo Alto [que] quieren garantías, quieren que esto se haga”. Después describe tres maneras distintas de entrar a la universidad, mientras aprovecha las ganas de pertenencia de su presa.

Explica que existe la “puerta principal” para los que son tan bobos como para tratar de “entrar sin ayuda”. Después, está la muy conocida “puerta trasera” a la universidad, que es la corrupción con la que todos estamos familiarizados: dar toneladas de dinero a una universidad con la esperanza de que el nombre de tu hijo destaque en la oficina de admisiones. A veces esto funciona. Hace veinte años, el magnate de los bienes raíces Charles Kushner dio 2,5 millones de dólaresa Harvard; unos meses después, su hijo Jared obtuvo un lugar en la generación de primer año.

No obstante, Singer desestima la puerta trasera. Cuesta “diez veces más” —tiene razón— y, puesto que funciona gracias a las conexiones y a cierto tipo de clase social, “no hay garantías”. En cambio, Singer explica que ha ideado algo más barato y seguro. Algo más parecido a una aplicación. Al entablar conexiones con empleados menos importantes —no choferes que buscan ganar un poco más, sino entrenadores deportivos, asesores de pruebas y un administrador de la universidad— había abierto una “puerta lateral” para entrar.

“Mis familias quieren garantías”, dice. “Así que, si me dijeras: ‘Estas son nuestras calificaciones, estos son nuestros puntajes, esta es nuestra capacidad y queremos ir a tal escuela’, y mencionas una o dos escuelas, entonces yo iré con ellas y trataré de que me garanticen la entrada de tu hijo”.

¿Hay mejor metáfora para la injusticia de la economía moderna que la “puerta lateral” de Singer? Una defensa popular de la desigualdad en aumento es que no daña a nadie: claro, los ricos siguen volviéndose más ricos, pero, si todos los demás también lo están haciendo, aunque sea de manera más lenta, ¿por qué debería importar a las masas, si no es por envidia?

La corrupción rutinaria y generalizada es la razón por la que debería importarnos.

Como lo dijo Bob Dylan: “El dinero no habla, insulta”. El exceso de riqueza no solo te permite comprar cosas lujosas. También puedes adquirir poder e influencia, clase y permanencia. Te ayuda a comprar la certidumbre corrupta de que todos los problemas de la vida serían evadidos a través de una puerta lateral especial, y lo hace a costa no solo de los pobres, sino de todos nosotros, y acaba incluso con la feble ilusión de la meritocracia, que de alguna manera aún seduce a la política estadounidense.

Como Singer se lo explicaba a sus clientes: “Es el jonrón de los jonrones”.