A manipulação dos nossos cérebros vem aí

Apple, Facebook, Microsoft, Google e DARPA investem muito em projetos de neurotecnologia.

O neurocientista espanhol Rafael Yuste.

Por que é preciso proibir que manipulem nosso cérebro antes que isso seja possível

O cientista Rafael Yuste, que comanda projeto de pesquisa do cérebro, pede que os governos criem novas leis contra os riscos da neurotecnologia

“Temos uma responsabilidade histórica. Estamos num momento em que podemos decidir que tipo de humanidade queremos.” São palavras de peso, tanto quanto o desafio ao qual se propõe Rafael Yuste. Esse neurocientista espanhol, catedrático da Universidade Columbia (EUA), escuta sussurrarem em sua consciência os fantasmas de outrosgrandes cientistasda história que abriram a caixa de Pandora. Ele, que impulsionou a iniciativa BRAIN, a maior aposta já feita na descoberta dossegredos do cérebro, não foge à sua responsabilidade: “Carrego isso como um dever”, afirma. Yuste sabe bem o que seu campo, a neurotecnologia, já é capaz dever e fazer em nossas mentes. E teme que isso escape de nossas mãos se não for regulado. Por isso reivindica aos governos de todo o mundo que criem e protejamdireitos inéditos: os neurodireitos. O Chile deverá ser o primeiro país a incluí-losem sua Constituição, e já há negociações para que esse espírito se reflita na estratégia do Governo espanhol para ainteligência artificial.

No ano passado, Yuste conseguiumanipular o comportamento de ratos. Fez isso intervindo nos pequenos cérebros desses roedores, adestrados para sorver suco quando viam listras verticais numa tela. Yuste e sua equipe haviam observado os neurônios específicos que eram acionados nesse momento e os estimularam diretamente quando não havia barras aparecendo na tela. Os ratos sorviam o suco como se tivessem visto aquele gatilho. “Aqui em Columbia meu colega desenvolveu uma prótese visual sem fio para cegos com um milhão de eletrodos, que permite conectar uma pessoa à rede. Mas também se pode usar para criar soldados com supercapacidades”, adverte Yuste. Esse aparelho, financiado pelo DARPA (a agência de pesquisa científica doExército dos EUA), poderia estimular até 100.000 neurônios, propiciando habilidades sobre-humanas.

Quando Yuste começou a trabalhar na iniciativa dos neurodireitos, há dois anos, era quase uma colocação abstrata, de ficção científica. “Mas a urgência da situação aumentou, há problemas bastante sérios que estão vindo com tudo; as empresas tecnológicas estão se metendo nisto de cabeça porque pensam, acertadamente, que onovo iPhonevai ser umainterface cérebro-computadornão invasiva”, diz Yuste. O homem que impulsionou um projeto de seis bilhões de dólares nos EUA para investigar o cérebro enumera com preocupação os movimentos dos últimos meses. OFacebookinvestiu um bilhão de dólares (4,36 bilhões de reais) em uma empresa que trabalha na comunicação entre cérebros e computadores. E aMicrosoftdesembolsou outro bilhão na iniciativa de inteligência artificial deElon Musk, que investe 100 milhões na Neuralink, uma companhia que implantará fios finíssimos no cérebro de seus usuários para aumentar suas competências. E Yuste tem informações de que oGoogleestá sigilosamentefazendo esforços semelhantes. Chegou aera do neurocapitalismo.

“A privacidade máxima de uma pessoa é o que ela pensa, mas agora já começa a ser possível decifrar isso”, alerta Yuste

“Estas grandes empresas tecnológicas estão ficando nervosas para não ficarem atrás com o novo iPhone cerebral. Para evitar abusos, temos que recorrer diretamente à sociedade e a quem faz as leis”, afirma. A tecnologia impulsionada por Musk pretende ajudarpacientes com paralisia ou extremidades amputadasa controlarem sua expressão e movimentos e a verem e ouvirem sozinhos,apenascom o cérebro. Mas não oculta que o objetivo final é o de nos conectar diretamente com as máquinas para melhorarmos graças à inteligência artificial. A iniciativa do Facebook é similar: uma empresa com um histórico questionável de respeito à privacidade, como a de Zuckerberg, acessando os pensamentos de seus usuários.

Essas pretensões parecem de ficção científica, mas uma simples olhada em algunsfeitos da neurociêncianos últimos tempos revela que elas estão ao alcance da mão. Em 2014, cientistas espanhóis conseguiram transmitir “oi” diretamente do cérebro de um indivíduo ao de outro, situado a 7.700 quilômetros de distância, por meio de impulsos elétricos. Em vários laboratórios foi possível recriar uma imagem mais ou menos nítida do que uma pessoa está vendo apenas analisando as ondas cerebrais que ela produz. Graças à eletroencefalografia, cientistas puderamler diretamente do cérebropalavras como “colher” e “telefone” quando alguém pensava nelas. Também serviu para identificar estados de ânimo. Na Universidade de Berkeley, foram capazes de identificar a cena que os voluntários estavam vendo graças à nuvem de palavras que seu cérebro gerava ao vê-las: cachorro, céu, mulher, falar… Uma tecnologia que poderia servir para descobrir sentimentos, dependendo das palavras que surjam ao ver uma imagem: por exemplo, seria possível ler “ódio” ao ver a imagem de um ditador.

Alguns desses marcos já completaram uma década, e desde então bilhões de dólares foram investidos em monumentais projetos privados e governamentais, do Facebook à DARPA, passando pela Academia de Ciências da China. “Pense que o projeto chinês é três vezes maior que o norte-americano, e vai diretamente ao assunto, ao fundir as duas vertentes: inteligência artificial e neurotecnologia”, adverte Yuste, que se diz otimista quanto aos benefícios da neurotecnologia, daí seu desejo de regulá-la.

“Em curto prazo, o perigo mais iminente é a perda de privacidade mental”, adverte Yuste, que lançou sua iniciativa pelos neurodireitos após debater o assunto em Columbia com uma equipe de 25 especialistas emneurociência, direito e ética, denominado Grupo Morningside. Várias empresas já desenvolveram aparelhos, geralmente em forma de tiara, para registrar a atividade cerebral de usuários que queiram controlar mentalmente drones e carros, ou medir o nível de concentração eestresse dos trabalhadores, como acontece com motoristas de ônibus na China. Lá também existem aplicações nas escolas: a tiara lê as ondas cerebrais dos alunos e uma luzinha mostra ao professor seunível de concentração. O problema é que a companhia que os vende, a BrainCo, pretende conseguir assim a maior base de dados desse tipo de atividade cerebral. Quanto mais dados ela tiver, melhores e mais valiosas serão suas leituras, claro. Como a indústria tecnológica está há uma décadaextraindo todos os dadosque possam obter do uso de aplicações e dispositivos, a possibilidade de espremer cada neurônio é um filão irresistível.

Potencial de desastre

A regulação proposta pelo grupo de Yuste tem dois enfoques. Um de autorregulação, com um juramento tecnocrático que submeta deontologicamente engenheiros, programadores e outros especialistas dedicados à neurotecnologia. Neste sentido, há uma negociação com as autoridades espanholas para levar o espírito desse juramento à Estratégia Nacional de Inteligência Artificial, atualmente em preparação pelo Governo. Por outro lado, Yuste aspira a que os neurodireitos sejam incorporados àDeclaração de Direitos Humanos, e que os governos estabeleçam um marco jurídico que evite os abusos. O pioneiro será o Chile, com cujo Governo o grupo tem quase fechada uma legislação específica e suainclusão na nova Constituição.

“O que me preocupa com mais urgência é a decodificação dos dados neurológicos: a privacidade máxima de uma pessoa é o que ela pensa, mas agora já começa a ser possível decifrar isso”, avisa Yuste. “Estamos fazendo isso diariamente nos laboratórios com ratos, e quando as empresas privadas tivessem acesso a esta informação você vai rir dosproblemas de privacidade que tivemos com celularesaté agora. Por isso precisamos de neurodireitos, porque é um problema de direitos humanos”, resume. O neurocientista quer alertar à população que “não há nada de regulação, e isso afeta os direitos humanos básicos”.

“Existe um potencial para o desastre se deixarmos que continue escapando das nossas mãos, porque há uma total falta de regulação”, avisa Martínez-Conde

A neurobióloga Mara Dierssen, que não está envolvida na iniciativa de Yuste, destaca os problemas bioéticos decorrentes das possibilidades de melhora do ser humano pela neurotecnologia. Embora afirme haver muito sensacionalismo e arrogância em torno de empresas como a de Musk, Dierssen ressalta que “em longo prazo se pretende que os implantes possam entrar no campo da cirurgia eletiva para quem quiser ‘potencializar seu cérebro com o poder de um computador’”. “Que consequências pode ter a neuromelhoria em um mundoglobalizado, biotecnificado e socioeconomicamente desigual? Inevitavelmente surge a grande pergunta de em que medida essas técnicas seriam acessíveis a todos”, questiona Dierssen, pesquisadora do Centro de Regulação Genômica e ex-presidenta da Sociedade Espanhola de Neurociência.

Para a neurocientista Susana Martínez-Conde, trata-se de uma iniciativa “não só positiva como também necessária”. “Estamos dando conta como sociedade de que os avanços tecnológicos vão muito além do que estamos preparados filosófica e legalmente. Enfrentamos situações semexperiência prévia na história”, afirma Martínez-Conde, diretora do laboratório de Neurociência Integrada da Universidade do Estado de Nova York. “É necessário que prestemos atenção, porque a neurotecnologia tem repercussões diretas sobre o que significa ser humano. Existe um potencial para o desastre se deixarmos que continue escapando das nossas mãos, porque há uma total falta de regulação. É hora de agir antes de um desastre em escala global”, avisa.

Este desastre tem ressonâncias históricas. Enquanto conversa de seu escritório de Columbia, Yuste observa o edifício onde foi lançado o projeto Manhattan, que desembocou no lançamento dasbombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki. “Esses mesmos cientistas foram depois os primeiros na linha de batalha para que se regulasse a energia nuclear. A mesma gente que fez a bomba atômica. Nós estamos ao lado, impulsionando uma revolução neurocientífica, mas também somos os primeiros que temos que alertar a sociedade.”

Os novos neurodireitos

O grupo impulsionado por Rafael Yuste desenvolve suas preocupações em torno de cinco neurodireitos:

1 – Direito à identidade pessoal.Esses especialistas temem que ao conectar os cérebros aos computadores a identidade das pessoas se dilua. Quando os algoritmos ajudarem a tomar decisões, oeudos indivíduos pode se esfumar.

2 – Direito ao livre-arbítrio.Este neurodireito está muito ligado ao da identidade pessoal. Quando contarmos com ferramentas externas que interfiram em nossas decisões, a capacidade humana de decidir seu futuro poderá ser posta em xeque.

3 – Direito à privacidade mental.As ferramentas de neurotecnologia que interagem com os cérebros terão capacidade para reunir todo tipo de informação sobre os indivíduos no âmbito mais privado que possamos imaginar: seus pensamentos. Os especialistas consideram essencial preservar a inviolabilidade dosneurodadosgerados pelos cérebros humanos.

4 – Direito ao acesso equitativo às tecnologias de ampliação.Yuste acredita que as neurotecnologias trarão inumeráveis benefícios para os humanos, mas teme que se multipliquem as desigualdades e privilégios de alguns poucos que terão acesso a estas novas capacidades humanas.

5 – Direito à proteção contra vieses e discriminação.Nos últimos anos, vieram à tona vários casos em que os programas e algoritmos multiplicam os preconceitos e vieses. Este direito pretende que essas falhas sejam buscadas antes de sua implantação.

Por: Javier Salas
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Pesquisas mostram que algumas pessoas funcionam basicamente em função de seus preconceitos e isto os impediria de mudar de opinião mesmo diante de argumentos válidos.

Tali Sharot

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UN ESTUDIO MUESTRA QUE UN ÁREA DEL CEREBRO PODRÍA ESTAR IMPIDIENDO A UNA PERSONA EL CAMBIAR DE OPINIÓN POR MÁS ARGUMENTOS VÁLIDOS QUE ÉSTA RECIBA PARA HACERLO

Una frase atribuida a Albert Einstein reza que «dividir un átomo es más fácil que romper un prejuicio», y esto podría ser cierto por la propia forma que tiene de funcionar el cerebro humano. ¿Cuántas veces hemos entrado en discusiones eternas sin que ninguno de los lados esté dispuesto a ceder en su posición? No importa qué tanta confianza se tengan dos personas en discusión, si sus opiniones están polarizadas no existe argumento que pueda ponerlas en común. Pueden ser los dos mejores amigos de toda la vida, pero si uno piensa que la tierra es plana y el otro que es redonda, o si uno defiende la teoría de la evolución y el otro es un ferviente defensor de la creación divina, nunca habrá argumentos que puedan acercar ambas opiniones. No existe lógica que pueda intercambiar visiones antagónicas del mundo. Si funcionamos cotidianamente según ciertos paradigmas básicos, cualquier detalle que venga a contradecirnos tal paradigma es eliminado cuasi por reflejo por nuestro cerebro. En la práctica más instintiva, nuestra mente necesita de certidumbres para funcionar, por lo que la incertidumbre se le presenta como su peor enemiga.

«¿Por qué hemos desarrollado un cerebro que descarta información perfectamente válida cuando esa información no se ajusta a su visión del mundo? Esto puede parecer un mal diseño que puede conducir a muchos errores de juicio. Entonces, ¿por qué no se ha corregido este fallo en el transcurso de la evolución humana?», se pregunta la neurocientífica Tali Sharot en The influential mind (La mente influyente, editorial Little Brown). Estas son las preguntas que intenta responder Sharot, de la University College de Londres, a través de una investigación que busca demostrar que el cerebro posee todo un mecanismo de filtración de aquella información que pueda contradecir las bases de su pensamiento. Los experimentos consistían en estudiar el comportamiento de varios participantes en un juego de apuestas acerca del costo de ciertos inmuebles. Particularmente interesaba analizar cómo variaban las apuestas de los participantes al conocer lo que había apostado su acompañante, pudiendo al saberlo solo aumentar o disminuir la apuesta pero no modificar el sentido original de la misma. Los científicos descubrieron que los jugadores solían aumentar su apuesta de forma proporcional al nivel de coincidencia de su compañero. Sin embargo, si los acompañantes habían apostado algo contrario a su apuesta original, los participantes no disminuían sus apuestas, o, si lo hacían, apenas la disminuían. Incluso daba lo mismo si el acompañante se mostraba muy seguro de su posición contraria: no importaba la magnitud de la apuesta antagonista, los participantes se mostraban aún muy reacios a modificar sus convicciones. «Descubrimos que cuando las personas no están de acuerdo, sus cerebros no logran registrar la fuerza de la opinión de la otra persona, lo que les da menos razones para cambiar de opinión», informó a El País de Madrid Andreas Kappes, investigador de la Universidad de la City de Londres y coautor de este estudio, que publica Nature Neuroscience. «Nuestros hallazgos sugieren que ni siquiera los argumentos más elaborados del otro lado convencerán a las personas más polarizadas porque el desacuerdo será suficiente para rechazarlo», aseguró Kappes. Y añadió: «El hecho de no observar la calidad del argumento opuesto hace que los cambios en la mente sean menos probables».

Por su parte Tali Sharot, directora del Affective Brain Lab en la University College de Londres, considera que el ser humano tiene tendencia a «buscar e interpretar datos de una manera que fortalezca nuestras opiniones preestablecidas». El equipo de Sharot se concentró en sus estudios en una región en específico del cerebro: a través del uso de resonancia magnética se focalizaron en entender el rol de la corteza prefrontal medial posterior en nuestra evaluación de los hechos y evidencias que nos lleva a formar una opinión dada. Los resultados apuntaron a que esa región del cerebro se encontraba activa cuando una persona estudiaba el nivel de confianza de otra respecto a una posición determinada para así ajustar sus propias creencias a la confianza de su interlocutor. Sin embargo esto sólo sucedía cuando ambas personas se encontraban de acuerdo en un tema en particular, el cerebro dando pocas posibilidades a un cambio de opinión en caso de que el interlocutor se oponga a sus convicciones. «La tendencia conductual a descartar la información discrepante tiene implicaciones significativas para los individuos y la sociedad, ya que puede generar polarización y facilitar el mantenimiento de creencias falsas», afirmó Kappes. Esto lleva incluso a los internautas a contentarse con los primeros resultados de una búsqueda de información en Internet siempre y cuando esa información satisfaga sus opiniones.

«Este estudio es un buen primer paso para estudiar los mecanismos del sesgo de confirmación, porque encuentran una correlación con las diferencias en esta región del cerebro, pero esto sigue sin explicar esa discrepancia entre nuestra opinión y la evidencia que nos contradice», opinó la neurocientífica Susana Martínez-Conde, especialista en estos autoengaños de la mente. «Seguimos sin saber el mecanismo neural; el hecho de encontrar actividad asociada no da una explicación, cualquier comportamiento va a estar basado en el cerebro, lo extraño sería que no se observara diferencia», apuntó la directora del laboratorio de Neurociencia Integrada de la Universidad del Estado de Nueva York. Aun así la científica considera que el mecanismo existe y por ende es posible el dilucidar su funcionamiento, «quizá no con estas herramientas actuales, pero a nivel teórico el mecanismo neural tiene una respuesta física que debemos poder observar». «Los resultados no son tan alarmantes: las opiniones negativas influyen, aunque mucho menos, aunque no tienen el mismo peso, pero sí las consideramos mínimamente. Es un comienzo», aseguró Martínez-Conde. Al desarrollar su argumento, Martínez-Conde coincide con lo que asegura Tali Sharot en su libro: «Los números y las estadísticas son necesarios y maravillosos para descubrir la verdad, pero no son suficientes para cambiar las creencias, y son prácticamente inútiles para motivar la acción». La mejor forma de tratar con este sesgo de confirmación es siempre presentar los argumentos que apoyan nuestra posición dentro de un esquema que haga sentir a nuestro interlocutor que ambos estamos dentro de la misma esfera de coincidencia. Como si en el experimento hubieras votado lo mismo, porque es cuando sí se atienden los argumentos del otro. «A la hora de intentar alcanzar un consenso, busquemos un punto de partida en el que estemos de acuerdo, y a partir de ahí será más fácil moderar las opiniones de los demás», concluyó Martínez-Conde.

Tali Sharot – Wikipedia

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Como enfrentar o medo de mudar

Nosso cerebro foi programado para a sobrevivência e não para a felicidade. A vida é mudança e é o que nos assusta. As vezes dá vontade de pensar como a Mafalda: “para o mundo que eu quero descer”.

Cómo afrontar el miedo al cambio

Nuestro cerebro está pensado para la supervivencia, no para la felicidad
La vida es cambio, pero el cambio nos asusta. A veces dan ganas de sumarse a la reflexión de Mafalda:Que el mundo se pare que yo me bajo.El origen de este malestar hay que buscarlo en la biología. SegúnEudald Carbonell, codirector de las excavaciones de Atapuerca, nuestro cerebro es el resultado de dos millones y medio de años de evolución. Llevamos mucho tiempo viviendo en cavernas y muy poco en ciudades. Esto significa que tenemos “codificadas” respuestas automáticas para responder con éxito a las amenazas de aquel entonces. Si ahora vemos un león suelto paseando por una calle, nuestro cerebro no se pondrá a elucubrar de qué raza es; sencillamente, nos dirá que salgamos corriendo para ser más rápidos, no que el felino, sino que el que tenemos al lado (también está la otra alternativa de quedarnos congelados, para que no nos vea). Sin embargo,estos circuitos tan maravillosos que nos han permitido llegar hasta aquí como especie, no están preparados para afrontar amenazas más sutiles, como la digitalización, los cambios de regulación de un sector o la posibilidad de quedarnos sin empleo.Estos miedos son nuevos, evolutivamente hablando, y no siempre nos apañamos bien con la transformación. Recordemos una máxima importante: nuestro cerebro está pensado para la supervivencia, no para lafelicidad. Así pues, ante el cambio tenemos que ingeniárnosla para navegar por él, entenderlo como oportunidad y aprender de sus posibilidades. Y esto no es tan automático como salir corriendo ante una amenaza, requiere esfuerzo, entrenamiento y salirnos de los miedos que nos atenazan.

 

La gestión del cambio es más difícil que nunca, pero más fácil de lo que está por venir. Por una razón muy simple: la velocidad. Para hacernos una idea de la magnitud, hace 10 años teníamos quinientos millones de aparatos conectados a internet. El año que viene se prevé cincuenta mil millones y en una década, unbillón. Así pues, estamos solo al principio. Por no hablar de lo que nos depararán la inteligencia artificial, la criopreservación de nuestros cuerpos, los avances en la genética o los viajes por el espacio. Estamos solo al principio de un tsunami que va a transformar la forma de relacionarnos, de trabajar y de vivir. Por tanto, se avecinan más y más cambios… Pero la buena noticia es quenuestro cerebro, aunque provenga de la época de las cavernas, tiene una enorme plasticidad que le ha permitido llegar hasta aquíy construir toda la tecnología que está revolucionando el mundo. De manera que, tenemos margen de maniobra. Veamos cómo podemos comenzar cualquiera de nosotros con claves muy sencillas.

Primero,es urgenteentrenar diariamente nuestra mente. Igual que hay gimnasios para nuestro cuerpo, hemos de poner en forma el músculo del cerebro. Todos los días, todos, hacer algo diferente. Leer fuentes de información distintas, ir al trabajo por otro camino, probar un sabor exótico… lo que quieras. Pero rétate a diario con algo nuevo.El aprendizaje es el mejor antídoto ante el miedo.

Segundo,hay que relativizar lo que nos ocurre. Un buen método es, paradójicamente, leer historia. Necesitamos darnos cuenta de que, aunque vivimos en el tsunami del cambio, precisamente todos esos avances nos han permitido incrementar nuestra esperanza de vida, no sufrir por posibles epidemias o por guerras mundiales.En la medida que tomemos perspectiva, podemos entender la parte amable.

Tercero,aplicarse dietas paradesdigitalizarnos. Por mucha velocidad que nos rodea, necesitamos encontrar la conexión con nosotros mismos y con los que nos rodean. Si vivimos siempre expuestos a los impactos de internet, no tendremos tiempo para integrar el aprendizaje y para encontrar los oasis necesarios de una cierta tranquilidad. Por ejemplo,un fin de semana se puede dejar el móvil o ponerlo en modo avión.

Y cuarto,confiar. Al final,de todo se sale, mejor o peor, pero se sale. Lo que nos agobiaba hace años, como los exámenes, enfrentarnos a un conflicto difícil… ahora lo miramos de una manera más amable. Si hemos sido capaces de sortear situaciones difíciles, ¿por qué no vamos a poder hacerlo con lo que tenemos entre manos?

Por ello, en la medida en que confiemos, mantengamos la curiosidad y el aprendizaje, sepamos relativizar y creemos espacios de paz, podremos encontrar recursos para contemplar el cambio de una manera más positiva y constructiva.

Fonte:El País

O sono, a patologia, a pressão social, econômica e política

Conseguir que pessoas fiquem acordadas e funcionais por 85 horas seguidas ou que produzam e / ou consumam 24 horas por dia, 7 dias por semana.

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Pílulas já no mercado e pesquisas que parecem ficção científica: a quem interessa um mundo que não dorme?

                O sequestro do sono

Quando o fisioterapeuta Bruno* usou um medicamento que o deixou ‘ligado’ pela primeira vez, três anos atrás, sua intenção era dirigir por uma longa distância sem ficar cansado. Aprovou. “Consegui ficar focado no volante durante oito horas sem parar”, diz ele. A droga usada foi o modafinil, produzido e vendido no Brasil pela Libbs, com o nome Stavigile. De venda controlada, ele é aprovado para tratar a narcolepsia, um distúrbio que faz a pessoa ficar extremamente sonolenta durante o dia, mesmo que tenha dormido bem à noite — e o sono vem inclusive em momentos estranhos, como durante conversas, consultas ou almoços. Nunca fui o caso de Bruno.

Bem longe dele, forças armadas em países desenvolvidos querem manter despertos seus combatentes, e isso não é nenhum segredo de Estado. Anfetaminas e outras drogas são velhas conhecidas de soldados (veja aqui e aqui); ainda em 2004, o jornal inglês The Guardian revelou que militares americanos faziam pesquisas com o modafinil e já tinham conseguido que pessoas ficassem acordadas e funcionais por 85 horas seguidas.

Há várias outras pesquisas bélicas com esse mesmo objetivo. No livro 24/7: Capitalismo Tardio e os Fins do Sono, Jonathan Crary fala de testes que incluem substâncias diversas, terapia genética e até estimulação magnética transcraniana. O que o autor afirma, porém, é que a distância que separa o uso dessas drogas por civis e militares é apenas aparente. “A história mostra que inovações relacionadas à guerra são inevitavelmente assimiladas na esfera social mais ampla, e o soldado sem sono seria o precursor do trabalhador ou do consumidor sem sono”, escreve.

Para ele, o sono é uma espécie de resistência contra o capitalismo: a última barreira natural que o sistema não consegue transpor. Se conseguisse, a produção e o consumo 24 horas por dia, 7 dias por semana — daí o título do livro — estaria concretizada.

oso2Crédito: Christopher Morales, Forças Aéreas dos EUA

Boom

Voltemos a Bruno. Depois da primeira experiência, ele continuou testando remédios parecidos, mas com outra finalidade: conseguir estudar muitas horas seguidas para prestar concursos públicos. É que, fora da perda do sono, outro efeito das drogas procuradas por ele é o de aumentar o foco. Além do Stavigile, já fizeram parte da sua vida a Ritalina e o Venvanse, ambos controlados e indicados para tratar o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), principalmente em crianças. O fisioterapeuta faz parte de um crescente grupo de estudantes e trabalhadores ao redor do mundo que, mesmo sem nenhum diagnóstico, se automedica para produzir mais.

Algumas pesquisas feitas no Brasil mostram dados sobre a procura e o consumo desses medicamentos, especialmente o metilfenidato, substância que compõe a Ritalina e o Concerta. Neste estudo, publicado em 2014, foram entrevistados estudantes de medicina de uma universidade no Rio Grande do Sul e 23% deles já tinham usado essas drogas sem prescrição; este outro também ouviu alunos de medicina, mas no Tocantins, e o resultado foi semelhante: 24,5%; mais um, feito no Paraná com alunos de um cursinho para concursos, encontrou um percentual de 28,5%.

A psicóloga Cristiana Siqueira estuda o tema e, durante o mestrado, fez uma série de entrevistas que incluíram psiquiatras e usuários. “É interessante porque duas pessoas que eu entrevistei se referiram ao uso crescente de Ritalina no Brasil como sendo uma espécie de ‘americanização’ da nossa vida”, lembra. De fato, o fenômeno tem sido discutido há bastante tempo nos Estados Unidos, onde o grande procurado é o Adderall, também usado para TDAH (mas proibido no Brasil). O remédio entrou no país em 1996 e, de acordo com esta matéria do New York Times, vem substituindo a Ritalina em muitos casos. Em 2004, diz o texto, medicamentos estimulantes já eram a segunda droga mais comum nos colégios norte-americanos.

oso3Imagem: Flickr

Anfetaminas são usadas há quase cem anos (e tanto a Ritalina quanto o Adderall são relacionados a elas), e também não é novidade ouvir falar em trabalhadores das mais diversas categorias que consomem drogas como a cocaína para se manterem acordados. Mas é difícil estabelecer quando e por que este boom no consumo de remédios começou.

Cristiana acha que, em parte, isso pode estar associado à própria disseminação de informações sobre TDAH. Os médicos entrevistados por ela para sua dissertação de mestrado dizem que algumas pessoas chegam ao consultório pedindo diretamente os remédios, mas várias outras vêm com um “discurso pronto” sobre seus sintomas. “Às vezes as pessoas querem deliberadamente forçar o diagnóstico, então estudam os sintomas e, na consulta, fazem relatos deles. Mas nem todo mundo chega com a ideia de ‘enganar’ o médico. Como me disse um dos psiquiatras entrevistados, há pessoas que leem sobre os sintomas e colhem na sua história de vida lembranças dispersas — de que não iam bem no colégio, por exemplo — e de certa forma se convencem de que sempre tiveram TDAH”, comenta ela.

Um problema é que não existe nenhum exame de sangue ou de imagem para o diagnóstico de TDAH, que é feito a partir de conversas com as crianças e adolescentes, além de familiares e professores, em busca um conjunto de sintomas. “Mas não bastam os sintomas”, explica o professor Marcelo Victor, do Programa de Transtornos de Déficit de Atenção/Hiperatividade da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (ProDAH/UFRGS). “É preciso que exista também um comprometimento do funcionamento psicossocial da criança. Isso quer dizer que muita gente pode ter os sintomas, mas não o transtorno”, diz ele, explicando melhor: “É preciso avaliar a continuidade deles ao longo de vários meses, até porque alguns podem ser devidos a outras condições, como uso de drogas”.

O fato é que, com ou sem TDAH, não é difícil conseguir os remédios. Em vários grupos na internet, é possível comprá-los ilegal, mas abertamente. Bruno, que abriu esta reportagem, disse ter um parente da indústria farmacêutica que conhece vários médicos e consegue receitas. “Acabo comprando dele”, conta. Também há muitas pessoas dão dicas de psiquiatras que ‘facilitam as coisas’ e prescrevem medicamentos mesmo não diagnosticando doença alguma. Das três usuárias entrevistadas por Cristiana, nenhuma tem diagnóstico de doenças ou transtornos mentais, mas todas compram legalmente, com receitas de seus médicos.

Pílulas da inteligência… São mesmo?

Cristiana ressalta que, embora por aqui a propaganda desses remédios não seja permitida, a gente acaba sabendo deles de outras formas, como em reportagens e até mesmo seriados. E ela conta também que, há cerca de dez anos, começaram a pipocar várias matérias que descreviam, muitas vezes com manchetes entusiastas, usos não autorizados desses medicamentos estimulantes. “Há capas de revistas e manchetes com expressões como: ‘`pílulas da inteligência’, ou remédios que ‘turbinam o cérebro’, com imagens de pílulas com um cérebro dentro”, diz.

De acordo com ela, essa onda de matérias veio a partir da publicação de artigos na revista científica Nature, em 2008 e 2009, em que os autores defendiam a regulamentação do uso de remédios para fins de ‘aprimoramento cognitivo’ — isso porque alguns pesquisadores acreditam que as drogas podem melhorar a compreensão e o aprendizado, embora não haja nenhum consenso na comunidade científica.

oso4Cada vez mais gente se automedica para dormir pouco e render muito

O próprio Bruno diz não ter observado nada nesse sentido: “Elas só restringem a atenção”, diz. Sarah Noronha, que tem 25 anos e foi diagnosticada com TDAH aos 17, concorda. “Não acho que tenha efeitos além de tirar o sono e deixar a pessoa desperta. Diferente do que ‘concurseiros’ pensam, a medicação não ajuda a pessoa a aprender mais. Ela só vai aguentar mais tempo estudando”, diz.

Segundo Marcelo Victor, algumas análises com pesquisas já realizadas mostram que esses remédios podem melhorar “um pouco, não muito” o desempenho de pessoas saudáveis. “Depende da pesquisa”, diz ele.

Onde termina o tratamento e começa o aprimoramento?

Mas mesmo o uso de estimulantes no caso de TDAH — e o próprio diagnóstico da doença — vêm sendo discutidos exaustivamente, tanto pela comunidade científica quando por pessoas leigas. A Ritalina chega a ser descrita como “droga a obediência”, responsável por manter focadas e controladas crianças cujo comportamento, na verdade, seria normal, apenas inconveniente para os pais e professores.

E Cristiana traz informações no mínimo intrigantes. Os psiquiatras entrevistados por ela relatam que normalmente o que leva crianças ao consultório é um rendimento escolar considerado baixo, algo que com frequência é apontado pelas próprias escolas. E mais: eles afirmam que sugerem a suspensão ou a diminuição da dose nos fins de semana e nas férias escolares, como medida para minimizar os efeitos colaterais.

Mesmo Marcelo Victor reconhece que os prejuízos sentidos pelos pacientes dependem muito do ambiente externo. De acordo com ele, para algumas pessoas é preciso manter o medicamento o tempo inteiro, mas para outras, não. “Em alguns casos, a vida social e familiar da criança não é prejudicada pelo transtorno. De repente ela tem em casa uma mãe que é mais atenta, um manejo familiar que é diferente do da escola”, diz. E afirma ainda que “o transtorno aparece mais quando a pessoa é exigida”, quando precisa cumprir uma tarefa da qual não goste e que exija atenção. “Se ela gosta de videogame e você a coloca para jogar videogame, pode tirar o remédio dela. O jogo dá prazer, foca, estimula, ela pode ficar horas jogando videogame, e focada. Mas, quando vai para uma questão de matemática, fica cinco minutos e não consegue mais focar, se atrapalha. Porque é algo aborrecido para ela, pouco atraente”. Mas ele não diz que a doença de fato não exista. “As crianças sem o transtorno conseguem dizer: ‘agora preciso me concentrar nisso para aprender’, e as com TDAH, não”, compara. Para ele, trata-se principalmente de melhorar a qualidade de vida das pessoas.

A questão é delicada. “Não estou negando que haja crianças que possam efetivamente ter algum transtorno, mas acho que o que está muito em jogo é o modo como essas crianças têm sido demandadas. Temos um sistema educacional que preza pela competitividade, pelo ranqueamento”, diz Cristiana.

oso5Em geral, crianças são diagnosticadas com TDAH após queixas de baixo rendimento escolar

Paralelos

É impossível não perceber uma relação entre o tratamento das crianças — devido principalmente ao seu baixo rendimento escolar — e o motivo que leva muitos adultos a buscarem medicação, ainda que sem diagnóstico. “Até os médicos com quem conversei têm dificuldade de estabelecer essa fronteira entre o que é patologia e o que é pressão social”, diz Cristiana.

Ela conta que quando perguntou a eles quais aspectos estavam possivelmente envolvidos no consumo off-label (ou seja, para usos não autorizados) da Ritalina, os psiquiatras mencionaram basicamente dois: “O primeiro é que há uma grande exigência social por performance, e as pessoas começam a se sentir fora da disputa, achando que o outro está consumindo algo a mais e elas estão ficando para trás. É uma espécie de coerção indireta: a pessoa se sente coagida a tomar o medicamento por saber que há outras tomando e rendendo mais. O segundo, no caso das crianças, é que não há uma rede comunitária e familiar para apoiá-las. Os pais estão desprotegidos, a escola diz que não tem mais o que fazer com a criança. É um desamparo”.

Na pesquisa de Cristiana, a pressão para dar conta de um excesso de atividades foi relatada pelas três usuárias entrevistadas. “Uma delas usava pontualmente, quando precisava escrever algum relatório grande, quando tinha prazos apertados no trabalho. Outra estava no doutorado e tomou Ritalina para escrever a tese — mas contou que não funcionou, ela não conseguiu. E a terceira não conseguia dar conta de todas as atividades do seu dia: ser mãe, cuidar da casa, trabalhar e estudar”. Uma das médicas também falou com ela sobre isso: “Me disse que muitas vezes vem uma demanda grande por todos os lados, não só de trabalho ou de estudo. A pessoa precisa dar conta de tudo, um tudo que parece ser grande demais, e acaba se direcionando para o medicamento”.

Livre escolha

Quando pergunto a Bruno até que ponto o uso desses remédios para estudar pode ser considerado de fato uma escolha, ele pausa por uns segundos e ri: “Essa pergunta é bem ideológica”, diz .

Sem dúvidas. O professor de filosofia André Brayner de Farias, da Universidade de Caxias do Sul, observa que a necessidade que muitas pessoas têm de abrir mão do sono, a pressão para render mais no trabalho e a sobrecarga do dia a dia estão diretamente relacionadas entre si — e com o capitalismo contemporâneo. Como Crary, ele acredita que o sono é um problema para o capitalismo, e não apenas porque paramos de produzir. “Quando dormimos, quando estamos ‘apagados’, de certa forma fugimos do controle que se abate sobre nós o tempo todo. Interrompemos o circuito de produção. Eu diria que o sono chega a ser hoje uma grande ferramenta política”, diz.

E explica melhor comentando aspectos da obra da filósofa alemã Hannah Arendt, que também é citada por Crary. “Ela traz um conceito de ‘natalidade’ e defende que essa é a base da nossa ação política. A natalidade se relaciona à nossa capacidade de nascer, de gerar crianças, de sair das trevas para a luz. Significa a dimensão do imponderável, do imprevisível. O que nasce é sempre algo que não estamos esperando. E essa autora diz que, quando agimos politicamente, é como se atualizássemos, nas nossas ações, o nosso nascimento. Porque a ação política tem justamente a ver com a nossa capacidade de realizar o imponderável, de dar espaço e tempo para o que é imprevisível. Isso é, por excelência, a forma de resistir”, diz o professor.

oso6Imagem: O pesadelo, de John Henry Fuseli

O sono seria, então, certa simulação dessa ideia, como se, ao dormir e acordar, simulássemos a morte e o renascimento: “É o sono, é a pausa, que nos devolve as forças. Quem acorda, nasce de novo. Ao renascer, surpreende o mundo. E isso é, de algum modo, uma ameaça.”

É claro que, mais e mais, o sono acaba se tornando, ele mesmo, produto de um consumo, se pensarmos na indução por medicamentos, por exemplo. “Este sono, de certa maneira, foi também capturado. É quando já estou tão transformado em máquina de produção que perdi a capacidade de apagar, e preciso ir à farmácia, comprar um remédio que, em muitos casos, vai me viciar”, analisa André, lembrando ainda que, além de já ser uma mercadoria, o remédio também pode atrapalhar os sonhos, “onde ‘visitamos’ territórios desconhecidos e paramos o mundo”.

Atualmente, a pesquisa de Cristiana está voltada justamente ao uso de remédios antidepressivos e indutores do sono: “É uma modulação do corpo produtivo”, diz a psicóloga, comentando o que disse um dos médicos que ela entrevistou, ainda para a dissertação: “Esse psiquiatra receitava Ritalina para uma paciente que, ele julgava, tinha TDAH. Depois de um ano, descobriu que ela se consultava em paralelo com outro médico e, com ele, obtinha receitas de Rivotril para dormir, porque a Ritalina lhe deixava insone. E assim ia gerenciando o sono”, lembra.

Para André, o sono induzido é “um passo na direção da vitória do capitalismo” nessa batalha pelo sono. “Mas ele só vence no dia em que a gente não não precisar mais dormir”, completa ele, ressaltando que, evidentemente, é preciso estar não apenas desperto, mas também produtivo. Cristiana, que está de acordo, comenta que, por enquanto, mesmo a garantia do sono talvez só esteja ancorada na ideia da produtividade, afinal, um corpo cansado não produz: “Existe a ideia de que é preciso dormir um determinado número de horas por dia… Para que possamos render bem”, pontua.

24/7

A necessidade de produção ininterrupta não é recente. No livro, Crary fala muito disso e exemplifica com empreitadas que parecem ter saído de um episódio de Black Mirror, mas que na verdade aconteceram no mundo real. Como um projeto europeu do fim dos anos 1990 que tinha como objetivo garantir que a luz do sol chegasse dia e noite a regiões metropolitanas inteiras, a partir de satélites que refletiriam essa luz para a Terra, para permitir o trabalho ao ar livre de noite. “Isso vem de muito tempo. Mas acho que estamos passando por um processo em que o sono vem sendo, pouco a pouco, minado”, acredita André.

Ele conta que vários dos seus alunos fazem uso regular de Ritalina e “estão convencidos de que é uma coisa boa”. Mas, quando fala de sucumbir à pressão por dormir pouco e render muito, André não está falando apenas dos ‘outros’: “Boa parte de nós acha que dormir é perda de tempo. Muitas vezes quem não usa os remédios também está completamente amarrado ao circuito de produção e tem o sono minado, ainda que seja crítico a isso”, diz, afirmando que este é o seu próprio caso (e é também o caso desta repórter). “É o projeto 24/7 se realizando, ou cada vez mais perto de se realizar”, reflete.

De acordo com o professor, o grande trunfo do capitalismo é que já não são só os donos dos meios de produção que nos cobram, mas também nós mesmos. “Isso acabou entrando na nossa vida, é algo que a gente faz hoje sem ninguém precisar mandar”, alerta.

oso7Um remédio para conseguir ficar desperto, outro para conseguir dormir: medicamentos modulando o corpo produtivo. Crédito: Alyssa L. Miller (Flickr)

E aí a questão da escolha individual volta a aparecer. Cristiana lembra que, naqueles artigos da Nature que defendiam a regulamentação de medicamentos para fins de aprimoramento cognitivo, os autores diziam justamente que o sujeito deveria ser livre para escolher tomar ou não essas drogas. “Mas essa escolha é feita a partir de um determinado contexto em que estamos inseridos, não é tão simples. A demanda está aí. A exigência por performance está aí. Estamos nesse mundo, essa é a sociedade à qual acabamos precisando nos adaptar. Nossas escolhas são balizadas por ela”, reflete a psicóloga, afirmando que, por isso mesmo, analisa a situação com o cuidado de não julgar usuários. “O fato é que os medicamentos existem, estão sendo procurados, precisamos entender e pôr em questão os motivos”.

André concorda: “Pensamos: minha atitude vai depender da minha escolha, eu é que tenho que escolher. Mas acontece que minha escolha não é um lugar puro e intocável dentro de mim. Escolho a partir de um histórico de informações, de uma educação, de uma cultura, de um condicionamento que cada um de nós recebe para ser capaz de escolher”, diz. Mas pontua: “É claro que posso examinar minha vida a cada instante, identificar o que interfere na minha escolha, fazer perguntas. Essa capacidade de se questionar e fazer perguntas significa que a gente ainda tem liberdade. E é isso que é, finalmente, fazer política em um sentido mais autêntico”.

Outros artifícios

Crary diz que no começo do século passado os adultos norte-americanos dormiam em média dez horas por noite; até pouco tempo atrás essa média era de oito horas (daí a afirmação de que passamos um terço da vida dormindo…) e, agora, é de apenas seis horas e meia. Mas remédios não são a única forma de minar o nosso sono, como lembra André: as novas tecnologias têm um papel importante nisso. “Talvez elas sejam até mais importantes nesse processo do que a própria medicalização. Ou, pelo menos, são forças de mesmo valor”, sugere.

De acordo com ele, estamos convencidos da necessidade de consumir informação o tempo inteiro, e isso tem constituído cada vez mais a nossa vida. “Vamos cada vez mais achar natural acordar de madrugada e checar o celular para ver se não tem nenhuma mensagem, nenhuma notícia importante. Ou levantar de manhã e conferir imediatamente o que está acontecendo”, exemplifica, completando: “É como se de fato não tivéssemos intervalo, não tivéssemos pausa. Exatamente o mesmo problema do sono”.

A conexão ininterrupta não significa só um consumo que não para mas, também, para muitos trabalhadores, uma jornada eterna. “Você sai do trabalho, mas ele continua te demandando. Não tem como você argumentar que não viu um email, porque todo mundo recebe alerta no celular, tem as redes sociais. Lembra que antigamente, de madrugada, a televisão parava, saía do ar? Hoje existe um mundo que funciona 24 horas por dia, e acho que tem muita gente que, se pudesse, não dormiria nunca”, diz Cristiane.

oso8Novas tecnologias possibilitam jornada quase eterna

Por mais que pareça paradoxal, ao mesmo tempo em que aumentam as distrações, aumenta a pressão por foco e rendimento. E os remédios não são a única estratégia para voltar aos eixos. Há muitos anos, fiz um curso de meditação que, descobri mais tarde, era replicado em empresas, para os funcionários. A monitora garantia: depois que começou a meditar, nunca mais se atrasou para uma reunião, nunca mais perdeu um prazo e era capaz de trabalhar muito mais, se cansando muito menos. “Existe uma lógica de que o sucesso se relaciona à atenção focalizada, e a partir daí surge toda uma produção de conhecimento de como gerir a atenção. Tem cursos de gestão do tempo e livros de autoajuda que ensinam a aproveitar o tempo para se tornar mais produtivo”, observa Cristiana. Como se o problema não fosse estarmos sobrecarregados, mas, sim, sermos maus gestores de nós mesmos: “As pessoas acabam buscando todas as ferramentas possíveis para se adequar a lógica vigente, e acabamos não colocando esta lógica em questão, não questionando por que precisamos trabalhar tantas horas e por que precisamos estar disponíveis (e bem) durante todas essas horas”.

Há na literatura alguns exercícios de imaginação sobre como seria viver sem dormir. André cita um conto do escritor japonês Haruki Murakami — Sono — em que a personagem principal perde, de repente, a capacidade de adormecer. “E ganha uma vitalidade tremenda, sua consciência se expande enormemente”, diz ele, contando que a mulher passa a fazer mil coisas durante o tempo que, antes, era ‘perdido’. “Mas lá pelas tantas ela se dá conta de que morreu, de que experimentou a própria morte. Esse livro traz uma teoria interessante da morte, é como se o mundo sem sono fosse o mundo onde na verdade estamos sem vida. Quando penso em um mundo sem sono, imagino assim: seres humanos totalmente automatizados, robotizados”, devaneia o professor. A batalha está posta.

* O nome foi alterado

Fonte: Outra Saúde
Por: Raquel Torres
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E os psicanalistas foram impedidos de entrar no evento…

Os psicanalistas inscritos para o colóquio se viram pura e simplesmente impedidos de entrar pelos porteiros. Negócio é negócio.

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Imagem por Alpino

A medicalização da experiência humana

Variação do humor ou momentos de tristeza e tensão são sempre sinais de doença? Por muito tempo a psiquiatria europeia soube avaliar a gravidade e definir uma prescrição apropriada, da droga ao tratamento psicanalítico. A indústria farmacêutica incita, contudo, à transformação de dificuldades normais em patologias, às quais ela oferece uma solução

Diante da realidade do “sofrimento psíquico” – uma das mais importantes patologias modernas –, entrou em ação, há algumas décadas, uma maquinaria diagnóstica nunca antes vista, cujo objetivo é explorar esse enorme mercado potencial. Para isso, foi necessário primeiro substituir a grande psiquiatria europeia, que, graças a observações clínicas múltiplas e coerentes, reunidas durante os dois últimos séculos, havia repertoriado os sintomas, classificando-os em grandes categorias: neuroses, psicoses e perversões. Munido desses conhecimentos, o especialista podia dar um diagnóstico e distinguir os casos graves dos causados por circunstâncias passageiras. Ele separava então o que exigia o uso de medicamentos daquilo que poderia ser solucionado melhor com a conversa.

A psiquiatria clássica e a psicanálise haviam chegado às mesmas conclusões. Essas duas abordagens tão distintas se auxiliavam e se enriqueciam mutuamente. O mercado de medicamentos ainda guardava proporções razoáveis, o que deve ter dado o que pensar à “Big Pharma” – apelido conveniente para o enorme poder dos laboratórios farmacêuticos, que fazem uma corte assídua tanto aos clínicos gerais quanto às mais altas instâncias do Estado e dos serviços de saúde, com os quais sabem se mostrar bem generosos (oferecendo, por exemplo, cruzeiros de “formação” aos jovens psiquiatras).

A jornada de conquista desse grande mercado começou nos Estados Unidos, com a Associação dos Psiquiatras Americanos (APA) e seu primeiro manual de diagnóstico e estatística dos problemas mentais, o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais, ou DSM), em 1952.1 Em 1994, a Organização Mundial da Saúde (OMS) adotou no capítulo “Psiquiatria” da Classificação Internacional das Doenças as nomenclaturas do DSM-IV, o que levou vários países a fazer o mesmo. Seguiu-se uma inflação de patologias repertoriadas. Havia sessenta em 1952, mas 410 em 1994, no DSM-IV.

Extinguir o vulcão

Negócio é negócio. O método DSM tem de ser simples: não se cogita buscar a causa dos sintomas nem saber a que estrutura psíquica eles correspondem. Basta encontrar o caso que se conforme ao comportamento visível do paciente. Essa prática esquece que um sintoma não é jamais uma causa. A conversa com o psiquiatra mal pode ser considerada necessária, pois serve apenas para repertoriar os “transtornos” superficiais: “transtornos” do comportamento, da alimentação, do sono… enfim, “transtornos” de todos os tipos, até a recente invenção dos “transtornos” pós-atentados. A cada um corresponde – maravilha! – um medicamento. Foi nessas águas perturbadas que naufragaram os antigos diagnósticos. O lobby da Big Pharma conquistou também as faculdades de Medicina, onde só se ensina o DSM. Mais: os próprios laboratórios transmitem os ensinamentos – numerosos conflitos de interesses foram denunciados. A grande cultura psiquiátrica acabou esquecida, de sorte que, diante de um paciente, o novo clínico made in DSM não sabe mais se está lidando com uma psicose, uma neurose ou uma perversão. Ele não distingue um problema grave de um estado circunstancial. E, na dúvida, receita psicotrópicos…“Depressão”, por exemplo, é palavra que faz parte do vocabulário corrente. O blues (tristeza) pode dominar qualquer pessoa, a qualquer momento da vida. Mas por que dar esse sentido ao conceito de “depressão”? Ela foi elevada à dignidade de uma doença à parte. Contudo, a tristeza pode ser um sintoma tanto de melancolia – acarretando risco elevado de suicídio – quanto de um estado passageiro e mesmo normal, como o luto. Confúcio recomendava ao filho um luto de três anos após a morte do pai; hoje, se você continua triste depois de quinze dias, está doente. Vão lhe dar antidepressivos, que podem temporariamente aliviar o problema, mas não o resolverão. Entretanto, como não convém interromper o tratamento de repente, a prescrição dura às vezes a vida inteira.

O marketing do DSM é simples: basta inventar, a intervalos regulares, novos transtornos que misturem a patologia e o existencial. Isso é muito fácil, já que a existência se apoia naquilo que nos faz ir em frente. Aquilo que não funciona – em nossa vida – nos dá energia para evitá-lo. É necessário chorar antes de rir. Estamos à beira de um vulcão: extingui-lo com medicamentos que não passam de drogas é extinguir uma vida, porquanto viver é correr riscos o tempo todo. “O patológico só tem sentido para o improdutivo”, dizia o escritor Stefan Zweig.2 O nome de alguns medicamentos parece corroborar essa ideia, mas em uma acepção no mínimo discutível: em certas formas agudas de psicose, os psicotrópicos são imprescindíveis para acalmar as alucinações e os delírios. Tais medicamentos são chamados de antipsicóticos. Na cabeça do fabricante, essas moléculas estariam então destinadas a acabar de vez com a pessoa que sofre de psicose? O fabricante esquece uma coisa: o “paciente” é sempre maior que seu padecimento. Esses remédios deviam chamar-se de preferência “pró-psicóticos” ou “filopsicóticos”, pois um psicótico libertado de seus delírios é frequentemente um grande inventor (o matemático Georg Cantor), um grande poeta (Friedrich Hölderlin), um grande pintor (Vincent van Gogh) ou um grande filósofo (Jean-Jacques Rousseau). Mas a Big Pharma pouco se importa com a liberdade reencontrada pelo paciente, que no fim poria em causa sua empresa. Ela prefere o ópio. E seus vapores se instalam com facilidade, porque o “transtorno” é associado às manifestações efetivas do sofrimento psíquico.

Não bastasse isso, mais vale que o número de “transtornos” cresça e se multiplique. Entre os mais recentes, o “transtorno bipolar” se beneficiou de uma ampla promoção midiática, embora apenas patologize a doença universal do desejo: este se atira, rindo, para o objeto de seu sonho, mas, quando o apanha, o sonho está mais longe ainda e o riso se transforma em lágrimas. Enquanto a vida segue seu curso, nós todos somos normalmente “bipolares”, hoje alegres, amanhã tristes. Acontece, porém, que nas psicoses melancólicas o objeto de desejo é a própria morte ou a explosão de um surto maníaco. O diagnóstico de “bipolaridade” se torna então criminoso, pois não faz distinção entre o ciclo maníaco-depressivo das psicoses – com o risco de passagem ao ato grave justificando a prescrição de neurolépticos – e a euforia-depressão das neuroses. Essa distinção, riscada dos DSMs, provoca inúmeras situações dramáticas.3

O “transtorno” mais comum e inquietante, pois diz respeito às crianças, que sofrem sem saber o motivo e não podem se queixar, é sem dúvida o “transtorno do déficit de atenção com ou sem hiperatividade” (TDAH). Essas dificuldades da infância vêm sendo enfrentadas há tempos por psiquiatras infantis e psicanalistas, pioneiros na matéria. Mas, como se trata de problemas peculiares a cada criança, eles não ousaram rotulá-los sob um “transtorno” geral. Graças a isso, são hoje acusados de não propor medidas, principalmente pelas associações de pais, algumas delas subvencionadas por laboratórios farmacêuticos (por exemplo, a associação Hypersupers TODA/H France, apoiada pelos laboratórios Mensia, Shire, HAC Pharma e NLS Pharma).

A imprecisão desse pretenso diagnóstico equivale a dizer, por exemplo, que a tosse é uma doença. E o exemplo vem de cima: em 29 de setembro de 2017, houve na Universidade de Nanterre uma conferência em favor do diagnóstico de TDAH sob o patrocínio do presidente francês, Emmanuel Macron, e da ministra da Saúde, Agnès Buzyn. Os psicanalistas inscritos para o colóquio se viram pura e simplesmente impedidos de entrar pelos porteiros. O TDAH não existe nas classificações francesas, seja a Classificação Francesa dos Transtornos da Criança e do Adolescente (CFTMEA), fiel à psiquiatria francesa, ou mesmo a Classificação Internacional das Moléstias (CIM-10), que acolhe as opções do DSM. Elas descrevem apenas os problemas de agitação. E agitação não é doença. Pode ter várias causas (problemas familiares, dificuldades na escola etc.); exige primeiro que as crianças e a família sejam ouvidas, e isso muitas vezes basta para resolver tudo. Com o TDAH, o sintoma se transforma em doença e, mais grave ainda, atribuem-lhe causas “neurodesenvolvimentistas”. Essa afirmação não repousa sobre nenhuma base científica, ao passo que provas não faltam das dificuldades causadas por problemas no seio da família ou na escola…

Jerome Kagan, professor de Harvard, declarou em uma entrevista de 2012: “O TDAH não é uma patologia, mas uma invenção. […] Oitenta por cento dos 5,4 milhões de crianças tratadas com Ritalina nos Estados Unidos não apresentam nenhuma anormalidade metabólica”.4 Na França, Patrick Landman mostrou em seu livro Tous hiperactifs? [Todos hiperativos?] (Albin Michel, 2015) que o TDAH não tem nenhuma causa biológica identificável: seus sintomas não são específicos e não apresentam indicadores biológicos. Nenhuma hipótese neurobiológica foi validada. Leon Eisenberg, inventor da sigla “TDAH”, declarou em 2009, sete meses antes de falecer: “O TDAH é o exemplo típico de uma doença inventada. A predisposição genética para o TDAH é totalmente superestimada”.5 Todavia, com a ajuda do lobby, cerca de 11% das crianças com idade entre 4 e 17 anos (6,4 milhões) receberam o diagnóstico de TDAH desde 2011 nos Estados Unidos, segundo os Centros de Prevenção e Controle das Doenças norte-americanos. Segue-se quase sempre uma prescrição de Ritalina (metilfenidato), que contém moléculas consideradas estupefacientes nas classificações francesas. A prescrição dessa anfetamina em grande escala poderia provocar um escândalo sanitário semelhante aos do Mediator e do Levothyrox. Essas substâncias viciam, e não se exclui – possibilidade ainda em discussão – uma correlação entre as crianças que tomaram Ritalina e os adolescentes que se drogam.

As crianças não são poupadas pelos transtornos da sociedade, que lhes impõe o imperativo do sucesso rápido, da competitividade, da obediência a normas que não se aplicam à sua idade. As recalcitrantes são facilmente consideradas hoje “deficitárias”. É, portanto, inquietante ver surgir em um site do Ministério da Educação Nacional da França uma mensagem endereçada aos professores afirmando, sem provas, que o TDAH é uma “doença neurológica” e fornecendo uma receita detalhada para o estabelecimento de diagnósticos prévios. Os “sinais indicativos” propostos poderiam se aplicar a quase todas as crianças. Sempre a mesma mistura de problemas normais e patologia…

A infância na linha de frente

Há tempos, Michel Foucault pôs em evidência a repressão, notadamente pelos Estados e as religiões, desse “mal-estar na cultura” que é a sexualidade. Hoje, a camisa de força de um patriarcado de direito divino está em via de marginalização. Como a repressão vai se organizar daqui por diante, supondo-se que o termo “sexualidade” deva ser entendido em sentido amplo? A indústria farmacêutica é que pretende tomar as rédeas da ciência. A mensagem é clara: “Não vos inquieteis, ó vós que tendes insônias, momentos de desconsolo, excitação exagerada, ideias suicidas! A culpa não é vossa, é de vossos genes, de vossos hormônios; sofreis de um déficit neurodesenvolvimentista, e nossa farmacopeia vai consertar tudo”. Trata-se de fazer crer que tudo se resume a problemas de neurotransmissores e de mecânica, nos quais o humano não entra. Seria necessário esquecer que as mazelas deliciosas e cotidianas das relações entre homens e mulheres, as questões jamais resolvidas de filhos com pais, as relações de forças angustiantes com a hierarquia e o poder deitam raízes nas profundezas da infância.

Por todos os lados, a infância está na linha de frente, o que torna o caso do TDAH ainda mais “perturbador” que os outros. Em todos os tempos e lugares, a criança é a primeira a ser reprimida, espancada, formatada. Quando um professor da velha escola puxava as orelhas de um aluno agitado, isso era – por mais chocante que pareça – quase mais humano do que exigir-lhe um diagnóstico de deficiência. Preservava-se uma relação pessoal, que a pseudociência elimina. Pela primeira vez na história, é em nome de uma pretensa ciência que as crianças são “espancadas”. Todos os anos o Papai Noel, esse mito de múltiplas estratificações (como bem mostrou o etnólogo Claude Lévi-Strauss),6 traz para as crianças presentes a fim de consolá-las. Hoje, a Big Pharma pretende vestir o capuz do Papai Noel. Mas não nos esqueceremos de que, sob a roupa vermelha, esconde-se uma sombra muito parecida com o Açougueiro da Festa de São Nicolau.7

*Gérard Pommier é médico psiquiatra, psicanalista, professor universitário emérito e diretor de pesquisa na Universidade Paris 7. Autor, principalmente, de Comment les neurosciences démontrent la psychanalyse [Como as neurociências dão suporte à psicanálise], Flammarion, Paris, 2010, e de Féminin, révolution sans fin [Feminino, revolução sem fim], Pauvert, Paris, 2016.

1 Ver “La bible américaine de la santé mentale” [A bíblia americana da saúde mental], Le Monde Diplomatique, dez. 2011.

2 Stefan Zweig, Le Combat avec le démon: Kleist, Hölderlin, Nietzsche [A luta com o demônio: Kleist, Hölderlin, Nietzsche], Le Livre de Poche, Paris, 2004 (1. ed.: 1925).

3 Eu mesmo acompanhei em Saint-Anne um paciente melancólico a que um psiquiatra, ignorante de tudo o que não está no DSM, deu alta. Ele se suicidou. Vi inúmeros casos semelhantes.

4 “What about tutoring instead of pills?” [Que tal monitoramento em vez de pílulas?], Spiegel Online, 2 ago. 2012. Disponível em: <www.spiegel.de>.

5 “Schwermut ohne Scham” [Tristeza sem vergonha], Der Spiegel, Hamburgo, 9 fev. 2012.

6 Claude Lévi-Strauss, Le Père Noël supplicié [Papai Noel supliciado], Seuil, Paris, 1994.

7 Na França, é bastante difundida a lenda de São Nicolau, precursor do Papai Noel. Durante o inverno, três crianças bateram à porta do açougueiro Pierre Lenoir. Ele aceitou abrigá-las durante a noite. Porém, assim que elas entraram, ele as matou. Em outra noite, São Nicolau passava pela região e buscou abrigo na mesma casa. Enquanto dormia, ele sonhou com o assassinato das crianças e rezou até que elas ressuscitassem, tornando-se assim protetor das crianças.
Fonte: Le monde diplomatique
Por: Gérard Pommier
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Atalhos para memória com uma pequena ajuda de amigos

Los humanos hemos utilizado este tipo de extensiones mentales desde siempre. La transmisión de información de mente a mente de forma oral era la norma mucho antes de que naciera la escritura. Somos animales sociales y formamos redes sociales desde mucho antes de que existieran las virtuales. Estamos acostumbrados a depender tanto unos de otros para guardar información como para todo lo demás. Así que recordar quién dijo qué o quién sabe qué resulta natural.

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Tim Enthoven

          Atajos para la memoria, con un poco de ayuda de tus amigos

A mi madre le gusta decir: “Siempre recuérdalo todo”.

Por supuesto, como ella sabe, es imposible, incluso con técnicas avanzadas de memoria. Por eso tomamos notas y usamos calendarios. Son componentes de nuestra memoria externa, que son parte de nuestra mente expandida.

El hecho de que tu mente no esté completamente confinada a tu cráneo puede ser una idea difícil de asimilar. En un trascendental artículo, los filósofos Andy Clark y David Chalmers defendieron la idea de que algunas funciones que logramos llevar a cabo con otros objetos deberían ser consideradas como equivalentes a los pensamientos que ocurren en nuestros cerebros. Utilizar lápiz y papel para ayudarnos a hacer un cálculo es un ejemplo. Mucha gente —me incluyo— manipulamos palabras en una página (o el equivalente digital) para dilucidar cómo pensamos un asunto o para darle forma a un argumento.

No existe ninguna diferencia entre el hecho de que los canales de comunicación entre el papel (o la pantalla) y el cerebro involucren la visión y el movimiento de los dedos en lugar de que solo se enciendan las neuronas, según defienden Clark y Chalmers. El resultado final es el mismo que si hubiéramos hecho todos los cálculos o escrito todo el ensayo tan solo en nuestra cabeza.

“Lo que importa no es dónde se codifica la información, ni en qué medio, sino los usos que puede tener en el momento”, dijo Clark. Trabajar en una computadora ofrece una analogía. “No importa en realidad si una porción de la información se guarda en tu disco duro o en la nube, siempre y cuando esté disponible cuando lo necesites”.

Esto nos conduce a la extensión de la memoria, que es más claro y simple. Para mejorar la memoria biológica, todo el mundo consulta materiales y fuentes externas. Tomamos fotografías –que después volvemos a ver— para tener recuerdos de las vacaciones, bodas y otros sucesos. Guardamos en la memoria lo que nos vamos a poner mañana cuando sacamos nuestra ropa la noche anterior. Hacemos listas para ir al supermercado.

Podrías decir que las cosas en las que esta información se guarda –esas fotografías, el lugar donde pusimos la ropa, un pedazo de papel— no se parecen a la mente. Quizá bajo ese fundamento te opones a decir que lo que nos transmiten sean “recuerdos”. Quizá solo las mentes pueden recordar cosas y el resto son simplemente apoyos para recordar.

Sin embargo, este argumento se desmorona cuando consideramos la gran cantidad de información que no guardamos en la cabeza pero que podemos recuperar fácil y confiablemente de otro lado. Por ejemplo, quizá no sabemos y nunca retendremos en la memoria todo el elenco de Game of Thrones, pero sabemos dónde podemos encontrarlo. No necesitamos encomendárselo a nuestra memoria (biológica) porque siempre podemos buscarlo.

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Tim Enthoven

Cuando lo hacemos, no estamos utilizando la fuente de información para recordarnos lo que ya tenemos guardado en la memoria. La información no está ahí y quizá nunca lo esté. Aún así, como si lo estuviera, podemos rescatarla siempre que nos plazca por otros medios. Eso es la memoria extendida.

Estamos tan acostumbrados a depender de la memoria extendida en nuestros teléfonos inteligentes que guardamos menos en nuestra cabeza de lo que haríamos en otra circunstancia. Un estudio mostró que somos menos capaces de recordar información que creemos poder buscar en internet —y en lugar de eso recordamos mucho mejor cómo podemos encontrarlo en línea—.

Otro estudio descubrió que la gente que tomó fotografías de las pinturas en un museo fue menos capaz de recordar las obras y sus ubicaciones que aquellos que visitaron el museo sin sacar fotografías. Aquellos de nosotros que somos lo suficientemente viejos para recordar el mundo sin celulares inteligentes solíamos memorizar números telefónicos importantes. Pocos ahora lo hacemos o ni siquiera lo intentamos. Podríamos, pero ¿para qué molestarse?

Existe otro tipo de memoria extendida que es incluso más parecida a la mente. De manera rutinaria extendemos nuestra memoria al utilizar la de otras personas y la nuestra sirve como memoria extendida para otros. Cualquiera que tenga hijos está constantemente recordando cosas para ellos: a qué hora necesitan llegar al entrenamiento de fútbol, dónde es y qué necesitan llevar. Mis hijos ahora se saben el nombre de otros niños y de sus padres, y así constituyen una fuente a la que recurro con regularidad en reuniones sociales porque casi siempre olvido –o nunca me aprendo— sus nombres.

Poner atención a este tipo de memoria extendida tiene valor profesional. Hace algunos años, el exceso de trabajo comenzó a tener un efecto negativo en mi capacidad para recordar información importante. Utilizar algunos trucos mentales me ayudaba, pero de cualquier manera no podía estar al corriente.

Así que cambié de estrategia. Me di cuenta de que era redundante recordar algunas cosas que otros ya sabían, y me rendí. En lugar de eso, hice un esfuerzo en tener un registro de las áreas en las que mis colegas eran expertos. Si tenían la información guardada en sus mentes y si podía tener acceso a su conocimiento de manera sencilla –por ejemplo, con un correo electrónico breve o incluso un tuit— no había necesidad de que yo recordara esa información.

Por ejemplo, si requiero saber qué estudios sobre nutrición son confiables, puedo simplemente preguntarle a mi colega Aaron Carrol, quien acaba de escribir un libro sobre el tema.

Sin embargo, ¿qué pasa si me topo con otro colega que está utilizando la misma táctica y los dos pensamos que el otro es el que está guardando la información? Cuando presiento que ese puede ser el caso, pregunto: “¿Me toca acordarme de esto en tu lugar?”. Eso lo resuelve. De hecho, suelo finalizar muchas de mis reuniones o intercambios de correo electrónico laborales de esta manera. Una vez que un plan de acción o la solución a un problema se establece, me aseguro de que quede claro quién es responsable de que cierta información crucial no se pierda.

En casa, mi esposa y yo somos explícitos sobre quién es responsable del seguimiento de la diversidad de necesidades asociadas con las actividades escolares y extracurriculares de nuestros hijos. Lo que sea que esté en sus manos (es decir, en su cabeza), yo lo elimino de mi mente. Lo que sea que esté en la mía, ¡más me vale recordarlo!

Los humanos hemos utilizado este tipo de extensiones mentales desde siempre. La transmisión de información de mente a mente de forma oral era la norma mucho antes de que naciera la escritura. Somos animales sociales y formamos redes sociales desde mucho antes de que existieran las virtuales. Estamos acostumbrados a depender tanto unos de otros para guardar información como para todo lo demás. Así que recordar quién dijo qué o quién sabe qué resulta natural.

Aprovechar esto estratégicamente para guardar y recuperar de la mente de otras personas recuerdos no es un gran paso. Te libera de tratar de hacer lo que de todos modos no puedes: siempre recordarlo todo.

Fonte: New York Times
Por: Austin Frakt
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Stephanie Cacioppo y su esposo, John Cacioppo, son neurocientíficos de la Universidad de Chicago. Whitten Sabbatini para The New York Times

 Científicamente comprobado: eres una mejor persona cuando estás enamorado

“Durante años, la ciencia ha relegado al amor a un instinto básico, casi como una adicción que no tiene cualidades que la compensen”.

Así lo dice Stephanie Cacioppo. No es una evangelista del movimiento New Age predicando enfrente de parejas durante un retiro espiritual, sino una neurocientífica de la Universidad de Chicago que ha dedicado buena parte de su carrera a mapear las interacciones que provoca el amor en el cerebro. Sus investigaciones y algunas otras teorías que ha desarrollado la han confrontado con otros científicos que describen el amor romántico como una emoción o impulso primitivo, incluso una droga.

Con el uso de escaneos cerebrales, la Dra. Cacioppo ha recopilado datos que sugieren que enamorarse activa no solo el cerebro emocional, sino las regiones involucradas con actividades intelectuales y de cognición de alto nivel. “Eso significa que es posible que el amor tenga una función real: no solo poderse conectar emocionalmente con las personas, sino mejorar nuestro comportamiento”, dijo.
La Dra. Cacioppo afirma que hay beneficios mentales y físicos de todo tipo que provienen de estar enamorado. Dice que puede ayudarnos a pensar más rápido, a anticipar mejor los pensamientos y comportamiento de los otros o a recuperarnos con mayor rapidez de una enfermedad. “Las pruebas empíricas que he hecho en mi laboratorio sugieren que, de muchas maneras, cuando estás enamorado eres una mejor persona”, dijo.

Hablar por solo un rato con la Dra. Cacioppo es suficiente para comprender lo optimista que es respecto al romance tradicional, sobre todo en un mundo en el que el divorcio es común, las tasas de casamiento han bajado y cada vez hay más formas de relacionarse, como el poliamor. Aunque reconoce que es saludable que haya muchas maneras de estar en relaciones, cree que todos estamos en busca de ese “amor verdadero” que nos va a completar, que los humanos estamos predispuestos a la monogamia y que hay evidencia biológica indirecta de cosas sacadas de los cuentos de hadas como el amor a primera vista.

El primer caso que estudió fue el de sus propios padres. Creció a las afueras de Chambéry en los Alpes franceses y recuerda que sus padres se quedaban viendo con ensueño a los ojos y que siempre estaban agarrados de las manos. Cuando era niña pensaba que el vínculo entre sus padres era casi mágico, como si hubieran desarrollado una conexión telepática.

Y después estudió la biología detrás de ese comportamiento, que también es bastante mágica: hay maneras, dijo, en las que el sistema de neuronas espejo nos ayuda a predecir lo que va a hacer una pareja antes de que lo haga, mientras que verse a los ojos o darse las manos aumenta los niveles de oxitocina, un neuropéptido que incrementa los sentimientos de empatía y confianza hacia alguien.

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En un experimento de la Dra. Cacioppo y de su equipo, los participantes usan capuchas con sensores para electroencefalogramas mientras ven diferentes imágenes y se estudian sus movimientos oculares con un sistema infrarrojo. Stephanie Cacioppo

Su primer gran hallazgo en temas del amor surgió a principios de su carrera, cuando era una investigadora de posdoctorado en Dartmouth College. En varios experimentos le mostró a los participantes imágenes y nombres de personas –de desconocidos, de amigos neutros y de sus parejas– y usó técnicas de resonancia magnética para ver qué secciones del cerebro se activaban al verlas.

Utilizó los datos para diferenciar el amor pasional y romántico –de otras emocionas más básicas (como la felicidad) y de otros tipos de amor (el maternal, por ejemplo)–, pero también para identificar doce diferentes regiones cerebrales que eran activadas por este tipo de amor.

“Lo que se me hizo fascinante es que podías ver que el amor tiene su propio patrón cerebral, como un plano”, dijo la doctora. (Según algunos investigadores, otras emociones como el enojo y el desagrado también muestran oscilaciones eléctricas cerebrales propias).

Después utilizó electrodos para medir qué tan rápido se activaba esta “red neuronal del amor” cuando los participantes veían a alguien de quien estaban enamorados. El resultado la sorprendió: “Tardó menos de medio segundo, lo que es preconsciente. Entonces tu cerebro ya sabe que amas a esa persona antes de que tú mismo lo sepas”.

Claro que el ambiente estéril de un laboratorio de neurociencias es muy distinto al del mundo real. Pero estos experimentos permitieron que la Dra. Cacioppo y sus colegas pudieran identificar un área específica del cerebro –el giro o circunvolución angular– que parece ser más sensible al amor. Mientras más apasionadamente enamorada decía estar una persona, más se prendía esta zona.

Ubicado detrás de la oreja, el giro angular solo se encuentra en simios y humanos, lo que significa que se desarrolló durante una etapa tardía de la evolución, y ha sido vinculada a la creatividad y el pensamiento abstracto.

A la Dra. Cacioppo le gusta llamar a esta zona “el pequeño robot en tu cabeza”: aquel que nos ayuda a procesar los idiomas y números y que gestiona datos autobiográficos complejos y profundos, como la percepción de uno mismo y la “teoría de la mente”, la capacidad para reconocer y atribuir ciertos estados mentales (como los deseos y pensamientos) a uno mismo o a otros.

Así que enamorarse, según la Dra. Cacioppo, es como ejercitar intensamente el giro angular. “La manera en la que lo fortaleces es al formar nuevas asociaciones… aprender, viajar, explorar nuevos conceptos y culturas y, sí, enamorándote”, dijo. “Y dado que el giro angular está conectado a tantas partes integrales del cerebro, el hacer conexiones ahí te ayuda a ser más sagaz para otras situaciones que no necesariamente tienen que ver con tu pareja sentimental”.

Espera que su investigación invite a la gente a tener un punto de vista más abarcador sobre el valor del amor romántico.

“La gente tiene esta idea equivocada de que, cuando estás en las primeras etapas del amor, estás distraído y no te concentras en el trabajo, pero al contrario”, dijo. “Con base en esta ciencia, quizá queramos contratar a personas que están apasionadamente enamoradas porque probablemente estarán más motivadas y serán más creativas en el aspecto laboral”.

Amor o lujuria

La neurociencia involucra algo de trabajo de detective; hay que seguir corazonadas, revisar mucha evidencia y eliminar pistas falsas. Para dilucidar bien cómo influye el amor en el cerebro, la Dra. Cacioppo necesitaba hacer más que identificar las regiones cerebrales que se activan con estar enamorado: tenía que separar el amor de su compañera cercana, la lujuria.

Una zona del cerebro que tiene algo de pistas sobre la relación entre el romance y el deseo se llama la ínsula, dentro de la corteza cerebral. Se divide en dos partes: una ínsula posterior más pequeña (que registra el dolor, el calor y el contacto sensual) y una ínsula anterior algo más grande que puede ayudarnos a entender esos sentimientos y que, se cree, está involucrada en el pensamiento abstracto.

En sus estudios con resonancia magnética funcional (fMRI, por su sigla en inglés), la Dra. Cacioppo halló que la ínsula posterior se estimulaba más por sentimientos de deseo sexual y la ínsula anterior, por los de amor. Esta investigación apuntaba a que la ínsula está relacionada, de alguna manera, con nuestra capacidad de formar y mantener relaciones amorosas.

En vez de ver el deseo sexual como un opuesto total al amor, la investigación de la Dra. Cacioppo la ha llevado a pensar en ambos como parte de un espectro. Las sensaciones más viscerales relacionadas a la lujuria a veces pueden llevar a sentimientos más abstractos de amor. “Un deseo sexual fuerte, cuando es correspondido y coactivado con el amor, puede promover la fidelidad, un amor duradero y la monogamia”, dijo.

Pero, aunque el amor y la lujuria se complementan, la doctora advierte que no son requisitos previos el uno para el otro y que son sentimientos complejos que pueden cambiar con el paso del tiempo: el amor puede profundizarse y el deseo sexual desvanecerse.

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The Cacioppos share the same office and even the same desk. “I wouldn’t necessarily try this at home,” John joked. Whitten Sabbatini for The New York Times

Resultados a partir de la ciencia

Cacioppo, de 43 años, ha dedicado buena parte de su vida académica al amor, pero por mucho tiempo no tuvo un contacto personal con el fenómeno. Salía con personas de vez en cuando y nunca tuvo un novio en serio.

“Parecía que estaba casada con mi trabajo”, dijo.

Hasta hace seis años cuando, durante una conferencia en Shangái, terminó sentada junto al neurocientífico de la Universidad de Chicago John Cacioppo.

Él dedicaba su investigación a lo opuesto que ella: la soledad. En un principio, no tenían en mente estar juntos; incluso cada uno llegó a decir que nunca tendría planes de casarse. Aunque la investigación de ambos demuestra la importancia de establecer conexiones humanas y del posible daño al no hacerlo. Algunos de los datos de los estudios de John Cacioppo mostraban que quienes sufren de soledad son más propensos a morir de manera prematura.

Aun así, ambos pensaban que estaban felices con sus vidas académicas solitarias y ninguno se sentía solo. “Uno de los secretos para una buena relación es que te atraiga alguien por elección y no por necesidad”, dijo John, de 66 años. “No estábamos corriendo de algo, sino moviéndonos a algo que sería único”.

Las primeras citas fueron durante las conferencias científicas, pues él estaba en Chicago y ella en la Universidad de Ginebra, en Suiza. Pero cada vez se volvía más difícil separarse. Se casaron en 2011 en París y Cacioppo dejó atrás su apellido de soltera, Ortigue, y se sumó al equipo de la Facultad de Medicina Pritzker de la Universidad de Chicago, donde ahora dirige el Laboratorio de Dinámica Cerebral.

Ahí comparten oficina –la señalización de la puerta dice “Los Cacioppos”– y hasta escritorio.

“No recomiendo intentar esto en casa”, bromeó John, al decir que la sinergia que tiene con su esposa no necesariamente es la idónea para otras parejas ni la típica para todos los romances pasionales.

Retos no anticipados

Una enfermedad grave es la pesadilla de cualquier pareja y algo que enfrentaron los Cacioppo en 2015, cuando a John lo diagnosticaron con una forma agresiva y poco común de cáncer de las glándulas salivales. Se sometió a una cirugía, seguida de siete rondas de un tratamiento de quimioterapia y radiación, de catorce días de duración cada una. No podía comer por sí solo y tuvo que recibir alimentos por un tubo durante meses.

Mientras más se debilitaba, más se respaldaban él y la Stephanie. Compartían la cama del hospital, caminaban de la mano hacia la sala de tratamiento cada día y, según el oncólogo Everett Vokes, coordinaban sus atuendos.

“Tenemos muchos pacientes en los que una de las personas está involucrada y es servicial, hasta demasiado, mientras espera que la otra mejore”, dijo el Dr. Vokes. “Pero John y Stephanie eran otra cosa. Era casi como si le estuviéramos dando tratamiento a dos personas”.

El Dr. Vokes y sus colegas lograron que el cáncer estuviera en remisión total, con lo que John pudo regresar a dar clases e investigar a tiempo completo.

Para su esposa, fue un recordatorio de la capacidad del amor no solo de expandir nuestras mentes, como muestra su investigación, sino de, en algunos casos, ayudar a sanar nuestros cuerpos. Incluso citó estudios de que las personas casadas, en comparación con individuos solteros, tienen menos problemas físicos y sufren menos enfermedades de largo plazo, además de que la tasa de mortandad es menor y la tasa de supervivencia en caso de enfermedad es mayor.

Aunque la Dra. Cacioppo enfatizó que no se trata del tipo de relación, sino de la calidad de esta, lo que puede traer estos resultados. “El estado civil –si estás ‘casado’ o no– no es ni necesario ni suficiente para que haya estos beneficios de salud”, dijo.

“Se trata más bien de qué tan conectado o desconectado se siente uno de su pareja”.

Fonte: New York Times
Por: Stephen Heyman
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