A Saúde Mental dos políticos

“Penso que deveria ser necessário a qualquer um que quisesse participar de uma eleição nacional passar por uma formação em psicoterapia. A conclusão do curso seria a qualificação para o cargo”.

Por que os psicopatas chegaram ao poder

Quem, em seu juízo perfeito, poderia desejar esse trabalho? É quase certo que acabará, como descobriu Theresa May, em fracasso e execração pública. Procurar ser primeiro-ministro britânico, hoje, sugere ou confiança imprudente ou fome insaciável de poder. Talvez necessitemos de uma ironia como a de Groucho Marx: alguém louco o suficiente para candidatar-se a essa função deveria ser desqualificado para concorrer.

Alguns anos atrás, a psicóloga Michelle Roya Rad listou as características de uma boa liderança. Entre elas figuravam justiça e objetividade, desejo de servir à sociedade e não a si mesmo, falta de interesse em ser famoso e ocupar o centro das atenções, resistência à tentação de esconder a verdade ou fazer promessas impossíveis. Por outro lado, um artigo publicado no Journal of Public Management & Social Policy (Jornal de Gestão Pública e Política Social) listou as características de líderes com personalidade psicopata, narcisista ou maquiavélica. Elas incluem: tendência à manipulação dos outros, disposição em mentir e enganar para alcançar seus objetivos, falta de remorso e sensibilidade, desejo de admiração, atenção, prestígio e status. Quais dessas características descrevem melhor as pessoas que estão competindo para ser “governantes” no mundo contemporâneo?

Na política, vê-se em todo lado o que parece ser a externalização de déficits ou feridas psíquicas. Sigmund Freud afirmou que “os grupos assumem a personalidade do líder”. Penso que seria mais preciso dizer que as tragédias privadas dos poderosos tornam-se as tragédias públicas daqueles que eles dominam.

Para algumas pessoas, é mais fácil comandar uma nação, mandar milhares para a morte em guerras desnecessárias, separar crianças de suas famílias e infligir sofrimentos terríveis do que processar sua própria dor e trauma. Aparentemente, o que vemos na política, em todos os cantos, é uma manifestação pública de profunda angústia privada.

Essa talvez seja uma força particularmente forte na política britânica. O psicoterapeuta Nich Duffell escreveu sobre “líderes feridos”, que foram separados da família na primeira infância para ser enviados ao colégio interno. Eles desenvolveram uma “personalidade de sobrevivente”, aprendendo a reprimir seus sentimentos e projetar um falso eu, caracterizado pela demonstração pública de competência e autoconfiança. Sob essa persona está uma profunda insegurança, que pode gerar necessidade insaciável de poder, prestígio e atenção. O resultado disso é um sistema que “sempre revela pessoas que parecem muito mais competentes do que realmente são”.

O problema não está confinado a estas paragens. Donald Trump ocupa a cadeira mais poderosa do planeta, e ainda assim parece roer-se de inveja e ressentimento. “Se o presidente Obama tivesse feito os acordos que fiz”, afirmou há pouco, “a mídia corrupta os consideraria incríveis… Para mim, apesar do nosso recorde em economia e tudo o que fiz, não há crédito!”. Nenhuma riqueza ou poder parece capaz de satisfazer sua necessidade de afirmação e segurança.

Penso que deveria ser necessário a qualquer um que quisesse participar de uma eleição nacional passar por uma formação em psicoterapia. A conclusão do curso seria a qualificação para o cargo. Isso não mudaria o comportamento de psicopatas, mas poderia evitar que, ao exercer o poder, certas pessoas impusessem sobre os outros suas próprias feridas profundas. Fiz dois cursos: um influenciado por Freud e Donald Winnicott, outro cuja abordagem tinha foco na compaixão de Paul Gilbert. Considero os dois extremamente úteis. Penso que quase todo mundo se beneficiaria desses tratamentos.

A psicoterapia não iria garantir uma política mais gentil. A abertura admirável de Alastair Campbell ao falar sobre sua terapia e saúde mental não o impediu de comportar-se – quando desempenhou as funções de assessor político e porta-voz de Tony Blair – como um valentão desbocado, que intimidava as pessoas a apoiar uma guerra ilegal, em que centenas de milhares de pessoas morreram. Tanto quanto sei, não demonstrou remorso por seu papel nessa guerra agressiva, que cabe na definição de “crime internacional supremo” do tribunal de Nuremberg.

O problema, na verdade, é o sistema no qual essas pessoas competem. Personalidades tóxicas prosperam em ambientes tóxicos. Aqueles que deveriam ser menos confiáveis para assumir o poder são justamente os que mais provavelmente vencerão. Um estudo publicado no Journal of Personality and Social Psychology  sugere que o grupo de traços psicóticos conhecido como “domínio sem medo” está associado a comportamentos amplamente valorizados nos líderes, tais como tomar decisões ousadas e sobressair-se no cenário mundial. Se assim for, nós, por certo, valorizamos as características erradas. Se para alcançar o sucesso no sistema é necessário ter traços psicopatas, há algo errado com o sistema.

Para pensar uma política eficiente, talvez fosse útil trabalhar de trás para frente: primeiro decidir que tipo de gente gostaríamos que nos representassem e depois criar um sistema que as levasse ao primeiro plano. Quero ser representado por pessoas ponderadas, conscientes de si e colaborativas. Como seria um sistema que promovesse essas pessoas?

Não seria uma democracia puramente representativa. Esse tipo de democracia funciona com o princípio do consenso presumido: você me elegeu há três anos, então presumo que consentiu com a política que estou para implementar, não importa se na época eu a mencionei ou não. Ela recompensa os líderes “fortes e determinados” que tão frequentemente levam suas nações à catástrofe. Um sistema que fortaleça a democracia representativa com democracia participativa – assembleias de cidadãos, orçamento participativo, co-criação de políticas públicas – tem mais possibilidades de recompensar os políticos sensíveis e atenciosos. A representação proporcional, que impede governos com apoio minoritário de dominar a nação, é outra salvaguarda potencial (embora não seja garantia).

Ao repensar a política, é preciso desenvolver sistemas que incentivem gentileza, empatia e inteligência emocional. É preciso nos desvencilhar de sistemas que encorajem as pessoas a esconder sua dor e dominar os outros.

 

O avanço dos evangélicos na política e as discriminações

Para compreender as causas e as implicações socioculturais e políticas do fenômeno, a Fundação FHC recebeu Ronaldo de Almeida (professor do Departamento de Antropologia da Universidade Estadual de Campinas).

As diversas denominações e igrejas evangélicas formam um universo em expansão no Brasil. Heterogêneo, ele abrange 30% da população, segundo os dados mais recentes do Datafolha. Desde os anos 80, quando representavam apenas 5% dos brasileiros, a presença social e a influência política dos evangélicos têm crescido ininterruptamente.

Nas eleições de 2018, eles foram decisivos para a vitória de Bolsonaro. Para compreender as causas e as implicações socioculturais e políticas do fenômeno, a Fundação FHC recebeu Ronaldo de Almeida (professor do Departamento de Antropologia da Universidade Estadual de Campinas).

Textos correlatos:
NOTA: Caso tenha interesse assista o debate que ocorreu após as apresentações dos professores Mariano e Ronaldo aqui.

 

O avanço dos evangélicos na política

Para compreender as causas e as implicações socioculturais e políticas do fenômeno, a Fundação FHC recebeu Ricardo Mariano (professor do Departamento de Sociologia da USP).

As diversas denominações e igrejas evangélicas formam um universo em expansão no Brasil. Heterogêneo, ele abrange 30% da população, segundo os dados mais recentes do Datafolha. Desde os anos 80, quando representavam apenas 5% dos brasileiros, a presença social e a influência política dos evangélicos têm crescido ininterruptamente.
Nas eleições de 2018, eles foram decisivos para a vitória de Bolsonaro. Para compreender as causas e as implicações socioculturais e políticas do fenômeno, a Fundação FHC recebeu Ricardo Mariano (professor do Departamento de Sociologia da USP).
Textos correlatos:

Por que a ficção triunfa sobre a verdade?

A natureza dual do poder e da verdade se traduz no curioso fato de que os humanos sabemos muito mais verdades do que os outros animais, mas também acreditamos em muitos absurdos.

Sophy Hollington

¿Por qué la ficción triunfa sobre la verdad?

Muchas personas creen que la verdad transmite poder. Creen que los líderes, religiones o ideologías que malinterpretan la realidad acaban perdiendo ante rivales con una visión más clara. Por ende, creen que apegarse a la verdad es la mejor estrategia para hacerse de poder. Por desgracia, esto solo es un mito que reconforta. De hecho, la verdad y el poder guardan una relación mucho más complicada porque en la sociedad humana el poder significa dos cosas muy distintas.

Por un lado, tener poder significa tener la capacidad de manipular realidades objetivas: para cazar animales, construir puentes, curar enfermedades, construir bombas atómicas. Este tipo de poder está estrechamente vinculado con la verdad. Si crees en una teoría física falsa, no podrás construir una bomba atómica.

Por el otro lado, el poder también significa tener la capacidad de manipular las creencias humanas, con lo que lograrás que muchas personas cooperen de manera efectiva. Construir bombas atómicas no solo requiere una compresión detallada de la física, sino además el trabajo coordinado de millones de personas. El planeta Tierra fue conquistado por los Homo sapiens y no por chimpancés o elefantes porque somos los únicos mamíferos capaces que cooperar entre sí en grandes cantidades. Además, la cooperación a gran escala depende de creer en las mismas historias, pero estos relatos no necesitan ser ciertos. Es posible unir a millones de personas haciéndoles creer en historias completamente ficticias sobre Dios, la raza o la economía.

La naturaleza dual del poder y la verdad se traduce en el curioso hecho de que los humanos sabemos muchas más verdades que ningún otro animal, pero también creemos en muchas más insensateces. Somos, al mismo tiempo, los habitantes más listos y los más crédulos del planeta. Los conejos no saben que E=MC², que el universo tiene 13.800 millones de años y que el ADN está compuesto de citosina, guanina, adenina y timina. Sin embargo, los conejos no creen en las fantasías mitológicas ni en los disparates ideológicos que han fascinado a incontables seres humanos durante miles de años. Ningún conejo habría estado dispuesto a estrellar un avión contra el World Trade Center de Nueva York con la esperanza de ser recompensado con 72 conejas vírgenes en otra vida.

Cuando se trata de unir a las personas en torno a una misma historia, la ficción en realidad goza de tres ventajas inherentes sobre la verdad. La primera es que, en tanto que la verdad es universal, las ficciones tienden a ser locales. En consecuencia, si queremos distinguir a nuestra tribu de los forasteros, una historia ficticia nos servirá mucho más como un marcador de identidad que una historia verdadera. Supongamos que enseñamos a los miembros de nuestra tribu a creer que “el sol sale por el oriente y se oculta por el poniente”. Este sería un mito tribal bastante débil, puesto que, si me encuentro a alguien en la selva y esa persona me dice que el sol sale por el oriente, eso podría indicar que esa persona es un miembro leal de nuestra tribu, pero también podría indicar que es una extranjera inteligente que llegó a la misma conclusión sin la guía de nuestra tribu. Por lo tanto, es mejor enseñar a los miembros de la tribu que “el sol es el ojo de una rana gigante que todos los días atraviesa el cielo de un salto”, dado que muy probablemente pocos extranjeros llegarán a esa idea en específico por sí mismos, sin importar lo inteligentes que sean.

La segunda gran ventaja de la ficción sobre la verdad tiene que ver con el principio de la desventaja, que establece que las señales confiables deben ser costosas para el emisor. De lo contrario, pueden ser imitadas fácilmente por los falsificadores. Por ejemplo, los pavorreales macho muestran sus aptitudes a las hembras haciendo gala de una enorme y colorida cola. Esta es una señal confiable de capacidad, porque la cola es pesada, voluminosa y atrae a los depredadores. Solo un pavorreal realmente capaz puede sobrevivir a pesar de esa desventaja. Algo similar sucede con las historias.

Si la lealtad política se mide a través de la creencia en una historia verídica, cualquiera puede fingir tal lealtad. Pero creer historias ridículas y extravagantes exige un costo mayor y, por ende, es una mejor señal de lealtad. Si le crees a tu líder solo cuando ella o él dice la verdad, ¿qué prueba eso? En cambio, si le crees a tu líder incluso cuando construye castillos en el aire, ¡eso sí es lealtad! Los líderes astutos algunas veces dicen de manera deliberada insensateces a fin de identificar a los devotos confiables de los seguidores condicionales.

La tercera ventaja, y la más importante, es que la verdad suele ser dolorosa y perturbadora. De ahí que quien se apega a la realidad pura tiene pocos seguidores. Un candidato presidencial estadounidense que le dice al pueblo de ese país la verdad y nada más que la verdad sobre la historia de Estados Unidos tiene asegurada la derrota al cien por ciento en las elecciones. Lo mismo sucede con los candidatos de todos los demás países. ¿Cuántos israelíes, italianos o indios pueden soportar la verdad inmaculada sobre sus naciones? Un apego absoluto a la verdad es una práctica espiritual admirable, pero no es una estrategia política ganadora.

Algunos pueden argumentar que los costos a largo plazo de creer en historias ficticias pesan más que las ventajas a corto plazo de la cohesión social; que una vez que la gente adquiere el hábito de creer en ficciones absurdas y falsedades convenientes, ese hábito se extiende a cada vez más áreas y, en consecuencia, la gente acaba por tomar malas decisiones económicas, adopta estrategias militares contraproducentes y no logra desarrollar tecnologías efectivas. Aunque esto ocurre ocasionalmente, está lejos de ser una regla universal. Incluso los fanáticos más fervientes y extremos suelen ser capaces de compartimentar su irracionalidad de tal modo que creen disparates en algunos campos, mientras que siguen siendo sumamente racionales en otros.

Pensemos, por ejemplo, en los nazis. La teoría racial del nazismo se basaba en pseudociencia falsa. Aunque trataron de reforzarla con evidencia científica, los nazis tuvieron que silenciar sus facultades racionales a fin de desarrollar una creencia lo suficientemente fuerte para justificar el asesinato de millones de personas. No obstante, a la hora de diseñar las cámaras de gas y preparar los horarios de los trenes hacia Auschwitz, la racionalidad nazi salía intacta de su escondite.

Lo que es cierto acerca de los nazis también es aplicable a muchos otros grupos fanáticos a lo largo de la historia. Resulta aleccionador darse cuenta de que la Revolución Científica comenzó en la cultura más fanática del mundo. En los días de Colón, Copérnico y Newton, Europa tenía una de las concentraciones más altas de extremistas religiosos y el nivel de tolerancia más bajo en su historia.

Se cree que el mismo Newton pasó más tiempo buscando mensajes secretos en la Biblia que descifrando las leyes de la física. Las luminarias de la Revolución Científica vivieron en una sociedad que expulsó a judíos y musulmanes, quemaba herejes al por mayor, veía a las mujeres mayores que amaran a los gatos como brujas e iniciaba una nueva guerra religiosa cada luna llena.

Si hubiésemos viajado a El Cairo o a Estambul hace unos cuatrocientos años, habríamos encontrado una metrópolis multicultural y tolerante donde los sunitas, los chiitas, los cristianos ortodoxos, los católicos, los armenios, los coptos, los judíos e incluso uno que otro hindú vivían unos junto a otros en relativa armonía. Si bien tenían sus desacuerdos y trifulcas —y aunque el Imperio Otomano discriminaba de manera habitual a las personas por motivos religiosos—, era un paraíso liberal comparado con Europa occidental. Si entonces hubiésemos zarpado con destino al París o al Londres de la época, habríamos encontrado ciudades inundadas de intolerancia religiosa, en las que solo los que pertenecían a la secta dominante podían vivir. En Londres, mataban católicos; en París, mataban protestantes; hacía tiempo que se había desterrado a los judíos, y nadie en su sano juicio habría soñado con dejar entrar musulmanes. Sin embargo, la Revolución Científica comenzó en Londres y París, en lugar de en El Cairo o Estambul.

La capacidad de compartimentar la racionalidad tal vez tiene mucho que ver con la estructura de nuestro cerebro. Distintas partes del cerebro son responsables de distintos modos de pensamiento. Los seres humanos podemos desactivar y reactivar de manera inconsciente las partes del cerebro que son fundamentales para el pensamiento escéptico. De esta forma, Adolf Eichmann quizá mantenía desactivado su lóbulo prefrontal mientras escuchaba a Hitler pronunciar un discurso apasionado, para luego echarlo a andar de nuevo y organizar cuidadosamente el horario de los trenes hacia Auschwitz.

Incluso si hay que pagar algún precio por desactivar nuestras facultades racionales, las ventajas de la mayor cohesión social suelen ser tan grandes que las historias ficticias suelen triunfar una y otra vez sobre la verdad en la historia de la humanidad. Los académicos lo han sabido desde hace miles de años, razón por la cual a menudo han tenido que escoger entre servir a la verdad o a la armonía social. ¿Debían proponerse unir a las personas asegurándose de que todos creyeran en la misma ficción o debían dejar que la gente supiera la verdad, aunque el precio a pagar fuera la desunión? Sócrates eligió la verdad y fue ejecutado. Las instituciones académicas más poderosas de la historia —ya fueran de sacerdotes cristianos, mandarines confucianos o ideólogos comunistas— antepusieron la unidad a la verdad. Por eso fueron tan poderosas.

Por: Yuval Noah Harari

A conversa cara a cara, o aqui e agora

Estabilidade política é resultado de conversa respeitosa na qual se dá e se recebe. Deixar de lado a vaidade, a intransigência e o orgulho; assim, a antítese da conversa é a polarização exacerbada.

DIEGO MIR

Conversar é uma arte em perigo de extinção?

Conversar é uma arte em perigo de extinção? Dizer que sim seria, no mínimo, controvertido, porque hoje tudo ao nosso redor está montado de maneira que nos chegam sem cessar oportunidades de interagir tanto com amigos quanto com desconhecidos. A conectividade digital permite trocar mensagens sem limite, de modo que vivemos na ilusão de estarmos imersos em uma espécie de conversa infinita. A pergunta inicial pode não parecer tão absurda se pararmos para pensar sobre o que se entende por conversa e, especialmente, o que se espera de seus participantes: a expressão de argumentos, de um lado, e escuta atenta, de outro. Em nosso atual ambiente hipertecnificado, ambas as ações são um desafio. O primeiro exige certas doses de solidão prévia para que quem fala tenha tido a possibilidade de elaborar algo genuinamente próprio; o segundo, prestar atenção. Ou, dito de outra forma, remar contra a corrente no caudaloso rio de estímulos e interrupções pelo qual navegamos diariamente. E, além disso, dialogar não é uma troca de monólogos. Jean de La Bruyère dizia que o talento da conversa não consiste tanto em mostrar muito, mas em fazer que os outros encontrem.

Nossas vidas são baseadas em interações e a comunicação verbal é a ferramenta mais à mão para produzi-las. Ninguém discute a máxima aristotélica de que o homem é um animal social inclinado a exteriorizar opiniões e sentimentos. Portanto, o silêncio imposto implica pesar, e quando um ente querido deixa de nos dirigir a palavra, experimentamos dor. O escritor Henry Fielding, em seu ensaio de 1743 dedicado à conversa, a definiu como a troca de ideias mediante a qual se examina a verdade e na qual cada questão é analisada a partir de diferentes pontos de vista, de modo que o conhecimento seja compartilhado. A história conheceu grandes momentos dessa arte desde que Platão observou que é a mais elevada forma de conhecimento. Muitos séculos depois se começou a perceber a relação direta entre a estabilidade política e o mundo da conversa, que David Hume descreveu como a conversa respeitosa na qual se dá e se recebe no interesse de um gozo mútuo. Para manter um intercâmbio linguístico autêntico deve-se deixar de lado a vaidade, a intransigência e o orgulho; assim, a antítese da conversa é a polarização exacerbada.

A conversa, como se desenvolveu tradicionalmente ao longo da história, tem um denominador comum: o cara a cara, o aqui e agora. E essa necessidade de nos comunicar olhando nos olhos é o que a onipresença das telas já começou a diluir, a ponto de haver quem chegou a acreditar que, com esses sucedâneos de colóquios mediados por um dispositivo, nada se perde no caminho. A tela, cabe lembrar, é não apenas uma superfície que transmite conteúdos, mas também é, em sua segunda acepção, uma separação, uma barreira ou proteção que se interpõe entre os indivíduos. Por isso pesquisadores como Sherry Turkle, professora de Estudos Sociais de Ciência e Tecnologia do MIT, alertam para a crise de empatia promovida pelos aparelhos eletrônicos, pois nos privam de ver as emoções que afloram quando duas pessoas se explicam frente a frente e em tempo real. Além disso, conversar também é a maneira mais eficaz de criar laços afetivos. Turkle aponta em Reclaiming Conversation (Em Defesa da Conversa) que esperamos cada vez mais da tecnologia e menos das pessoas que nos rodeiam, às quais arrebatamos boa parte da nossa atenção para redirecioná-la a conteúdos alojados em outro lugar. “Sacrificamos a conversa pela mera conexão”, acrescenta, citando estudos científicos que demonstram que a simples presença de um telefone sobre a mesa, ainda que desconectado, desvirtua a atenção de todos os presentes. Outro dado preocupante: quanto mais tempo as crianças passam conectadas, menor é sua capacidade de identificar sentimentos alheios.

Diego Mir 

Nossa confiança na tecnologia para preencher os silêncios, combater o tédio e nos expressar sem o medo de nos sentirmos julgados é tanta que a indústria se esforça para desenvolver a inteligência artificial para que possamos falar com objetos em vez de pessoas. Os robôs de conversação já são uma realidade. Hoje é possível coletar todas as mensagens e comentários de um usuário na rede para que, uma vez morto, possam ser recriados seus padrões de conversação, de modo a podermos continuar trocando mensagens com ele. Embora isso, como Alan Turing vaticinou, não deixará de ser um jogo de imitação. A tecnologia é um meio extraordinário, mas nada é capaz, adverte Turkle, de substituir uma comunicação em pessoa e os benefícios que traz. O sociólogo Georg Simmel, já no início do século passado, qualificou a conversa de antídoto contra a pressão e o estresse causados pela vida moderna. Recentemente, um estudo da Universidade de Chicago provou que a conversa casual entre dois estranhos em um trem ou sala de espera faz desse momento uma experiência mais agradável. Talvez, apontam seus autores, estejamos superestimando o desejo de privacidade em um planeta cada vez mais povoado. Não entender os benefícios da interação social resulta inevitavelmente em solidão, empobrecimento e falta de empatia.

Ensinando, na escola, bondade e empatia, reduziríamos conflitos interpessoais?
A política, o direito de nascer, casar, adotar e de morrer

A política, o direito de nascer, casar, adotar e de morrer

 

A política que tradicionalmente se ocupo do “entre” o nascimento e a morte, agora se expande a ambos e tenta conceder às pessoas o direito de decidir o início e o final da vida.

La Moneda, el palacio presidencial de Chile, fue iluminado con los colores de la bandera LGBTQI el 17 de mayo de 2019. CreditReuters

 

 

 

 

 

Ministra diz que um filme converte meninas heterossexuais em lésbicas

A pastora evangélica e ministra da Mulher, da Família e dos DDHH assegura que a rainha Elsa, da película da Disney “Frozen” é lésbica.“Sabem por que ela termina só num castelo de gelo? ¡Porque é lésbica!”

Ministra de la Mujer brasileña asegura que “Frozen” convierte a las niñas en lesbianas

La pastora evangélica y ministra de la Mujer y Familia asegura que la reina Elsa, de la exitosa película de Disney "Frozen" es lesbiana. Las bromas y burlas en el internet no se han hecho esperar.

Damares Alves era pastora evangélica antes de que Jair Bolsonaro la pusiera en el Ministerio de la Mujer, Familia y Derechos Humanos. Se ha hecho famosa por hacer afirmaciones como que ha visto a Jesucristo subir en un árbol de guayabas, o que “las niñas deben vestir de rosa y los niños de azul”.

Ahora, ha trascendido un video en el que se le ve asegurando que la película “Frozen” convierte a las niñas en lesbianas.

“¿Saben por qué ella termina sola en un castillo de hielo? ¡Porque es lesbiana!”, dijo Alves sobre el persona de la reina Elsa, durante un acto público celebrado el año pasado.

También se atrevió a decir -jugando de guionista futuróloga- que Elsa volverá para despertar a la Bella Durmiente con un “beso lésbico”. De acuerdo a sus declaraciones, las mujeres de antaño “soñaban con su príncipe” pero las de hoy en día, por culpa de las películas animadas, las chicas jóvenes esperan por su “encantadora princesa”.

Damares Alves es el prototipo de pastora evangélica neopentecostal y, según ella misma dice, la mujer cristiana “debe ser sumisa al hombre” en el matrimonio. Afirma que, gracias a que Bolsonaro es creyente en Dios, Brasil está entrando en una “nueva era” donde el sexo homosexual se entiende como una “aberración”. A pesar de que asegura ser una mujer estudiada, cuando se le pidieron sus atestados aseguró que su conocimiento se basa en “títulos bíblicos”.

O negócio da felicidade, a fraude do século XXI

Apesar do individualismo crescente, grande parte dos nossos problemas tem dimensão social: a solidão, especialmente dos mais velhos. Tanto a mindfulness como os livros de autoajuda tentam nos convencer de que, mudando nossa mente, podemos mudar a realidade e, individualmente, podemos alcançar a felicidade.

Imagem: Joan Cornellà

Uma fraude chamada Felicidade

No inverno de 2013, a multinacional de refrigerantes Coca-Cola anunciou na Espanha o lançamento de uma páginawebcom mais de 400 estudos sobre felicidade e saúde, que se pretendia como referência no campo das pesquisas sobre bem-estar. O fez por meio do Instituto Coca-Cola da Felicidade, constituído no âmbito da divisão espanhola da companhia, que em 2010 e 2012 já tinha organizado em Madri duas edições de um evento denominado Congresso Internacional da Felicidade.

Entre o artifício publicitário e a produção de uma imagem amigável para a marca, sob o álibi filantrópico de responder ao crescente interesse sobre o tema, a Coca-Cola se juntou a uma agenda global que propõe ser feliz como resposta para todos os males.

Margarita Álvarez é uma das 50 mulheres mais poderosas da Espanha, segundo a revistaForbes, e também foi incluída na lista das 100 mulheres mais influentes do país em 2016, na categoria das executivas, elaborada pelo portal Mujeres&Cia[Nota do Tradutor: algo como a versão espanhola exclusivamente feminina da revista Você S.A.]. Álvarez criou e presidiu o Instituto Coca-Cola da Felicidade entre janeiro de 2008 e março de 2011.Ela acaba de publicarDesconstruindo a felicidade, um livro cujo propósito, conforme se lê na nota de imprensa divulgada pela editora Alienta[N. do T.: em português, “Encoraja”], é “ajudar a você a averiguar se a felicidade realmente existe e, se existe, determinar onde pode encontrá-la”.

A nota acrescenta que nas suas páginas não há “regras nem pautas, só conhecimento. Porque saber e possuir informação sobre algo tão relevante, ajudará a você a entender como funciona o cérebro, como pode utilizar os seus pensamentos e como pode identificar e aceitar todas as suas emoções, para enfrentar melhor as circunstâncias da vida”.

Parece pouco provável que a ideia de ser feliz com que lida Álvarez tenha alguma relação com a que possam ter, por exemplo, as mais de 800 pessoas demitidas da fábrica da Coca-Cola de Fuenlabrada (Madri) desde 2014.A dela se trata, antes, de mais uma das vozes dos privilegiados que durante os últimos 30 anos participaram da construção e propagação de uma noção de felicidade que repousa sobre o ímpeto, a vontade e a superação individual como ferramentas para alcançá-la. Livros de autoajuda, oficinas de pensamento positivo e palestras motivacionais difundiram a miragem de que ser feliz está ao seu alcance e que não é preciso mais que desejá-lo.

Nesses tempos da mais grave crise econômica mundial desde ocrackde 1929, discursos como esse encontraram um público desesperadamente receptivo, ao qual que se oferece bem-estar simplesmente olhando para dentro de si, sem ter que se relacionar com absolutamente mais ninguém. Claro, não é exatamente assim: essa felicidade prometida passa necessariamente por poder pagar, porque o que há detrás dela tem muito pouco de altruísta.

“Toma-se como ponto de partida que se trata de uma escolha pessoal e que, para ser feliz, basta que uma pessoa decida ser e se dedique a isso por meio de uma série de guias, conselhos, técnicas, exercícios, que esses pretensos especialistas dos mais diversos campos propõem: cientistas, psicólogos,coaches, escritores de autoajuda e uma enorme quantidade de profissionais que voejam no mercado da felicidade”, explica Edgar Cabanas. Esse doutor em Psicologia e pesquisador da Universidade Camilo José Cela, de Madrid, é o autor, junto com Eva Illouz, deHappycracia(Ed. Paidós, 2019), um ensaio que passa o bisturi nos argumentos manuseados pela “ciência da felicidade”; argumentos que ignoram questões sociais, morais, culturais, econômicas, históricas ou políticas, para apresentar teses em aparência objetivas.

“Enquanto a predisposição dessa ideia de felicidade é a de produzir seres completos, realizados, satisfeitos, o que acaba ficando é uma permanente insatisfação: a felicidade é concebida como uma meta que nunca se alcança, que nunca chega a se materializar. É sempre um processo constante, que faz a pessoa embarcar em uma busca obsessiva de maneiras de melhorar a si mesma, seu estado emocional, a administração de si no trabalho, na educação, na intimidade”, sustenta Cabanas.

Nesse sentido, a pesquisadora Sara Ahmed, que publicou há uma décadaThe Promise of Happiness[A promessa de felicidade] (Duke University Press, 2010), traduzido para o espanhol este ano pela editora argentina Caja Negra, assinalava em março, em uma entrevista paraEl Saltoque“a felicidade, como promessa de viver de um determinado modo, é uma técnica para dirigir as pessoas”.

Tornando as coisas ainda mais precisas, Fefa Vila Núñez, professora de Sociologia do Gênero na Universidade Complutense de Madrid, nota que essa concepção“nos impele, nos ordena e dirige em direção ao consumo, vinculado este a uma ideia de vida sem fim, forjada sobre um hedonismo sem limites, onde melancolia e tecnofilia[N. do T.: a obsessão pela tecnologia]se unem num abraço íntimo, para conformar a noção de ganho, de êxito, de imortalidade, de um prazer infinito para aquele que não se desvie do caminho traçado”.

A pesquisadora encontra a origem desse discurso num “maquinário de felicidade” ativado depois da I Guerra Mundial e relacionado a um “capitalismo de consumo” que foi modelando a noção de felicidade até nossos dias.

A equação da felicidade

O livro de Margarita Álvarez conta com duas assinaturas convidadas muito significativas. O prólogo é de Marcos de Quinto, ex-vice-presidente da Coca-Cola Espanha e número dois, por Madri, do [partido de direita]Ciudadanosnas próximas eleições gerais. Já o posfácio fica a cargo de Chris Gardner, cuja história costuma ser usada como exemplo pela assim chamada “psicologia positiva”. Como exceção tendenciosamente convertida em regra, a biografia de Gardner vai da pobreza ao êxito empresarial, tendo sido retratada no filmeEm busca da felicidade, de 2006, protagonizado por Will Smith.Gardner é hoje um multimilionário que se dedica à filantropia e a dar conferências sobre como a felicidade depende da vontade individual. “Se você quiser, pode ser feliz” é sua mensagem.

Um nome chave no desenvolvimento da “ciência da felicidade” é o de Martin E. P. Seligman[N. do T.: ironicamente homônimo (talvez até de forma deliberada) do personagem de Lars von Trier no filme “Ninfomaníaca”, de 2013]. Eleito, em 1998, presidente da Associação Norte-Americana de Psicologia (APA, em sua sigla em inglês), pode ser considerado como um dos fundadores da “psicologia positiva”, uma vez que participou de seu manifesto introdutório, publicado no ano 2000. Seligman propõe um novo enfoque sobre a saúde mental, distanciado da psicologia clínica e enfocado na promoção do que ele considera “positivo”, a vida boa, para encontrar as chaves do crescimento pessoal.

No seu escritório na APA, Seligman rapidamente começou a receber polpudas doações e cheques de vários zeros, procedentes delobbiesconservadores e instituições religiosas interessadas em promover a noção de felicidade que essa nova corrente da psicologia promulga. A difusão, pelos meios de comunicação e outros canais, de algumas de suas publicações gerou a impressão de que existiria uma disciplina científica capaz de aportar chaves inéditas para alcançar o bem-estar. A repercussão dessas teorias foi mundial. No entanto, seus objetivos, resultados e métodos foram criticados pela falta de consenso, definição e rigor científico.

“Mais que enganosas, eu diria que podem ser perigosas em termos sociais e políticos, além de decepcionantes em termos pessoais”, considera Cabanas, que indica o mercado, as empresas e a escola como agentes principais na elaboração e divulgação de certas noções que se articulam diretamente com valores culturais arraigados no pensamento liberal norte-americano.

Seligman[N. do T.: de fato, inacreditavelmente homônimo do personagem cheio de teorias e equações do filme citado de Lars von Trier; personagem que, ao final, cede a seus próprios impulsos predatórios]chegou a formularuma equação que explicaria a proporção de fatores que dão como resultado a felicidade. Ela seria a soma de uma grandeza pré-definida (a herança genética) com variáveis da ação voluntária e de circunstâncias pessoais. Sua fórmula outorga ao primeiro fator o peso de 50%, ao fator volitivo o peso de 40%, e tão apenas 10% a todo o resto que diz respeito a coisas como nível de renda, educação ou classe social. Seguindo essa receita, a psicologia positiva tem sido categórica ao considerar que o dinheiro não influi substancialmente na felicidade humana, por exemplo.

EmThe Promise of Happiness[A promessa de felicidade], Ahmed resumiu a tautologia que sustenta o campo da psicologia positiva. Toda ela “se baseia nesta premissa: se dizemos ‘sou feliz’ ou fazemos outras declarações positivas sobre nós mesmos ― se praticamos o otimismo ao ponto de vermos que o lado amável das coisas possa se converter em rotina ―, seremos felizes”.

Da páginawebapresentada pela Coca-Cola como o grande arquivo sobre a felicidade, não restou absolutamente nada cinco anos depois.

Felicidade Interna Bruta

Desde 2013, 20 de março é celebrado como o Dia Internacional da Felicidade. Em sua resolução 66/281 de 2012, a Assembleia Geral daONU determinou essa data para reconhecer a relevância da felicidade e do bem-estar como aspirações universais dos seres humanos, e a importância de sua inclusão nas políticas de governo. Trata-se de uma medida controversa, pela dificuldade de encontrar indicadores objetivos que quantifiquem o grau de felicidade, além das repercussões derivadas de sua conversão em norteadora de ações de governo, em prioridade a outras metas como a redução das desigualdades, a luta contra a corrupção e o desemprego. Em outras palavras, o risco de que a administração da coisa pública preste mais atenção a um guru damindfulness[N. do T.: “atenção plena”]que aos sindicatos é real.

“As formas de fazer política baseadas na felicidade ― opina Cabanas ― implicam exaltar as questões individuais e desfigurar as sociais, objetivas e estruturais. Deposita-se toda ênfase em que o mais importante é a forma como os indivíduos se sentem, como se a política se reduzisse a fazer se sentir bem ou mal, e não tivesse nada a ver com um debate moral ou ideológico”.

Depois de aprovar alguns dos cortes orçamentários mais significativos da história do país, especialmente sobre gastos sociais, em fins de novembro de 2010o primeiro ministro britânico David Cameron propôs a realização de uma pesquisa para medir a felicidade dos cidadãos, no intento de difundir junto à opinião pública a ideia de que o bem-estar se encontra em outras variáveis diferentes do Produto Interno Bruto. Essa parece ser uma iniciativa recorrente em vários países, e que pode ser entendida como uma cortina de fumaça para distrair a atenção.

Em 2016, o primeiro ministro e vice-presidente dosEmirados Árabes Unidos, xeque Mohamed ben Rashid Al Maktoum, anunciou a criação do Ministério da Felicidade, para produzir no país “gentileza social e satisfação como valores fundamentais”. Do mesmo modo, dispôs essa novidade no âmbito de una série de reformas, entre as quais se destacava a permissão ao setor privado de se encarregar da maioria dos serviços públicos.

No seu relatório de 2017/2018 sobre Direitos Humanos, a Anistia Internacional concluía que os Emirados Árabes Unidosrestringem arbitrariamente o direito à liberdade de expressão e de associação, que continuavam presas dezenas de pessoas condenadas em processos viciados, muitas encarceradas por suas ideias políticas, e que as autoridades emiratis mantinham os detidos sob condições que podiam ser configuradas como tortura. Também assinalava que os sindicatos continuavam proibidos e que os trabalhadores imigrantes que participassem de greves podiam ser expulsos, sob proibição de regressar ao país durante um ano.

Os Emirados Árabes Unidos ocupam a posição 21 de um total de 156 países, na edição de 2019 doRelatório Anual sobre Felicidade Mundial, que as Nações Unidas publicaram no tal dia 20 de março. Trata-se da sétima edição de um estudo que, neste ano, conforme seus autores, colocaria o foco na relação entre felicidade e comunidade e em como a tecnologia da informação, os governos e as normas sociais influem nas comunidades. Finlândia, Dinamarca e Noruega se situam no pódio desse ranking tão peculiar, enquanto Israel e Estados Unidos ― dois países com enormes taxas de desigualdade e pobreza; o primeiro, aliás, sustentado sobre a discriminação da população palestina ― alcançam os postos 13 e 19 respectivamente.

A felicidade na Espanha a teria elevado, em um ano, do 36º ao 30º lugar nessa lista cuja confecção levaria em conta variáveis como expectativa de vida saudável, assistência social, liberdade para a tomada de decisões, generosidade e percepção da corrupção[N. do T.: Há uma ironia sutil no texto, que pode passar desapercebida por aqueles menos familiarizados com a situação política espanhola: são exatamente essas “variáveis” que vêm sendo objeto de considerável inquietação pública no país].

Sobre os meandros onde se entrecruzam política e felicidade conhece muito bem a filósofa Victoria Camps, senadora pelo Partido dos Socialistas da Catalunha (PSC) entre 1993 e 1996 eganhadora do Prêmio Nacional de Ensaio de 2012 com o livroEl gobierno de las emociones(Editorial Herder, 2011). Na sua opinião, a busca da felicidade é “um direito, expresso de diferentes formas: o direito à igualdade, a ter uma certa proteção por parte dos poderes públicos, para que todos, e não apenas uns poucos, tenham a liberdade necessária para escolher uma certa forma de vida”. Por isso, considera que a política não deve garantir a felicidade, mas que “possamos buscar a felicidade”. Ela entende que o modelo de Estado do bem-estar “ia nessa direção, de proteger socialmente os mais desprotegidos, redistribuir a riqueza e igualar as condições de felicidade”. Para essa filósofa, o Estado do bem-estar social está em crise, mas acredita que “era um bom modelo e que deveria ser estimulado, buscando adaptá-lo à novas necessidades, corrigindo aquilo que não funciona mais”.

Camps conversa comEl Saltosobre seu recente ensaio, intitulado precisamenteLa búsqueda de la felicidad(Arpa Editores, 2019).Como filósofa, zela pela distância entre a sua disciplina e o palavrório da autoajuda: “Creio que estão nos antípodas uma coisa da outra. A filosofia não dá receitas, mas propõe questões e obriga a aprofundar, a pensar, a encontrar soluções”. Também lembra algo que o paradigma da psicologia positiva tende a esquecer: “As condições materiais afetam bastante. Aristóteles que o diga: a felicidade não está na riqueza, na honra, no êxito, mas isso tudo é necessário para ser virtuoso. Ou como dizia Bertolt Brecht: primeiro é preciso comer, e depois falar de moral”.

Por fim, reflete sobre alguns aspectos nocivos resultantes dessa promoção da felicidade como objetivo impositivo: “O que ela busca é que as pessoas estejam contentes e não incomodem muito. Em todos os domínios ― na política, na empresa, na educação ― isso é buscado por vias muito similares às da autoajuda, de forma muito simples, que não tem nada a ver com a felicidade. Na política, todas as medidas antipopulares, difíceis de explicar mesmo que sejam boas para as pessoas, são difíceis de propor porque amedrontam os políticos, que preferem que as pessoas estejam contentes com medidas muito mais simples”.

Rumo à felicidade… através da greve

Em uma entrevista publicada na páginawebdeEl Saltoem junho de 2018, o músico asturianoNacho Vegasfalava de reivindicar a infelicidade, já que, na sua opinião,“há momentos em que parece que vivemos nisso que Alberto Santamaría chama de capitalismo afetivo, no qual algumas empresas medem quanto custa para elas a infelicidade dos seus trabalhadores, e se esforçam, com essas ondas motivacionais e decoaching, não a criar felicidade, porque o capitalismo não pode fazer isso, mas em mudar a resposta das pessoas diante da infelicidade”.

Alberto Santamaría é professor de Teoria da Arte na Universidade de Salamanca. No ano passado publicouEn los límites de lo posible[Nos limites do possível] (Ed. Akal), uma tentativa de rastrear a forma como a criatividade, as emoções ou a imaginação possam conformar um mapa afetivo propício para a prosperidade econômica.“As empresas estão se dando conta de que a infelicidade, a depressão, são problemas gravíssimos. Pois bem, o que buscam não é uma solução direta. Sua estratégia se baseia em ampliar a dinâmica de duplo reforçamento entre relação mercantil e desejos. Assim, a narrativa empresarial quer nos vender a noção de que o único lugar onde realmente seremos felizes é aquele do trabalho”, comentou aEl Salto.

Para Isabel Benítez, socióloga e jornalista especializada em trabalho e conflitos laborais,a resposta que as empresas oferecem diante da infelicidade dos seus quadros de funcionários é um “mecanismo sofisticado de domesticação, que busca implementar tanto a produtividade direta, ao tentar melhorar a satisfação, lançando mão dos recursos emocionais íntimos das pessoas, como também a produtividade indireta: de reduzir o conflito trabalhista, que é a articulação coletiva do mal-estar comum”. Na sua opinião, é “imensamente difícil” que no trabalho assalariado se encontre uma possibilidade de realização pessoal-profissional, ainda que observe que “no nível individual há, sim, quem o consiga, apesar da instabilidade, da arbitrariedade, da falta de perspectiva, da ausência de controle sobre o quê, o como e o ‘para quê’ do seu trabalho”.

Benítez escreveu, junto com Homera Rosetti,La huelga de Panrico[A greve de Panrico] (Ed. Atrapasueños, 2018), umlivro sobre a experiência da greve indefinida que o efetivo de funcionários da única fábrica na Catalunha da antiga panificadora Panrico manteve entre outubro de 2013 e junho de 2014[N. do T.: A firma buscava reduzir salários e demitir quase 2.000 funcionários, na tentativa de se ajustar aos problemas econômicos, que acabaram sendo superados sem essas medidas, possibilitando a venda da empresa, em condições superavitárias, dois anos depois, para um grupo mexicano]. Ela acredita que os momentos de organização, de ganho de posições e de conquista de mudanças no campo laboral são, estes sim, fonte de satisfação e crescimento para os trabalhadores, apesar de todos os obstáculos.

Por isso, considera que a greve não deixa ninguém na indiferença:“É una alteração da normalidade em que se incrementa a sociabilidade entre trabalhadores, se põe à prova a capacidade de análise e de organização coletiva, e se descobrem habilidades ‘ocultas’: criatividade em todos os níveis para pensar ― onde, quando, como pressionar a empresa, para poder dirigir-se aos demais colegas de trabalho, para ativar solidariedades externas a ele –, para fazer — construir piquetes, acampamentos –, para negociar, para planejar. As greves, os processos de luta coletiva, modificam as pessoas que participam. São momentos de muita tensão e emoção, em todos os sentidos”.

Eu não quero ser feliz… andar tranquilamente na favela em que eu nasci… eh!

“Mas para mim tem um gosto tão ruim!…”, diz a letra de uma canção do grupo de rock espanhol Los Enemigos, que reconhece o incômodo próprio diante de alguém que consegue sorrir quando a ocasião exige, alguém que distingue os meios dos fins e sabe até onde pode ir, diante de alguém, em suma, que é tão feliz e que se entrosa bem. A canção, incluída no disco “La vida mata” (1990), pode ser lida como uma antecipação ao agastamento diante da impossibilidade de alcançar essa meta da felicidade sugerida como ideal a partir de tantas frentes. Mas também, em certa medida, como uma reação.

Quase trinta anos depois da sua gravação, Edgar Cabanas observa que está se gerando na Espanha uma certa consciência crítica. “O outro discurso ganha porque é mais simplista, facilmente traduzível em manchetes, incorporável em políticas empresariais, comercializável, mas também cresce um terreno fértil, um meio de cultura crítico para se contrapor a ele”, nota o coautor deHappycracia.

A professora Vila Núñez defende que “enquanto houver resistência, não há triunfo”, mesmo que não tenha dúvidas de que estamos em uma nova fase do avanço do capitalismo, “um estágio sofisticado, definido pelo assalto ao desejo, à própria subjetividade. Um inferno à medida do nosso desejo, nos lembraria hoje, se estivesse entre nós, Jesús Ibáñez. Já não somos apenas corpos disciplinados, mas desejos expropriados, corpos sem memória”.

No seu entendimento, numa sociedade que afirma o imperativo da felicidade “nada mais tem sentido porque nada tem nem princípio nem fim, só existe o ‘vai!’, o ‘just do it!’, porque não há nem lembranças nem compromissos, não somos ninguém, não viemos de parte alguma e não vamos a parte alguma. Esse é o estado da questão, é o conto do balanço das contas: Sísifo arrastando a pedra que, ao chegar ao alto, sempre está à beira de cair”.

La vida de las estrellas[A vida das estrelas] (Ed. La Oveja Roja), segundo romance de Noelia Pena, foi publicado ao final de 2018. Trata-se de um relato sobre outras realidades, que não aquelas impostas pelo arquétipo da pessoa triunfante, oself-made winnere feliz; realidades que essa figura pretende ocultar. Para a autora, o que interessava ― diz ela aEl Salto― era “lançar um pouco de luz sobre certos problemas e conflitos que nem sempre queremos encarar, como a doença, a solidão, o isolamento, o abuso. A proliferação de patologias como a ansiedade e a depressão evidencia que esse sistema não nos deixa viver: nos espreme e asfixia. O que acontece quando uma depressão nos impede trabalhar ou quando perdemos um emprego? Nossa segurança se estremece, e com ela o modelo de vida que projetamos em torno do êxito profissional”.

Pena acredita que o grande problema social continua sendo a emancipação, e trata disso no seu livro, mas garante que não pretendeu que seus personagens fossem o contraponto ao que prescreve a psicologia positiva: “O que se pode ver nos problemas dos personagens do romance é a dimensão coletiva dos mal-estares contemporâneos. Apesar do individualismo crescente, grande parte dos nossos problemas tem dimensão social: a solidão dos personagens, para não ir muito longe, especialmente dos mais velhos. Tanto amindfulnesscomo os livros de autoajuda tentam nos convencer de que, mudando nossa mente, podemos mudar a realidade e, individualmente, podemos alcançar a felicidade. Mas como ser feliz, se a solução para os nossos problemas não é individual, mas comporta decisões alheias, sejam políticas, médicas ou então que apontam para estruturas de poder assentadas há séculos, ou para a violência sobre nossos corpos por parte de outras pessoas?”. A resposta a essa pergunta é, possivelmente, a mais importante de todas as que se buscam ao longo da vida.

Fonte Brasil:Outras Palavras
Por: José Durán Rodriguez
Tradução: Ricardo Cavalcanti-Schiel
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“A liderança é uma espécie de armadilha para as mulheres”. Entrevista com Virginia García Beaudoux

O#8Mmais uma vez revela a desigualdade de gênero, em particular, ostetos de cristalque as mulheres enfrentam na vida cotidiana, bem como no âmbito político. Evidência, sobretudo, a necessidade urgente de promover uma agenda de gênero com enfoque em direitos humanos que não só atenda de maneira urgente o impacto que supõe forçar uma menina estuprada a continuar uma gravidez contra sua vontade, mas também asdesigualdades estruturaisque arrastam as sociedades, produto de uma cultura patriarcal tão arraigada, como imperceptível e invisibilizada.

A entrevista é deNatalia Aruguete, publicada porPágina|12, em 11-03-2019. A tradução é doCepat.

O teto de cristal na política

Depois de, há quase 30 anos, ter se especializado em opinião pública e consultoria de comunicação estratégica,Virginia Garcia Beaudouxteve uma reviravolta substancial em sua trajetória profissional que atinge profundamente a vida política da região. Com o amparo institucional de organizações internacionais, como aONU Mulheres,PNUD,OEAeNIMD, assessora as mulheres políticas em grande parte daAmérica LatinaeEuropa, com objetivo de alcançar uma verdadeira paridade de gênero nas instâncias de decisão política, quebrando os tetos de cristal que impõem limites para o crescimento das mulheres na vida cotidiana – especialmente em espaços profissionais -, combater os estereótipos de gênero e reverter a vulnerabilidade que imprime a “dupla minoria”, em referência a mulheres pobres pertencentes a minorias étnicas ou raciais. Por ter assessorado mais de 1500 mulheres políticas,García Beaudouxfoi premiada na categoria ” mulheres influentes na política” pelaAcademia de Artes e Ciência Política de Washington. Além de consultora, é pesquisadora daCONICETe professora regular daUniversidade de Buenos Aires. Entre suas publicações, destaca-se seu recente livro¿Quién teme el poder de las mujeres? Bailar hacia atrás con tacones altos (Editora: Grupo 5).

Virginia Garcia Beaudoux, conversou com oPágina/12sobre a situação das mulheres políticas na região: os limites que impedem o seu desenvolvimento em termos de liderança, a falta de uma paridade substantiva em termos de participação política e a obrigação social de buscar uma igualdade real como um princípio constitucional.

Eis a entrevista.

Quais são os obstáculos estruturais que as mulheres enfrentam na vida cotidiana e na vida política?

Não havia percebido a magnitude da desigualdade de gênero até que comecei a trabalhar com mulheres na política, em consultoria com oPNUDemHonduras, emEl Salvador, naGuatemala. Em minha jornada pela América Latina, entendi que a dimensão da desigualdade é enorme e que, independentemente do país, todas as mulheres me falaram sobre os mesmos obstáculos dentro dos partidos e, acima de tudo, sobre confiança e o financiamento de suas campanhas eleitorais. Encontrei um denominador comum que foi além da política. Me deparei com um estereótipo muito marcado: a crença estendida e construída culturalmente de que a liderança é masculina. Se perguntarmos a uma pessoa três características do que consideramos masculino, dirá “força, assertividade, capacidade de tomar decisões”. Entre essas respostas, encontraremos uma sobreposição quase perfeita entre a descrição do masculino e a liderança. Por outro lado, quase nunca coincide o que nós estabelecemos que é feminino e a liderança. Este tem sido um grande obstáculo para as mulheres em todas as áreas do desenvolvimento. AUniversidade de Oxfordlevou 800 anos para nomear uma reitora. AUniversidade de Buenos Airesnão teve uma diretora feminina em toda a sua existência, quando a maioria dos professores universitários são mulheres…

Mas não são a maioria dos titulares de cátedras universitárias.

Exatamente. Esses tetos supostamente invisíveis – que chamamos de tetos de cristal – são tremendamente resistentes, é por isso que é muito difícil rompê-los e atravessá-los. Apenas 5% dos prêmiosNobelforam para mulheres. OFórum Econômico de Davosde 2018 foi considerado um sucesso retumbante porque 21% dos participantes eram mulheres. Então, a ideia de que bons líderes são homens continua a ser um dos estereótipos que mais complica o desenvolvimento das mulheres.

Como se traduzem esses estereótipos no plano cotidiano?

Estereótipos não só descrevem, também prescrevem. Se um estereótipo descreve que as mulheres são mais sensíveis do que os homens, a prescrição é que, diante da doença de uma criança ou de um idoso, é a mulher que deve assumir o controle porque é sensível e empática. Essas tarefas de cuidado atribuídas como naturais às mulheres acabam dificultando sua inserção na cadeia produtiva em igualdade de condições. Entre as pessoas sem educação formal, ao não poder terceirizar tarefas de cuidado, devem aceitar trabalhos de tempo parcial com salários muito mais baixos, a tal ponto que a diferença salarial entre os gêneros nesse setor chega a 35%.

Ou seja, as consequências do estereótipo de gênero não são homogêneas, mas, ao contrário, afetam mais os setores mais pobres.

Sim, claro. Mas ao mesmo tempo afeta a todas e a todos. Eu tive que entrevistar um homem na Holanda, onde 70% das mulheres trabalham em tempo parcial, trabalham quatro dias por semana e um daqueles dias dedicam aos filhos ou ao que quiserem. Os homens podem fazer o mesmo, mas quase nenhum homem escolhe trabalhar em tempo parcial. Quando este senhor disse em seu local de trabalho que queria começar a trabalhar em meio expediente, a primeira pergunta que fizeram foi: “Sua esposa está bem?” E a segunda: “Por que você quer trabalhar meio período, se não está se divorciando e nem sua esposa tem algum problema de saúde? Como este senhor queria ser pai além dos fins de semana, interpretaram que ele não gostava tanto de sua profissão. Isso quer dizer que esse estereótipo também prejudica os homens. O que acontece é que essas consequências são muito mais marcantes entre as mulheres, em termos de desigualdade política e econômica.

Quais elementos dessa desigualdade de gênero você observa em seu trabalho com mulheres políticas na América Latina?

Quanto mais tradicional é um país, mais difícil é superar os estereótipos. E nos países onde a religião tem muito peso, isso se torna mais complicado.É claro que temos diferenças sexuais, as mulheres podem gestar e os homens tendem a ter mais força física. Mas uma coisa é sexo e outra é o gênero como uma construção cultural. Em alguns países, onde as construções de gênero são muito mais binárias e onde há uma valorização dessa diferença, vale mais ser homem do que ser mulher. Mas também em países considerados paraísos de igualdade, como aSuéciaou aHolanda, encontramos essas características estereotipadas na distribuição de papéis. Há algumas questões interessantes a destacar nesse sentido.

Na América Latina, 52% da militância dos partidos políticos são mulheres, enquanto menos de 15% dos secretários gerais e presidentes de partidos políticos são mulheres. Isso é um claro teto de cristal na política. Não é natural que, diante de 52% das mulheres militantes, as cúpulas não reflitam essas proporções. NaGuatemala, perguntei: “Quantos partidos políticos existem?” A resposta foi: “35”. “E quantos são liderados por mulheres?”, complementei. “Quatro”, responderam. O mesmo naSuécia. “Quantos partidos políticos são liderados por mulheres?” “Nenhum”, disseram. E corrigiram: “Sim, existe um: oPartido Feminista“.

Quais são os outros aspectos que você mencionou como interessantes para analisar essas diferenças?

A primeira questão é ter cuidado em assimilar a igualdade numérica com a igualdade substantiva. Fizemos progressos em termos de igualdade numérica, porque as leis de paridade garantem que as listas sejam constituídas em 50% por homens e 50% por mulheres. Mas, além dessa igualdade numérica, que é importante, se trata de construir posições de poder e influência política. A formação das comissões parlamentares é um espaço onde são reproduzidos esses estereótipos. As mulheres são responsáveis pelaComissão de Saúde,Educação,Infância,MulhereseDeficiência, enquanto os homens estão noOrçamento,Obras Públicas,Trabalho. Então, devemos trabalhar nas dimensões da liderança para tender à paridade substantiva.

Quais características você encontra entre as mandatárias mulheres? O que as distingue?

Há muita diversidade nos estilos de liderança, a liderança é uma espécie de armadilha para as mulheres.

Em que sentido?

Se uma mulher mostra atributos considerados femininos, ela é vista como uma líder fraca. Mas se apresenta atributos “ao estiloAngela Merkel“, que são vistos como masculinos, ela é rotulada como desagradável ou não feminina. Como a liderança é pensada a partir de categorias definidas como masculinas, é difícil para uma mulher não ser criticada por seu estilo de liderança. No ano passado, havia apenas 15 chefes de Estado no mundo, há muito poucas mulheres no comando dos executivos.

Seguindo esse raciocínio, como as mulheres são representadas na política no geral, e nos meios de comunicação, em particular?

Existe um duplo padrão. A todo tempo vemos que as mulheres aparecem em sua qualidade como mães. Os meios de comunicação geralmente enfatizam o vínculo que elas têm com seus filhos ou o tempo que a maternidade as ocupa. QuandoHillary Clintonfoi avó, vários meios de comunicação nosEstados Unidosse perguntaram se, por ter se tornado avó, estaria em condições de ser presidenta. A revistaTimespublicou um artigo sobre os prós e contras de uma presidenta avó. Então me ocorreu olhar o que havia sido escrito sobre os homens que eram avós e que haviam chegado à Presidência dos Estados Unidos. Não escreveram uma só linha.Mitt Romneyapresentou 18 netos em campanha, ele tirou foto com 18 netos e ninguém se perguntou: “Pode um avô ser Presidente dos Estados Unidos?”.

Sabemos que é normal tanto para homens como para mulheres serem apadrinhados na política. No entanto, no caso das mulheres, o questionamento dos meios de comunicação é maior: “é a afilhada política de”, “é a esposa ou é filha de” … Quando uma mulher assume uma presidência ou um governo é mais frequente que se pergunte se estará realmente preparada para esse desafio. O mesmo não ocorre com um homem. A isso se soma comentários sobre seu guarda-roupa, aparência física, penteado, maquiagem. Como consequência, os eleitores, em suas avaliações, começam a vê-las com menos credibilidade, como menos confiáveis, menos fortes e diminuem a intenção de votar nas mulheres. Esse tipo de cobertura dos meios de comunicação as empurram mais para o mercado doméstico do que para o político.

Em sua experiência com mulheres políticas em países latino-americanos, você nota diferenças entre os países no estilo patriarcal de fazer política? Quais fatores incidem essas diferenças, se houver?

Em países com uma população nativa significativa e onde as mulheres vivem em uma situação econômica de maior vulnerabilidade – o que tecnicamente chamamos de “dupla minoria” – é claro que o desafio ainda é muito maior do que se fosse uma mulher branca de classe média. Efetivamente, as condições étnicas e a situação socioeconômica dentro do tecido social influenciam o grau de dificuldade, visibilidade e consideração que uma mulher tem dentro de um partido político na hora de adicioná-la a uma lista eleitoral.

Nesses lugares com uma dupla minoria, você observa conquistas a partir do trabalho que está sendo realizado?

Em todos os países se vê muitas mudanças e muito favoráveis, para todo o trabalho que está sendo feito. Embora sejam mais lentas do que gostaríamos, porque levará tempo para isso. Claramente as mulheres estão tendo mais voz, mais acesso, estão se tornando conscientes de seu papel e do espaço que tem para reivindicar o princípio constitucional, mas aqui há espaços em que elas terão que lutar e a luta não será fácil. EmHonduras, uma senhora me contava que quando faltavam medicamentos no estoque era ela que conseguia, que quando havia problemas com a água potável, era ela quem conseguia o caminhão cisterna, que quando alguém teve que transportar alguém, ela sabia onde encontrar a ambulância, mas a cada quatro anos um político homem veio e lhe pediu para conseguir votos das pessoas que ela ajudava. Até que um dia ela se perguntou por que ela não poderia ser a pessoa votada por aquela população. Todas essas mudanças geram uma maior consciência do valor político que essas mulheres têm para suas comunidades.

Essa consciência é suficiente?

Não. Também não impede que, depois de se tornar consciente, você enfrente uma sociedade que é patriarcal e um sistema político machista.

Como as mulheres políticas experimentam o financiamento de suas campanhas? Também nesse aspecto, seus direitos são violados?

Normalmente, as mulheres políticas perdem em matéria de financiamento: são enviadas para os distritos onde tem mais probabilidade de perder e, portanto, contam com menos recursos para suas campanhas eleitorais. O dinheiro que contam define uma posição de poder, assim, a distribuição de recursos simbólicos e econômicos tem um impacto significativo.

Quais medidas concretas estão sendo tomadas?

Para começar, está se trabalhando muito no nível de formação e treinamento de habilidades para mulheres no mundo público. As mulheres vêm com atraso em termos do número de redes que construímos na política. Eu não gosto de falar de “capacitação” porque creio que as mulheres são tremendamente capacitadas, o que fazemos é na verdade treinar habilidades que já temos e que nunca treinamos porque não tivemos a oportunidade de usá-las na política. Habilidades de liderança, negociação, comunicação, organização de uma campanha eleitoral, organização de uma equipe de voluntários para uma campanha, uso de redes sociais. Diferentes organizações, como asNações Unidase aOEA, estão investindo esforços em toda a América Latina para que as mulheres possam aperfeiçoar essas habilidades em campanhas eleitorais.

Outra linha visa propor que os partidos financiem atividades para as mulheres e que elas participem da montagem das listas eleitorais, além de treinar seus quadros masculinos em questões de gênero, porque senão as únicas que avançam em questões de saúde sexual e reprodutiva, de cuidado ou seja o que for, são mulheres.

E em relação aos estereótipos dos meios de comunicação?

Está se trabalhando com os meios de comunicação para deixarem de ser um obstáculo. São realizadas oficinas com jornalistas, editores e gestores dos veículos de comunicação, onde são trabalhadas as características da cobertura e, dentro desta, os preconceitos em relação às mulheres políticas. E onde se pensa o que pode ser feito para melhorar esses tratamentos dos meios de comunicação. Eles mesmos começaram a gerar certas diretrizes: não tirar uma foto de uma mulher que não tiraria de um homem, não chegar com um microfone quando elas estão saindo da escola com seus filhos, estabelecer limites para que não haja diferenças entre uns e outras.

Como chamam a transversalidade da abordagem de gênero?

Aponta para mudanças no enfoque em matéria de políticas públicas. Por exemplo, no que diz respeito à licença-maternidade, se trata de pensar também em uma mudança na licença-paternidade para que as mulheres não sejam as únicas que cuidem de seus filhos. No campo econômico, é preciso buscar a forma em que as mulheres sejam mais favorecidas. Transversalizar o enfoque de gênero exige pensar que o cenário atual não é igual para homens e mulheres e devemos pensar em como nivelá-los. Os sistemas de orientação são muito bons. Trata-se de que as mulheres que já têm experiência na política podem orientar e ajudar aquelas que têm menos experiência.

Fonte: IHU
Por:Natalia Aruguete
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O reacionarismo é também uma reação à explosão do feminismo, do antirracismo e da luta LGBTs. Há uma nova geração de mulheres que não tem nada a perder e a temer. Essa onda feminista relativamente espontânea já começa a furar e renovar a bolha institucional, elegendo mulheres no Brasil e nos Estados Unidos.

Manifestantes argentinas pró-aborto em protesto na praça diante do Congresso Nacional, em Buenos Aires. Foto: Isis Medeiros/Farpa/Folhapress

A extrema direita venceu. Feministas, antirracistas e LGBTs também.

Em 2016,em uma escola secundarista de uma favela de Porto Alegre, Lucia Scalco e eu nos deparamos com dezenas de meninos fãs do “mito”. Por muito tempo, só conseguíamos enxergar esse fato, que dominava nossa análise.

Isso, em grande medida, prejudicava dar a devida atenção a meninas como Maria Rita, de 17 anos, única filha mulher de um soldado bolsonarista. Ela discutia cotidianamente com seu pai e irmão e, em 2018, já havia conseguido convencer a mãe que “eles não tinham argumentos, apenas raiva de tudo”.

A antropóloga Claudia Fonseca, nos anos 1980, chamava as mulheres de periferia de “mulheres valentes”: líderes comunitárias, mães e trabalhadoras – mas não necessariamente feministas.O que nós encontramos em 2016, quando nos permitimos olhar as coisas sob lentes diferentes, foi que as filhas das valentes agora se denominavam feministas, enfrentavam o poder patriarcal com argumentos sólidos, dados e conhecimento aprofundado de política. E melhor: elas eram em maior número do que os “minions”.

Talvez o que nos esteja faltando para começar 2019 é conseguir deslocar o foco exclusivo no círculo vicioso das manchetes trágicas e no aumento do autoritarismo para valorizar as grandes conquistas que mudaram uma geração inteira, e que produzirá impactos sociais e institucionais profundos daqui a alguns anos.

A crise de 2007/2008 propiciou a explosão de uma primavera de ocupações e protestos em massa no mundo todo. Muito é dito sobre o quanto essas manifestações causaram a ascensão da extrema direita. Menos atenção tem sido dada, entretanto, ao fato de que existiram outros desdobramentos possíveis dessas manifestações. Tanto oOccupy nos EstadosUnidosquanto asJornadas de Junho de 2013, por exemplo, também foram marcos do fortalecimento de uma nova subjetividade política que busca, na ação microscópica da ação direta, o afeto radical, a imaginação e a horizontalidade.

Quem sabe invertemos as lentes de análise? O reacionarismo emergente também pode ser entendido, entre muitos outros fatores, como uma reação à explosão do feminismo, do antirracismo e da luta dos grupos LGBTs, que sempre se organizaram no Brasil, mas que, nos últimos anos, atingiram uma capilaridade inédita — e perturbadora, para muitos.

Impulsionada pelo contágio das novas mídias digitais, emergiu a quarta onda feminista no mundo todo –especialmente no Sul global (veja abaixo alguns exemplos) –, que é orgânica, emergiu de baixo para cima e cada vez mais reinventa localmente os sentidos do movimento global #metoo.A onda internacional perpassa todas as gerações, mas é entre as adolescentes que desponta seu caráter mais profundo no sentido de ruptura da estrutura social: há uma nova geração de mulheres que não tem nada a perder e a temer.

Diz o cântico das marchas feministas que a “América Latina vai ser toda feminista”. Neste ano, as universidades chilenas, por exemplo, foramocupadascontra o assédio sexual. Na Argentina, filhas do movimento #niunamenos, aspibas(ativistas jovens)comandaramas vigílias durante a votação do aborto no Senado. Atualmente, meninas de 12, 13 anos já vão para a escola com o lenço verde, que simboliza a luta pelo aborto legal.

A cena feminista asiática está em plena ebulição. Na Coreia do Sul, as “irmãs de Seul”marcharamcontra o abuso sexual e a misoginia. NaChina, depois da prisão de cinco ativistas, o feminismo tem explodido em todo o país, e as jovens fazem performances criativas, como ocupar os banheiros masculinos, contra o machismo e o autoritarismo.

O mesmo ocorre em diversos países africanos. A juventude secundarista e universitária de Moçambique fundou oMovfemme, o Movimento das Jovens Feministas. Sob forte repressão, elas organizam eventos menores, como rodas de conversa em torno de uma fogueira para falar de sexualidade e direitos das mulheres.

Furando a bolha institucional

Lúcia Scalco e eu percebemos o rastro da primavera feminista de 2015 e das ocupações secundaristas de 2016 na periferia de Porto Alegre. Nós fazemos pesquisa lá há dez anos e percebemos que a intensidade e a capilaridade do feminismo entre as adolescentes era inédita.Existe toda uma nova geração de feministas, e elas foram fundamentais na contenção do crescimento de Bolsonaro no bairro em que moram.Muito antes de existir omovimento #elenão, elas já enfrentavam seus pais, irmãos e companheiros e, assim, mudavam o voto de suas mães e avós, que tradicionalmente seguiam o voto dos maridos.

O grupoMulheres Unidas contra Bolsonaroreuniu em poucos dias 4 milhões de mulheres no Facebook e o movimento #elenão foi a explosão disso tudo, constituindo-se também um grande momento de politização de mulheres. Obacklash(contra-ataque) não veio apenas dos bolsonaristas, mas também de alguns intelectuais de esquerda que, direta ou indiretamente, responsabilizaram as mulheres pelo crescimento de Bolsonaro na última semana no primeiro turno, desprezando as muitas variáveis políticas que levaram àquele cenário – argumento já refutado em artigo acadêmicode Daniela Mussi e Alvaro Bianchi.

Essa onda feminista relativamente espontânea já começa a furar erenovar a bolha institucional, elegendo mulheres no Brasil e nos Estados Unidos.

Enquanto a direita tradicional derreteu nessas eleições, e o PSL cresceu de forma fenomenal na extrema direita, o PSOL também elegeuAurea Carolina,Sâmia Bomfim,Fernanda Melchionna,Talíria Petronecomo deputadas federais; e a Rede elegeuJoênia Wapichana, a primeira indígena eleita no país. Além, é claro, das vitórias daBancada Ativista, deMonica Francisco, Erica Malunguinho,Luciana Genro, entre outras, em nível estadual.

Primeiros frutos das sementes de Marielle Franco, essas mulheres jovens possuem com forte vínculo com o ativismo e com a realidade popular. Essa nova bancada feminista não procurou surfar na onda de Junho de 2013 ou da Primavera Feminista de 2015 simplesmente – elas vêm organicamente das ruas e das lutas.

Nos Estados Unidos, as eleições do chamado “midterm”surpreendeue derrotou Trump no Congresso, tendo significativo número de recorde de mulheres eleitas, como as democratas Rashida Tlaib e Iham Omar (as primeiras islâmicas da eleitas), Deb Haaland e Sharice Davids (as primeiras indígenas eleitas), Ayanna Pressley (a primeira negra eleita por Massachussets) eAlexandria Ocasio-Cortez, uma das mais jovens deputadas já eleitas.

Ocasio-Corteztem sido um caso exemplar da renovação política. Mulher, mãe e latina do Bronx, ela encarna as lutas das minorias ao mesmo tempo em que resgata uma linguagem dos laços de amor da família e comunidade. Ela também produz um discurso mais universalista que dialoga diretamente com os anseios da classe trabalhadora constantemente usurpada: emprego, segurança, sistema de saúde e educação. Em suma, ao falar do amor e das dificuldades da vida cotidiana, ela atinge temas básicos que tocam no âmago dos anseios populares – temas que, apesar de básicos, têm sido deixados de lado pela grande narrativa da esquerda brasileira.

As diferenças de contexto norte-americano e brasileiro são enormes, evidentemente. Mas, em comum, essas mulheres encarnam um radicalismo necessário, conectado a uma ética e estética do século 21. Fazendo forte uso das redes sociais, por meio de stories do Instagram, essas mulheres transformam a política outrora hostil, inacessível e corrupta em algo atraente, palpável e transparente. São mulheres de carne e osso que fazem política olho no olho não apenas em época de eleição. Afinal, não basta apenas ocupar a política como também mudar o jeito de fazê-la.

Podemos, então, dizer que a configuração política de hoje extrapola as análises convencionais da polarização entre esquerda e direita, mas aponta para a existência de dupla divisão de ideologia e posicionalidade, ou seja, de um lado situa-se otipo idealdo homem branco de direita e, de outro lado, a mulher negra/lésbica/trans/pobre.

Quando o desespero bater sob o governo autoritário e misógino de Jair Bolsonaro, é importante olhar adiante e lembrar que muita energia está vindo de baixo, a qual, aos poucos, vai atingir os andares de cima.É uma questão de tempo: as adolescentes feministas irão crescer, e o mundo institucional terá que mudar para recebê-las.

Nossas conquistas em nível global são extraordinárias, mas muitos não irão te contar isso. A onda feminista dará força para resistir. Tenho confiança que muitas e renovadas versões do #elenão serão reeditadas, e miram não apenas derrubar os projetos de Bolsonaro, mas principalmente servir de espaço para a politização de mulheres. Mesmo derrotadas, somos vencedoras. Feliz 2019.

Fonte:The Intercept