Falar abertamente de sexo e de gênero não perverte crianças e jovens

Em “Três ensaios sobre a Teoria da Sexualidade” Freud desafiou a convenção da época dizendo que era um equívoco pensar que as práticas sexuais deveriam visar apenas fins reprodutivos – muitas delas (senão todas) teriam como objetivo o prazer – e que as crianças eram, sim, seres sexuais.

Alunos do colégio Magno, de São Paulo, durante aula de educação sexual.

Quer proteger crianças de abusos e preconceito? Então, precisamos falar sobre sexo e gênero com elas.

Em 1905Sigmund Freud lançou “Três ensaios sobre a Teoria da Sexualidade” e desafiou a convenção da época. Neles, Freud disse que era um equívoco pensar que as práticas sexuais deveriam visar apenas fins reprodutivos – muitas delas (senão todas) teriam como objetivo o prazer – e que as crianças eram, sim, seres sexuais. A obra escandalizou a sociedade do início do século 20 ao sugerir que a sexualidade fazia parte do desenvolvimento humano.

Hoje, quem se escandalizaria seria Freud. Passado mais de um século de incontáveis evidências sobre a naturalidade da diversidade sexual, que levaram aOrganização Mundial de Saúde, a OMS, a reconhecer que direitos sexuais são direitos humanos, a sociedade ainda não lida bem com essa ideia. Uma pequena amostra disso foi osuicídio recente de James Myles, de apenas 9 anos. Myles tirou a própria vida após ter sofrido bullying homofóbico em sua escola nos Estados Unidos.

A maior parte das crianças de 9 anos ainda não tem total consciência da sua identidade sexual e de gênero, mas já pode ser vítima de preconceito. As atitudes preconceituosas são dirigidas justamente a pessoas como Myles, que desviam do que é socialmente esperado para elas. Tragédias como essa revelam por que a população de lésbicas, gays, bissexuais e, principalmente de travestis e transexuais, são desproporcionalmente mais sujeitas aviolência letale têm maior índice de desfechos negativos em saúde mental. Inúmeras evidências internacionais mostram quejovenseadultosLGB apresentam prevalência de tentativa de suicídio duas vezes maior se comparados à da população heterossexual. O caso das pessoas trans é ainda mais grave,nos Estados Unidos41% delas já tentaram suicídio em comparação com 4,6% da população em geral.

No Brasil, o cenário não é diferente. Umapesquisa conduzidapelo meu grupo de pesquisa na PUC do Rio Grande do Sul, com amostra de quase 10 mil jovens entre 11 e 24 anos de todo o país mostrou que, de 2004 a 2012, as tentativas de suicídio entre aqueles que não haviam sofrido preconceito por causa de sua orientação sexual caíram 20%. Em contrapartida, entre aqueles que sofreram esse tipo de preconceito o aumento foi de 60%.

Orientação sexual e identidade de gênero não são doença

Historicamente, o fato de que as pessoas que desviavam do que era socialmente esperado em relação à sexualidade e ao gênero terem maior prevalência de depressão, ansiedade e tendência suicidas era encarado como indicador de psicopatologia. Ou seja, haveria algo intrínseco a homo, bi e transexualidade que as relacionaria à doença mental. Por quase um século, a heterossexualidade foi tratada, compulsoriamente, como a única forma de sexualidade – inclusive por meio de supostas terapias reversivas, conhecidas como a “cura gay”, que só promoveram mais sofrimento.

Essa coação social e médica, porém, nunca foi o suficiente para mudar o desejo sexual e a identidade de gênero naqueles que os expressavam. Portanto, não é razoável supor,como sugerem candidatos a presidente em cadeia nacional, que a mera menção da existência da diversidade sexual e de gênero seria o suficiente para que o mesmo acontecesse com a população hétero e cissexual –pessoas que têm uma identidade de gênero que concorda com o sexo atribuído no nascimento.

Com a progressiva remoção da homossexualidade dosmanuais de diagnósticos, essa compreensão ultrapassada mudou. Ser gay, lésbica ou bissexual não é um problema de saúde.O que leva a mais suicídios, depressão e ansiedade é o preconceito. Os esforços dos profissionais e políticas de saúde devem se voltar aocombate à discriminação.Na mesma esteira, em 2018, aOMS retirou a transexualidade do rol das doenças mentaisgarantindo o acesso aos procedimentos médicos de afirmação de gênero, ao mesmo tempo que diminui o estigma relacionado ao diagnóstico.

Mas como se combate o preconceito e se protege as crianças de agressões de natureza sexual? Falando de sexo e gênero de maneira franca e não estigmatizante nas escolas. Diversos estudos têm mostrado que a educação sexual, feita dessa forma, no contexto escolar écapaz de reduzir a vulnerabilidade para o HIV, aviolência sexual, e, principalmente,o preconceito. Em relação ao abuso sexual de crianças, diversas pesquisasapontam que programas que são focados no conhecimento a respeito da sexualidade, e treinamento de habilidades para identificar e evitar agressões sexuais são eficazes para reduzi-las.

Os detratores desse tipo de proposta costumam associar a tentativa de se tratar em sala de aula temas sobre sexualidade à pedofiliae à erotização precoce. Essa afirmação não tem qualquer respaldo científico. No Brasil, esse discurso é também paradoxal. Essa suposta tentativa de proteção à infânciaconvive com a produção e consumo crescente de imagens erotizadas das crianças, especialmente dirigida ao público masculino heterossexual.

Participantes da 16º edição da Caminhada de Mulheres Lésbicas e Bissexuais, com o tema “Somos Marielle”, contra a criminalização da pobreza, o genocídio e a intervenção militar, na avenida Paulista, na região central de São Paulo.
Foto: Eduardo Carmim/Photo Premium/Folhapress


Se as histórias de vida das pessoas LGBTs nunca forem contadas na escola e se os alunos e alunas nunca ouvirem as palavras homossexualidade ou transexualidade de maneira positiva, será imposto aos estudantes LGBTs que lidem com o bullying sozinhos. Enquanto o assunto for tratado como tabu, o fardo de ser “diferente” será apenas dos estudantes e de suas famílias.

Da mesma forma, quando não se discute abertamente como e quando a sexualidade deve acontecer e o que são toques e carícias esperados e consentidos, será imposto às crianças que são vítimas de abuso sexual (quase sempre dentro da família) que lidem com essa violência sozinhas.

Uma estratégia bem-sucedida nesse sentido é oGRIS – Montreal, o Grupo de Pesquisa e Intervenção Social. Fundada em 1994, a ONG realiza intervenções em escolas levando ex-alunos LGBTs para conversar com turmas de ensino fundamental e médio. Os ex-alunos contam suas próprias experiências de superação e como se preveniram de situações de violência e exclusão, além de responder a dúvidas das crianças e jovens.

Em relação à prevenção do suicídio, uma das melhores iniciativas é o projetoThe Trevor. Trata-se de uma ONG americana fundada em 1998, que oferece serviços de aconselhamento psicológico para jovens LGBTs, além de recursos educativos para pais e professores. O projeto foi lançado pelos idealizadores do filme “Trevor“, ganhador do Oscar de melhor curta-metragem em 1998, que conta a história de um jovem gay que tenta suicídio após sucessivos episódios de bullying escolar. No Brasil, infelizmente, não existem iniciativas como o Trevor e a Gris.

É surpreendente que, no Brasil, onde abundam dados sobre o flagelo doabuso sexual infantileviolência contra LGBTs, não estejamos implementando políticas para diminuir esses fenômenos com estratégias amplamente disponíveis na literatura científica. Pelo contrário, discute-se oboicotea tais estratégias, mostrando que a violência dirigida aos jovens LGBTs no Brasil não é uma crise pontual, mas um projeto deliberado.

O exemplo do GRIS, em Montreal, e do Trevor, nos Estados Unidos, revela que falar abertamente de sexo e de gênero não perverte crianças e jovenscomo acredita o candidato Jair Bolsonaro, mas previne que elas sejam as próximas vítimas da violência sexual, de homicídios e de suicídios que poderiam ser evitados.

Fonte:The Intercept
Por: Angelo Brandelli Costa
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O Projeto Discriminação da Associação de Psiquiatria do RGS – APRS

O fato da Conduta Discriminatória de uma determinada pessoa (discriminador) causar sofrimento mental em outra (discriminado), indica a necessidade de que profissionais da saúde mental devam se interessar pelo tema.logo

O Projeto Discriminação-APRS (PD) tem como objetivo básico a apropriação do estudo pela Psiquiatria da Conduta Discriminatória (CD), cuja origem é basicamente psicológica e que produz sofrimento mental e/ou físico no discriminado podendo chegar, em casos extremos, ao suicídio. O fato da CD de uma determinada pessoa (discriminador) causar sofrimento mental em outra (discriminado), indica a necessidade de que profissionais da saúde mental devam se interessar pelo tema.
Atualmente há na sociedade somente duas instâncias que auxiliam a inibir a CD: os grupos discriminados organizados e seus simpatizantes (organizações governamentais e não governamentais) e o Direito que considera criminosa esta conduta. O Direito já se apropriou do estudo da CD e a considera crime em muitas situações. Mesmo que a questão legal só apareça no final do processo discriminatório. O psiquismo, que está presente – no início, meio e fim do processo discriminatório – ainda não nos motivou a apropriação do seu estudo da maneira como a sociedade contemporânea o considera. Inicialmente, para isso deveríamos encontrar uma denominação-conceito compatível com crime, que é a definição da Ciência Jurídica para a CD nas sociedades mais avançadas. Certamente se a nossa área de atuação encontrar uma denominação-conceito mais atualizada, compatível com a do Direito, estaríamos criando uma terceira instância inibidora desta conduta geradora de sofrimento mental.
Para isso, é necessária uma maior mobilização e participação dos profissionais da saúde mental na discussão da CD. Estamos convidando os colegas interessados para conhecer e aprofundar o estudo sobre esse tema. A partir de encontros/debates decidiremos os próximos passos dentro da instituição. Também iniciaremos a divulgação do PD para profissionais e grupos de Saúde Mental e de Direitos Humanos com o objetivo de agregar outras parcerias que também possam contribuir para o avanço do entendimento do PD.
Interessados em participar do Projeto Discriminação, bem como em textos publicados sobre o tema, devem entrar em contato com o Dr. Telmo Kiguel através do email telki@terra.com.br

A seguir algumas matérias para um melhor entendimento com afirmações/declarações que coincidem com as idéias básicas do PD:

1 – Do Dr. Carlos Augusto Ferrari Filho: Quem é o Discriminador Machista, Racista, Homofóbico, Antissemita, etc.: uma visão psicanalítica

2 – Duas entrevistas com o coordenador do PD: aqui e aqui.

3 – A proposta diagnóstica formulada pela escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, no premiado livro Americanah.

4 – A do secretario-geral da ONU, António Guterres, sugerindo que as discriminações e o desrespeito aos direitos humanos devem ser prevenidos e definidos como doença.

5 – E um vídeo com a opinião do Dr. Drauzio Varella sobre a origem da homossexualidade.

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E por fim, as instituições que apoiam o Projeto Discriminaçã:

O Centro de Estudos Luis Guedes – CELG – do Departamento de Psiquiatria e Medicina Legal da Faculdade de Medicina da UFRGS e do Serviço de Psiquiatria do Hospital de Clinicas de Porto Alegre apoia o Projeto Discriminação – APRS.

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O Centro de Estudo de Psiquiatria Integrada – CENESPI – do Departamento de Psiquiatria e Medicina Legal da Faculdade de Medicina da PUCRS e do Serviço de Psiquiatria do Hospital São Lucas – PUCRS apoia o Projeto Discriminação – APRS.

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Os professores da Disciplina de Psiquiatria do Curso de Medicina da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre – UFCSPA apoiam o Projeto Discriminação – APRS.

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O Curso de Medicina da Universidade Luterana do Brasil – ULBRA, a Liga de Psiquiatria e a Liga de Medicina de Família e Comunidade apoiam o Projeto Discriminação – APRS.

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O SIMERS – Sindicato Médico do Rio Grande do Sul apoia o Projeto Discriminação – APRS.simers

A AMRIGS – Associação Médica do Rio Grande do Sul apoia o Projeto Discriminação – APRS

5 comentários
Saul Cypel Prof. Livre Docente de Neulogia Infantil      11 de agosto de 2016
Em momento oportuno APRS oferece a oportunidade para tratar da Discriminaçãp de modo abrangente, com sensibilidade para o sofrimento emocional que esta condição desumana produz, introduzindo este debate com outras instituições seriamente interessadas neste tema.
Meus cumprimentos por esta escolha que certamente trará resultados úteis à nossa sociedade.

Olga Garcia Falceto        12 de agosto de 2016
Boa iniciativa! Trabalho muito necessario e atualíssimo!
grande abraco,
Olga Falceto

Flavio Aguiar          12 de agosto de 2016
Muito oportuno e com boa direção. Mais que necessário nesta nova era que se abre diante de nós, e que se pode chamar de era Temer-Cunha-Feliciano. Flavio Aguiar.

Ellis Busnello      15 de agosto de 2016
“Gostaria de nesse momento parabenizar a nossa APRS pela oportuna iniciativa, dada a importância prioritária que é lidar com a CD. Trata-se no entender nosso de uma Prioridade porque preenche os requisitos por ser ela Grave, de Prevalência Alta bem como de Importância Médico Social, e por naturalmente não ter até o presente momento recebido esta caracterização de ser uma Prioridade Psiquiátrica e/ou de Saúde Mental. Creio ter deixado claro os motivos pelos quais nós os Médicos e ainda mais os
Médicos Psiquiatras temos o dever de colocar na linha de frente das nossas atividades a colocação da Conduta Discriminatória, com possível vista a ser incorporada à toda atividade da Prática Psiquiátrica. Pela sua própria natureza de lidar com Doenças e /ou Transtornos Mentais, compreendendo uma vasta gama de comportamentos com condições de surgimento e tempos de duração que os expõem à possibilidade de serem Conduzidos Discriminatoriamente, mesmo quando na busca de proporcionar um maior nível de Saúde Mental para todos, penso ser um Compromisso e um Dever das Associações Psiquiátricas Brasileiras e orgulhoso de saber que a APRS emprestou a devida importância ao estudo do tema.”

Aracy Albani           19 de setembro de 2017
Parabéns pela iniciativa. Muito sucesso nessa tarefa complexa, necessária para termos uma sociedade mais justa e solidária.

Fonte: Projeto Discriminação da Associação de Psiquiatria do RGS – APRS

E os psicanalistas foram impedidos de entrar no evento…

Os psicanalistas inscritos para o colóquio se viram pura e simplesmente impedidos de entrar pelos porteiros. Negócio é negócio.

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Imagem por Alpino

A medicalização da experiência humana

Variação do humor ou momentos de tristeza e tensão são sempre sinais de doença? Por muito tempo a psiquiatria europeia soube avaliar a gravidade e definir uma prescrição apropriada, da droga ao tratamento psicanalítico. A indústria farmacêutica incita, contudo, à transformação de dificuldades normais em patologias, às quais ela oferece uma solução

Diante da realidade do “sofrimento psíquico” – uma das mais importantes patologias modernas –, entrou em ação, há algumas décadas, uma maquinaria diagnóstica nunca antes vista, cujo objetivo é explorar esse enorme mercado potencial. Para isso, foi necessário primeiro substituir a grande psiquiatria europeia, que, graças a observações clínicas múltiplas e coerentes, reunidas durante os dois últimos séculos, havia repertoriado os sintomas, classificando-os em grandes categorias: neuroses, psicoses e perversões. Munido desses conhecimentos, o especialista podia dar um diagnóstico e distinguir os casos graves dos causados por circunstâncias passageiras. Ele separava então o que exigia o uso de medicamentos daquilo que poderia ser solucionado melhor com a conversa.

A psiquiatria clássica e a psicanálise haviam chegado às mesmas conclusões. Essas duas abordagens tão distintas se auxiliavam e se enriqueciam mutuamente. O mercado de medicamentos ainda guardava proporções razoáveis, o que deve ter dado o que pensar à “Big Pharma” – apelido conveniente para o enorme poder dos laboratórios farmacêuticos, que fazem uma corte assídua tanto aos clínicos gerais quanto às mais altas instâncias do Estado e dos serviços de saúde, com os quais sabem se mostrar bem generosos (oferecendo, por exemplo, cruzeiros de “formação” aos jovens psiquiatras).

A jornada de conquista desse grande mercado começou nos Estados Unidos, com a Associação dos Psiquiatras Americanos (APA) e seu primeiro manual de diagnóstico e estatística dos problemas mentais, o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais, ou DSM), em 1952.1 Em 1994, a Organização Mundial da Saúde (OMS) adotou no capítulo “Psiquiatria” da Classificação Internacional das Doenças as nomenclaturas do DSM-IV, o que levou vários países a fazer o mesmo. Seguiu-se uma inflação de patologias repertoriadas. Havia sessenta em 1952, mas 410 em 1994, no DSM-IV.

Extinguir o vulcão

Negócio é negócio. O método DSM tem de ser simples: não se cogita buscar a causa dos sintomas nem saber a que estrutura psíquica eles correspondem. Basta encontrar o caso que se conforme ao comportamento visível do paciente. Essa prática esquece que um sintoma não é jamais uma causa. A conversa com o psiquiatra mal pode ser considerada necessária, pois serve apenas para repertoriar os “transtornos” superficiais: “transtornos” do comportamento, da alimentação, do sono… enfim, “transtornos” de todos os tipos, até a recente invenção dos “transtornos” pós-atentados. A cada um corresponde – maravilha! – um medicamento. Foi nessas águas perturbadas que naufragaram os antigos diagnósticos. O lobby da Big Pharma conquistou também as faculdades de Medicina, onde só se ensina o DSM. Mais: os próprios laboratórios transmitem os ensinamentos – numerosos conflitos de interesses foram denunciados. A grande cultura psiquiátrica acabou esquecida, de sorte que, diante de um paciente, o novo clínico made in DSM não sabe mais se está lidando com uma psicose, uma neurose ou uma perversão. Ele não distingue um problema grave de um estado circunstancial. E, na dúvida, receita psicotrópicos…“Depressão”, por exemplo, é palavra que faz parte do vocabulário corrente. O blues (tristeza) pode dominar qualquer pessoa, a qualquer momento da vida. Mas por que dar esse sentido ao conceito de “depressão”? Ela foi elevada à dignidade de uma doença à parte. Contudo, a tristeza pode ser um sintoma tanto de melancolia – acarretando risco elevado de suicídio – quanto de um estado passageiro e mesmo normal, como o luto. Confúcio recomendava ao filho um luto de três anos após a morte do pai; hoje, se você continua triste depois de quinze dias, está doente. Vão lhe dar antidepressivos, que podem temporariamente aliviar o problema, mas não o resolverão. Entretanto, como não convém interromper o tratamento de repente, a prescrição dura às vezes a vida inteira.

O marketing do DSM é simples: basta inventar, a intervalos regulares, novos transtornos que misturem a patologia e o existencial. Isso é muito fácil, já que a existência se apoia naquilo que nos faz ir em frente. Aquilo que não funciona – em nossa vida – nos dá energia para evitá-lo. É necessário chorar antes de rir. Estamos à beira de um vulcão: extingui-lo com medicamentos que não passam de drogas é extinguir uma vida, porquanto viver é correr riscos o tempo todo. “O patológico só tem sentido para o improdutivo”, dizia o escritor Stefan Zweig.2 O nome de alguns medicamentos parece corroborar essa ideia, mas em uma acepção no mínimo discutível: em certas formas agudas de psicose, os psicotrópicos são imprescindíveis para acalmar as alucinações e os delírios. Tais medicamentos são chamados de antipsicóticos. Na cabeça do fabricante, essas moléculas estariam então destinadas a acabar de vez com a pessoa que sofre de psicose? O fabricante esquece uma coisa: o “paciente” é sempre maior que seu padecimento. Esses remédios deviam chamar-se de preferência “pró-psicóticos” ou “filopsicóticos”, pois um psicótico libertado de seus delírios é frequentemente um grande inventor (o matemático Georg Cantor), um grande poeta (Friedrich Hölderlin), um grande pintor (Vincent van Gogh) ou um grande filósofo (Jean-Jacques Rousseau). Mas a Big Pharma pouco se importa com a liberdade reencontrada pelo paciente, que no fim poria em causa sua empresa. Ela prefere o ópio. E seus vapores se instalam com facilidade, porque o “transtorno” é associado às manifestações efetivas do sofrimento psíquico.

Não bastasse isso, mais vale que o número de “transtornos” cresça e se multiplique. Entre os mais recentes, o “transtorno bipolar” se beneficiou de uma ampla promoção midiática, embora apenas patologize a doença universal do desejo: este se atira, rindo, para o objeto de seu sonho, mas, quando o apanha, o sonho está mais longe ainda e o riso se transforma em lágrimas. Enquanto a vida segue seu curso, nós todos somos normalmente “bipolares”, hoje alegres, amanhã tristes. Acontece, porém, que nas psicoses melancólicas o objeto de desejo é a própria morte ou a explosão de um surto maníaco. O diagnóstico de “bipolaridade” se torna então criminoso, pois não faz distinção entre o ciclo maníaco-depressivo das psicoses – com o risco de passagem ao ato grave justificando a prescrição de neurolépticos – e a euforia-depressão das neuroses. Essa distinção, riscada dos DSMs, provoca inúmeras situações dramáticas.3

O “transtorno” mais comum e inquietante, pois diz respeito às crianças, que sofrem sem saber o motivo e não podem se queixar, é sem dúvida o “transtorno do déficit de atenção com ou sem hiperatividade” (TDAH). Essas dificuldades da infância vêm sendo enfrentadas há tempos por psiquiatras infantis e psicanalistas, pioneiros na matéria. Mas, como se trata de problemas peculiares a cada criança, eles não ousaram rotulá-los sob um “transtorno” geral. Graças a isso, são hoje acusados de não propor medidas, principalmente pelas associações de pais, algumas delas subvencionadas por laboratórios farmacêuticos (por exemplo, a associação Hypersupers TODA/H France, apoiada pelos laboratórios Mensia, Shire, HAC Pharma e NLS Pharma).

A imprecisão desse pretenso diagnóstico equivale a dizer, por exemplo, que a tosse é uma doença. E o exemplo vem de cima: em 29 de setembro de 2017, houve na Universidade de Nanterre uma conferência em favor do diagnóstico de TDAH sob o patrocínio do presidente francês, Emmanuel Macron, e da ministra da Saúde, Agnès Buzyn. Os psicanalistas inscritos para o colóquio se viram pura e simplesmente impedidos de entrar pelos porteiros. O TDAH não existe nas classificações francesas, seja a Classificação Francesa dos Transtornos da Criança e do Adolescente (CFTMEA), fiel à psiquiatria francesa, ou mesmo a Classificação Internacional das Moléstias (CIM-10), que acolhe as opções do DSM. Elas descrevem apenas os problemas de agitação. E agitação não é doença. Pode ter várias causas (problemas familiares, dificuldades na escola etc.); exige primeiro que as crianças e a família sejam ouvidas, e isso muitas vezes basta para resolver tudo. Com o TDAH, o sintoma se transforma em doença e, mais grave ainda, atribuem-lhe causas “neurodesenvolvimentistas”. Essa afirmação não repousa sobre nenhuma base científica, ao passo que provas não faltam das dificuldades causadas por problemas no seio da família ou na escola…

Jerome Kagan, professor de Harvard, declarou em uma entrevista de 2012: “O TDAH não é uma patologia, mas uma invenção. […] Oitenta por cento dos 5,4 milhões de crianças tratadas com Ritalina nos Estados Unidos não apresentam nenhuma anormalidade metabólica”.4 Na França, Patrick Landman mostrou em seu livro Tous hiperactifs? [Todos hiperativos?] (Albin Michel, 2015) que o TDAH não tem nenhuma causa biológica identificável: seus sintomas não são específicos e não apresentam indicadores biológicos. Nenhuma hipótese neurobiológica foi validada. Leon Eisenberg, inventor da sigla “TDAH”, declarou em 2009, sete meses antes de falecer: “O TDAH é o exemplo típico de uma doença inventada. A predisposição genética para o TDAH é totalmente superestimada”.5 Todavia, com a ajuda do lobby, cerca de 11% das crianças com idade entre 4 e 17 anos (6,4 milhões) receberam o diagnóstico de TDAH desde 2011 nos Estados Unidos, segundo os Centros de Prevenção e Controle das Doenças norte-americanos. Segue-se quase sempre uma prescrição de Ritalina (metilfenidato), que contém moléculas consideradas estupefacientes nas classificações francesas. A prescrição dessa anfetamina em grande escala poderia provocar um escândalo sanitário semelhante aos do Mediator e do Levothyrox. Essas substâncias viciam, e não se exclui – possibilidade ainda em discussão – uma correlação entre as crianças que tomaram Ritalina e os adolescentes que se drogam.

As crianças não são poupadas pelos transtornos da sociedade, que lhes impõe o imperativo do sucesso rápido, da competitividade, da obediência a normas que não se aplicam à sua idade. As recalcitrantes são facilmente consideradas hoje “deficitárias”. É, portanto, inquietante ver surgir em um site do Ministério da Educação Nacional da França uma mensagem endereçada aos professores afirmando, sem provas, que o TDAH é uma “doença neurológica” e fornecendo uma receita detalhada para o estabelecimento de diagnósticos prévios. Os “sinais indicativos” propostos poderiam se aplicar a quase todas as crianças. Sempre a mesma mistura de problemas normais e patologia…

A infância na linha de frente

Há tempos, Michel Foucault pôs em evidência a repressão, notadamente pelos Estados e as religiões, desse “mal-estar na cultura” que é a sexualidade. Hoje, a camisa de força de um patriarcado de direito divino está em via de marginalização. Como a repressão vai se organizar daqui por diante, supondo-se que o termo “sexualidade” deva ser entendido em sentido amplo? A indústria farmacêutica é que pretende tomar as rédeas da ciência. A mensagem é clara: “Não vos inquieteis, ó vós que tendes insônias, momentos de desconsolo, excitação exagerada, ideias suicidas! A culpa não é vossa, é de vossos genes, de vossos hormônios; sofreis de um déficit neurodesenvolvimentista, e nossa farmacopeia vai consertar tudo”. Trata-se de fazer crer que tudo se resume a problemas de neurotransmissores e de mecânica, nos quais o humano não entra. Seria necessário esquecer que as mazelas deliciosas e cotidianas das relações entre homens e mulheres, as questões jamais resolvidas de filhos com pais, as relações de forças angustiantes com a hierarquia e o poder deitam raízes nas profundezas da infância.

Por todos os lados, a infância está na linha de frente, o que torna o caso do TDAH ainda mais “perturbador” que os outros. Em todos os tempos e lugares, a criança é a primeira a ser reprimida, espancada, formatada. Quando um professor da velha escola puxava as orelhas de um aluno agitado, isso era – por mais chocante que pareça – quase mais humano do que exigir-lhe um diagnóstico de deficiência. Preservava-se uma relação pessoal, que a pseudociência elimina. Pela primeira vez na história, é em nome de uma pretensa ciência que as crianças são “espancadas”. Todos os anos o Papai Noel, esse mito de múltiplas estratificações (como bem mostrou o etnólogo Claude Lévi-Strauss),6 traz para as crianças presentes a fim de consolá-las. Hoje, a Big Pharma pretende vestir o capuz do Papai Noel. Mas não nos esqueceremos de que, sob a roupa vermelha, esconde-se uma sombra muito parecida com o Açougueiro da Festa de São Nicolau.7

*Gérard Pommier é médico psiquiatra, psicanalista, professor universitário emérito e diretor de pesquisa na Universidade Paris 7. Autor, principalmente, de Comment les neurosciences démontrent la psychanalyse [Como as neurociências dão suporte à psicanálise], Flammarion, Paris, 2010, e de Féminin, révolution sans fin [Feminino, revolução sem fim], Pauvert, Paris, 2016.

1 Ver “La bible américaine de la santé mentale” [A bíblia americana da saúde mental], Le Monde Diplomatique, dez. 2011.

2 Stefan Zweig, Le Combat avec le démon: Kleist, Hölderlin, Nietzsche [A luta com o demônio: Kleist, Hölderlin, Nietzsche], Le Livre de Poche, Paris, 2004 (1. ed.: 1925).

3 Eu mesmo acompanhei em Saint-Anne um paciente melancólico a que um psiquiatra, ignorante de tudo o que não está no DSM, deu alta. Ele se suicidou. Vi inúmeros casos semelhantes.

4 “What about tutoring instead of pills?” [Que tal monitoramento em vez de pílulas?], Spiegel Online, 2 ago. 2012. Disponível em: <www.spiegel.de>.

5 “Schwermut ohne Scham” [Tristeza sem vergonha], Der Spiegel, Hamburgo, 9 fev. 2012.

6 Claude Lévi-Strauss, Le Père Noël supplicié [Papai Noel supliciado], Seuil, Paris, 1994.

7 Na França, é bastante difundida a lenda de São Nicolau, precursor do Papai Noel. Durante o inverno, três crianças bateram à porta do açougueiro Pierre Lenoir. Ele aceitou abrigá-las durante a noite. Porém, assim que elas entraram, ele as matou. Em outra noite, São Nicolau passava pela região e buscou abrigo na mesma casa. Enquanto dormia, ele sonhou com o assassinato das crianças e rezou até que elas ressuscitassem, tornando-se assim protetor das crianças.
Fonte: Le monde diplomatique
Por: Gérard Pommier
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