Entendendo a bissexualidade

Os bissexuais não são pessoas que estão “apenas passando por uma fase”. “E agora é uma questão de desaprender meus vieses pessoais e minha homofobia interiorizada.”

12 pessoas compartilham como entenderam que são bissexuais

Não, os bissexuais não são pessoas que “apenas passando por uma fase”.

As pessoas bissexuais são a maior parcela da população LGBT nos Estados Unidos. Em 2016 o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) divulgou que 5,5% das mulheres e 2% dos homens se declaram bissexuais. Apesar desses números, as pessoas que se identificam como bissexuais tendem a ser pouco levadas em conta, tanto dentro quanto fora da comunidade LGBT.

A escritoria bissexual Ashley C. Ford explicou em um ensaio de 2015 intitulado I’m Queer No Matter Who I’m With (Eu sou queer, não importa com quem eu esteja, em tradução livre), que o fato de que uma pessoa bissexual “não pode ser classificada imediatamente nem como homossexual nem como hétero deixa as pessoas nervosas”. Por conta deste imaginário, muitas pessoas bissexuais se sentem pressionadas a escolher um “time”, por assim dizer.

E há mais: muitas pessoas pensam que a bissexualidade não existe realmente ou que é “apenas uma fase”. É uma premissa injusta e que acaba levando ao apagamento, ou invisibilidade, como o problema também é conhecido.

Não surpreende que estas pessoas levem tempo para falar sobre sexualidade publicamente como bissexuais. Enquanto algumas dizem que se descobriram bissexuais assim que começaram a se apaixonar por meninos e meninas, outras contam que levaram décadas para identificar-se desta forma.

O HuffPost US conversou com *12 pessoas que aceitaram compartilhar publicamente como foi sua jornada particular enquanto bissexuais.

“Era uma coisa que eu fingia não perceber e à qual eu não dava vazão, porque não entendia aqueles sentimentos.” 

“Desde criança sinto uma afinidade enorme por personagens femininas. Tudo começou com a Princesa Leia, de ‘Star Wars’. Eu tentava racionalizar, dizendo a mim mesma que queria uma figura feminina poderosa para admirar e respeitar. Embora isso seja sem dúvida parte da explicação, eu também tentava imaginar como seria se eu pudesse estar no lugar de Han Solo e ser a pessoa que beijava Leia, que segurava suas mãos nas minhas. Acho que devido ao ambiente em que fui criada, nunca me ocorreu que aqueles sentimentos fossem românticos. Era uma coisa que eu fingia não perceber e à qual não dava vazão, porque eu não entendia aqueles sentimentos e pensava que era a única pessoa a me sentir assim.

“Quando eu já era mais velha e estava na faculdade, tomei conhecimento do termo ‘bissexual’ e tive aquele momento de afirmação que ocorre com muitas pessoas LGBTQ+ em que me dei conta: ‘Uau, quer dizer que não sou só eu? Que eu não estou louca?’ Pensei em todas as personagens femininas com as quais estava obcecada e percebi que tinha sentimentos semelhantes em relação a personagems masculinos que eu achava atraentes. Desde então vem sendo uma questão de desaprender meus vieses pessoais e minha homofobia interiorizada.” ― Elise Marie, ilustradora

“Eu amo minha sexualidade e sua fluidez.” 

“Entender que eu sou bissexual foi muito mais fácil do que aceitar, abraçar e colocar em prática minha bissexualidade. Aos 14 anos eu percebi que sentia atração por homens, mas foi apenas com 24 que eu realmente encarei isso para valer e comecei a sair publicamente com homens. Até lá eu estava fazendo as coisas às escondidas e estava tendo dificuldade em estar ‘no meio, em algum lugar’. Fiquei aborrecido porque eu não podia simplesmente ser ou uma coisa ou a outra. Levei bons 10 anos para realmente abraçar essa realidade. Agora estou feliz com quem eu sou e aceito que nem sempre é no meio. Curto minha sexualidade e toda sua fluidez.” ―  Remy Duran, personalidade de reality show na TV 

“Nem todo o mundo recebe a aceitação (ou pelo menos a leve indiferença) com que eu fui tratada.” 

“De um jeito estranho, minha história de autopercepção e autoaceitação não foi tão difícil quanto o que muitas outras pessoas enfrentam. Percebi que sou bi quando tinha 16 ou 17 anos e simplesmente incorporei isso na minha vida. Minha mãe achou que era uma fase e meu pai faz questão de não saber de nada, já que não consegue conceber uma realidade em que algum filho ou filha dele não seja hétero. Nunca tive um bom relacionamento com ele, por isso, para mim, o que ele escolhe pensar é problema dele.

“Eu escolho acreditar no direito das pessoas de serem felizes e inteiras, então procuro apoiar qualquer pessoa que esteja precisando. Sou muito transparente em relação a ser bissexual e quero apoiar todo o mundo da comunidade LGBTQIA+. Nem todo o mundo recebe a aceitação (ou pelo menos a leve indiferença) com que eu fui tratada. Se eu puder, quero estar presente para ajudar essas pessoas a se sentirem validadas e inteiras.” ― Addy, 36 anos

“Só fui descobrir o termo ‘bissexual’ aos 17 anos, quando outra pessoa se assumiu como bi.”

“Percebi que eu não era hétero aos 11 anos de idade, quando comecei a ter paixonites por garotos da minha série e homens que eram celebridades. Mas eu não conhecia o termo ‘bissexual’. Ninguém nunca me ensinou isso. Só fui descobrir esse termo aos 17 anos, quando outra pessoa se assumiu como bissexual. Mas ele foi apagado imediatamente, então eu continuei a pensar que eu devia ser ‘gay em negação’. Dizer que eu era gay não explicava porque eu sentia atração por pessoas de muitos gêneros. Mas eu não enxergava outra opção.

“Encontrei maneiras de mentir para mim mesmo sobre minha sexualidade, me dizendo que eu jamais poderia fazer sexo com um homem ou me visualizar em um relacionamento com um homem. Isso mudou quando eu me apaixonei por meu melhor amigo, que era hétero. Ficou muito mais difícil negar a verdade para mim mesmo, e isso começou a me causar sofrimento real. Percebi que não havia mais como negar quem eu era. Assim, pouco antes de completar 25 anos, me assumi publicamente como bissexual.” ― Vaneet Mehta, produtor e roteirista

“Foi preciso eu ir trabalhar em um lugar muito quadrado depois de me formar para eu entender que não era hétero.”

“O processo de entender que sou bissexual foi uma jornada feita de muitos pedacinhos. Eu sempre sentira atração por mulheres, mas me lembro de ler artigos na revista Cosmo que diziam que é totalmente normal e muito comum as mulheres sentirem atração por outras mulheres e que isso não significava que eu era lésbica (ufa!). Acho que a confusão da sociedade em relação às pessoas bissexuais faz com que sejamos tratadas como héteros até prova em contrário, mesmo que estejamos sentindo e fazendo coisas queer. Essa cultura é responsável pelo fato de tantas pessoas bissexuais não se sentirem suficientemente queer para saírem do armário, ou então por apenas saírem do armário muito depois que seus amigos gays e lésbicas.

“Foi preciso eu ir trabalhar num lugar muito certinho e quadrado depois de me formar para entender que eu não era hétero. A maioria das mulheres hétero não sente atração por outras mulheres, a maioria das mulheres hétero não se sente mais à vontade em comunidades queer, e a maioria das mulheres hétero não têm uma paixão louca por sua amiga lésbica comprometida com outra. Não eram coisas normais para uma mulher hétero. E com aquele último pedacinho de entendimento, como se uma bigorna com ‘VOCÊ É IDIOTA’ estampada em cima tivesse caído em cima de mim, eu entendi finalmente que sou bissexual.” ― Nicole, 33 anos

“Foi apenas na faculdade que cheguei a dizer a outra pessoa que eu era bissexual, e mesmo assim só falei à minha então noiva.”

“Todo o mundo tem paixonites na adolescência, e desde que eu entendi o que era uma paixonite percebi que as minhas não se limitavam a um gênero. Mas, como fui criada numa comunidade religiosa rigidamente fundamentalista, eu sabia que só havia um conjunto de sentimentos que poderia expressar ou manifestar. O fato de ter crescido sofrendo de disforia de gênero também não ajudou em nada; embora em meu íntimo eu me sentisse tudo menos um homem hétero, aquela era a única identidade que eu era autorizada a expressar.

“Foi apenas na faculdade que cheguei a dizer a outra pessoa que eu era bissexual, e mesmo assim só falei à minha então noiva para lhe dizer que não ia traí-la com ninguém, de gênero algum, enquanto estivéssemos geograficamente distantes. Mantive aquele segredo escondido de todo o mundo por mais dez anos, só admitindo publicamente quando me assumi como mulher trans, o que teve como consequência o nosso divórcio. Eu estava com quase 30 anos de idade, era militar havia dez anos e não tinha nada a ganhar se continuasse a negar quem sou.” ― Ex-soldado do exército, 35 anos

“Eu não tinha certeza se era bissexual realmente ou se aquilo era ‘só uma fase’, por isso mantive silêncio durante anos.”

“Posso agradecer a Joseph Gordon-Levitt por ter despertado minha bissexualidade. Quando eu tinha 13 anos, era grande fã da série ‘Third Rock from the Sun’ e sempre que eu via Joseph Gordon-Levitt, percebia que gostava dele do mesmo jeito que eu gostava da minha outra grande paixão-celebridade da época, Christina Ricci. Ao longo da adolescência também tive paixões passageiras por Taylor Hanson e dois garotos que estudavam comigo no colégio. Os dois eram héteros, por isso nunca tentei nada com eles, mas mesmo assim tinha fantasias com eles. Mas eu hesitava em me dizer bissexual porque 1) na época o discurso sobre questões LGBTQ dizia respeito apenas a gays e lésbicas, sendo os bissexuais nada mais que uma nota de rodapé; e 2) eu não tinha certeza se era bissexual realmente ou se aquilo era ‘só uma fase’, por isso mantive silêncio sobre isso por anos.

“Eu me assumi como bi finalmente quando tinha 29 anos e era noivo de uma mulher cristã conservadora. Terminamos o relacionamento pouco depois disso e comecei a namorar um homem que era tudo que minha ex-noiva não era. Aquele relacionamento só durou nove meses, infelizmente, mas, por mais que isso possa   parecer chavão, estar com ele me fez sentir que eu estava vivo pela primeira vez na vida.” ― Tris Mamone, jornalista

“Tive paixões passageiros por garotos da minha classe e de séries de TV. Foi um período bizarro, que me deixou superconfuso.”

“Cresci no interior do Illinois numa comunidade agrícola rural tão pequena e hétero que, mesmo que houvesse alguém gay no colégio, a pessoa com toda certeza não teria se identificado como tal. Levei muito tempo para aceitar que eu sentia atração tanto por homens quanto por mulheres. Aquilo não me ajudava em nada a me enquadrar na escola. Num colégio cheio de caipiras e atletas amadores, eu já era um nerd tremendo. Eu assistia a pornografia com homens e mulheres; tive paixões passageiras por garotos da minha classe e de séries de TV. Foi um período bizarro, que me deixou superconfuso.

“Fazendo um fast-forward até a faculdade, onde passei um bom tempo em negação, sem querer me aceitar. Tive experiências tanto com homens quanto com mulheres, mas encontrei maneiras de compartimentalizar minhas preferências mesmo ali, em um ambiente que teria sido mais tolerante e me aceitado melhor. Foi apenas quando me formei e me mudei para Chicago, onde vivo hoje, que aceitei o fato de talvez ser bissexual, e só me assumi publicamente como tal dois ou três anos atrás. (Contei à minha agora esposa quando começamos a namorar. Ela sempre me deu apoio total, mesmo quando a mãe dela descobriu através de um post no Facebook e perguntou se isso queria dizer que tínhamos uma relação ‘aberta’, hehe!) Hoje fico superfeliz por ter me assumido. Encontrei muito apoio de pessoas de todo o espectro sexual. Mas não consigo deixar de pensar que eu poderia ter sido muito mais livre e mais honesto comigo mesmo sem o estigma que acompanha a bissexualidade.” ― Clint, podcaster e crítico de cinema e televisão no The Spool

“Qualquer garota que eu conhecesse que tivesse beijado outra menina numa festa era vista como vagabunda, como alguém que só queria chamar a atenção, e eu não queria que me encarassem assim.”

“Na adolescência, acho que eu tinha um interesse por mulheres que eu me recusei a encarar de perto durante todo o colegial, acho que em parte em função da misoginia. Qualquer garota que eu conhecesse que tivesse beijado outra menina numa festa, por exemplo, era vista como vagabunda, como alguém que só queria chamar a atenção, e eu não queria que me encarassem assim. Quase cheguei a falar à minha melhor amiga que eu tinha curiosidade de explorar minha sexualidade, mas antes de conseguir falar as pessoas começaram a fazer piadas sobre bissexualidade. Qualquer pessoa que tivesse interesse em explorar isso não apenas era ridicularizada, como também diziam brincando que ela tinha paixão por todo o mundo ou estava tentando transar com todo o mundo. Então eu sufoquei aqueles sentimentos até terminar o ensino médio. Assim que me vi livre da obrigação de  ver aquelas pessoas todos os dias, tive uma espécie de revelação. Literalmente, lendo um post de Zendaya no Instagram, tive um momento de clareza e percebi: ‘Oh, sou bissexual’.” ― Tayla, 23 anos

“Tudo bem você sentir atração por muitos gêneros e mesmo por pessoas sem gênero. É mais do que tudo bem, é lindo.” 

“Compreendi que sou bissexual pela primeira vez no ensino médio. Foi também a primeira vez que contei a um amigo sobre isso, mas não foi algo que passou a fazer parte do conhecimento público. Foi mais como um segredo aberto. Ao longo dos anos, as pessoas com quem saí sabiam (eu sempre fiz questão que soubessem, independentemente do gênero delas), mas essa questão sempre foi meio que empurrada para o lado. Durante anos as pessoas diziam brincando que eu era ‘o hétero mais gay do mundo’.

“Quando eu estava com 35 anos e me preparava para me casar pela segunda vez, eu simplesmente tive um estalo. Eu tinha muitos amigos queers de todos os tipos que estavam sendo criticados por quem eram, e deixar de ficar ao lado deles começou a me parecer criminoso. Sou um homem branco cisgênero; com esse grau de privilégio, se eu não sou capaz de ficar ao lado de meus amigos, então não sou amigo de verdade. Eu me assumi perante umas 200 pessoas ao longo de alguns dias. Nunca mais desde então eu escondi minha bissexualidade nem usei linguagem indireta ou disfarçada; estou fora do armário e estarei para sempre. Hoje posso falar abertamente as coisas que eu precisava tão desesperadamente ouvir quando era adolescente queer. Tudo bem você sentir atração por muitos gêneros e mesmo por pessoas sem gênero. É mais do que tudo bem, é lindo. Ser bissexual não é algo a ser escondido. Hoje posso afirmar com segurança que sou um homem bissexual e nunca voltarei para dentro daquele armário.” ― David Kaye, roteirista e músico

“Na adolescência, as pessoas me manipulavam psicologicamente e diziam que, porque sou feminino, minha atração por meninas não era real.”

“Sou um homem bissexual feminino. Sempre fui, de modo que não tive realmente a opção de ficar dentro do armário, se bem que às vezes eu me pergunte se teria sido melhor estar. Algumas das minhas primeiras recordações são de ter paixões passageiras por meninas e meninos do meu bairro e de me chamaram de viado. Quando eu era adolescente, as pessoas me manipulavam psicologicamente para me fazer duvidar de quem sou; diziam que, porque sou feminino, minha atração por meninas não era real. Aquilo me deixava superconfuso. O que outras pessoas diziam sobre mim me levou a pensar que talvez eu fosse gay e estivesse apenas tentando fugir dessa realidade. Mas continuei a me apaixonar por meninas.

“O que me ajudou foi aprender que homens héteros, homens gays e homens bissexuais são todos uma combinação de masculino e feminino, e por isso é tão importante não priorizar ou glorificar o lado masculino em detrimento do femino. É uma coisa arbitrária à qual as pessoas atribuem tanto valor.” ― J.R. Yussuf, autor de “The Other F Word: Forgiveness” e criador da hashtag #bisexualmenspeak

“Hoje minha bissexualidade é uma coisa que eu valorizo e curto. É uma parte intrínseca de mim, embutida em meu DNA.”

“Como você toma consciência do que você é quando não conhece outra coisa senão isso? Para mim, descobri quem sou ao reconhecer minha diferença. Para dar um nome a essa parte de mim, primeiro tive que aprender que eu era diferente do que as pessoas esperavam que eu fosse. Quando tento recuperar aquelas memórias, o que lembro principalmente é o medo. Eu sentia algo dentro de mim que precisava ser definido e explicado, mas não tinha como definir ou explicar. Eu gostaria de dizer que me parecia normal, que pude curtir minhas paixonites adolescentes por pessoas de todos os gêneros. Mas sei que não era assim, porque me recordo do pânico que eu sentia quando tínhamos que trocar de roupa para as aulas de educação física. Eu fixava os olhos num ponto na parede ou no chão, desviando meu olhar de minhas colegas, com medo de atrair o olhar de outra garota acidentalmente e de ela de algum jeito descobrir meu segredo, que não tinha nome. Eu escondi essa parte de mim porque, apesar de ignorar as palavras com que me descrever, eu sabia que se fosse descoberta seria o fim para mim.

“Hoje me sinto grata porque minha bissexualidade é uma coisa que eu valorizo e curto. É uma parte intrínseca de mim, embutida em meu DNA, minha vida e minha personalidade. Está presente em meu trabalho também; durante toda a vida eu tivesse esse desejo de me entender, um desejo que nunca era satisfeito realmente, e hoje posso passar minhas horas livres pesquisando a história da comunidade bissexual. Isso me lembra que aquela sensação de estar sozinha, o medo de eu ser a única pessoa que jamais se sentiu assim, não poderia estar mais distante da verdade. Sempre existiram pessoas bissexuais, apesar do apagamento e do preconceito. Mesmo que não tivéssemos sabido que nome nos darmos, sempre estivemos presentes e estamos presentes agora.” ― Mel Reeve, arquista e escritora residente em Glasgow, Escócia.

*As respostas recebidas foram levemente editadas para permitir maior clareza. Algumas fontes pediram para ser identificadas apenas pelo primeiro nome, para proteger sua privacidade. 

A imprensa manipuladora e os eleitores manipuláveis

¿Quién no se deja influir por el pensamiento de los pares, de aquellos a quienes ve como iguales? Un título o un tuit sensacionalista pueden ser suficientes para influenciar a algunas personas, incluso para cambiar su pensamiento. Esas historias imprecisas, engañosas o falsas se replican de usuario en usuario, propagando los mitos e influyendo en las opiniones de otros. En Facebook son nuestros ‘amigos’ los que comparten esas cosas, un círculo de confianza que nos da aún más razones para creer”

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Portada del reporte “Media Manipulation and Disinformation Online”, del instituto Data&Society

Del mito a la realidad: hasta dónde puede llegar la manipulación electoral de los votantes
La investigación del fiscal Robert Mueller sobre la injerencia rusa en las elecciones de Estados Unidos reveló la existencia de redes que buscan cambiar la conducta de los votantes, pero su efectividad es un interrogante. Qué personas son más influenciables y qué se puede hacer para no caer en la trampa

“Los acusados y sus conspiradores, a través del fraude y la mentira, crearon cientos de cuentas en las redes sociales, y las usaron para convertir a personajes ficticios en líderes de opinión pública en Estados Unidos”.

La inquietante sentencia es una de las conclusiones a las que arribó el fiscal especial Robert Mueller, que investiga desde hace ocho meses la interferencia del Kremlin en las elecciones presidenciales de 2016. Por el escándalo imputó a 13 ciudadanos y a tres organizaciones de origen ruso.

El ex director del FBI encontró evidencias de que Yevgeniy Viktorovich Prigozhin, un magnate conocido como “el chef de Vladimir Putin” por ser contratista del Estado ruso en el rubro gastronómico, financió la creación de la Agencia de Investigaciones de Internet (AII). Esta organización contó con un presupuesto millonario y una planta de al menos 80 agentes abocados a tiempo completo a una sola misión: manipular a la opinión pública estadounidense para afectar el resultado de las elecciones y crear un ambiente de inestabilidad política.

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                                              El fiscal Robert Mueller

La AII administró miles de cuentas falsas en las redes sociales, que se hacían pasar por ciudadanos estadounidenses políticamente comprometidos con diferentes causas, para crear y difundir mensajes e incluso convocar a manifestaciones. El principal objetivo fue deslegitimar la candidatura de Hillary Clinton, difundiendo noticias inventadas que la presentaban como una corrupta. Entre otras cosas, crearon grupos que se hacían pasar por representantes de los afroamericanos y de los musulmanes —minorías que históricamente acompañan al Partido Demócrata—y los incentivaron a no votar.

La otra pata de la estrategia fue promover las campañas de Bernie Sanders, que enfrentó a Clinton en la interna demócrata, y de Donald Trump, quien terminaría imponiéndose en los comicios del 8 de noviembre de 2016. “Donald quiere derrotar al terrorismo, Hillary quiere alentarlo”, fue una de las tantas consignas promocionadas por la AII. Su actividad fue especialmente intensa en los “estados oscilantes”, en los que había mucha paridad en la previa y que a último momento se inclinaron por el candidato republicano.

El caso de la injerencia rusa en los comicios de Estados Unidos muestra hasta qué punto internet se convirtió en un medio idóneo para lanzar campañas de manipulación que pueden pasar desapercibidas. Hay indicios de que grupos similares actuaron en el referéndum del Brexit en Reino Unido y en las presidenciales francesas del año pasado, y que pretenden interferir en las elecciones del próximo 4 de marzo en Italia.
El gran interrogante es si tienen éxito. Los amantes de las teorías conspirativas están convencidos de que es posible lavarle el cerebro a las personas —menos a ellos mismos—, pero no hay evidencia de que eso sea posible, sobre todo a escala masiva. Al mismo tiempo, está probado que la posibilidad de los canales de comunicación tradicionales de influir en las opiniones es cada vez menor.

“El impacto de la fábrica rusa de trolls es muy debatible. Quizás sea relativamente mínimo. Pero eso no significa que la opinión pública no sea manipulable. Desde que fue descubierta a principios de los años 20 por el escritor estadounidense Walter Lippmann, hubo cuantiosas inversiones de todo tipo de profesionales para medir, predecir y manipular a la opinión pública. Algunas han sido más exitosas que otras”, sostuvo Mitchell Dean, profesor de sociología y gobierno en la Escuela de negocios de Copenhague, consultado por Infobae.

Lo distintivo de este tiempo histórico es que ya no hay un puñado de instituciones reconocidas que bajan mensajes desde una posición de autoridad. Son miles de personajes virtuales —reales o ficticios—, que se presentan como personas comunes dando sus puntos de vista. ¿Quién no se deja influir por el pensamiento de los pares, de aquellos a quienes ve como iguales?

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                      Yevgeniy Viktorovich Prigozhin, “el chef de Vladimir Putin”

Posibilidades y limitaciones de la manipulación

“De acuerdo a nuestras investigaciones, la mayor parte de la gente sólo lee el encabezado y el primer párrafo de los artículos que ve en Facebook o en Twitter. Un título o un tuit sensacionalista pueden ser suficientes para influenciar a algunas personas, incluso para cambiar su pensamiento. Esas historias imprecisas, engañosas o falsas se replican de usuario en usuario, propagando los mitos e influyendo en las opiniones de otros. En Facebook son nuestros ‘amigos’ los que comparten esas cosas, un círculo de confianza que nos da aún más razones para creer”, explicó a Infobae Neill Fitzpatrick, profesor de comunicación en la Universidad MacEwan, en Edmonton, Canadá.

La repercusión de las fake news sería mínima si todos los lectores pudieran contrastar distintas fuentes antes de dar por cierta una noticia. Pero, lógicamente, sólo una minoría tiene el tiempo y el interés para hacer ese trabajo. Si a este problema se suma el efecto de los algoritmos que definen las publicaciones a las que acceden los usuarios en ciertas redes sociales a partir de sus gustos, se termina configurando una burbuja informativa.

Este fenómeno favorece la consolidación de posturas sesgadas y radicalizadas, ya que las personas están cada vez más sobreexpuestas a las opiniones de su tribu, y cada vez menos a miradas diferentes. No obstante, hay grupos sociales que tienen mucha más predisposición que otros a cerrarse y fanatizarse.

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El presidente Donald Trump

“Por lo que hemos observado, el principal objetivo de la interferencia rusa era esparcir información engañosa o falsa, para crear una disrupción en grupos de votantes que ya estaban polarizados, no necesariamente en todo el electorado. Se trata de una porción concentrada de la opinión pública. Por ejemplo, encontramos que las noticias basura eran desproporcionadamente compartidas por redes de Twitter de extrema derecha. No diría que la opinión pública en general es vulnerable a este tipo de manipulación, pero hay grupos que parecen más inclinados”, dijo a Infobae el politólogo Samuel Maynard, doctorando en la Universidad de Oxford.

Hacer que alguien cambie radicalmente de opinión es muy difícil, por eso cualquier esfuerzo de manipulación está destinado al fracaso si se propone esa meta. Pero sí se puede reforzar ciertas ideas preconcebidas, y atenuar otras. Las consecuencias políticas de estos movimientos pueden no ser depreciables.

Por caso, es posible que un individuo que dudaba entre ir o no a votar termine optando por abstenerse. De la misma manera, es poco probable que un simpatizante demócrata se pase al Partido Republicano, pero no es tan descabellado que un republicano moderado se incline por un precandidato más extremo de su mismo partido.
Adam Badawy, investigador del Instituto de Ciencias de la Información de la Universidad del Sur de California, sostuvo que para analizar una campaña de manipulación como la que ensayaron los rusos es necesario considerar tres niveles de lectura: el alcance del proyecto, a cuánta gente llegó; su capacidad para reforzar ciertas creencias y legitimarlas; y su impacto en el comportamiento de los votantes.

“Hay evidencias fuertes de la magnitud de la campaña de desinformación, pero todavía no tenemos respuestas para los otros dos puntos”, dijo Badawy a Infobae. “Es plausible que haya consolidado opiniones preexistentes, particularmente entre los conservadores. Pero no hay pruebas de que la interferencia rusa volcó el voto hacia Trump o convenció a los ciudadanos de ir a votar. Al contrario, muchos estudios previos han demostrado que las ideas políticas son difíciles de cambiar, y cuando cambian, lo hacen lentamente”.

Entonces, ¿se puede o no manipular a la opinión pública para que vote de determinada manera? “Creo que la respuesta general es que no”, afirmó Dean. “Sin embargo —aclaró—, la posibilidad de focalizar en ciertos grupos se ha incrementado, y es posible hacerlo en lugares en los que podría afectar una elección, como los estados oscilantes. Las estrategias más sofisticadas identifican racimos de individuos persuadibles en esas áreas, y prueban qué tipo de información los interpela. Pueden no buscar cambiar enteramente su visión, pero sí potenciar el enojo, el miedo o incluso la apatía que ya sentían”.           em55                                                Hillary Clinton

Cómo combatir la desinformación

Las repercusiones de lo ocurrido en las elecciones estadounidenses encendieron las alarmas en todo el mundo. En Italia, por ejemplo, distintas organizaciones civiles alertaron sobre los riesgos de que haya una interferencia externa para favorecer al Movimiento 5 Estrellas, una fuerza populista y antisistema. Su triunfo podría desestabilizar a la ya debilitada Unión Europea.

“Tenemos que empezar a educar a los jóvenes en la escuela, para que aprendan a identificar qué es preciso y qué no entre la información que reciben —dijo Fitzpatrick—. Tienen que saber cómo chequear distintas fuentes o, al menos, encontrar versiones alternativas de una misma historia. Así como les enseñamos los peligros de los depredadores en internet, tenemos que enseñarles sobre los riesgos del engaño y la manipulación online”.

Esto es precisamente lo que está haciendo Italia. A fines del año pasado, lanzó un proyecto que busca explicarles a estudiantes de 8.000 escuelas cómo distinguir noticias falsas de verdaderas. Probablemente, el impacto será limitado en un primero momento, pero es un comienzo.

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El primer ministro italiano Paolo Gentiloni

Otra parte del trabajo la tienen que hacer las propias redes sociales. “Tienen que suprimir a los usuarios maliciosos que esparcen las fake news. Segundo, hay que aumentar la exposición a noticias producidas por los principales medios periodísticos, que no deberían ser penalizados por ser pagos, como ocurre ahora. Tercero, mostrar un puntaje de autenticidad al lado del artículo podría ser una buena idea”, dijo Badawy.

No obstante, sería ingenuo creer que se puede eliminar todo el contenido basura que hay en la web. Por otro lado, si bastara con una simple denuncia para censurar un contenido empezaría a estar amenazada la libertad de expresión.

“Los peligros de la propaganda y de la manipulación de las masas están allí desde hace 100 años. Lo mejor que podemos hacer es tomar conciencia de lo que está pasando y educarnos a nosotros mismos y a los jóvenes al respecto. De lo contrario, la alternativa es regular internet y volvernos indistinguibles de China”, concluyó Dean.

Fonte: Infobae Ar
Por: Darío Mizrahi
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