“Transe mais e encha menos o saco”

                                           Artesexo 

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Uma das mais fantásticas exposições que já vi foi a exposição do Marquês de Sade no Grand Palais, em 2014. Devo dizer que visitei a exposição com minha filha, sem nenhuma preocupação com o fato de que a profusão de pénis e vaginas, cenas eróticas a 2, a 3 ou a 20, fossem deturpar seu profundo sentimento ético, uma das qualidade que mais admiro nela. Da blasfêmia à pornografia o que está em jogo? Embora elementos da pornografia estejam presentes na cultura desde seus primórdios, é possível localizar no Renascimento as bases das questões que norteiam o estudo da pornografia atual. Sade teve bons precursores.

Para a maioria dos estudiosos da pornografia, esta é indissociável da tensão provocada entre o realismo do coito e a moral civilizada. Tomemos uma definição universitária clássica da pornografia: expressões escritas ou visuais que apresentam, sob a forma realista, o comportamento genital ou sexual com a intenção deliberada de violar tabus morais e sociais . Eis o problema para os psicanalistas. Como falar de realismo sexual se a relação sexual não existe?

Paula Findlem , historiadora de Stanford, afirma que a pornografia dentro do contexto ocidental tem suas bases no comércio surgido a partir das novas técnicas de impressão de histórias e desenhos obscenos. Com o renascimento, a escrita deixa de ser um privilégio dos ricos. Mais atrativo do que a Bíblia de Gutemberg, os contos e poesias obscenos passam a ser consumidos em escala cada vez maior pelas populações das novas cidades renascentistas. Dentre tantos textos, os Sonetos Luxuriosos de Pietro Aretino se destacam como os mais representativos de sua época. Aretino pode ser considerado o primeiro pornógrafo moderno. Contudo, se pornografia e comércio caminharam lado a lado – obviamente uma questão de oferta e procura – a internet com seu império das imagens, introduziu uma verdadeira revolução do conceito. Passamos da pornografia como tecnologia a serviço da fantasia para uma tecnologia do gozo masturbatório, sem outro.

Agora, um movimento conservador conseguiu impedir que uma exposição interessantíssima sobre o universo Queer (pude ver o catálogo) pudesse ser vista pelos que se interessam. Percebam que esses conservadores bloquearam meu acesso sem me consultar. Naturalmente, podemos por a culpa na empresa que sucumbiu às exigências desse grupo. Mas, hello?! Alguém realmente acha que a exposição foi proposta por essa empresa pela admiração ao Universo Queer?

Tenho uma teoria e, até agora, com quase quatro décadas de clínica, ainda não consegui remover. Para mim, a obstinação em bloquear meu acesso à essa exposição só pode ter sido o sucesso de pessoas com grandes – e graves – problemas sexuais. Meu conselho aos que tiveram tanta vontade de bloquear essa exposição é simples: muito cuidado, é possível que boa parte da libido que vocês reprimem em seus próprios filhos os transformem em pequenos monstros intolerantes. Até aí tudo bem. E quando eles perceberem que o Queer está do outro lado do espelho?

Fonte: Facebook
Por: Marcelo Veras, psicanalista.
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Masturbação: tabu e mitos

Ocho cosas que hay que saber sobre la masturbación
Masturbarse no significa estar insatisfecho.mast

Onanismo, masturbación, digiturbación, darse amor propio… Da igual cómo lo llames, todo el mundo lo hace (sí, tú también, no te escondas).

La masturbación, que implica excitarse uno mismo tocándose los genitales, es un asunto tan importante en la vida sexual de la gente que hasta el Servicio Nacional de Salud del Reino Unido (NHS por sus siglas en inglés) le ha dedicado una entrada en su página web.

No existe una forma correcta o incorrecta de masturbarse, pero el NHS lo describe del siguiente modo: “Los hombres suelen hacerlo mediante el frotamiento del pene, mientras que las mujeres suelen acariciarse el clítoris y la zona que rodea la vagina”.

Aunque es un hecho totalmente normal, el tema sigue siendo un gran tabú y todavía existen muchos mitos que hay que corregir.

1. Casi todo el mundo se masturba.
El 95% de los hombres y el 89% de las mujeres se masturban, al menos en el Reino Unido. Por lo tanto, no hay ningún motivo por el que avergonzarse.

2. Masturbarse teniendo pareja no implica nada malo.
Existe mucho debate en Internet sobre si tendrían que preocuparse aquellas personas cuyas parejas siguen buscando pasar esos ratos a solas.

Suzi Godson, columnista de asuntos sexuales en el periódico The Times y bloguera de la edición británica del HuffPost, escribió: “Algunas personas sienten su relación en peligro por el hecho de que su pareja tenga la necesidad de buscar satisfacción sexual por su cuenta. Al fin y al cabo, si pueden tener sexo, ¿para qué necesitan masturbarse? Este argumento pasa por alto la obviedad de que el sexo y la masturbación son experiencias completamente diferentes”.

3. Masturbarse no significa estar insatisfecho.
Tal y como dice Suzi Godson en el punto anterior, no hay ningún motivo por el que masturbarse signifique algo malo sobre tu relación o sobre tu vida sexual con otras personas. Los estudios científicos han descubierto que la gente que practica sexo regularmente suele masturbarse más que aquellas personas que llevan un tiempo sin acostarse con nadie.

De modo que no pienses que la masturbación es un sustituto del sexo, sino más bien una forma de matar el gusanillo de vez en cuando.

4. No eres la única persona que se siente culpable cuando acaba.
Pese a que masturbarse no es algo de lo que haya que avergonzarse, hay un montón de razones personales, religiosas y culturales por las que una persona se puede sentir un poco sucia al terminar. No te pasa solo a ti.

De hecho, según un estudio, la mitad de las personas que se masturban experimentan dudas por lo que han hecho: “Aproximadamente el 50% de las mujeres y el 50% de los hombres que se masturban se sienten culpables por ello”. Así que no te sientas excluido ni pienses que es una razón para dejar de masturbarte. Estamos todos en el mismo barco.

5. Las mujeres que se masturban suelen estar más satisfechas en sus relaciones.
Un estudio de febrero de 2017 descubrió que las mujeres que se masturban con frecuencia suelen recibir más sexo oral, tener relaciones sexuales más largas, pedir más a menudo que les hagan lo que les gusta en la cama, elogiar a su pareja tras el acto, probar nuevas posiciones, intercambiar palabras eróticas y expresar su amor durante el coito.

6. A los hombres les sirve como escudo contra el cáncer de próstata.
Parece el típico argumento de adolescente, pero es cierto: masturbarse al menos 21 veces al mes puede ayudar a reducir un 33% las probabilidades de sufrir cáncer de próstata. Los investigadores realizaron el seguimiento de 30.000 hombres durante casi 20 años para llegar a estas conclusiones.

7. Es bueno para la salud.
La masturbación también ha demostrado producir beneficios en la salud tanto de hombres como de mujeres. Aparte de reducir el riesgo de cáncer de próstata en hombres, sirve para reducir la tensión arterial y para relajarse.

8. No conlleva ningún riesgo de contraer enfermedades de transmisión sexual ni de embarazos indeseados.
El sexo está muy bien, pero siempre hay que acordarse de tomar precauciones, ya que puede acarrear sus riesgos. En cambio, con la masturbación tienes la seguridad de que estás a salvo.

Este artículo fue originalmente publicado en el ‘HuffPost’ Reino Unido y ha sido traducido del inglés por Daniel Templeman Sauco.

Fonte: HuffPost Es
Por Sophie Gallagher
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Curso de educação sexual para adulto com aula prática

O que é ensinado nos cursos de educação sexual para adultos

aula 1Estou sentada sobre uma almofada no meio de uma sala espaçosa, junto com um casal, uma moça solteira e um homem divorciado. Na minha frente está Anahí Canela, educadora sexual para adultos que dá uma masterclass sobre ponto G e squirt (ejaculação feminina). Começamos a conversar sobre anatomia feminina e, depois de uma breve pausa para recuperar as energias, passamos à parte prática do curso. Anahí Canela tira a calcinha e nos faz uma demonstração do que é a ejaculação feminina. Ficamos mudos. E o interesse aumenta. Um por um, colocamos luvas de látex, um pouco de lubrificante e introduzimos os dedos dentro da vagina da professora, que nos guia até que, finalmente, encontramos o seu ponto G. Após essa descoberta, aprendemos algumas técnicas para estimulá-lo e conseguir assim o tão conhecido squirt. Mais tarde é a vez das mulheres, que devem tentar encontrar o próprio ponto G. No meu caso, sem sucesso. Até que Anahí Canela coloca luvas de látex e introduz dois dedos na minha vagina. Um movimento simples e… “porra”. É a única coisa que pude pronunciar. Mas não sem antes me perguntar como era possível que soubesse tão pouco sobre os meus órgãos genitais e minha sexualidade.

Anahí Canela oferece uma grade variedade de cursos em que trata de assuntos como sexo oral ou anal. E, quase sempre, por meio de cursos práticos como o que assisti. “No meu caso, abordo um nível muito físico e muito prático, e encontrei pessoas bloqueadas que não aceitam a si mesmas, nem sua identidade, desejos ou prazer”, diz. Ela rompe todos os padrões clássicos ao dividir suas aulas em uma parte teórica e outra prática.

Os cursos são presenciais, têm uma duração que varia entre 4 e 8 horas e são dirigidos a todo tipo de pessoas, independentemente da orientação, identidade sexual, idade ou estado civil. Oscilam de 40 a 80 euros (150 a 300 reais) e tratam de assuntos tão interessantes como masturbação feminina e sexo oral ou, o mais pedido, o ponto G e o squirt. “As mulheres se interessam por assuntos como felação ou masturbação masculina, enquanto os homens preferem falar sobre ponto G e squirt”, diz Canela. “Embora o que continua a me surpreender hoje é que homens e mulheres não saibam onde está o prazer na vagina. Não têm a menor ideia sobre onde se pode tocar ou como se deve fazer”, diz Canela.

Nas escolas primárias é ensinada alguma coisa sobre anatomia sexual. No ensino médio, várias ONGs como a Cruz Vermelha desenvolvem em algumas escolas cursos sobre como evitar uma gravidez indesejada e doenças sexualmente transmissíveis, que podem ser resumidos em “como colocar uma camisinha em uma banana”. Aí acaba a educação sexual de muita gente. A sexóloga e terapeuta de casais María Esclapez, autora do blog Diário de una Sexóloga, diz que “a sexualidade está envolvida em mitos, estigmas ou crenças pré-concebidas” e fala de “auge” dos cursos para aprender a desfrutar da sexualidade.

Esse auge que é percebido no setor se reflete em projetos como a Sex Academy, a primeira academia de sexualidade da Espanha, fundada em 2012 por Laila Pilgren, sua gerente de projetos e atual diretora. “No nosso país, o pouco que se educa sobre sexualidade se faz em meio a uma aura de medo. Então chega um momento na vida dos adultos em que percebem que sua sexualidade esteve limitada e muitas vezes ficou estagnada por falta de informação e formalismos sociais”, diz Mireia Manjón, sexóloga e diretora adjunta da Sex Academy.

aula 2
Educação sexual com pornografia

A pornografia também pode ser outro meio para ensinar técnicas de forma clara. Na Espanha existem projetos como o site Pornoeducativo, um portal onde são explicadas de forma explícita e por meio de vídeos, diferentes práticas sexuais. Ele nasceu há dois anos e, desde então, dizem que tiveram mais de 20.000 usuários registrados. A equipe é formada por um grupo de sexólogos e psicólogos responsáveis pela orientação do conteúdo pedagógico e educativo do site. E, por outro lado, existem os teachers, aqueles que se gravam diante de suas câmeras e colocam em prática todas as técnicas descritas. E não devemos esquecer os técnicos de imagem e som e seu diretor de Comunicação, Adrián Pérez, responsável por dirigir, organizar e estruturar todo o projeto.

Seus conteúdos são muito diversificados e englobam da masturbação ao sexo anal, abrangendo todos os grupos, inclusive pessoas com deficiência. Seu tutorial mais visto fala de ejaculação precoce, um guia passo-a-passo para tratá-la. Esse conteúdo e os relacionados ao sexo anal são os mais populares entre os homens, enquanto as mulheres usuárias consultam principalmente vídeos sobre vaginismo e anorgasmia.

A equipe continua a se surpreender quando realiza pesquisas de opinião e as pessoas não sabem o que é uma felação ou um cunnilingus. Ficam espantados, por exemplo, que as pessoas não conheçam a forma técnica (felação) para nomear a prática. “Isso nos dá o que pensar: a educação sexual tem de ser normalizada e para isso é preciso ensinar tudo de uma vez. Revolucionar a educação sexual como a conhecemos até agora” afirma Pérez.

Mas, como se poderia mudar a educação sexual atual? “Até agora, a educação sexual foi desenvolvido na forma de desenhos animados, textos, frutas ou hortaliças nas quais se colocam preservativos e coisas desse tipo. Nós preferimos ensinar tudo como é. Mostrar um pênis se falamos de pênis ou uma vagina se falamos de vaginas. A pornografia também pode ser educativa, sempre que exista uma equipe de profissionais por trás que mantenha os conteúdos no âmbito didático”, comenta.
Fonte: EL PAÍS – BRASIL
Por Noemí Casquet
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O último tabu médico: os objetos no reto

Antropólogo denuncia “estigmatização” do prazer anal na literatura científica

reto

Radiografia de um homem de 68 anos com uma chave de fenda no reto, em Cartagena. ELENA ROMERA ET AL.

Num dia de 2015, um homem de 50 anos chegou ao pronto-socorro do Hospital Universitário de Getafe, na Grande Madri. Relatava prisão de ventre. Na radiografia não havia nada de estranho, então os médicos lhe administraram um enema de limpeza. Ao cabo de algumas horas em observação, o homem não suportava a dor abdominal. “Tinha taquicardia e suores”, recorda uma das médicas que o atenderam, Myriam Valdés. Uma tomografia revelou então “um objeto estranho no cólon” e uma peritonite fecaloide decorrente de uma perfuração do intestino. Na sala de cirurgia, os cirurgiões encontraram uma cenoura de 20 centímetros inserida por via anal.

O homem passou horas sem mencionar a hortaliça, mas depois da operação relatou que a introduzira “porque tinha lido na Internet que era bom para as hemorroidas”, segundo Valdés. A literatura científica está cheia de casos similares. O Hospital Universitário Doutor Josep Trota, em Girona (nordeste da Espanha), recebeu certa vez um homem de 67 anos que havia inserido uma maçã no ânus 24 horas antes. Outros casos são mais extremos, como o vivido no ano passado no Hospital Valle del Nalón, em Riaño (norte da Espanha). Um rapaz de 29 anos foi ao pronto-socorro com dor abdominal, após uma noite de bebedeira e consumo de cocaína, segundo sua versão. Dizia não se lembrar de nada. Os médicos encontraram dois tubos metálicos de desodorante, de 25 centímetros cada um, no reto e no cólon.

“A presença de um objeto no reto há muito tempo é fonte de piadas e suspeitas tanto na rua como no discurso médico”, reflete o antropólogo William J. Robertson, da Universidade do Arizona (EUA). O pesquisador mergulhou na literatura científica e encontrou 147 estudos aprofundados sobre corpos estranhos no reto, além de um grande número de trabalhos meramente descritivos. Seu veredicto é que os médicos reforçam “o tabu do prazer anal” e contribuem para que os pacientes, por vergonha, adiem a ida ao hospital, agravando os casos mais problemáticos.

“A medicina se baseia em dividir as coisas em normais e anormais ou patológicas. Infelizmente, o anormal frequentemente não se refere simplesmente a uma variação da norma estatística; esse anormal está envolto em ideias derivadas da cultura a respeito do que é um comportamento moral”, observa Robertson. Sua análise, recém-publicada na revista especializada Culture, Health & Sexuality, detectou que 69% dos estudos médicos vinculam os corpos estranhos no reto a práticas sexuais “pervertidas ou aberrantes”.

O antropólogo cita como exemplo uma revisão de 30 casos dirigida pelo cirurgião José Ignacio Rodríguez Hermosa, do hospital Universitário Doutor Josep Trota. No texto, a equipe médica salienta que em cinco dos casos a homossexualidade era um “fator associado”. Curiosamente, segundo Robertson, “os heterossexuais não são classificados como um grupo no qual se possam observar corpos estranhos, embora só 5 dos 30 pacientes, ou 17%, tenham sido identificados como homossexuais”.

“Essa patologia é observada em reclusos penitenciários, em pessoas com transtornos psicológicos, em tentativas de suicídio ou homicídio, em homossexuais, em atos eróticos, em práticas sadomasoquistas, em casos de estupro ou agressões sexuais, em pessoas semi-inconscientes sob os efeitos de drogas ou álcool ou em mulas que ocultam narcóticos”, dizia Rodríguez-Hermosa em outro artigo, publicado em 2001 na revista Cirugía Española.

Para Robertson, essas descrições vinculam tais casos a práticas aberrantes, no contexto de um sistema “heteronormativo” cujo único modelo válido é a relação heterossexual tradicional. “Por que não situar os corpos estranhos no reto no âmbito das práticas sexuais consensuais e saudáveis entre pessoas de vários gêneros e orientações sexuais?”, pergunta-se o antropólogo norte-americano. A médica Myriam Valdés confirma que muitos pacientes são totalmente sinceros, como uma mulher que chegou ao pronto-socorro do Hospital Universitário de Getafe e relatou ter enfiado um desodorante roll-on inteiro no reto enquanto “brincava com o marido” em busca de prazer anal. No ano passado, um homem de 68 anos foi ao Hospital Geral Universitário Santa Lucía, em Cartagena (sudeste espanhol), depois de introduzir uma chave de fenda no ânus.

Robertson salienta que não existem dados epidemiológicos, apenas estudos isolados, então é impossível saber a frequência desses incidentes com corpos estranhos no reto. Além disso, talvez os casos extremos – como o do homem que apareceu num hospital de Hong Kong com o reto perfurado por uma enguia – estejam super-representados na literatura médica. Também já foram descritos casos envolvendo guarda-chuvas, canos de escopeta, velas, pepinos, cabos de vassoura, tubos de aspirador, cabos de martelo, garrafas e, obviamente, vibradores. O primeiro objeto no reto descrito em uma revista médica, a norte-americana JAMA, data de 1919: um copo. Quase qualquer objeto imaginável já serviu para proporcionar prazer anal a alguém.

O trabalho do Robertson destaca que, segundo seus critérios, em apenas 16% dos estudos analisados a reação médica apresentada foi completamente profissional e sensível. “Há uma cultura da vergonha em torno do prazer anal. E os próprios profissionais da saúde contribuem para esta estigmatização, ao enquadrarem os corpos estranhos no reto como um problema de perversões sexuais, mentiras do paciente e anormalidade”, opina Robertson. “Não é muito surpreendente que os pacientes evitem ir ao médico.”

Fonte: EL PAÍS – BRASIL
Por Manuel Ansede
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Por que homens ‘heteros’ fazem sexo com outros homens?

Por que homens ‘heteros’ fazem sexo com outros homens?

SMSMSim, você leu certo: homens que fazem sexo com outros homens e não são homossexuais. É mais habitual do que se pode imaginar. E é bem simples: um homem heterossexual conhece outro (num bar, numa rede social, tanto faz) e eles decidem fazer alguma brincadeira sexual. E, como se não bastasse, gostam. Depois, cada um segue com sua vida perfeitamente hétero, sem que o encontro os faça duvidar da sua orientação. O que leva alguns homens a essas práticas? E por que é incorreto catalogá-los como gays?

Hoje em dia, a aceitação da diversidade sexual é muito maior do que no passado. “À medida que há uma maior tolerância, todos saímos um pouquinho dos nossos armários”, argumenta o psicólogo, psicoterapeuta e sexólogo espanhol Joan Vílchez. “Homens que não chegam a se sentir muito satisfeitos sexualmente podem ter a chance de manter relações com outras mulheres, com um homem, ou de experimentar certas práticas que em outros tempos eram mais censuradas.” Para Juan Macías, psicólogo especializado em terapias sexuais e de casal, “conceitos como heteroflexível ou heterocurioso estão permitindo aos homens explorar sua sexualidade sem a necessidade de questionar sua identidade como heterossexuais”. Por outro lado, a Internet facilita o contato, que pode ser virtual ou físico.

Os especialistas acham isso a coisa mais natural do mundo, pois partem da premissa de que uma coisa é a orientação sexual de um indivíduo, e outra as práticas que ele realiza. “A orientação sexual”, explica Macías, “é construída socialmente, são categorias rígidas e excludentes, com implicações que afetam a identidade individual e social”. Forçosamente, alguém precisa se encaixar em alguma destas três classificações: heterossexual, homossexual ou bissexual. Por outro lado, “a prática sexual é mais flexível e mais livre, é um conceito descritivo. Um espaço tremendamente saudável na exploração do desejo se abre quando a pessoa se liberta da identificação com uma orientação sexual”, diz Macías.

Isso é tão natural que vem de longe. Na Roma antiga, não era raro que um homem comprometido com uma mulher mantivesse um amante. Por não falar do que acontecia nos bacanais. E jovens de todas as épocas recorreram a passatempos com uma conotação sexual difusa. “Na adolescência é bastante comum que haja jogos de certa forma associados aos genitais: ver quem urina mais longe, ver quem tem o maior, existem toques…”, diz Vílchez. “Não deixam de ser incursões homossexuais, mas ainda prepondera o modelo heterossexual, e acontecem a partir da transgressão própria da juventude”, observa o psicólogo.

Um novo modelo: SMSM

Em 2006, um estudo sobre a discordância entre comportamento sexual e identidade sexual realizado por pesquisadores da Universidade de Nova York revelou que 131 homens, de um total de 2.898 entrevistados, admitiram ter relações com homens apesar de se definirem como heterossexuais. Pelos cálculos dos especialistas, esse grupo representa 3,5% da população. Há anos, os médicos empregam a sigla HSH para se referir ao conjunto dos homens (héteros ou gays) que fazem sexo com outros homens. Mas, recentemente, aflorou outro acrônimo mais preciso para definir esse grupo: SMSM (“straight men who have sex with other men”, ou homens heterossexuais que fazem sexo com outros homens). Sites como o Straightguise.com se dedicam ao tema.

Em julho, saiu os EUA o livro Not Gay: Sex Between White Straight Men (“Não gay: sexo entre homens brancos heterossexuais”), em que a professora Jane Ward, da Universidade da Califórnia, fazia a seguinte colocação: uma garota hétero pode beijar outra garota, pode gostar disso, e mesmo assim continua sendo considerada hétero; seu namorado pode inclusive estimulá-la a isso. Mas e os rapazes? Eles podem experimentar essa fluidez sexual? Ou beijar outro garoto significa que são gays? A autora acredita que estamos diante de um novo modelo de heterossexualidade que não se define como o oposto ou a ausência da homossexualidade. “A educação dos homens tem sido bastante homofóbica. Fizeram-nos acreditar que é antinatural ter esses impulsos por outros homens”, explica Vílchez.

Experimentando, experimentando

As motivações, logicamente, são múltiplas. O perfil mais difundido é o do explorador sexual, que gosta de provar coisas novas. “Experimentar uma relação homossexual é uma novidade para ele e, mesmo que ele goste, não podemos dizer que seja homossexual, e sim que goste dessa prática”, diz o médico de família e sexólogo Pedro Villegas. Vílchez compartilha dessa ideia. “A bissexualidade está muito na moda, e na verdade somos todos bissexuais: se você fechar os olhos, dificilmente conseguiria identificar quem está lhe acariciando, se é um homem ou uma mulher. Não há um homem que seja 100% homossexual, nem 100% heterossexual”, sentencia.

Outra das causas é um desencanto com as mulheres, frequente depois de alguns rompimentos conjugais. Vílchez explica: “Quando um casal heterossexual está em crise, é habitual que alguns homens sintam que não se entendem com as mulheres, que são incapazes de se dar bem com elas, e é como se olhassem para o outro lado. Acontece uma espécie de regressão, volta-se a um estágio anterior no qual os homens se sentiam bem juntos, como na adolescência. Em muitos casos é uma necessidade mais afetiva do que realmente sexual”.

De fato, para esse especialista, essas relações eróticas às vezes escondem uma necessidade de afeto que o homem não está acostumado a expressar. “Nos homens há muita tendência à genitalização. Entre a cabeça e os genitais há o coração, que representa os sentimentos, e os intestinos, que simbolizam os comportamentos mais viscerais e as emoções mais intensas, e é como se os homens tivessem aprendido a fazer um desvio: passamos da cabeça diretamente para os genitais, sem viver plenamente as emoções. No caso das mulheres, por tanta repressão da sua sexualidade e por medo da gravidez, acontece o contrário: elas têm muita dificuldade de genitalizar. Para um homem às vezes é mais fácil fazer isso do que expressar emoções mais sutis ou dizer a outro homem: ‘É que me sinto inseguro, tenho medo, sinto-me frágil, não sei o que quero’.”

O impulso narcisista

Entre os homens héteros que vão para a cama com outros homens também há muitos narcisistas. “É aquele sujeito que gosta que prestem atenção nele. Acontece muito nas academias de ginástica: ele gosta de despertar admiração, e não se importa se isso provém de homens ou mulheres”, aponta Eugenio López, também psicólogo e sexólogo. Outros simplesmente têm vontade de transar e recorrem a inferninhos gays, porque acham que lá será mais fácil.

Há homens heterossexuais que se envolvem com homens porque gostam; outros, por falta de alternativas – pensemos nos que são privados do contato com mulheres por períodos prolongados (será que eram mesmo gays os caubóis de O Segredo de Brokeback Mountain?). “O ser humano se rege por seus pensamentos”, argumenta López. “E, se ele acreditar que está perdendo sua sexualidade pela falta de uma mulher, pode reafirmá-la com outro homem. Costuma começar com um simples roçar.”

Se não houver conflito, não há problema

Alguns desses neo-heterossexuais podem ter sentido impulsos desse tipo no passado, mas sem se atreverem a dar o passo. “Aí vêm as circunstâncias da vida que colocam isso de bandeja e eles decidem viver a experiência, mas isso gera um conflito para eles, porque por um lado lhes proporciona prazer, mas por outro ameaça um pouco seu status e sua imagem: ‘Sou ou não sou?’, perguntam-se”, comenta Vílchez. Também podem ficar confusos aqueles que chegam ao SMSM pela carência de uma figura paterna positiva na sua infância: “Às vezes, para reforçar sua masculinidade, integram-se a atividades ‘de homens’ (futebol, musculação) ou têm contatos sexuais com outros homens, mas o que procuram é sobretudo compreensão e carinho”, acrescenta. Os psicólogos são unânimes em dizer que sua intervenção é dispensável quando essas experiências não provocam um conflito no indivíduo. “Se não estão incomodados, não há nada para tratar”, conclui Villegas.
Fonte: EL PAÍS – BRASIL
Por Miguel Ángel Bargueño
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