O sono, a patologia, a pressão social, econômica e política

Conseguir que pessoas fiquem acordadas e funcionais por 85 horas seguidas ou que produzam e / ou consumam 24 horas por dia, 7 dias por semana.

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Pílulas já no mercado e pesquisas que parecem ficção científica: a quem interessa um mundo que não dorme?

                O sequestro do sono

Quando o fisioterapeuta Bruno* usou um medicamento que o deixou ‘ligado’ pela primeira vez, três anos atrás, sua intenção era dirigir por uma longa distância sem ficar cansado. Aprovou. “Consegui ficar focado no volante durante oito horas sem parar”, diz ele. A droga usada foi o modafinil, produzido e vendido no Brasil pela Libbs, com o nome Stavigile. De venda controlada, ele é aprovado para tratar a narcolepsia, um distúrbio que faz a pessoa ficar extremamente sonolenta durante o dia, mesmo que tenha dormido bem à noite — e o sono vem inclusive em momentos estranhos, como durante conversas, consultas ou almoços. Nunca fui o caso de Bruno.

Bem longe dele, forças armadas em países desenvolvidos querem manter despertos seus combatentes, e isso não é nenhum segredo de Estado. Anfetaminas e outras drogas são velhas conhecidas de soldados (veja aqui e aqui); ainda em 2004, o jornal inglês The Guardian revelou que militares americanos faziam pesquisas com o modafinil e já tinham conseguido que pessoas ficassem acordadas e funcionais por 85 horas seguidas.

Há várias outras pesquisas bélicas com esse mesmo objetivo. No livro 24/7: Capitalismo Tardio e os Fins do Sono, Jonathan Crary fala de testes que incluem substâncias diversas, terapia genética e até estimulação magnética transcraniana. O que o autor afirma, porém, é que a distância que separa o uso dessas drogas por civis e militares é apenas aparente. “A história mostra que inovações relacionadas à guerra são inevitavelmente assimiladas na esfera social mais ampla, e o soldado sem sono seria o precursor do trabalhador ou do consumidor sem sono”, escreve.

Para ele, o sono é uma espécie de resistência contra o capitalismo: a última barreira natural que o sistema não consegue transpor. Se conseguisse, a produção e o consumo 24 horas por dia, 7 dias por semana — daí o título do livro — estaria concretizada.

oso2Crédito: Christopher Morales, Forças Aéreas dos EUA

Boom

Voltemos a Bruno. Depois da primeira experiência, ele continuou testando remédios parecidos, mas com outra finalidade: conseguir estudar muitas horas seguidas para prestar concursos públicos. É que, fora da perda do sono, outro efeito das drogas procuradas por ele é o de aumentar o foco. Além do Stavigile, já fizeram parte da sua vida a Ritalina e o Venvanse, ambos controlados e indicados para tratar o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), principalmente em crianças. O fisioterapeuta faz parte de um crescente grupo de estudantes e trabalhadores ao redor do mundo que, mesmo sem nenhum diagnóstico, se automedica para produzir mais.

Algumas pesquisas feitas no Brasil mostram dados sobre a procura e o consumo desses medicamentos, especialmente o metilfenidato, substância que compõe a Ritalina e o Concerta. Neste estudo, publicado em 2014, foram entrevistados estudantes de medicina de uma universidade no Rio Grande do Sul e 23% deles já tinham usado essas drogas sem prescrição; este outro também ouviu alunos de medicina, mas no Tocantins, e o resultado foi semelhante: 24,5%; mais um, feito no Paraná com alunos de um cursinho para concursos, encontrou um percentual de 28,5%.

A psicóloga Cristiana Siqueira estuda o tema e, durante o mestrado, fez uma série de entrevistas que incluíram psiquiatras e usuários. “É interessante porque duas pessoas que eu entrevistei se referiram ao uso crescente de Ritalina no Brasil como sendo uma espécie de ‘americanização’ da nossa vida”, lembra. De fato, o fenômeno tem sido discutido há bastante tempo nos Estados Unidos, onde o grande procurado é o Adderall, também usado para TDAH (mas proibido no Brasil). O remédio entrou no país em 1996 e, de acordo com esta matéria do New York Times, vem substituindo a Ritalina em muitos casos. Em 2004, diz o texto, medicamentos estimulantes já eram a segunda droga mais comum nos colégios norte-americanos.

oso3Imagem: Flickr

Anfetaminas são usadas há quase cem anos (e tanto a Ritalina quanto o Adderall são relacionados a elas), e também não é novidade ouvir falar em trabalhadores das mais diversas categorias que consomem drogas como a cocaína para se manterem acordados. Mas é difícil estabelecer quando e por que este boom no consumo de remédios começou.

Cristiana acha que, em parte, isso pode estar associado à própria disseminação de informações sobre TDAH. Os médicos entrevistados por ela para sua dissertação de mestrado dizem que algumas pessoas chegam ao consultório pedindo diretamente os remédios, mas várias outras vêm com um “discurso pronto” sobre seus sintomas. “Às vezes as pessoas querem deliberadamente forçar o diagnóstico, então estudam os sintomas e, na consulta, fazem relatos deles. Mas nem todo mundo chega com a ideia de ‘enganar’ o médico. Como me disse um dos psiquiatras entrevistados, há pessoas que leem sobre os sintomas e colhem na sua história de vida lembranças dispersas — de que não iam bem no colégio, por exemplo — e de certa forma se convencem de que sempre tiveram TDAH”, comenta ela.

Um problema é que não existe nenhum exame de sangue ou de imagem para o diagnóstico de TDAH, que é feito a partir de conversas com as crianças e adolescentes, além de familiares e professores, em busca um conjunto de sintomas. “Mas não bastam os sintomas”, explica o professor Marcelo Victor, do Programa de Transtornos de Déficit de Atenção/Hiperatividade da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (ProDAH/UFRGS). “É preciso que exista também um comprometimento do funcionamento psicossocial da criança. Isso quer dizer que muita gente pode ter os sintomas, mas não o transtorno”, diz ele, explicando melhor: “É preciso avaliar a continuidade deles ao longo de vários meses, até porque alguns podem ser devidos a outras condições, como uso de drogas”.

O fato é que, com ou sem TDAH, não é difícil conseguir os remédios. Em vários grupos na internet, é possível comprá-los ilegal, mas abertamente. Bruno, que abriu esta reportagem, disse ter um parente da indústria farmacêutica que conhece vários médicos e consegue receitas. “Acabo comprando dele”, conta. Também há muitas pessoas dão dicas de psiquiatras que ‘facilitam as coisas’ e prescrevem medicamentos mesmo não diagnosticando doença alguma. Das três usuárias entrevistadas por Cristiana, nenhuma tem diagnóstico de doenças ou transtornos mentais, mas todas compram legalmente, com receitas de seus médicos.

Pílulas da inteligência… São mesmo?

Cristiana ressalta que, embora por aqui a propaganda desses remédios não seja permitida, a gente acaba sabendo deles de outras formas, como em reportagens e até mesmo seriados. E ela conta também que, há cerca de dez anos, começaram a pipocar várias matérias que descreviam, muitas vezes com manchetes entusiastas, usos não autorizados desses medicamentos estimulantes. “Há capas de revistas e manchetes com expressões como: ‘`pílulas da inteligência’, ou remédios que ‘turbinam o cérebro’, com imagens de pílulas com um cérebro dentro”, diz.

De acordo com ela, essa onda de matérias veio a partir da publicação de artigos na revista científica Nature, em 2008 e 2009, em que os autores defendiam a regulamentação do uso de remédios para fins de ‘aprimoramento cognitivo’ — isso porque alguns pesquisadores acreditam que as drogas podem melhorar a compreensão e o aprendizado, embora não haja nenhum consenso na comunidade científica.

oso4Cada vez mais gente se automedica para dormir pouco e render muito

O próprio Bruno diz não ter observado nada nesse sentido: “Elas só restringem a atenção”, diz. Sarah Noronha, que tem 25 anos e foi diagnosticada com TDAH aos 17, concorda. “Não acho que tenha efeitos além de tirar o sono e deixar a pessoa desperta. Diferente do que ‘concurseiros’ pensam, a medicação não ajuda a pessoa a aprender mais. Ela só vai aguentar mais tempo estudando”, diz.

Segundo Marcelo Victor, algumas análises com pesquisas já realizadas mostram que esses remédios podem melhorar “um pouco, não muito” o desempenho de pessoas saudáveis. “Depende da pesquisa”, diz ele.

Onde termina o tratamento e começa o aprimoramento?

Mas mesmo o uso de estimulantes no caso de TDAH — e o próprio diagnóstico da doença — vêm sendo discutidos exaustivamente, tanto pela comunidade científica quando por pessoas leigas. A Ritalina chega a ser descrita como “droga a obediência”, responsável por manter focadas e controladas crianças cujo comportamento, na verdade, seria normal, apenas inconveniente para os pais e professores.

E Cristiana traz informações no mínimo intrigantes. Os psiquiatras entrevistados por ela relatam que normalmente o que leva crianças ao consultório é um rendimento escolar considerado baixo, algo que com frequência é apontado pelas próprias escolas. E mais: eles afirmam que sugerem a suspensão ou a diminuição da dose nos fins de semana e nas férias escolares, como medida para minimizar os efeitos colaterais.

Mesmo Marcelo Victor reconhece que os prejuízos sentidos pelos pacientes dependem muito do ambiente externo. De acordo com ele, para algumas pessoas é preciso manter o medicamento o tempo inteiro, mas para outras, não. “Em alguns casos, a vida social e familiar da criança não é prejudicada pelo transtorno. De repente ela tem em casa uma mãe que é mais atenta, um manejo familiar que é diferente do da escola”, diz. E afirma ainda que “o transtorno aparece mais quando a pessoa é exigida”, quando precisa cumprir uma tarefa da qual não goste e que exija atenção. “Se ela gosta de videogame e você a coloca para jogar videogame, pode tirar o remédio dela. O jogo dá prazer, foca, estimula, ela pode ficar horas jogando videogame, e focada. Mas, quando vai para uma questão de matemática, fica cinco minutos e não consegue mais focar, se atrapalha. Porque é algo aborrecido para ela, pouco atraente”. Mas ele não diz que a doença de fato não exista. “As crianças sem o transtorno conseguem dizer: ‘agora preciso me concentrar nisso para aprender’, e as com TDAH, não”, compara. Para ele, trata-se principalmente de melhorar a qualidade de vida das pessoas.

A questão é delicada. “Não estou negando que haja crianças que possam efetivamente ter algum transtorno, mas acho que o que está muito em jogo é o modo como essas crianças têm sido demandadas. Temos um sistema educacional que preza pela competitividade, pelo ranqueamento”, diz Cristiana.

oso5Em geral, crianças são diagnosticadas com TDAH após queixas de baixo rendimento escolar

Paralelos

É impossível não perceber uma relação entre o tratamento das crianças — devido principalmente ao seu baixo rendimento escolar — e o motivo que leva muitos adultos a buscarem medicação, ainda que sem diagnóstico. “Até os médicos com quem conversei têm dificuldade de estabelecer essa fronteira entre o que é patologia e o que é pressão social”, diz Cristiana.

Ela conta que quando perguntou a eles quais aspectos estavam possivelmente envolvidos no consumo off-label (ou seja, para usos não autorizados) da Ritalina, os psiquiatras mencionaram basicamente dois: “O primeiro é que há uma grande exigência social por performance, e as pessoas começam a se sentir fora da disputa, achando que o outro está consumindo algo a mais e elas estão ficando para trás. É uma espécie de coerção indireta: a pessoa se sente coagida a tomar o medicamento por saber que há outras tomando e rendendo mais. O segundo, no caso das crianças, é que não há uma rede comunitária e familiar para apoiá-las. Os pais estão desprotegidos, a escola diz que não tem mais o que fazer com a criança. É um desamparo”.

Na pesquisa de Cristiana, a pressão para dar conta de um excesso de atividades foi relatada pelas três usuárias entrevistadas. “Uma delas usava pontualmente, quando precisava escrever algum relatório grande, quando tinha prazos apertados no trabalho. Outra estava no doutorado e tomou Ritalina para escrever a tese — mas contou que não funcionou, ela não conseguiu. E a terceira não conseguia dar conta de todas as atividades do seu dia: ser mãe, cuidar da casa, trabalhar e estudar”. Uma das médicas também falou com ela sobre isso: “Me disse que muitas vezes vem uma demanda grande por todos os lados, não só de trabalho ou de estudo. A pessoa precisa dar conta de tudo, um tudo que parece ser grande demais, e acaba se direcionando para o medicamento”.

Livre escolha

Quando pergunto a Bruno até que ponto o uso desses remédios para estudar pode ser considerado de fato uma escolha, ele pausa por uns segundos e ri: “Essa pergunta é bem ideológica”, diz .

Sem dúvidas. O professor de filosofia André Brayner de Farias, da Universidade de Caxias do Sul, observa que a necessidade que muitas pessoas têm de abrir mão do sono, a pressão para render mais no trabalho e a sobrecarga do dia a dia estão diretamente relacionadas entre si — e com o capitalismo contemporâneo. Como Crary, ele acredita que o sono é um problema para o capitalismo, e não apenas porque paramos de produzir. “Quando dormimos, quando estamos ‘apagados’, de certa forma fugimos do controle que se abate sobre nós o tempo todo. Interrompemos o circuito de produção. Eu diria que o sono chega a ser hoje uma grande ferramenta política”, diz.

E explica melhor comentando aspectos da obra da filósofa alemã Hannah Arendt, que também é citada por Crary. “Ela traz um conceito de ‘natalidade’ e defende que essa é a base da nossa ação política. A natalidade se relaciona à nossa capacidade de nascer, de gerar crianças, de sair das trevas para a luz. Significa a dimensão do imponderável, do imprevisível. O que nasce é sempre algo que não estamos esperando. E essa autora diz que, quando agimos politicamente, é como se atualizássemos, nas nossas ações, o nosso nascimento. Porque a ação política tem justamente a ver com a nossa capacidade de realizar o imponderável, de dar espaço e tempo para o que é imprevisível. Isso é, por excelência, a forma de resistir”, diz o professor.

oso6Imagem: O pesadelo, de John Henry Fuseli

O sono seria, então, certa simulação dessa ideia, como se, ao dormir e acordar, simulássemos a morte e o renascimento: “É o sono, é a pausa, que nos devolve as forças. Quem acorda, nasce de novo. Ao renascer, surpreende o mundo. E isso é, de algum modo, uma ameaça.”

É claro que, mais e mais, o sono acaba se tornando, ele mesmo, produto de um consumo, se pensarmos na indução por medicamentos, por exemplo. “Este sono, de certa maneira, foi também capturado. É quando já estou tão transformado em máquina de produção que perdi a capacidade de apagar, e preciso ir à farmácia, comprar um remédio que, em muitos casos, vai me viciar”, analisa André, lembrando ainda que, além de já ser uma mercadoria, o remédio também pode atrapalhar os sonhos, “onde ‘visitamos’ territórios desconhecidos e paramos o mundo”.

Atualmente, a pesquisa de Cristiana está voltada justamente ao uso de remédios antidepressivos e indutores do sono: “É uma modulação do corpo produtivo”, diz a psicóloga, comentando o que disse um dos médicos que ela entrevistou, ainda para a dissertação: “Esse psiquiatra receitava Ritalina para uma paciente que, ele julgava, tinha TDAH. Depois de um ano, descobriu que ela se consultava em paralelo com outro médico e, com ele, obtinha receitas de Rivotril para dormir, porque a Ritalina lhe deixava insone. E assim ia gerenciando o sono”, lembra.

Para André, o sono induzido é “um passo na direção da vitória do capitalismo” nessa batalha pelo sono. “Mas ele só vence no dia em que a gente não não precisar mais dormir”, completa ele, ressaltando que, evidentemente, é preciso estar não apenas desperto, mas também produtivo. Cristiana, que está de acordo, comenta que, por enquanto, mesmo a garantia do sono talvez só esteja ancorada na ideia da produtividade, afinal, um corpo cansado não produz: “Existe a ideia de que é preciso dormir um determinado número de horas por dia… Para que possamos render bem”, pontua.

24/7

A necessidade de produção ininterrupta não é recente. No livro, Crary fala muito disso e exemplifica com empreitadas que parecem ter saído de um episódio de Black Mirror, mas que na verdade aconteceram no mundo real. Como um projeto europeu do fim dos anos 1990 que tinha como objetivo garantir que a luz do sol chegasse dia e noite a regiões metropolitanas inteiras, a partir de satélites que refletiriam essa luz para a Terra, para permitir o trabalho ao ar livre de noite. “Isso vem de muito tempo. Mas acho que estamos passando por um processo em que o sono vem sendo, pouco a pouco, minado”, acredita André.

Ele conta que vários dos seus alunos fazem uso regular de Ritalina e “estão convencidos de que é uma coisa boa”. Mas, quando fala de sucumbir à pressão por dormir pouco e render muito, André não está falando apenas dos ‘outros’: “Boa parte de nós acha que dormir é perda de tempo. Muitas vezes quem não usa os remédios também está completamente amarrado ao circuito de produção e tem o sono minado, ainda que seja crítico a isso”, diz, afirmando que este é o seu próprio caso (e é também o caso desta repórter). “É o projeto 24/7 se realizando, ou cada vez mais perto de se realizar”, reflete.

De acordo com o professor, o grande trunfo do capitalismo é que já não são só os donos dos meios de produção que nos cobram, mas também nós mesmos. “Isso acabou entrando na nossa vida, é algo que a gente faz hoje sem ninguém precisar mandar”, alerta.

oso7Um remédio para conseguir ficar desperto, outro para conseguir dormir: medicamentos modulando o corpo produtivo. Crédito: Alyssa L. Miller (Flickr)

E aí a questão da escolha individual volta a aparecer. Cristiana lembra que, naqueles artigos da Nature que defendiam a regulamentação de medicamentos para fins de aprimoramento cognitivo, os autores diziam justamente que o sujeito deveria ser livre para escolher tomar ou não essas drogas. “Mas essa escolha é feita a partir de um determinado contexto em que estamos inseridos, não é tão simples. A demanda está aí. A exigência por performance está aí. Estamos nesse mundo, essa é a sociedade à qual acabamos precisando nos adaptar. Nossas escolhas são balizadas por ela”, reflete a psicóloga, afirmando que, por isso mesmo, analisa a situação com o cuidado de não julgar usuários. “O fato é que os medicamentos existem, estão sendo procurados, precisamos entender e pôr em questão os motivos”.

André concorda: “Pensamos: minha atitude vai depender da minha escolha, eu é que tenho que escolher. Mas acontece que minha escolha não é um lugar puro e intocável dentro de mim. Escolho a partir de um histórico de informações, de uma educação, de uma cultura, de um condicionamento que cada um de nós recebe para ser capaz de escolher”, diz. Mas pontua: “É claro que posso examinar minha vida a cada instante, identificar o que interfere na minha escolha, fazer perguntas. Essa capacidade de se questionar e fazer perguntas significa que a gente ainda tem liberdade. E é isso que é, finalmente, fazer política em um sentido mais autêntico”.

Outros artifícios

Crary diz que no começo do século passado os adultos norte-americanos dormiam em média dez horas por noite; até pouco tempo atrás essa média era de oito horas (daí a afirmação de que passamos um terço da vida dormindo…) e, agora, é de apenas seis horas e meia. Mas remédios não são a única forma de minar o nosso sono, como lembra André: as novas tecnologias têm um papel importante nisso. “Talvez elas sejam até mais importantes nesse processo do que a própria medicalização. Ou, pelo menos, são forças de mesmo valor”, sugere.

De acordo com ele, estamos convencidos da necessidade de consumir informação o tempo inteiro, e isso tem constituído cada vez mais a nossa vida. “Vamos cada vez mais achar natural acordar de madrugada e checar o celular para ver se não tem nenhuma mensagem, nenhuma notícia importante. Ou levantar de manhã e conferir imediatamente o que está acontecendo”, exemplifica, completando: “É como se de fato não tivéssemos intervalo, não tivéssemos pausa. Exatamente o mesmo problema do sono”.

A conexão ininterrupta não significa só um consumo que não para mas, também, para muitos trabalhadores, uma jornada eterna. “Você sai do trabalho, mas ele continua te demandando. Não tem como você argumentar que não viu um email, porque todo mundo recebe alerta no celular, tem as redes sociais. Lembra que antigamente, de madrugada, a televisão parava, saía do ar? Hoje existe um mundo que funciona 24 horas por dia, e acho que tem muita gente que, se pudesse, não dormiria nunca”, diz Cristiane.

oso8Novas tecnologias possibilitam jornada quase eterna

Por mais que pareça paradoxal, ao mesmo tempo em que aumentam as distrações, aumenta a pressão por foco e rendimento. E os remédios não são a única estratégia para voltar aos eixos. Há muitos anos, fiz um curso de meditação que, descobri mais tarde, era replicado em empresas, para os funcionários. A monitora garantia: depois que começou a meditar, nunca mais se atrasou para uma reunião, nunca mais perdeu um prazo e era capaz de trabalhar muito mais, se cansando muito menos. “Existe uma lógica de que o sucesso se relaciona à atenção focalizada, e a partir daí surge toda uma produção de conhecimento de como gerir a atenção. Tem cursos de gestão do tempo e livros de autoajuda que ensinam a aproveitar o tempo para se tornar mais produtivo”, observa Cristiana. Como se o problema não fosse estarmos sobrecarregados, mas, sim, sermos maus gestores de nós mesmos: “As pessoas acabam buscando todas as ferramentas possíveis para se adequar a lógica vigente, e acabamos não colocando esta lógica em questão, não questionando por que precisamos trabalhar tantas horas e por que precisamos estar disponíveis (e bem) durante todas essas horas”.

Há na literatura alguns exercícios de imaginação sobre como seria viver sem dormir. André cita um conto do escritor japonês Haruki Murakami — Sono — em que a personagem principal perde, de repente, a capacidade de adormecer. “E ganha uma vitalidade tremenda, sua consciência se expande enormemente”, diz ele, contando que a mulher passa a fazer mil coisas durante o tempo que, antes, era ‘perdido’. “Mas lá pelas tantas ela se dá conta de que morreu, de que experimentou a própria morte. Esse livro traz uma teoria interessante da morte, é como se o mundo sem sono fosse o mundo onde na verdade estamos sem vida. Quando penso em um mundo sem sono, imagino assim: seres humanos totalmente automatizados, robotizados”, devaneia o professor. A batalha está posta.

* O nome foi alterado

Fonte: Outra Saúde
Por: Raquel Torres
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“É hora de colocar a indústria de alimentos ultraprocessados nos trilhos”

O discurso da indústria de que a conscientização do consumidor tratará de resolver o problema é simplista. A indústria do cigarro se valeu disso durante muito tempo, e agora a indústria de alimentos se tornou especialista em semear a dúvida na ciência.

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Foto Rafael Rioja Arantes. Idec.

  ‘O produto que a indústria de alimentos vende é a dúvida’

O pesquisador Boyd Swinburn diz que pressão dos fabricantes atrasa políticas públicas para conter obesidade e doenças crônicas

Boyd Swinburn entende que passou da hora de colocar a indústria de alimentos ultraprocessados nos trilhos. O professor de Nutrição Populacional e Saúde Global da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, usa a expressão “sindemia” para descrever o que está ocorrendo. Não estamos mais falando de uma epidemia de obesidade, mas da junção de uma série de problemas que passam a agravar um ao outro.

Diabetes, doenças do coração, câncer: três dos maiores fatores de mortalidade no mundo têm associação com a obesidade – embora possam também estar ligados a outros fatores. Para ele, o discurso impulsionado pela indústria de que a conscientização do consumidor tratará de resolver o problema é simplista. E desigual, na medida em que quem pode mais passa a comprar alimentos de melhor qualidade.

Em abril, o professor passou por Brasília para participar do Congresso Brasileiro de Nutrição (Conbran). Ele falou sobre um de seus interesses fundamentais: formular, identificar e monitorar políticas públicas que funcionem. Swinburn é um dos nomes à frente do INFORMAS, uma rede de organizações e pesquisadores voltados a essa finalidade. Afinal, se a obesidade se tornou um problema global, se as empresas são as mesmas mundo afora, é possível que a solução aplicada aqui também faça sentido acolá, ainda que com adaptações.

Uma das possibilidades no momento é usar a rotulagem frontal dos alimentos para desestimular o consumo de produtos não saudáveis. Há uma série de modelos, mas Swinburn reiterou em Brasília o apoio ao sistema defendido pela Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável. A ideia é colocar sinais que alertem o consumidor sobre o excesso de sal, açúcar, gorduras e gorduras saturadas, além de acusar a presença de edulcorantes e gorduras trans.

O INFORMAS criou modelos de avaliação dessas políticas públicas pensando em quais argumentos conseguem persuadir formuladores e políticos. A rede conta com pesquisadores de 22 países interessados em desenvolver estratégias comuns quanto a temas como publicidade, rotulagem, composição dos alimentos, tributação e logística.

Swinburn deixa claro: é inútil procurar por uma bala de prata. E a tarefa de convencimento dos formuladores de políticas se torna mais difícil quando há um interesse que se sobrepõe à saúde pública. “O produto que eles vendem é a dúvida. A indústria do cigarro se valeu disso durante muito tempo, e agora a indústria de alimentos se tornou especialista em semear a dúvida na ciência”, critica.

Confira a seguir os principais trechos da conversa.

Você disse que não há uma solução mágica. Mas sabemos o que pode ser mais efetivo em lidar com a epidemia de obesidade?

A análise do que foi feito até aqui sobre modelos mostra que o mais eficiente são políticas públicas. Impostos sobre bebidas adoçadas, restrições na publicidade de alimentos, políticas alimentares em escolas e ambientes públicos. Geralmente, políticas públicas custam muito menos do que programas governamentais. E, no nível de política pública, você atinge toda a população, enquanto um programa é direcionado a um segmento.

Esse debate sobre políticas regulatórias está avançando rapidamente no mundo. O que tem promovido essa aceleração?

Há um enorme impulso da OMS e da sociedade civil, de acadêmicos, de formuladores de políticas públicas. Mas também há uma enorme reação da indústria de alimentos. Eles têm bolsos muito profundos e habilidade para converter poder econômico em poder político para garantir que as políticas implementadas não prejudiquem seus lucros. Isso é o que temos no momento.

É2Foto: Jéssica Ribeiro. Idec

Os políticos estão espremidos no meio, com um grupo dizendo que precisamos de políticas públicas e outro grupo dizendo que não. Os políticos tendem a ficar assustados quando há dois grupos muito significativos batendo à porta, e acabam por congelar a ação. Então, quase nenhum país tem avançado rapidamente no campo político. O Chile fez o maior progresso porque tinha um ministro e um senador dando realmente duro para fazer a política ser implementada.

Já que você falou do Chile, temos visto um grande esforço da indústria em mostrar que essas políticas não estão funcionando. Como você vê esses esforços?

Essa é uma tática clássica das indústrias. Desacreditar as evidências. O produto que eles vendem é a dúvida. A indústria do cigarro se valeu disso durante muito tempo, e agora a indústria de alimentos se tornou especialista em semear a dúvida na ciência. As linhas clássicas que usam são de dizer que não existe evidência de que determinada política será efetiva em reduzir a obesidade.

O que fizeram no México, por exemplo, foi selecionar alguns dados para dizer que a taxação de refrigerantes não está funcionando. Não importa que os dados completos nunca tenham sido divulgados, nem que esse tipo de conclusão não tenha sido submetido a uma revisão pelos colegas. No Chile estão fazendo o mesmo. E no Brasil.

Você falou algumas vezes sobre o Guia Alimentar brasileiro. Qual sua opinião geral sobre o Guia? O que poderia ser melhor?

Quando eu vivia na Austrália, tínhamos um trabalho sobre sustentabilidade e colocamos no guia alimentar. Houve uma grande briga por alguns anos e a indústria ganhou. Todo o trabalho sobre sustentabilidade foi jogado fora, não foi incluído. Tentamos e perdemos. Os Estados Unidos tentaram e perderam. Mas o Brasil venceu. E agora é um modelo mundial para guias alimentares.

O desafio é implementar e levar todas as políticas públicas na direção de incluir as dimensões social e ambiental. Falar sobre educação alimentar. Fazer publicidade social voltada à alimentação saudável.

No Brasil e em outras partes do mundo há uma demanda crescente por alimentos frescos, mas muitas vezes isso acaba por não ser acessível a classes baixas. Como fazer com que essa demanda não crie uma nova faceta da desigualdade?

Se você não faz nada, e a obesidade continua nas manchetes dos jornais, as pessoas que ganham dinheiro suficiente, que têm bom acesso a informação, que têm tempo para lidar com isso, vão procurar um estilo de vida mais saudável. Isso fará crescer a desigualdade.

Então, para evitar que isso aconteça, é preciso ter políticas específicas pró-igualdade, como subsídios para os mais pobres e impostos sobre bebidas adoçadas. Esses impostos atingem de maneira mais dura os mais pobres porque têm um impacto maior no bolso. Políticas que restringem o marketing de fast-food e a oferta de fast-food no entorno das escolas. Você pode decidir que não haverá McDonald’s próximo a uma escola de baixa renda. As políticas precisam facilitar às pessoas pobres fazer escolhas saudáveis.

Fonte: O joio e o trigo
Por: João Peres
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Indústria do álcool não quer a concorrência da maconha legalizada

A cervejaria norte-americana Molson Coors divulgou no começo do ano que considerava o advento da maconha legalizada um grave risco para seus negócios.

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A batalha contra a legalização nos estados norte-americanos tem muitas atores, e um deles é a indústria de bebidas

  Maconha: por que a indústria do álcool parece não querer a legalização

Quando a cervejaria norte-americana Molson Coors divulgou no começo do ano que considerava o advento da maconha legalizada um grave risco para seus negócios, o que a empresa estava fazendo era marcar posição em um dos lados de um debate acirrado, que vem acompanhando o movimento pela retirada da maconha da obscuridade para o mundo dos bens de consumo tributados e regulados.

No Colorado, o estado norte-americano pioneiro na legalização, os defensores centralizaram sua campanha no argumento de que a maconha seria muito mais segura que o álcool, e por isso deveria ser tratada pelo menos de forma semelhante.

O argumento, no entanto, se torna inócuo se a maconha for um complemento para o álcool em vez de um substituto, isto é: se fumar fizer você beber mais, não faz diferença se ficar doidão for mais seguro que ficar bêbado.

Como o governo federal dos EUA vem há bastante tempo negando recursos para pesquisas sobre a cannabis, ainda há muito a se aprender, mas os resultados iniciais parecem indicar que o que se intuía era verdade: a maconha é um substituto não apenas para o álcool, mas também para os opiáceos.

“Embora ainda não se conheça o impacto final disso, o surgimento de cannabis legalizada em alguns estados dos EUA e do Canadá pode resultar em um afastamento da renda discricionária em relação aos nosso produtos ou em uma mudança nas preferências dos consumidores em prejuízo da cerveja”, alertou em seu documento a Molson Coors Brewing Company.

Mas a indústria de bebidas alcoólicas tampouco está ignorando a ameaça. Diversas empresas da área de bebidas, além de organizações do setor, ajudaram a financiar campanhas contra as iniciativas de legalização da maconha, o que indica que devem estar suficientemente convencidas dessa teoria para gastar dinheiro com ela.

Fiz uma análise preliminar sobre a venda de bebidas alcoólicas no Oregon, e os resultados indicam que as preocupações da indústria podem ter seus méritos, e que a maconha legalizada pode realmente estar fazendo as pessoas consumirem menos álcool.

A forma como o uso recreativo da maconha impacta o consumo de álcool pode ser a consequência mais importante da legalização em termos financeiros e de saúde pública. Embora o uso de maconha não esteja isento de problemas, o álcool é responsável por aproximadamente 88 mil mortes por ano nos Estados Unidos, e estima-se que o consumo excessivo crie um custo econômico de cerca de 250 bilhões de dólares.

Os eleitores do estado do Oregon decidiram pela legalização da maconha em 2014, por meio da Medida 91. Em outubro de 2015 o estado começou a permitir vendas para uso recreativo a adultos maiores de 21 anos, mas as cidades e os condados tinham a prerrogativa de impedir esse tipo de comércio; por isso, em alguns lugares essa modalidade de venda continuou proibida. Tal fato possibilita comparar as vendas de bebida alcoólica entre as partes do estado onde há lojas de maconha para uso recreativo e aquelas onde elas não existem, com base em dados da Comissão de Controle de Bebida do Oregon (Oregon Liquor Control Commission, OLCC).

Nessa análise, os municípios do Oregon foram divididos em dois grupos: cidades onde havia pelo menos uma loja que vendia maconha para uso recreativo durante o ano fiscal de 2017 da OLCC (do meio de 2016 ao meio de 2017), e cidades onde nunca havia sido vendida maconha para uso recreativo até julho de 2017. Os dados das lojas se baseiam nas informações obtidas da Autoridade de Saúde do Oregon e da OLCC.

Nos anos fiscais de 2016 e 2017, o total das vendas de bebidas alcoólicas nas cidades onde havia também venda de maconha para uso recreativo aumentou apenas 4,17%. Em comparação, nas cidades onde não havia lojas de maconha, o total das vendas de bebidas alcoólicas aumentou 5,86%. Embora a diferença absoluta seja pequena, foi a maior distância entre as taxas desses dois grupos ao longo de quatorze anos. Nos anos anteriores, o crescimento havia sido bastante próximo.

É claro que outros fatores podem ter estado em jogo, e trata-se apenas de dados relativos ao período de um ano. As cidades que permitem a venda de maconha tendem a ser mais liberais. Além disso, um grande número de habitantes do Oregon vivem perto da fronteira com o estado de Washington, que privatizou a venda de bebida alcoólica em 2012 e deu início à venda de maconha para uso recreativo em 2014. Ainda assim, a nítida divergência que se mostrou depois do primeiro ano fiscal completo de venda de maconha para uso recreativo é um resultado intrigante – em especial quando combinado com outros estudos que mostram que as pessoas podem estar substituindo outras drogas por maconha.

Embora os esforços para estudar esse assunto estejam intrinsecamente limitados pelo fato de que a maconha só foi legalizada recentemente e em poucos lugares, já existem estudos indicando que a aprovação estadual do uso da maconha para fins medicinais esteve associado a uma redução de 15% nas vendas de álcool. A pesquisa examinou as vendas de álcool em condados antes e depois da adoção da maconha para uso medicinal e as comparou com as vendas em condados vizinhos e em outros estados. Um relatório recente da Cowen Research concluiu, de forma semelhante, que os episódios de consumo excessivo de álcool eram menos comuns nos estados que haviam legalizado a maconha.

Outras pesquisas sobre o tema tiveram resultados mais variados. Um estudo da organização Rand concluiu que a maconha para uso medicinal estava associada a um discreto aumento nas mortes relacionadas à intoxicação por álcool em pessoas abaixo de 21 anos, mas também a uma redução de maior proporção da mortalidade relacionada ao álcool e aos opiáceos em adultos mais velhos.

Alguns estudos também concluíram que os estados onde existe distribuição de maconha para uso medicinal tiveram uma redução relativa no número de mortes ligadas ao uso de opiáceos. Isso parece indicar que a maconha também substitui outras substâncias mais perigosas, além do álcool. Apenas este mês, dois novos estudos foram publicados na revista JAMA Internal Medicine. Um deles constatou que a existência de legislação regulando o uso de maconha por adultos estava associada a uma taxa de prescrição de opiáceos 6,38% menor entre os pacientes com Medicaid (programa de saúde americano para pessoas de baixa renda). Os demais detectaram uma redução no número de receitas de opiáceos registradas pelos pacientes com Medicare (seguro de saúde público destinado a idosos dos EUA) depois que a maconha para uso medicinal passou a ser distribuída em seus estados.

Importante destacar que no estado do Oregon só existem dados referentes ao período de um ano, e que seria razoável imaginar que o efeito de substituição fosse relativamente pequeno, a princípio. Hábitos e vícios são por essência comportamentos refratários à mudança. Na hipótese de que haja um efeito de substituição em curso, não seria exatamente de se esperar que consumidores de álcool em grande doses imediatamente se tornassem usuários de cannabis. O mais provável, na verdade, é que algumas pessoas com potencial para se tornarem grandes consumidores de álcool passem, em vez disso, a usar cannabis.

Essa análise se baseia apenas em dados preliminares, mas destaca uma questão de grande interesse. Serão necessários muitos anos para reunir dados suficientes para atingir conclusões definitivas sobre o impacto da plena legalização, mas a comparação entre as cidades nos estados de Oregon, Alaska, Nevada e Massachussetts que decidiram permitir a venda de maconha para uso recreativo, e aquelas que não o fizeram pode se mostrar uma fonte muito útil de informação.

Embora os estados do Colorado e de Washington tenham sido tecnicamente os primeiros a legalizar a maconha, ambos já possuíam há anos sistemas de distribuição de maconha para uso medicinal, que facilitavam o acesso pela população por meio de jardins coletivos ou dispensários. Seria difícil separar o impacto de uma legislação já muito liberal em relação à maconha de uso medicinal do impacto da maconha de uso recreativo. Já Oregon, Alaska, Nevada e Massachussetts tinham distribuição muito restrita de maconha de uso medicinal, ou apenas por curtos períodos, antes da legalização.

Em vários estados, os governos que estão decidindo como lidar com a maconha de uso recreativo estão indiretamente fazendo parte de um enorme experimento natural. O potencial resultado pode impactar as políticas relativas à maconha, ao álcool e à saúde pública ainda por muitos anos.

Fonte: Outra Saúde
Por: Raquel Torres Gurgel
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Bancos e serviços financeiros; produtores de drogas e narcotraficantes; fabricantes e vendedores de armas; área da construção e administração de presídios; clubes de futebol; políticos ligados a estas atividades e os que tem interesse em manter uma hierarquia sócio racial.

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Carta aberta ao Ministro Barroso: A guerra às drogas não fracassou para os ricos, só para os pobres

A guerra contra as drogas não falhou totalmente, ela é um sucesso de resultado também. Os ricos ganham muito dinheiro produzindo e vendendo armas e drogas, enquanto só morrem os pobres, sejam policiais, traficantes ou moradores de favela.

O Ministro do Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso, defendeu em um evento realizado na Defensoria Pública do Rio de Janeiro, em fevereiro (23), que a guerra às drogas fracassou. Na sua fala o Ministro enfatizou que “a luta armada contra o tráfico não tem sido vitoriosa. Como o poder do tráfico vem dessa ilegalidade é preciso colocar como opção a descriminalização”.

Em um artigo publicado no jornal britânico The Guardian no ano passado, Luís Barroso também defende essa mesma tese do fracasso da guerra às drogas. Ele inicia o texto afirmando que a guerra na favela da Rocinha, uma das maiores da cidade do Rio de Janeiro, já estaria perdida, pois a guerra contra as drogas falhou e afirma que “com barulho de tiro vindo de todos os lados, escolas e lojas são obrigadas a fechar as portas”. Uma pesquisa realizada pelo aplicativo Fogo Cruzado em parceria com a Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV) demonstrou que no primeiro semestre de 2017 confrontos envolvendo a repressão do Estado contra o tráfico de drogas e confrontos entre as facções pelo controle dos postos de venda interromperam as aulas em 99 dos 107 dias letivos na rede municipal de ensino no Rio de Janeiro. Sobre as ‘balas perdidas’ na favela da Rocinha, o Ministro evocou o caso da morte da turista espanhola Maria Esperanza, atingida quando o carro de passeio em que ela estava passou por um bloqueio policial. Ao evidenciar esse fato, Luís Barroso deixou de fora centenas de casos similares envolvendo moradores da Rocinha e demais favelas, vítimas cotidianas de balas perdidas, ou para usarmos um termo policial, ‘vítimas colaterais’ dos confrontos. Essa escolha pode ter sido motivada porque esse acontecimento ganhou repercussão internacional, inclusive no próprio jornal The Guardian. Enquanto outras vidas ceifadas da mesma forma não ganham repercussão no Brasil, quiçá fora dele.

Na visão do Ministro, a atual política de drogas é baseada em ações policiais, armamento e prisões, onde qualquer pessoa pode perceber que essa estratégia de repressão falhou, pois o consumo das drogas e o tráfico só aumentaram. Luís Barroso afirma ainda que a questão das drogas tem um impacto profundo no sistema de justiça criminal, sendo por isso necessário que o Supremo Tribunal Federal participe do debate. Continua seu argumento dizendo que a política de guerra às drogas teve início mundialmente na década de 70 sob a influência dos EUA, se espalhando para outros continentes, onde após 40 anos de investimentos bilionários, a utilização da polícia e do exército, a situação só piorou, resultando em milhares de pessoas presas e mortas, principalmente no Brasil.

Segundo Barroso, enquanto nos países da Europa e no EUA a descriminalização e legalização das drogas teriam como foco principal o atendimento aos dependentes químicos, no Brasil o objetivo seria dar fim ao domínio dos traficantes sobre as comunidades pobres. No entanto, o Ministro não citou a presença de uma imensa população carcerária nos EUA, sobretudo de pessoas negras, situação que leva ao fato de existir hoje mais pessoas negras presas, do que o contingente de escravos no ano de 1850. Segundo uma pesquisa comparativa divulgada no The Intercept Brasil, o uso de Maconha entre negros e brancos é praticamente o mesmo nível nos EUA, só que os negros têm 375% mais chances de serem presos por porte de drogas e se o número de negros presos fosse igual ao de brancos, a população carcerária dos EUA despencaria em 40%. Nos anos de 1970 o número de presos nos EUA era de 397 mil, um número que já não é baixo, porém o ano de 2014 registrou um número assustador de 2,3 milhões de pessoas encarceradas. Enquanto os homens negros representam cerca de 6,6% da população Norte Americana, eles ocupam 40% das vagas nos presídios, a maioria indiciados por porte ou tráfico de drogas como demonstra de maneira brilhante o documentário a 13ª Emenda na Netflix.

Além de afetar o poder do tráfico de drogas, o Ministro do STF defende que a legalização das drogas vai reduzir o encarceramento de jovens que muitas vezes são presos por porte de Maconha e se tornam perigosos ao adentrarem no sistema prisional. Na conclusão do artigo Luís Barroso reafirma que a política de drogas é insana, destrói vidas, gera resultados ruins para a sociedade, com o custo alto e sem nenhum efeito para o tráfico de drogas. E que apenas a superstição, o preconceito e a ignorância são capazes de fazer alguém acreditar na repressão enquanto efetiva. Por essas razões, Barroso defende que é preciso começar a tratar a Maconha que nem o cigarro, legalizado, regulamentado, com vendas em determinados lugares, com cobrança de impostos, restrição por idade e sem propaganda que estimule o consumo.

Essa não foi a primeira vez que o Ministro Luís Barroso se posicionou publicamente a favor da legalização das drogas. Em fevereiro de 2017, Barroso defendeu a legalização da Maconha como uma forma de aliviar a crise no sistema carcerário, caso a experiência fosse positiva, avançaria com a política para a Cocaína. Segundo o Ministro, “é preciso quebrar o poder do Narcotráfico que está centrado na ilegalidade dessas drogas”. Em agosto do mesmo ano, no programa da Rede Globo ‘Conversa com Bial’, Luís Barroso voltou a defender a legalização da Maconha tendo inclusive votado favoravelmente em 2015 quando o STF julgou a descriminalização do porte de drogas, que acabou apenas descriminalizando a Maconha para uso pessoal.

O problema da abordagem crítica que aponta para o insucesso da guerra às drogas nos seus objetivos de impedir a produção, comércio e o consumo de determinadas substâncias é que ela deixa de fora a possibilidade de percebermos que esse pretenso fracasso, se configura na verdade como um sucesso político e econômico para aqueles que estão envolvidos na cadeia produtiva mundial das drogas ilícitas.

A guerra às drogas fracassou para quem?

Segundo a UNODC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime), órgão ligado à ONU, o Narcotráfico lidera o ranking das atividades econômicas criminais mais lucrativas, movimentando em média 320 bilhões de dólares por ano. Evidentemente toda esta cifra não fica abrigada nas comunidades periféricas do Brasil, local em que a repressão ao tráfico de drogas está centralizada.

Uma investigação do Senado Norte Americano realizada em 2012 concluiu que subsidiárias, agências bancárias, controladas pelo HSBC lavaram durante anos bilhões de dólares dos cartéis de drogas mexicano. O relatório liberado pelo comitê especial do Senado disse que o HSBC ignorou sinais que as suas operações estavam sendo usadas por atividades ilegais. As agências ligadas ao banco transportaram 7 bilhões de dólares em dinheiro por meio de veículos blindados ou aviões do México para os EUA. Para encerrar as investigações sobre lavagem de dinheiro, o HSBC pagou uma multa de 1,9 bilhões de dólares, formulou um pedido público de desculpa reconhecendo o erro e se comprometeu a aumentar o controle sobre a movimentação financeira no seu sistema.

O mesmo HSBC (Hong Kong and Shangai Banking Corporation) que, segundo o juiz Luís Carlos Valois no seu livro ‘O Direito penal da guerra às drogas’¹, surgiu após o fim da segunda ‘Guerra do Ópio’ entre Inglaterra e China, como instituição responsável pela expansão da atividade financeira inglesa no comércio do Oriente. O que foi a Guerra do ópio se não o primeiro conflito político-econômico entre duas nações em torno da venda de uma droga? A proibição do ópio pelo governo chinês se baseou no argumento econômico do desequilíbrio da balança comercial do país. As guerras do ópio aconteceram entre 1839 – 1840 e 1856 – 1860, uma guerra que a Inglaterra fez para impor a venda do ópio à China, pois se tratava apenas de uma relação comercial, diziam os ingleses, em que um queria vender e o outro queria comprar.

O jornal O Globo publicou em 2016 uma matéria baseada no livro ‘Gomorra’ do jornalista italiano Roberto Saviano, tido como um grande especialista em crime organizado, noticiando que Londres se tornou o novo centro da lavagem de dinheiro do tráfico de drogas. Os bancos e os serviços financeiros estavam ignorando as regras chamadas ‘conheça o seu cliente’, e um comunicado da NCA (Agência Nacional de Combate ao Crime) já tinha alertado as instituições financeiras inglesas que bilhões de dólares americanos oriundos do crime estavam sendo lavados nos bancos locais e subsidiários. Para Saviano, o México é o coração e a Inglaterra a cabeça do tráfico internacional de drogas.

Em 2015 o jornal Estadão trouxe uma matéria sobre investigações realizadas na Europa e EUA, apontando que grupos internacionais do tráfico de drogas estavam lavando dinheiro nos clubes de futebol. A justiça colombiana demonstrou como 1,5 bilhões do tráfico de drogas foram lavados por vários clubes do país, entre eles o Santa Fé, de Bogotá. A Colômbia já tem uma história de relação entre futebol e os cartéis do tráfico de drogas, especialmente quando Pablo Escobar investiu milhões no Atlético Nacional de Medellín nos anos 80. Contudo, não só os times da América Latina estão envolvidos com o tráfico de drogas, mas também times do leste europeu em países como Albânia, Bulgária e Ucrânia.

O tráfico de drogas caminha de mãos dadas com o comércio ilegal das armas, em meio à última crise econômica iniciada em 2008, enquanto as economias de vários países e setores da indústria entraram em recessão, o setor de armamento continuou sua expansão. Em 2015 a venda de armas bateu recorde com uma cifra de 65 bilhões de dólares. Os principais países exportadores foram EUA, Rússia, Alemanha, França e Reino Unido.

No mês de junho de 2017 a Polícia Civil do Rio de Janeiro interceptou no aeroporto internacional 60 fuzis dos modelos G3, AK e AR15 enviados diretamente de Miami (EUA), escondidos dentro de uma carga de aquecedores para piscina. O estado do Rio de Janeiro inclusive superou a marca de apreensão de fuzis no ano de 2017, entre janeiro e setembro foram apreendidos 393 fuzis, numa média de um fuzil apreendido por dia.

Em uma entrevista concedida à revista Carta Capital, o jurista Wálter Maierovitch, que é especialista em crime organizado internacional, afirma que o tráfico ilegal de armas movimenta 290 bilhões de dólares por ano, onde 35% desse mercado é movimentado pela criminalidade organizada.

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Um dos argumentos utilizados como uma possível solução para enfraquecer o tráfico de drogas e diminuir a violência no país é ampliar a fiscalização nas fronteiras, só que nem todo armamento do tráfico de drogas vem de fora do Brasil. A CPI das Armas que aconteceu na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro em 2011 demonstrou que 90% do armamento ilegal é na verdade de origem interna, e que dentro desse grupo 63% dessas armas foram vendidas de forma legal antes de entrarem no mercado ilegal.

A proibição das drogas e a consequente criação do tráfico é um grande instrumento de aquecimento do mercado para a venda e compra de armas, sua existência abre uma dupla demanda para o armamento, tanto para os grupos ligados ao tráfico de drogas, que disputam o controle pelo mercado, como para o Estado que investe vultosos recursos em material bélico para a repressão, comprados diretamente das empresas privadas que ganham muito dinheiro com a insegurança e o conflito.

O proibicionismo também se mostra rentável na área da construção e administração de presídios, comumente superlotados com uma grande quantidade de pessoas sem julgamentos, como é o Complexo Penitenciário Anísio Jobim em Manaus, palco do massacre de presos em uma rebelião no começo do ano passado, envolvendo facções rivais. O presídio que se encontrava superlotado é administrado pela empresa Umanizzare, há fortes indícios de superfaturamento no custo dos presos, pois o preço médio de uma pessoa no sistema prisional é de R$2.400, mas o governo do Amazonas pagava R$4.709 à empresa privada.

Enquanto os ricos lucram com as drogas e as armas, a população pobre, membros da classe trabalhadora e em sua maioria negros, são as principais vítimas da violência causada pela guerra às drogas. Para a ativista negra norte americana contra o encarceramento e a proibição das drogas, Deborah Small, a guerra às drogas é uma ferramenta política da sociedade contemporânea para manter a hierarquia sócio racial, através da exclusão e marginalização das pessoas negras. Na cidade do Rio de Janeiro, a cada 10 mortos em confronto com a PM, 9 são negros, e é impossível não dizer que esses alegados confrontos não sejam resultados da guerra às drogas.

Sabemos que tanto as armas como as drogas não chegam nas favelas por meio da ação de jovens negros, que são os principais alvos da vigilância policial e dos homicídios no país. O tráfico de drogas também tem seu braço nas instituições políticas do Brasil, como no caso do helicóptero de propriedade do Senador Zezé Perrella (PMDB) apreendido em 2013 com nada menos do que 455 kg de Cocaína pasta base, que sequer foi investigado pela Polícia Federal. As eleições são momentos importantes para a lavagem de dinheiro do tráfico de drogas e para a eleição de políticos vinculados ao mesmo, em recente entrevista o traficante Marcinho VP afirmou que o tráfico de drogas financia campanhas políticas, por isso a legalização das drogas não seria interessante para os membros dos poderes Legislativo e Executivo.

Se o Ministro do STF estiver considerando que a guerra contra o tráfico falhou na perspectiva de acabar com a produção, venda e o consumo de algumas drogas, como Maconha, Cocaína e Ópio, parece que falhou sim. Mas a guerra contra as drogas não falhou totalmente, ela é um sucesso de resultado também. Os ricos ganham muito dinheiro produzindo e vendendo armas e drogas, enquanto só morrem os pobres, sejam policiais, traficantes ou moradores de favela. O Estado criminalizou uma relação comercial e tenta acabar com esse mercado que ele criou. É o cachorro correndo atrás do rabo.

¹ VALOIS, Luís Carlos, O direito penal da guerra às drogas, 2ª ed, Belo Horizonte, Editora D’Plácido, 2017.

Fonte: Smoke Buddies
Por: Henrique Oliveira é graduado em História, mestrando em História Social pela UFBA
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Dez drogas menos perigosas do que o álcool

O Brasil é um dos grandes consumidores de álcool do mundo. Somos o terceiro país das Américas com o maior número de mortes relacionadas ao álcool entre os homens. Os danos causados pelo cigarro são bem conhecidos, e a proibição de propagandas e os alertas nas embalagens ajudam a população a ter pleno conhecimento sobre os riscos do produto que está consumindo. Com o álcool, é um pouco diferente. Não há proibição da publicidade e o único alerta feito diz respeito à faixa etária permitida. Por isso, a impressão que fica é que bebidas alcoólicas não representam um risco tão grande, mas isso não é verdade. O manual de orientação da Sociedade Brasileira de Pediatria sobre o álcool diz que a Organização Mundial de Saúde aponta que o consumo de álcool excessivo no mundo é responsável por 2,5 milhões de mortes a cada ano. O percentual equivale a 4% de todas as mortes, o que faz com que o álcool se torne mais letal que a Aids e a tuberculose.

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     É mais difícil morrer usando estas 10 drogas do que ingerindo álcool
Drogas são proibidas por lei pelo grande risco que causam à saúde. Mas não é segredo para ninguém que drogas permitidas por lei, como o álcool e o cigarro, também nos trazem grandes riscos. Os danos causados pelo cigarro são bem conhecidos, e a proibição de propagandas e os alertas nas embalagens ajudam a população a ter pleno conhecimento sobre os riscos do produto que está consumindo. Com o álcool, é um pouco diferente. Não há proibição da publicidade e o único alerta feito diz respeito à faixa etária permitida.
Por isso, a impressão que fica é que bebidas alcoólicas não representam um risco tão grande, mas isso não é verdade. O manual de orientação da Sociedade Brasileira de Pediatria sobre o álcool diz que a Organização Mundial de Saúde aponta que o consumo de álcool excessivo no mundo é responsável por 2,5 milhões de mortes a cada ano. O percentual equivale a 4% de todas as mortes, o que faz com que o álcool se torne mais letal que a Aids e a tuberculose.

Um estudo de 2010 feito por cientistas britânicos chegou até mesmo a colocar o álcool como a droga mais perigosa, a frente de substâncias como heroína e crack.

Existem várias maneiras de calcular o perigo de uma droga além de quantas pessoas ela mata – já que isso poderia desvirtuar a análise, uma vez que o álcool, por exemplo, é mais difundido, é legal e possui mais propaganda do que outras drogas e, portanto, chega a mais pessoas. Um método é medir a diferença entre uma dose efetiva da droga e uma dose letal. Considerando isso, as dez drogas listadas abaixo são menos mortais que o álcool tanto no número total de pessoas que matam quanto em relação à diferença entre uma dose letal e uma dose comum – há mais espaço entre uma dose efetiva e uma dose letal entre elas do que no álcool.

10. Cafeína

al2A cafeína é um estimulante do sistema nervoso central e é a única droga psicoativa que não é rigorosamente regulada. É preciso, antes de tudo, diferenciar a cafeína do café. Casos de overdose de cafeína geralmente acontecem com pílulas ou outros tipos de cafeína concentrada. A xícara média de café tem apenas cerca de 100 miligramas de cafeína. Seria preciso um exagero muito grande de café para arriscar uma sobredosagem. Se você pesa cerca de 68 quilos, você precisaria tomar mais de 50 xícaras de uma só vez para que o café seja letal.

A ciência não sabe exatamente qual seria uma dose letal de cafeína, já que pesquisas sugerem que a tolerância à cafeína é algo individual. O que sabemos com certeza é que mulheres são mais vulneráveis aos seus efeitos do que os homens.

Casos de sobredosagem com cafeína noticiados na imprensa são raros e tendem a acontecer quando ela está em formas irregulares, como em pílulas ou em pó, e os indivíduos tomam uma quantidade excessiva muito rápido.

9. Cocaína

al3Só por que uma droga é menos perigosa do que o álcool não quer dizer que ela não seja perigosa, e a cocaína é definitivamente perigosa. Ela é o principal estimulante associado à sobredosagem e à morte, superando drogas como a anfetamina e a metanfetamina. Como a cafeína, a cocaína é um estimulante do sistema nervoso central. Ela funciona como um carro em uma via rápida em direção à via mesolímbica do cérebro, onde a sensação de recompensa é processada.
A cocaína funciona bloqueando a remoção de dopamina das sinapses do cérebro, deixando-a acumular, o que causa sentimentos de euforia intensa. Em excesso, a cocaína está associada a irregularidades de humor, alucinações, colapso do septo e psicose. Ela é menos mortal do que o álcool. Porém, quando tomada em conjunto com bebidas alcoólicas, ela cria algo chamado de cocaetileno. O cocaetileno é uma droga nova produzida por uma dose de uma só vez de cocaína e álcool, e seus níveis de toxicidade podem ser 30% maiores do que o da cocaína sozinha.

8. Óxido nitroso

al4O óxido nitroso, o famoso gás do riso, é um gás incolor e não inflamável. Ele possui um ligeiro odor metálico e a capacidade de causar uma intensa tontura. O óxido nitroso é famoso por seu uso médico como analgésico e anestésico. No entanto, ele também é usado de forma recreativa.

O óxido nitroso foi inventado no final do século 18 e logo tornou-se comum nas festas da classe alta da Grã-Bretanha, e somente depois de superar a resistência dos médicos da época passou a ser usado nos consultórios. Hoje, é possível encontrar óxido nitroso também como oxidante em foguetes e sendo usado para aumentar a produção do motor durante corridas de automóveis.

7. Ketamina

al5Conhecida como “Special K”, a ketamina, ou cetamina, é um tranquilizante de cavalos que também é usado como droga recreativa – apesar ou mesmo por causa disso. Ela é relativamente comum como anestesia pediátrica e veterinária e é considerada um anestésico disassociativo, causando efeitos parecidos de anestesia do que drogas como o PCP, ou pó de anjo, e a DXM, substância presente em xaropes para tosse, drogas que manipulam as percepções sensoriais de alguém.

Atualmente, pesquisas pioneiras sobre as propriedades químicas da cetamina sugerem que seus usos medicinais são mais amplos do que apenas um anestésico. Pesquisas mostram que ela pode ser útil no tratamento da depressão. Um estudo da Universidade de Yale mostrou que a cetamina, quando administrada corretamente, pode curar partes inteiras do cérebro desgastadas por anos de estresse e fadiga. Quando usada com abuso, ela traz riscos. O uso excessivo pode levar o usuário a uma síndrome clínica que se assemelha a uma psicose esquizofrênica.

6. Maconha

al6A maconha é uma das drogas psicoativas menos ameaçadoras do planeta. É praticamente impossível morrer com uma overdose de maconha. Na verdade, é uma das poucas drogas sem sobredosagens relatadas. Isso não significa que fazer algo estúpido sob efeito da erva, como dirigir ou tentar pular em um rio, não o matará. Mas é impossível que o corpo consuma níveis elevados de THC, o ingrediente ativo na maconha, a ponto de causar overdose. Seria preciso ingerir centenas de quilos de maconha em poucos minutos para morrer.

Além disso, a maconha possui efeitos medicinais comprovados para aqueles que sofrem de glaucoma, epilepsia, esclerose múltipla e ansiedade, entre muitos outros males.

Não há dúvidas de que a maconha é muito menos tóxica para nossos corpos do que o álcool.

5. Ecstasy

al7A metilenodioximetanfetamina, conhecida pela sigla MDMA e popularmente como Ecstasy, é um composto sintético produzido pela primeira vez por químicos alemães em 1912. Sua composição química é uma mistura entre a metanfetamina e a mescalina alucinógena. O ecstasy provoca diversas reações químicas no corpo, potencializadas pelo fato de que muitas vezes ele é tomado em conjunto com outras drogas. A droga catalisa uma onda de serotonina no cérebro, levando a sentimentos de euforia, empatia e serenidade que podem durar várias horas.

Quando ela começa a sair do nosso sistema, entretanto, desencadeia reações que causam sentimentos muito fortes de depressão e fadiga.

Overdoses de ecstasy, que geralmente ocorrem em raves e shows de música, levam a desidratação e, em alguns casos, insuficiência cardíaca. Mas o maior perigo da MDMA é que ela raramente é comprada em forma pura. Em vez disso, a droga é misturada a outros compostos que podem ser tóxicos para a saúde.

4. Codeína

al8Os EUA vivem atualmente uma epidemia de opiáceos, e a inclusão da codeína em xaropes contra a tosse desempenhou um papel nisso. A codeína é o único opiáceo que aparece nesta lista. Quando utilizados corretamente, os opiáceos ajudam a aliviar níveis moderados ou severos de dor. A codeína também é utilizada como supressora da tosse, muitas vezes em conjunto com acetaminofeno ou um fármaco antiinflamatório não esteróide (AINE).

Muitas pessoas vão atrás da codeína acreditando incorretamente que é uma droga mais segura do que outras, mais “pesadas” como a heroína.

A codeína no xarope contra a tosse é misturada com prometazina, uma substância que tem que tem um efeito sedativo. Como a codeína e a prometazina são depressores do sistema nervoso central, a overdose pode levar a uma insuficiência respiratória. Os adolescentes americanos são o subgrupo mais adepto à codeína. Um em cada dez entre eles admitiu usar xarope contra a tosse para fins recreativos em 2014.

Mas mesmo com os perigos de uso indevido e abuso, a codeína não apresenta a mesma ameaça para a saúde social que o álcool.

3. LSD

al9O LSD, também conhecido como ácido, é a sigla em inglês para dietilamida de ácido lisérgico. O cientista suíço Albert Hofmann sintetizou o LSD em 1938 enquanto trabalhava com o ergot, um fungo encontrado em grãos. Cinco anos depois, ele acidentalmente engoliu algumas de suas criações. Hofmann experimentou formas e imagens estranhas, efeitos comuns do LSD. Três dias depois, ele tomou uma dose maior da substância, no que seria a primeira viagem intencional de LSD no mundo.

O LSD é um alucinógeno que dá a seus usuários novas sensações auditivas, visuais e sensoriais. Em termos de toxicidade, a overdose de LSD é quase tão improvável quanto a do THC. Para ter uma overdose, um indivíduo precisaria aumentar em 1000 vezes a dose média. No entanto, as pessoas certamente podem fazer coisas estúpidas e perigosas sob a influência do LSD.

Outra característica em comum entre o LSD e a maconha são seus fins medicinais. Cientistas estudam como utilizar o LSD como um remédio contra a depressão. Testes em laboratório e com acompanhamento médico já mostraram que essa e outras drogas alucinógenas podem ser muito eficientes nestes casos.

2. Psilocibina

al10Ao contrário do LSD, a psilocibina é um psicodélico natural. Ela pode ser encontrada em várias espécies de cogumelos, conhecidos coloquialmente como “cogumelos mágicos”. Os cogumelos contendo psilocibina têm sido utilizados por suas propriedades “mágicas” para fins religiosos há milhares de anos.

Em termos de toxicidade, a psilocibina pura, como o LSD, é quase impossível de causar overdose. Assim como com o LSD, a dose efetiva média teria que ser aumentada 1000 vezes para alguém morrer de psilocibina, o que a torna muito menos letal do que o álcool.
Quando a psilocibina foi introduzida na cultura ocidental, seu potencial uso para tratamento da saúde mental já foi observado. Hoje, os médicos estão estudando como a psilocibina pode ajudar aqueles que sofrem de uma variedade de doenças mentais, e os resultados por enquanto são bastante positivos.

1. Mescalina

al11A mescalina é mais um alucinógeno. Porém, ao contrário do LSD ou dos cogumelos, não é muito difícil ter uma overdose com ela. Seria preciso aumentar a dose efetiva média em “apenas” 24 vezes – algo ainda distante do perigo do álcool.

Como a psilocibina, a mescalina é um alucinógeno natural, principalmente encontrado no cacto peiote, comum no sudoeste dos EUA e em boa parte do México. A mescalina tem uma história antiga, sendo usada desde a era pré-colombiana. Os astecas usavam o peiote por suas qualidades “divinas”.

O mais irônico é que alguns especialistas acreditam que a mescalina e os outros alucinógenos poderiam ser a chave para uma cura para o alcoolismo. [Listverse]
Fonte: Hypescience
Por: Jéssica Maes
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Por que cervejeiro é empresário e dono de “boca de fumo” é traficante?

“Beba moderadamente” não funciona.

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Los estudios muestran que Estados Unidos tiene una de las tasas más altas de abuso de drogas del mundo. El cartel de la cocaína comienza en las calles de Nueva York, Miami, Los Ángeles y en cada una de las ciudades estadounidenses donde se vende y compra crack”. Debemos crear centros de tratamiento de primer nivel con personal capacitado, donde la gente esté dispuesta a ir sin temor de ser condenada y con la confianza de que recibirá una atención eficaz. La experiencia de Portugal sugiere que los jóvenes que consumen drogas pero aún no son adictos a menudo pueden dejarlas. Aunque es difícil lograr que los adictos de más edad dejen las drogas, los programas de tratamiento pueden ofrecerles servicios útiles.
El fracaso de la guerra contra las drogas

droUna mujer en Nueva Jersey es interrogada por policías por una presunta posesión de heroína. Jessica Kourkounis para The New York Times

La guerra contra las drogas en Estados Unidos ha sido un fracaso que ha arruinado vidas, ha abarrotado las cárceles y ha costado una fortuna. Comenzó durante el gobierno de Nixon con la idea de que, dado que las drogas son malas para las personas, tiene que ser difícil conseguirlas. En consecuencia, se planteó una guerra contra el suministro.

Durante la epidemia del crack en la década de los ochenta, Nancy Reagan, la primera dama, trató de cambiar este enfoque. Sin embargo, su campaña para reducir la demanda, “Di no a las drogas”, tuvo un respaldo limitado.

El 25 de octubre de 1988, después de enfrentarse a las objeciones de una burocracia enfocada en el suministro de drogas, le dijo a una audiencia de las Naciones Unidas: “Si no podemos detener la demanda de drogas en Estados Unidos, habrá pocas esperanzas de evitar que los productores extranjeros satisfagan esa demanda. No lograremos nada si demandamos una carga de responsabilidad mayor en los gobiernos extranjeros que en los alguaciles, jueces y legisladores estadounidenses. El cartel de la cocaína no comienza en Medellín, Colombia. Comienza en las calles de Nueva York, Miami, Los Ángeles y en cada una de las ciudades estadounidenses donde se vende y compra crack”.

Su advertencia, aunque profética, no fue tomada en cuenta. Los estudios muestran que Estados Unidos tiene una de las tasas más altas de abuso de drogas del mundo. Aunque restringir el suministro no ha logrado frenar su consumo, las políticas draconianas han llevado a miles de jóvenes adictos a llenar las cárceles estadounidenses, donde aprenden a convertirse en verdaderos criminales.

La prohibición de las drogas también han creado incentivos económicos perversos que hacen muy difícil combatir a los productores y distribuidores de drogas. El alto precio de las drogas en el mercado negro les ha generado a los grupos que las producen y las venden ganancias enormes, que invierten en comprar armas sofisticadas, contratar pandillas que defiendan su negocio, sobornar a funcionarios públicos y, con la idea de convertirlos en adictos, hacer que las drogas sean de fácil acceso a los niños.

Las pandillas de los carteles, armadas con dinero y armas provenientes de Estados Unidos, están causando un caos sangriento en México, El Salvador y otros países de América Latina. Solo en México, la violencia relacionada con las drogas ha tenido un saldo de 100.000 muertes desde 2006. Esta violencia es una de las razones por las que la gente deja sus países y huye a Estados Unidos.

Si se considera todo lo anterior, es fácil ver que la estrategia que se enfoca en el suministro ha sido muy poco eficiente en disminuir las adicciones y, en cambio, ha provocado una serie de efectos colaterales terribles. Entonces, ¿qué podemos hacer?

En primer lugar, los gobiernos de Estados Unidos y México deben reconocer el fracaso de esta táctica. Solo en ese momento podremos abocarnos a diseñar a nivel nacional campañas educativas rigurosas para convencer a las personas de no consumir drogas.

La crisis actual de opioides profundiza la importancia de frenar la demanda. Este enfoque, con suficientes recursos y el mensaje correcto, podría tener un impacto similar al de la campaña para reducir el consumo de tabaco.

También debemos despenalizar la posesión a pequeña escala de drogas para uso personal, de manera que se detenga el flujo de consumidores no violentos al sistema penal. En Estados Unidos, algunos estados han dado un paso en esta dirección al despenalizar la posesión de cierta cantidad de marihuana. La Suprema Corte de Justicia de la Nación en México también declaró que las personas deberían tener derecho a cultivar y distribuir marihuana para uso personal. Al mismo tiempo, debemos seguir considerando ilegal la posesión de grandes cantidades de droga, de manera que los traficantes puedan ser procesados judicialmente y se mantenga cierto control sobre el suministro.

Por último, debemos crear centros de tratamiento de primer nivel con personal capacitado, donde la gente esté dispuesta a ir sin temor de ser condenada y con la confianza de que recibirá una atención eficaz. La experiencia de Portugal sugiere que los jóvenes que consumen drogas pero aún no son adictos a menudo pueden dejarlas. Aunque es difícil lograr que los adictos de más edad dejen las drogas, los programas de tratamiento pueden ofrecerles servicios útiles.

Ante un problema tan complejo, debemos estar dispuestos a experimentar con distintas soluciones. ¿Qué mensajes son más eficaces? ¿Cómo pueden lograrse tratamientos efectivos para distintos tipos de drogas y diferentes grados de adicción? Debemos tener la paciencia para evaluar qué funciona y qué no. Pero debemos comenzar ya.

A medida que estos esfuerzos progresen, las ganancias del narcotráfico se reducirán en gran medida, aun cuando los riesgos de involucrarse en él sigan siendo altos. El resultado será una disminución gradual de la violencia en México y los países centroamericanos.

Tenemos una crisis en nuestras manos, y durante los últimos cincuenta años hemos sido incapaces de resolverla. Sin embargo, hay opciones. Tanto Estados Unidos como México necesitan ver más allá de la idea de que la adicción a las drogas es un problema judicial que puede solucionarse con arrestos, juicios penales y restricciones al suministro. Debemos atacarlo juntos con políticas de salud pública y educación.

Aún estamos a tiempo de persuadir a nuestros jóvenes de no arruinar sus vidas.

Fonte: The New York Times Es
Por: George P. Shultz, ha sido secretario del Tesoro y secretario de Estado en Estados Unidos
Por: Pedro Aspe fue secretario de Hacienda y Crédito Público en México.
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“As maracutaias da indústria do açúcar”

A indústria do açúcar está há décadas manipulando a ciência

Esta semana, uma equipe da qual participam Cristin Kearns e Stanton Glantz, pesquisadores da Universidade da Califórnia em São Francisco conhecidos por apontar as maracutaias do negócio açucareiro, recuperou antigos documentos que mostram sua forma de trabalhar.

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A indústria do açúcar ocultou durante cerca de 50 anos estudos efetuados com animais que sugeriam os efeitos negativos que a sacarose tem na saúde. MARK R. CRISTINO EFE

Durante a história da humanidade morrer de câncer de pulmão era uma verdadeira raridade. No entanto, o consumo em massa de tabaco, que começou no final do século XIX, causou uma epidemia mundial. A relação entre o hábito de fumar e o câncer começou a ser demonstrada nos anos 40, e no final dos 50 as provas já eram irrefutáveis. Em 1960, porém, somente um terço dos médicos dos Estados Unidos acreditavam que o vínculo entre a doença e o tabagismo fosse real. Para essa confusão dos médicos e da população a ciência também contribuiu. Em 1954, o pesquisador Robert Hockett foi contratado pelo Comitê de Investigação da Indústria do Tabaco, dos EUA, para pôr em dúvida a solidez dos estudos sobre os malefícios dos cigarros.

Apesar dos esforços daquela indústria, a acumulação de provas conseguiu fazer com que a consciência sobre os perigos de fumar seja quase universal e que as campanhas tenham reduzido significativamente o número de fumantes. Mas o negócio do tabaco não é o único que manipulou a ciência para proteger seus lucros. Como o tabagismo, o consumo desenfreado de açúcar é um hábito doentio moderno. E embora a consciência sobre os danos do açúcar seja algo muito mais recente, parece que a própria indústria está ciente deles há muito tempo. De fato, Hockett, antes de buscar a proteção do tabaco por meio da confusão, tinha feito o mesmo com o açúcar. Nesse caso, ao não poder negar a relação entre a sacarose e as cáries, tentava promover intervenções de saúde pública que reduzissem os dados no açúcar em vez de restringir seu consumo.

Esta semana, uma equipe da qual participam Cristin Kearns e Stanton Glantz, pesquisadores da Universidade da Califórnia em São Francisco conhecidos por apontar as maracutaias do negócio açucareiro, recuperou antigos documentos que mostram sua forma de trabalhar. Segundo explicam em um artigo publicado na revista PLOS Biology, a Sugar Research Foundation (SRF), conhecida agora como Sugar Association, financiou em 1965 uma revisão no New England Journal of Medicine na qual eram descartados indícios que relacionavam o consumo de açúcar, os níveis de gordura no sangue e doenças cardíacas. Essa mesma fundação também realizou estudos em animais em 1970 para analisar esses vínculos. Seus resultados encontraram um maior nível de colesterol em ratos alimentados com açúcar em relação a outros alimentados com amido, uma diferença que atribuíam a distintas reações dos micróbios de seu intestino. Quando a SRF conheceu os dados, que indicavam uma relação entre o consumo de açúcar e as doenças cardíacas, e até um maior risco de câncer de bexiga, interrompeu as pesquisas e nunca publicou seus resultados.

Glatz e seus colegas comentam que este tipo de trabalho propagandístico, direcionado a semear dúvidas sobre qualquer relação entre o consumo de sacarose e as doenças crônicas, continua hoje. Como exemplo citam uma nota à imprensa divulgada pela Sugar Association em 2016 como resposta a um estudo publicado na revisa Cancer Research. Nela, eram questionados os dados obtidos por uma equipe do Centro para o Câncer MD Anderson da Universidade do Texas, nos quais se observou em ratos que o consumo de açúcar favorecia o crescimento de tumores e a metástase.

Estratégias em vigor

As estratégias da indústria açucareira do passado continuam vigentes. Como quando Hockett propunha mitigar o impacto do consumo do açúcar nas cáries sem reduzir seu consumo, hoje, empresas como a Coca-Cola focam na necessidade de se fazer exercícios para reduzir a obesidade, deixando de lado a de diminuir o consumo de açúcar.

Em uma entrevista a El País, Dana Small, uma cientista da Universidade Yale que trabalha para entender a maneira como o entorno moderno, desde a alimentação à poluição, favorece a obesidade, comentou sua experiência colaborando com a Pepsi. Apesar de reconhecer que os dirigentes da empresa tinham boas intenções quando começaram a financiar projetos sobre alimentação e saúde, conta que tudo andou bem até que tiveram “resultados que indicavam que seus produtos poderiam estar causando danos”. Não podiam assumir que conheciam os perigos de seus produtos para a saúde porque essa informação poderia ser utilizada contra eles em futuras ações judiciais. “Deixaram de financiar-me na semana seguinte e confiscaram os computadores dos cientistas com os quais estava trabalhando”, relatou.

Glanz considera que a atitude das entidades açucareiras “questiona os estudos financiados pela indústria do açúcar como uma fonte confiável de informação para a elaboração de políticas públicas”. Small, no entanto, considera que a indústria do açúcar e a da alimentação em geral são grandes demais para serem ignoradas. Em sua opinião é necessário buscar meios de proteger este tipo de colaboração de tal maneira que ambas as partes possam trabalhar de forma honesta “sem ter que se preocupar com segredos comerciais ou ser alvo de ações judiciais”.

Fonte: El país
Por: Daniel Mediavilla
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Cuatro de cada diez casos de cáncer están relacionados con factores de riesgo evitables

fumarCuatro de cada diez casos de cáncer están relacionados con factores de riesgo evitables.

Con una estrategia adecuada de prevención se podría minimizar los factores de riesgo que desencadenan en cáncer, señala estudio publicado en la revista médica CA: A. Cáncer Journal for Clinicians.

La investigación especifica que cuatro de cada diez casos de cáncer y la misma proporción de muertes son provocados en Estados Unidos por factores de riesgo.

“El 42% de todos los tipos de cáncer (659.640 casos de los 1,57 millones diagnosticados en Estados Unidos) y el 45,1% de las muertes atribuidas a esta enfermedad (265.150 sobre 587.521) podrían ser prevenidos”, sugiere el estudio.

El trabajo advierte que una gran proporción de enfermedades por cáncer provienen por algunos malos hábitos como fumar; comer mal o en exceso (sobrepeso); consumir alcohol; exponerse a los rayos ultravioletas o la falta de actividad física.

Entre los cánceres que se deben a un factor de riesgo, los investigadores señalaron que el que tiene la proporción más elevada con 85,8% es de cáncer de pulmón, seguido con 71% por cáncer de hígado, 54,6% colorrectal y 28,7 de cáncer de mama.

Relación y prevención

El hábito de fumar como factor de riesgo representó el 81,7% del cáncer de pulmón, 73,8% del de laringe, 50% del de esófago y 46,9% del de vesícula”, precisa la investigación.

El sobrepeso y la obesidad están ligados a 60,3% de los cánceres de cuello uterino, a un tercio de los tipos de cáncer de hígado, así como a un 11,3% de los cánceres de mama y un 5,2% colorrectal”, agrega.

A su vez cerca del “25% de los cánceres de hígado en los hombres y 11,9% de las mujeres son atribuibles al consumo de alcohol, así como 16,4% de los tumores de mama”.

La exposición a los rayos ultravioleta es la causa del 96% de los melanomas, un cáncer agresivo de piel, en los hombres y del 93,7% en las mujeres.

El estudio también señala que el consumo insuficiente de frutas y verduras representa el factor de riesgo que lleva al 1,9% de los cánceres y 2,7% de los decesos resultantes, mientras que una infección por el virus del papiloma humano (VPH) está relacionado con 1,8% de los casos y 1,1 de los decesos.

En una declaración conjunta, los autores del estudio dijeron que los resultados del trabajo enfatizan la necesidad de que los profesionales médicos y los pacientes usen medidas preventivas para disminuir el riesgo de esta enfermedad.

“Aumentar el acceso a la atención médica preventiva y la conciencia sobre las medidas preventivas debe ser parte de cualquier estrategia integral para la implementación amplia y equitativa de las intervenciones conocidas para acelerar el progreso contra el cáncer”, expresaron.

Fonte: LaRed21 Uy
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O Sindicato Médico é a favor, a Sociedade de Psiquiatria não aprova e a Faculdade de Medicina não ensina

Nota do blog: O uso da Maconha Medicinal é ainda um assunto envolvido em mistérios e o texto nos dá um bom exemplo de transparência ao comparar, basicamente, a situação no Brasil e no Uruguai e, secundariamente, de outros países.

MM

                    “El cannabis medicinal está estancado”

La doctora Julia Galzerano se especializó en cannabis medicinal y es uno de los 10 médicos que se dedican a esta disciplina casi inexplorada en el país. En su consultorio ubicado dentro del Mercado de los Artesanos de la plaza Cagancha la profesional atiende a más de 100 pacientes que, ante la ineficacia de los tratamientos médicos tradicionales, apelaron a la marihuana medicinal para dolencias que van desde el párkinson hasta la esclerosis múltiple, pasando por el cáncer. Acceder a un frasco de cannabis medicinal por vía legal es aún un camino lento y oneroso.

¿En qué contexto legal se da la marihuana medicinal?
El cannabis medicinal está estancado. Tenemos un decreto de febrero de 2015 que habilita el cannabis medicinal pero no hay mucho avance en su instrumentación. ¿Cómo accede la gente que piensa que el cannabis puede ser una forma de tratar su enfermedad? Un camino es el legal, que es importando mediante un mecanismo que se llama medicamentos de uso compasivo. Esto existía antes. Uno puede acceder a comprar sin impuestos si se demuestra que los medicamentos que hay en el país no han hecho efecto para esa persona.

Para eso no se precisaba este decreto.
No, no se precisaba, pero los médicos no sabíamos de cannabis y a partir de este decreto y a través del Sindicato Médico logramos que se apoyara, que la Junta de Drogas apoyara y se hiciera un curso en el que participaron 120 médicos. Hoy los que estamos haciendo esto debemos ser menos de 10. El grupo que hizo el curso se sigue reuniendo en el Hospital de Clínicas estudiando temas vinculados con el cannabis medicinal. Este mecanismo del que hablaba habilita a ingresar determinado tipo de cannabis que tiene canabidiol (CBD), que tiene poco THC (tetrahidrocannabinol) y que sirve para muchas cosas. Para seguir este camino uno acude al médico, se le hace una historia para ver cuál es la patología, tiene que llevar sus exámenes, la lista de medicamentos que toma y vemos si está indicado para esa persona. Puede haber personas que no lo tengan indicado.

Si está indicado, le planteamos la vía legal. Debe llenar un formulario y presentarlo a la dirección técnica de su mutualista. Algunas son receptivas y otras no, pero logramos que la Dirección de Farmacovigilancia del Ministerio de Salud Pública lo firme. El médico tiene que adjuntar recetas de estupefacientes, recetas de color naranja como las que se usan para prescribir morfina. Aún no logramos que el MSP no exija estas recetas ya que esta sustancia no tiene principio psicoactivo. Al principio pedían una receta por frasco, ahora con una se pueden importar varios pero no todos los médicos manejan recetas de estupefacientes. Siguiendo con el trámite, luego el usuario se conecta con el intermediario del laboratorio acá y con una tarjeta de crédito internacional lo importa a un costo de US$ 245 el frasco.

¿Y cómo es la vía ilegal?
Es aceite que no está regulado. De algunos sabemos los componentes y de otros no. Lo que nos preocupa es la concentración de CBD. Hay gente que lo hace de buena fe sin obtener ganancia, y otra lo hace como negocio, lo cual es entendible también, pero el problema es saber la proporción de THC y CBD. Cuando uno cultiva cannabis medicinal tiene que tener determinadas características, saber qué semillas son, que no haya contaminación, etc. Lo que pedimos a salud pública es que haga más fácil el mecanismo para que la gente que produce este aceite pueda legalizar el producto. La ley es fantástica porque permite que se plante y produzca pero es un sistema muy complejo. Creo que eso se debe a que equiparan el registro del cannabis al de un medicamento, entonces hay que presentar la genética de las semillas, hacer los aceites, presentar una investigación en humanos, porque no se aceptan las pruebas de otro lugar, y eso lleva como dos años.

¿Hay estudios en otros países?
Hay estudios pero no tanta evidencia en humanos, porque se trata de una sustancia aún prohibida.                                                                                                                           “El sistema endocannabinoide se descubrió hace 20 años pero la facultad no lo enseña”

¿Y por qué Estados Unidos acepta su venta?
En Estados Unidos no se vende como medicamento sino como complemento nutricional. Aquí el MSP dice que no está registrado por las agencias internacionales de medicamentos.

Y así como el CBD es medicinal, ¿qué pasa con el THC?
El THC es psicoactivo, es lo que buscan quienes consumen con fines recreativos. A veces nosotros usamos esos efectos porque ayuda a comer más, da sueño, da alegría, calma la disforia. Pero no queremos solo eso, queremos sobre todo el CBD que tiene que ver con el dolor, el cáncer, el edema. Las plantas de uso recreativo tienen poco CBD, que es lo que más necesito para los tratamientos. Pero hay casos, como la esclerosis múltiple, para lo cual necesitamos el 1% de THC y el 1% de CBD. En el caso de los tratamiento de la epilepsia prefiero que el cannabis tenga más CBD que THC. Si tengo dolor quiero THC, pero también CBD que actúa sobre el edema. En Estados Unidos y en Israel se usa mucho fumado. Depende de lo que uno quiere. El tema es que como médicos no recomendamos la combustión, y si lo mandamos lo recomendamos con vaporizador.

¿Cómo actúa el CBD?
Tenemos un sistema endocannabinoide que se descubrió hace 20 años. Por eso es importante que la gente sepa que el cannabis no es mágico sino que ayuda a regular un sistema que se desreguló por alguna razón. Hay un sistema con dos tipos de receptores, el CB1 y CB2. Se llaman neurotransmisores porque sobre todo están en el cerebro pero también en otros lugares. Este sistema endocannabinoide es un modulador de los procesos fisiológicos y actúa por reentrada, no es que continuamente esté actuando en estos transmisores sino que se retroalimenta y manda la orden para que funcione. Todo esto la Facultad de Medicina nuestra no lo enseña aunque hace 20 años que se descubrió. El grupo interdisciplinario que funciona en el Clínicas hizo una propuesta a la Facultad para que incorpore el estudio del sistema endocannabinoide porque se conoce al cannabis como sistema de abuso pero no como sustancia de uso medicinal.

“Algunas mutualistas son receptivas y otras no”

No todos lo enseñan, en Estados Unidos no se vende como medicina, las grandes agencias no lo reconocen. ¿No está muy abierto aún el tema?
Hay cannabinoides químicos que ya tienen patente farmacológica, como el Sativex para la esclerosis múltiple y es muy caro. Pero es cierto que no tiene el apoyo de otros medicamentos y habría que preguntarse por qué. Quizá debe ser difícil patentar la planta, no le deben ver el potencial. De todas formas nosotros le explicamos al paciente que no a todos le funciona, igual que pasa con cualquier medicamento. Yo trabajo en VIH y hay tratamientos que funcionan para unos y para otros no.

¿Para qué sí está demostrado que sirve?
Para epilepsia, párkinson y efectos colaterales de la quimioterapia. Ahora se está viendo avances con el cáncer. Se está investigando en cáncer de mama y cáncer de cerebro, donde el cannabis influye en la muerte programada de las células tumorales. En el dolor también funciona. Luego hay otras cosas que vamos viendo que la gente las usa y le sirven.

¿Cuántas personas lo usan en el país?
Mucho más de lo que uno creería. Yo sola tengo más de 100 pacientes.

¿Cómo lo recibió la comunidad médica?
Hay gente a favor, otra no, como la Sociedad de Psiquiatría, que no lo aprueba. Pero en el Sindicato Médico se creó una comisión y pudimos sacar un documento en consenso que decía que si no habían funcionado bien la medicina tradicional se podía usar cannabis medicinal. Eso llegó a los 12 mil afiliados. Y el año pasado ante el pedido de que el sindicato apoyara el curso se respondió apoyando. Se entendió que tenemos que estar informados. La formación tiene que partir del Estado.

¿Y en el ámbito político?
Hay como un reflexionar las cosas demasiado. Yo tengo un entusiasmo que no veo en otros. Hay como más cuidado por esto de que quieren equipararlo a un medicamento. Pero se van perdiendo los miedos. Para mí lo importante es que cuando pregunto qué expectativa tiene el paciente, en general en el 90% de los casos es mejorar la calidad de vida y no es poca cosa. Es muy reconfortante en los casos de cáncer la satisfacción de acompañar a esa persona y que la familia diga: “Pudo transitar en paz este tiempo y nos pidió que le agradeciéramos”. Y cada vez más médicos nos envían pacientes.

Enfermedades

Párkinson. El uso del cannabis en el párkinson contribuye a reducir los movimientos involuntarios de los miembros, que son característicos de la enfermedad.
Esclerosis múltiple. En este caso actúa sobre la inflamación, con su consecuente impacto en los niveles de dolor. También se ha revelado como un eficiente espasmódico que disminuye, como en el párkinson, los movimientos convulsos involuntarios.

Epilepsia. Para esta enfermedad ayuda en algunas modalidades graves como las llamadas síndrome de Dravet o Lennox-Gaustaut, en la cual los niños pueden llegar a sufrir hasta 400 ataques al día. Son cientos los casos en que el uso de cannabis ayudó, aunque no a curar, sí a hacer más esporádicos los ataques.

Nota do blog sobre a situação no Brasil:
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Fonte: EL OBSERVADOR Uy
Por Gabriel Pereyra e Julia Galzerano
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A guerra contra as drogas tem se mostrado mais danosa, custosa e letal que o comércio e uso de drogas em si.

Sua baixa eficácia fica evidente quando se observa que o crime de tráfico de drogas é o que mais atulha os já superlotados presídios brasileiros e é o terceiro que mais mobiliza forças policiais do país –que prendem sobretudo por roubo, furto e tráfico, mas investigam apenas 8% dos homicídios cometidos no país, quase 60 mil por ano.

Além disso, o crime de tráfico há anos legitima ações militarizadas em comunidades dominadas por facções, tornando os extratos mais vulneráveis da sociedade reféns do terror de tiroteios, quando não eles mesmos vítimas de balas perdidas.

Ainda assim, nenhum indicador aponta diminuição do consumo de drogas aqui. Ao contrário: o Brasil se tornou o segundo maior consumidor do mundo de cocaína e derivados, como o crack.

Por outro lado, a experiência internacional na descriminalização do uso de drogas (em vigor em países como Alemanha, Colômbia, México e Portugal, entre outros) aponta que ela tem pouco ou nenhum impacto no consumo, ou seja, não faz explodir seu uso como se teme.

A medida também não aumentou as mortes por overdose nem a incidência de doenças mentais, e ainda aproxima usuários problemáticos do sistema de saúde e evita que caiam na Justiça –que drena recursos e vidas.

A esses resultados, porém, soma-se uma contradição: se portar drogas não é crime, como pode ser crime sua comercialização? Se desconsiderarmos o caso da maconha cultivada para consumo próprio, como a substância foi parar no bolso de alguém?

A regulamentação do mercado de drogas não é uma panaceia, mas parece ser a chave para amenizar esses problemas: liberaria forças policiais para a atuação em crimes mais graves, descongestionaria a Justiça e desafogaria o sistema penitenciário, para que fosse possível ressocializar presos, além de retirar recursos financeiros e humanos do crime organizado.

Existem hoje duas experiências em curso, restritas à maconha: no Uruguai e em oito Estados americanos, que legalizaram o mercado para uso recreativo por adultos.

Em Washington, por exemplo, a prisão por posse de maconha caiu 98% desde a mudança, e as projeções de impostos com a venda atingiam US$ 270 milhões em 2016 –dinheiro carimbado para ações como prevenção ao abuso de drogas nas escolas.

Apesar das evidências, é um desafio pensar fora do paradigma proibicionista, que tem mais de cem anos. Mas vale lembrar: estudos apontam que a droga que mais causa danos ao usuário e a terceiros é o álcool, vendido em qualquer esquina. Alguém ouviu falar em proibi-lo?

Fonte: Smoke Buddies
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