Faça amor não faça a barba

– Papai, eu tenho uns colegas do 6º ano que dizem que você parece um mendigo quando vai me buscar na escola. Tomado de uma curiosidade antropológica irresistível, pedi que o moleque me explicasse melhor o porquê daquela percepção dos colegas.

Outro dia, enquanto tomava fôlego entre uma e outra mordida nos seus sushis e sashimis preferidos, meu filho faz o seguinte comentário:

– Papai, eu tenho uns colegas do 6º ano – meninos na faixa dos onze, doze anos de idade – que dizem que você parece um mendigo quando vai me buscar na escola.

Tomado de uma curiosidade antropológica irresistível, pedi que o moleque me explicasse melhor o porquê daquela percepção dos colegas.

– É porque você vai de bermuda, chinelo e barba grande.

Esses colegas do meu filho associam vestimenta e estética corporal a uma determinada posição do indivíduo na escala social. A mendicância é um estigma, representa a falta de decência moral, equivale praticamente a um crime numa sociedade que valoriza os indivíduos pelo que têm e não por sua postura ética. É a criminalização da pobreza. É a lógica do “você é aquilo que você consegue comprar”. Não se contentam com nada menos do que os melhores celulares, as melhores chuteiras, o melhor sinal de Wi-Fi para jogar aqueles joguinhos interativos do qual entendo bulhufas.

A representação do sucesso nessa sociedade baseada na imagem e no consumo que a alimenta é, seguindo a lógica da galerinha que está às portas da adolescência, um homem na faixa dos quarenta anos que vai buscar o filho trajando um impecável terno e com a barba e o bigode devidamente aparados ou, simplesmente, ausentes, naquele estilo que nós, cariocas, costumamos chamar de “bundinha de neném”.

Fiquei matutando sobre tal percepção da realidade, tal visão de mundo e os valores a ela vinculados. Olho para mim no espelho e não consigo me enxergar sem a barba, cada vez mais branca, é verdade, traço indefectível de minha personalidade e que, modéstia à parte, deixam-me um pouco menos intragável visualmente. Sou um mendigo com doutorado, vejam vocês. Desprezo quem faz apologia à tortura, festejo a diversidade sexual, acredito piamente que a “mão do mercado” é uma falácia, uma historinha pra boi dormir, pra inglês ver. Por outro lado, o pai de terno e barba feita pode ter o colarinho branco, se é que vocês me entendem, porque pra bom entendedor, meia palavra basta. Estereótipos, estigmas, vento que venta lá, venta cá. Miséria material, miséria moral.

A barba por fazer é compreendida como sujeira, falta de higiene, de asseio, falta de banho. Mas ela é muito mais do que isso, ela incomoda porque é uma sujeira simbólica, porque, como dizia a antropóloga Mary Douglas, sujeira “é tudo aquilo que está fora do lugar”, é tudo aquilo que transgride uma determinada ordem das coisas, que desafia o certo e o errado, que questiona e não se curva à “impenetrabilidade da pedra”.

A barba, especialmente aquela pujante e desgrenhada, indomável, indócil, descontrolada, subverte. Nada mais apropriado do que a cultivarmos com carinho nos dias que correm, certo?

Quem ganha com falsas controvérsias sobre ciência

É cada vez mais difícil entender sobre falsas controvérsias, polêmicas fabricadas e mentiras que tentam se passar por opinião científica respeitável. Boa parte da culpa é atribuida a “condição de pós-verdade” do mundo Ocidental – em que o valor dos fatos parece variar de acordo com sua capacidade de servir aos preconceitos dos diferentes grupos sociais, e onde figuras públicas se julgam autorizadas a mentir com impunidade – nas costas do jornalismo business as usual, aquele praticado por grandes jornais, revistas de ampla circulação, rádios e estações de TV.

 

IMAGEM IQC

Quem ganha com falsas controvérsias sobre ciência

Está cada vez mais difícil ficar atualizado com a bibliografia sobre falsas controvérsias, polêmicas fabricadas e mentiras que tentam se passar por opinião científica respeitável.Não faz muito tempo, resenhei dois livrosque tratam do assunto. Semana passada aproveitei para ler outros dois, Post-Truth, do filósofo Lee McIntyre, eLies Incorporated, do jornalista Ari Rabin-Havt, ligado à ONG Media Matters e ao Partido Democrata.

Ambos os livros põem boa parte da culpa pela atual “condição de pós-verdade” do mundo Ocidental – em que o valor dos fatos parece variar de acordo com sua capacidade de servir aos preconceitos dos diferentes grupos sociais, e onde figuras públicas se julgam autorizadas a mentir com impunidade – nas costas do jornalismo business as usual, aquele praticado por grandes jornais, revistas de ampla circulação, rádios e estações de TV.

Não porque esses veículos estejam envolvidos em alguma grande conspiração para disseminar fake news– este é o discurso de gente como Donald Trump – mas porque,ao longo do século passado (e ainda neste), esses veículos adotaram normas e procedimentos cheios de bugs, bugs que foram manipulados à larga por políticos e publicitários.

O principal efeito desses bugs é o de confundir “equilíbrio” com “objetividade”, o que se reflete na norma de que todas as partes interessadas numa determinada questão devem ter igual voz na cobertura. Trata-se de uma regra útil quando o que está em jogo é, por exemplo, a construção de um novo parque, e também pode ser importante quando se realiza um trabalho investigativo de fôlego.

Mas quando se reduz ao meramente declaratório – “ele disse isso, ela disse aquilo” – e, principalmente, quando o que está sendo discutido são pontos científicos consensuais, o recurso engana, distrai e sugere preguiça ou, pior, covardia da parte de quem escreve e publica.Como afirma McIntyre, o ponto de equilíbrio entre verdade e mentira ainda não é a verdade – portanto, é mentira. 

Ao adotar uma política de equilíbrio (na verdade, uma falsa equivalência) em questões de consenso científico, a grande mídia “longe de ganhar objetividade, produziu o efeito irônico de reduzir seu compromisso com a cobertura precisa das notícias”. 

“Quando os erros são predominantemente responsabilidade de um dos lados, fingir que todos os lados são iguais é um desserviço à verdade”, escreve.

Novo problema velho

O filósofo sugere que essa ampliação do “outroladismo” para questões de ciência agravou-se com o surgimento, no mercado americano, de redes como a Fox News, claramente partidarizadas. Para criar contraste com as redes polarizadas e evitar acusações de partidarismo, os meios que se acreditam neutros e almejam à imparcialidade teriam caído na armadilha de tentar apresentar os “dois lados” a respeito de tudo.

O fenômeno Fox News pode ter acelerado a tendência, mas está longe de tê-la criado: o próprio McIntyre aponta (no que acompanha o diagnóstico de Rabin-Havt) que o “paciente zero” da manipulação da mídia por uma controvérsia científica fabricada foi a falsa polêmica da relação entre tabaco e câncer.

Em Lies Incorporated, o jornalista relata uma série de casos – indo do tabaco à questão da saúde mental de crianças criadas por casais gays (a ciência é clara: não há problema nenhum), e passando pelo aquecimento global – em que grupos de pressão encomendaram a produção de lixo científico, ou distorceram a ciência real, para empurrar para a mídia a ideia de que a questão teria “dois ou mais lados” dignos de consideração.

E a mídia caiu como um patinho, todas as vezes. O bug da “ciência com outro lado” está aí, escancarado, desde os anos 50, e ainda é explorado – na verdade, é cada vez mais fácil explorá-lo: McIntyre nota que, depois que a CNN estabeleceu o ciclo de notícias contínuo de 24 horas, programas de debate – em que “especialistas” e jornalistas conversam entre si ad nauseam– passaram a predominar sobre o conteúdo investigativo. E para haver debate, é preciso haver “vários lados”. 

Controvérsias, aponta Rabin-Havt, servem aos status-quo. Quem fabrica uma polêmica sobre ciência quer que tudo continue como está: que nada seja feito. Que as pessoas continuem fumando, queimando petróleo e derrubando árvores, por exemplo. A função da falsa polêmica é transformar o debate político em atoleiro.

E, com a colaboração, ainda que involuntária, da mídia, a estratégia funciona: estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Yale mostrou que, de 2008 a 2010, a proporção de americanos que acreditava da realidade do aquecimento global antropogênico havia caído de 71% para 57%. Nenhuma descoberta científica ocorrida no período explica essa queda. A questão é, apenas, de percepção e comunicação.

Para usar na escola

Já existe até material didático que aproveita o fenômeno. Creating Scientific Controversies, de David Harker, é um curso de filosofia da ciência construído em torno do tema das falsas controvérsias. Ele abre com uma revisão histórica do caso da percepção pública da relação entre tabaco e câncer, e então se lança numa densa discussão de temas filosóficos relacionados à percepção da ciência e ao fazer científico.

O autor trata de estabelecer que incerteza e convicção não são mutuamente excludentes– o fato de não existir certeza absoluta de que uma explicação é correta não nega a possibilidade de ela ser a melhor possível – e, depois, constrói o caso de que o consenso da comunidade científica, dadas as características dessa comunidade (hábito de crítica metodológica, revisão pelos pares, descentralização, tensão permanente entre competição e colaboração, etc.) tende a produzir sempre isso, a melhor explicação possível: aquela que, mesmo incerta, é a que merece convicção, pelo menos até que esse mesmo consenso evolua e traga uma melhor.

Não que o consenso seja infalível. Mas alegações extraordinárias requerem evidências extraordinárias, lembra o autor, e pondera que afirmar que o consenso de milhares de especialistas que estudam “X” está errado, e exatamente sobre “X”, é talvez a mais extraordinária alegação possível, logo deveria vir acompanhada de evidência contundente.

Harker aponta, ainda, o que considera as três “marcas” de uma controvérsia fabricada, com a ressalva de que essas marcas são mais indícios do que provas cabais. São elas:

Grupo interessado: alguém geralmente tem algo a ganhar com a negação do consenso científico, seja dinheiro, prestígio ou a mera manutenção de uma visão de mundo incompatível com a ciência. Harker adverte que o indício do “grupo interessado” pode degenerar facilmente para a falácia ad hominem, em que a crítica ao argumentador é tomada como crítica ao argumento, e pede cautela em seu uso.

Argumentação exclusivamente negativa: uma alternativa legítima ao consenso científico deve, espera-se, ser construída a partir de um conjunto de observações e experimentos originais, e oferecer uma teoria capaz de dar conta dessas observações e experimentos. Em resumo, alternativas legítimas são propositivas. Já uma controvérsia manufaturada raramente propõe algo, limitando-se a citar anomalias (reais ou fabricadas) no corpo experimental preexistente e falhas explicativas (mais uma vez, reais ou fabricadas) no corpo da teoria reinante.

Aqui, Harker retoma o princípio de que incerteza e convicção não são mutuamente excludentes. Toda teoria possui uma “superfície de contato”, uma zona-limite onde entra em choque com dados que não é imediatamente capaz de absorver, detalhes que ainda não consegue explicar de modo satisfatório, irregularidades e incertezas. É nessa zona de contato que a teoria encontra material para evoluir. E, sim, o impacto acumulado das anomalias pode até levar a teoria a ser abandonada e substituída. Mas apenas apontar a existência dessa “zona de choque” não prova nada: ela é parte normal da ciência.

Apelo à opinião pública, não aos pares: no curso normal dos eventos, um especialista que discorda honestamente de outros especialistas apresenta suas discordâncias e argumentos na literatura técnica, não nos telejornais. O apelo direto à mídia popular é um forte indicador de que a única argumentação à disposição dos promotores da controvérsia é do tipo negativo, ou de que ela não resistiria por cinco minutos à análise de uma audiência de especialistas.

“O mundo da política de pós-verdade é o resultado patético de uma cultura política onde vitória ideológica, não progresso, representa o verdadeiro objetivo”, escreve Rabin-Havt em Lies IncorporatedEle se refere aos Estados Unidos, mas a situação no Brasil não é muito diferente.

De fato, a atual campanha que tenta desmoralizar os dados oficiais do Inpe sobre desmatamento se conforma bem aos padrões de desonestidade intelectual estudados lá fora. A intenção, aventada várias vezes for figuras-chave do governo, de criar uma “apuração paralela” da taxa de desmatamento da Amazônia segue de perto o playbook dos fabricadores de controvérsias, que buscam transformar debates em atoleiros: se os dados legítimos não agradam, fabriquem-se (e comprem-se) dados “alternativos”.

Não temos – ainda, ao que parece – empresas de relações públicas e think tanks mercenários especializados em construir mentiras científicas, como os denunciados em Lies Incorporated, mas o mercado é sempre sensível à demanda. O Heartland Institute, recentemente visitado por representantes do governo brasileiro, é um grande produtor de laudos sobre aquecimento global que dizem os que os negacionistas gostam de ouvir, por exemplo.

Pelo menos no caso do desmatamento, a mídia brasileira parece ter acordado de sua catalepsia outroladista. Vamos ver como o jogo prosseguirá quando (e se) os números alternativos começarem a aparecer.

 

 

 

“Nature” publica guia sobre pensamento crítico

Experiências pessoais e relatos isolados, por si sós, não provam nada. O fato de uma solução/terapia/intervenção ser usada há décadas ou séculos não implica que ela seja segura ou eficiente. O fato de uma solução/terapia/intervenção ser baseada numa nova descoberta científica ou numa tecnologia maravilhosa não implica que ela seja segura ou eficiente. Opiniões de especialistas, autoridades ou celebridades não bastam para embasar uma alegação.

A revista “Nature” publicou, no início do mês, um artigo de opinião, assinado por 25 pesquisadores, sugerindo uma série de critérios e advertências para a tomada de decisão em questões de política e pública e saúde, adaptados do padrão-ouro da pesquisa médica, o teste controlado, randomizado, duplo-cego com grupo placebo, o popular RCT. 

O artigo todo é muito bom e vale a leitura, mas como é longo e está em inglês, vamos dar um resumo por aqui. O princípio básico é de que alegações de eficácia e propostas para a solução de problemas – médicos, sociais, econômicos, domésticos, você escolhe – devem, sempre que possível, ser baseadas em evidência produzida preferencialmente por comparações justas.

A ideia de comparação justa – em que os grupos avaliados têm formação semelhante, encontram-se em condições iguais e são tratados de forma idêntica, exceto no que diz respeito à intervenção testada – é a base dos RCTs médicos. Generalizar o procedimento específico dos testes clínicos para questões sociais pode ser complicado (embora não impossível), mas o princípio é algo que vale a pena ter em mente, ainda que como um ideal a ser alcançado.

Fazem também parte do guia uma série de princípios que, neste alvorecer do século 21, quatrocentos anos após a Revolução Científica e quase duzentos anos depois de a profissão médica ter se convencido de que lavar mãos salva vidas, deveriam ser tão óbvios quanto o fato de que galinhas têm penas e porcos não voam. Mas não são. São princípios que precisam ser aprendidos, repetidos, e defendidos com unhas e dentes no debate público. Alguns deles:

Experiências pessoais e relatos isolados, por si sós, não provam nada;

O fato de uma solução/terapia/intervenção ser usada há décadas ou séculos não implica que ela seja segura ou eficiente;

O fato de uma solução/terapia/intervenção ser baseada numa nova descoberta científica ou numa tecnologia maravilhosa não implica que ela seja segura ou eficiente;

Opiniões de especialistas, autoridades ou celebridades não bastam para embasar uma alegação;

E, o clássico absoluto:

Correlação não implica relação de causa e efeito! 

Ou, como os autores do guia escrevem, “muitas pessoas não percebem que duas coisas podem estar associadas sem, necessariamente, uma causar a outra”.

O artigo na “Nature” chama atenção para o fato de que a mídia – incluindo publicações universitárias e o material de divulgação produzido por institutos de pesquisa e enviado para a imprensa – perpetua esse falso elo entre associação e causação, principalmente como estratégia para “esquentar” matérias sobre dietas, saúde e hábitos de consumo.

Notando que o público tem dificuldade em discriminar o grau de confiabilidade de diversos tipos de evidência, o guia cita pesquisa realizada no Reino Unido que apontou que apenas pouco mais de um terço da população britânica confia em pesquisa médica, enquanto que dois terços confiam nas experiências pessoais de amigos e familiares com remédios e tratamentos.

Nem todos os problemas, porém, estão no senso-comum do público em geral, não escolado nas sutilezas do método científico ou nas críticas clássicas de David Hume (1711-1776) à facilidade com que fazemos inferências injustificadas sobre regularidades da natureza e relações de causa e efeito.

Há princípios no guia que dizem respeito a alguns maus hábitos que volta e meia se instalam na prática científica, por exemplo:

Mais dados não são, necessariamente, dados melhores;

Deve-se dar atenção aos resultados principais, não a indicadores indiretos (por exemplo, aumentar a sobrevivência do paciente é mais importante do que melhorar os resultados de seu exame de sangue);

Estudos pequenos podem levar a conclusões erradas;

Os resultados de um único estudo, tomados de forma isolada, podem levar a conclusões erradas;

Declarar um resultado “estatisticamente significativo” ou “não significativo” pode levar a conclusões erradas;

Revisão pelos pares e publicação num periódico científico não são garantia de que a comparação foi justa.

Estes últimos pontos são especialmente importantes hoje em dia, quando vendedores de panaceias, milagres estéticos diversos e defensores de terapias alternativas se esmeram em reunir “evidência científica” a favor de suas gororobas.

A própria “Nature”, para ficar no mesmo periódico, já publicou artigos, revisados pelos pares e nunca retratados, afirmando que o ilusionista israelense Uri Geller era capaz de, por meios paranormais, adivinhar corretamente os resultados de dados agitados dentro de uma caixa fechada; e que água é capaz de reter a “memória” de materiais com que já teve contato.

Vistos isoladamente, cada um desses trabalhos pode parecer revolucionário. No contexto maior da ciência, reduzem-se a curiosidades históricas e lições práticas sobre erros de metodologia.

Seria muito bom se o guia publicado agora fosse disseminado e passasse a embasar discussões, não só de ciência, mas também de política pública – e também, na medida do possível, os processos de tomada de decisão por que todos passamos no dia a dia. Seria uma lufada de ar puro, em meio ao miasma atual de preconceito e arrogância que passa por evidência no discurso público em que, para o bem ou para o mal, todos estamos inseridos.

A ciência e a religião segundo 6 grandes cientistas

 

Há um conflito entre ciência e religião? Grandes cientistas negaram a existência de deus. Outros tentaram reconciliar a ciência com a sua fé.

 Galileo Galilei fue acusado de herejía por la Iglesia.

¿Están la ciencia y la religión en conflicto por naturaleza? 

Algunos de los grandes nombres de la ciencia han negado la existencia de dios, pero a lo largo de la historia otros tantos trataron de encontrar una manera de reconciliar la ciencia y con su fe.

Para algunos de estos hombres y mujeres de ciencia, investigar el origen del universo era acercarse a la propia obra de dios.

Aquí repasamos las posturas religiosas de algunos de los grandes científicos de la historia:

1. Galileo y su conflicto con la Iglesia

En 1614, el astrónomo italiano Galileo Galilei fue acusado de herejía por apoyar la teoría de Copérnico de que el Sol estaba en el centro del Sistema Solar. Esto fue revolucionario en un momento en que se creía que era la Tierra la que estaba en esta posición central.

En 1616, la Iglesia le prohibió enseñar o defender estas teorías.

Este episodio se considera uno de los grandes choques entre ciencia y religión. Sin embargo, Ernan McMullin, profesor de historia y filosofía de la ciencia en la Universidad de Notre Dame, consideró que el asunto fue mal entendido y esto no fue un choque entre ciencia y religión. ¿La razón? Todos los involucrados en el caso eran cristianos.

Galileo escribió muchos miles de palabras sobre teología e interpretación bíblica mientras buscaba dar sentido a las observaciones telescópicas que estaba haciendo.

De hecho, fue el propio astrónomo quien dijo: “No me siento obligado a creer que el mismo Dios que nos ha dotado con el sentido, razón e intelecto nos haya destinado a renunciar a su uso”.

2. La fe en la ciencia y en Dios de Mitchell

Maria Mitchell fue la primera astrónoma de Estados Unidos y la primera mujer elegida para la Academia Estadounidense de Artes y Ciencias, en 1848. Ejerció como profesora de astronomía y fue una activista de los derechos de la mujer.

La astrónoma tenía una fe plena tanto en dios como en la ciencia. “Las investigaciones científicas avanzan y revelarán nuevas formas en las que Dios trabaja y nos trae revelaciones más profundas de lo desconocido”, escribió.

Creía que las revelaciones de la biblia y la comprensión de la naturaleza a través de la ciencia no están en conflicto. “Si parecen estarlo” -dijo-, “es porque no se comprende ni lo uno o lo otro”.

3. “Producto de la debilidad humana” para Einstein

El pensamiento del físico Albert Einstein sobre la religión estuvo muy influenciado por la obra del filósofo Baruch Spinoza.

El dios de Spinoza era un dios amorfo e impersonal responsable del orden del universo y la impresionante belleza de la naturaleza. Esta línea de pensamiento resonó profundamente en el científico.

Con su célebre “Carta de Dios”, que Einstein envió al filósofo judío alemán Eric Gutkind, el físico fusiona sus pensamientos sobre la religión, su identidad judía y su propia búsqueda del sentido de la vida.

En la carta, Einstein refuta los argumentos que Gutkind expone en el libro “Escoger la vida: la llamada bíblica a la rebelión”, en el que presentó a la Biblia como un llamado a la lucha, y al judaísmo e Israel como entes incorruptibles.

“La palabra Dios no es para mí más que la expresión y el producto de la debilidad humana”, escribió el físico.

Einstein califica la religión judía de “encarnación supersticiosa” como lo son todas las religiones y la Biblia “una colección de leyendas venerables pero bastante primitivas”.

“Ninguna interpretación, sin importar cuán sutil sea, cambiará mi punto de vista sobre esto”.

“Y el pueblo judío al que pertenezco gustosamente y en cuya forma de pensar me siento profundamente anclado, no tiene para mí ningún tipo de dignidad diferente a la del resto pueblos. Según mi experiencia, en realidad no son mejores que otros grupos humanos”, dijo el científico.

La carta se vendió el año pasado por US$2,9 millones en una subasta que se celebró en Christie’s, Nueva York.

4. El agnosticismo de Marie Curie

Marie Curie fue la primera persona en ganar el premio Nobel en dos disciplinas diferentes.

En 1903 recibió el Premio Nobel de Física junto a su marido y Henri Becquerel. Ocho años más tarde ganó un segundo premio Nobel, esta vez en química.

La menor de cinco hermanos, Curie -Maria Salomea Skłodowska- nació en Polonia en 1867. Su padre era ateo y su madre católica, y ella fue criada en el catolicismo. Sin embargo, abandonó la religión años más tarde, tras la muerte de su madre, lo que la llevó al agnosticismo.

La reconocida científica dijo en una ocasión: “Nada en la vida debe ser temido, solo debe ser entendido. Ahora es el momento de entender más, para que podamos temer menos”.

5. El dios “innecesario” de Hawking

Durante toda su vida, el científico británico Stephen Hawking -quien padecía esclerosis lateral amiotrófica (ELA) y murió en 2018 a los 76 años- trató de explicar el origen del universo.

Como escribió en su libro “El gran diseño” en 2010, sus trabajos sobre la teoría del Big Bang y la teoría del todo lo llevaron a una conclusión clara y contundente: “No es necesario invocar a Dios para encender la mecha y darle inicio al Universo”.

Pero tras afirmar que el Big Bang fue el comienzo de todo, la siguiente pregunta a la que se enfrentó es: ¿y entonces qué hubo antes?

“Cuando la gente me pregunta si Dios creó el universo, les digo que la pregunta en sí misma no tiene sentido“, narró Hawking en un video para el canal de televisión por cable especializado en ciencia Discovery Channel.

“El tiempo no existía antes del Big Bang, así que no había tiempo en el que Dios pudiera crear el universo”.

 6. O ateismo de Freud
Trajetória ateista de Sigmund Freud (1856-1939)*(1)
Trajetória ateista de Sigmund Freud (1856-1939)*(2)
Trajetória ateista de Sigmund Freud (1856-1939)*(3)
Trajetória ateista de Sigmund Freud (1856-1939)* (4)
Fontes: 
 1 a 5 – Redação  BBC News Mundo
6 – Saúde Pública(da) ou não
 
 
 

O “narcisismo maligno” de Trump está se deteriorando

Lance Dodes, professor de psiquiatria de Harvard e colaborador do libro “El caso peligroso de Donald Trump” elaborado por 27 especialistas em saúde mental, em 2017, alerta sobre o perigo “real e presente” do presidente que padece de “narcisismo maligno”, disse, esta semana, que a condição de Trump está se deteriorando.

Olhar Digital
Trump se diz o eleito

Em busca da reeleição, Trump amplia crueldade e messianismo de sua figura política

Mais que "só" um ódio contra migrantes, a crueldade do presidente americano acompanha e nutre o desejo punitivo histórico dos conservadores estadunidenses

A estonteante tormenta de insultos, ataques, mentiras e contradições que marcam cada dia sob o regime de Donald Trump está chegando outra vez a níveis em que vários analistas e observadores se preocupam pela saúde mental do presidente, e ao mesmo tempo se assombram pelo grau de crueldade nas políticas impulsionadas por este governo.

Ao longo desta semana, o presidente provocou uma crise diplomática com outro país aliado, fez declarações antissemitas ao atacar opositores aos quais acusou de antissemitas, olhou para o céu e proclamou “sou o eleito” e citou uma mensagem de ultradireitista que afirmava que ele era algo assim como o Messias.

E, como costuma fazer, o presidente se contradisse em vários temas, admitindo que seu governo está buscando promover medidas de estímulo econômico ao mesmo tempo que proclamou que a economia nunca esteve melhor na história do país que sob o seu comando, e por outro lado afirmou que está interessado em medidas para controlar as armas só para anunciar o contrário pouco depois, entre outras coisas.

Enquanto comentava sobre sua guerra comercial contra a China, entre jornalistas na quarta-feira, Trump insistiu em que só estava fazendo o que presidentes anteriores deveriam ter feito há muito tempo, e afirmou “alguém tinha que fazer isso”  e olhando para o céu, concluiu – supõem-se que de brincadeira -: “Eu sou o eleito”.

Pouco antes, o presidente já havia citado em um tuíte a um ultradireitista e promotor de teorias de conspiração que afirmava que os israelitas pensam que ele é “a segunda chegada de Deus” (os judeus não compartilham esse conceito teológico), “como se fosse o Rei de Israel”.

Por certo, o fato de Trump citar isso em um tuíte, nutriu especulações de que o presidente não só acredita no que diz de si mesmo – o melhor, o maior, o mais presidencial de todos os presidentes – mas inclusive que é algum enviado de Deus. 

De fato, alguns setores cristãos ultraconservadores expressam que Trump, mesmo que talvez não seja Deus, foi sim divinamente escolhido para resgatar os Estados Unidos, e que se opor a ele seria igual a repudiar a Deus.

Enquanto isso, em assuntos mais terrenos, depois de provocar uma crise diplomática com outro país aliado nesta semana, nessa ocasião a Dinamarca, porque se sentiu ofendido pela resposta negativa desse governo em abordar uma possível aquisição da Groenlândia – uma noção que ele sozinho inventou e que quase todos pensavam no início que fosse uma brincadeira – mas acontece que a ideia não foi algo novo. Um ex alto funcionário da Casa Branca revelou ao New York Times que Trump havia – diz que brincando- falado em 2018 sobre trocar Porto Rico – que desprezou abertamente – pela Groenlândia.

A ideia foi bem recebida agora por alguns porto-riquenhos que meio de brincadeira, disseram que seria maravilhoso desfazer-se de sua relação subordinada com os Estados Unidos, e alguns até se batizaram de “Vikings caribenhos”.

Crueldade 

Falando em trocar países morenos por brancos, o regime de Trump continuou defendendo suas novas iniciativas anti-imigrantes, sobretudo a de buscar deter de maneira indefinida os menores de idade. Isto provocou uma série de denúncias de seções editoriais (Los Angeles Times, Chicago Tribune), defensores de direitos civis e outros: “Parece não haver limite à crueldade que Donald Trump e seu governo estão dispostos a exibir e cobrar quando se trata de imigrantes e solicitantes de asilo da América Latina”, escreveu o colunista do New York Times Charles Blow.

Mas este observador e outros assinalam que isto se traduz em mais que só um ódio contra migrantes. Blow escreve que a crueldade de Trump acompanha e nutre o desejo punitivo histórico dos conservadores estadunidenses. “Este insaciável desejo de infligir dor tem alvos particulares: mulheres…, minorias raciais, pessoas LGBTQ e minorías religiosas neste país, ou seja, os castigos estão dirigidos a qualquer que não seja parte do, ou que o apoie o, patriarcado supremacista branco”.

Loucura?

Com esta combinação de autoelogio com tinturas messiânicas, e a “defesa” de seu Estados Unidos contra a “invasão” dos “outros”, se renova o debate sobre se o presidente é um jogador político brilhante que é mestre em manipular as alavancas do poder para seu próprio benefício e os interesses que o apoiam, ou se é alguém que sempre enganou a todos e que no fundo não tem a mínima ideia de como governar, a não ser por malcriação e autopromoção.

Trump “perdeu a capacidade de diferenciar entre ele e o país, entre suas necessidades psicológicas e os interesses do país. Opor-se a ele é ser “inimigo do povo”, adverte a colunista Jennifer Rubin do Washington Post.

Outros insistem em que o que ele está manifestando é um problema mental sério.

O doutor Lance Dodes, ex-professor assistente de psiquiatria na Universidade de Harvard e colaborador do libro “El caso peligroso de Donald Trump” elaborado por 27 especialistas em saúde mental, em 2017, alertando sobre o perigo “real e presente” de um presidente que padece do que alguns diagnosticaram como “narcisismo maligno”, disse esta semana que a condição de Trump está se deteriorando.

Afirmou em entrevista à MSNBC que o presidente tem “uma necessidade fundamental de ser todo poderoso e não pode aguentar nada que o desafie. Não pode aguentar nada que esteja em desacordo com ele, e cada vez que alguém o desafia, se torna mais louco, mais paranoico, e potencialmente mais violento”. Concluiu: “pensa de si mesmo como um ditador, e tudo se trata dele, e nada mais importa”.

O projeto Duty to Warn criado por especialistas em saúde mental quando Trump assumiu o poder para advertir sobre seu estado psicótico e a ameaça para o país, indicou há alguns dias que seus comentários desta semana são parte de seu “narcisismo maligno – o que está no fundo da inumanidade mais viciosa da história. Sociopatia, paranoia e sadismo…vemos algo disso agora, logo veremos mais”.

Médicos são condenados por inseminar pacientes con seu próprio esperma

Com a crescente disponibilidade de provas genéticas, começam a surgir casos em que especialistas em fertilidade usaram, durante décadas, secretamente, seu próprio esperma em uma das tarefas mais íntimas da medicina. Leis começam a ser aprovadas para penalizar esta conduta que também foi definida como uma forma de abuso sexual.

Donald Cline fue condenado en 2017 por mentir sobre el esperma inseminado en sus pacientes.Marion County vía Associated Press

Las mujeres eligieron donadores, pero los médicos las inseminaron con su propio esperma

Eve Wiley descubrió a sus 16 años, durante su crianza en Nacogdoches, Texas, que su concepción fue vía inseminación artificial con el esperma de un donador.

Su madre, Margo Williams, había acudido al médico Kim McMorries, a quien le dijo que su marido era infértil. Le pidió al doctor encontrarle un donador y el médico le dijo a Williams que había encontrado uno en un banco de esperma de California.

Así nació Eve, quien ahora tiene 32 años y vive en Dallas. En 2017 y en 2018, como muchos estadounidenses, decidió hacerse una prueba de ADN casera.

Los resultados: el padre biológico no era un donador de esperma en California, como le habían dicho, sino el doctor McMorries. Wiley quedó atónita.

“Construyes toda tu vida a partir de tu identidad genética y esos son los cimientos”, dijo Wiley. “Puede ser devastador que te quiten esas piedras angulares o que sean alteradas”.

Se contactó al abogado de McMorries y al personal de su oficina; no quisieron hacer declaraciones para este artículo.

Con la creciente disponibilidad de pruebas genéticas de uso casero directo, han empezado a surgir casos en los que se descubre que especialistas en fertilidad usaron durante décadas su propio esperma en secreto. En Estados Unidos, tres gobiernos locales ya aprobaron leyes para penalizar la conducta; en Texas incluso fue definida como una forma de abuso sexual.

Jody Madeira, profesora de Derecho en la Universidad de Indiana, monitorea más de veinte casos en Estados Unidos y en otros países. Dijo que hay registros en doce estados estadounidenses —incluyendo Connecticut, Vermont, Idaho, Utah y Nevada—, así como en Inglaterra, Sudáfrica, Alemania y los Países Bajos.

De acuerdo con la Fundación Holandesa de Reproducción por Donación, apenas este año se confirmó con pruebas genéticas que un especialista en fertilidad, Jan Karbaat, usó su propio esperma y es el padre biológico de 56 niños de mujeres que visitaron su clínica en las afueras de Róterdam. Las autoridades neerlandesas clausuraron su clínica en 2009 y Karbaat murió en abril de 2017 a los 89 años.

Al ser contactado, un abogado de la familia Karbaat dijo que los familiares no iban a hacer comentarios, aunque él hizo hincapié en que los casos son de hace décadas. “Hace treinta años, la gente veía las cosas de manera distinta”, dijo J. P. Vandervoodt. “Karbaat podría haber sido donante anónimo, no hay manera de saber. No había un sistema de base de datos en ese entonces”.

En junio, la asociación reguladora College of Physicians and Surgeons de Ontario revocó la licencia médica a un especialista en fertilidad de Ottawa, Norman Barwin, de 80 años, y lo reprendió por haber usado durante décadas el esperma equivocado —incluido el suyo— en varios procesos de inseminación artificial.

El grupo colegiado encontróque había inseminado al menos a once mujeres con su propio esperma. Además, decenas de niños nacidos de donantes afirman que fueron concebidos con el esperma equivocado en la clínica de Barwin, aunque no el suyo.

Antes no había una razón por la cual las pacientes tuvieran que sospechar de inicio de doctores especializados en fertilidad, a quienes les habían confiado una de las tareas más íntimas de la medicina, dijo Dov Fox, académico en Bioética de la Universidad de San Diego y autor deBirth Rights and Wrongs, libro sobre la tecnología y la legislación en materia reproductiva.

“Sencillamente: qué asco”, dijo sobre los casos. “Y también qué impactante y vergonzoso. La cantidad de médicos involucrados hace parecer que no se trata de algunas manzanas podridas, sino de una práctica más generalizada de engaño que se mantuvo escondida hasta hace poco porque había una combinación de baja tecnología y alto estigma”.

Castigar un fraude de fertilidad

Donald Cline, especialista en fertilidad de Indianápolis, usó su propio esperma para la inseminación de por lo menos 36 mujeres en las décadas de 1970 y 1980, de acuerdo con procuradores del estado de Indiana; 61 personas afirman que es su padre biológico, con base en pruebas de ADN.

Cline, que se jubiló en 2009, se declaró culpable de dos cargos delincuenciales de obstrucción de la justicia y admitió que les había mentido a investigadores estatales. Entregó su licencia para practicar y le dieron una sentencia de un año de prisión, cuya aplicación fue suspendida. El abogado de Cline no respondió a las llamadas de The New York Times.

Los fiscales dijeron que no fue posible pedir una condena más severa por una razón: en Indiana, como en casi todo Estados Unidos, no hay leyes que prohíban explícitamente esta conducta en materia de fertilidad.

Fue hasta mayo que Indiana aprobó una ley que establece como delito el uso del esperma equivocado y que les permite a las víctimas demandar a los médicos que lo hagan. Los pacientes de estos casos no están restringidos por la prescripción del delito, pues ahora tienen hasta cinco años después de que se descubre el fraude para presentar acciones legales, en vez de cinco años después de que sucedió el delito.

Esa provisión es de importancia porque la mayoría de quienes descubren la identidad del donador de esperma usado suelen ser adultos.

Los casos del llamado fraude de fertilidad han llevado a otras entidades estadounidenses a aprobar leyes similares que les permitan a pacientes de las clínicas y a sus hijos a buscar compensación de los ahora llamados “padres-doctores”.

Wiley, de Texas, urgió a que se estableciera una legislación similar en su estado después de descubrir la identidad detrás del esperma con el que su madre fue inseminada. Se reunió con los legisladores estatales para que haya una mayor rendición de cuentas de lo que ella considera es una industria peligrosamente poco regulada.

En junio pasado, Texas aprobó su ley sobre fraude de fertilidad que va mucho más allá de los otros dos estados que ya tenían medidas, Indiana y California. Si un proveedor de cuidados médicos en Texas usa esperma, óvulos o embriones humanos de un donador que no fue autorizado, incurre en abuso sexual, según la legislación. Los que sean declarados culpables tendrán que registrarse como delincuentes sexuales.

“Es una historia muy desgarradora de engaño y estamos viendo cada vez más y más casos de usos impropios de la reproducción asistida”, dijo Stephanie Klick, congresista estatal texana y una de las impulsoras de la legislación, sobre la experiencia de Wiley. “Necesitamos asegurarnos de que eso no vuelva a suceder”.

Algunos especialistas consideran que la medida de Texas es extrema.

La ley texana está pensada para casos en los que un médico usa el esperma propio o el de alguien distinto a quien fue seleccionado por el paciente, pero si doctores o el equipo de enfermería clínica tienen alguna equivocación, ¿eso significa que deben ser condenados por abuso sexual?

“Si un especialista médico está siendo apurado o tiene un descuido y agarra el vial que no corresponde, un jurado podría deliberar y decidir que ese doctor o doctora sabía o debía haber sabido que el material no era el elegido por la paciente”, dijo Judith Daar, decana de la Facultad de Derecho Chase de la Universidad del Norte de Kentucky y la encargada del comité de ética de la Sociedad Estadounidense de Medicina Reproductiva (ASRM).

Daar dijo que si un especialista en fertilidad teme que un despiste resulte en que tenga que registrarse como delincuente o depredador sexual, podrían dejar de practicar medicina en Texas.

Klick, la congresista y quien también es enfermera, cree que es una decepción que definitivamente consiste en un abuso.

“Hay un aparato médico que se usa para penetrar a las mujeres para implantar material genético”, dijo. “Para mí sí tiene equivalencia con una violación porque no es un acto consentido”.

¿Confía en tu médico…?

Hace unos años, Marenda Tucker, de 36 años, se hizo una prueba de ADN para saber más sobre sus antecedentes genéticos.

Tucker, madre de cuatro hijos que vive en Óregon, sabía que nació gracias a la inseminación artificial. De acuerdo con su madre, el médico le dijo que se trató de un donador anónimo de esperma radicado en el sur estadounidense.

La prueba de ADN arrojó, en cambio, que tenía coincidencias genéticas con la familia del médico. “Ya que vi eso me di cuenta de que el esperma fue del doctor y pensé ‘qué asco’”, dijo Tucker. “Cuando hablé con mi madre del tema, ella se sintió violentada”.

“Hasta ahora he lidiado bien con lo que me ha tocado en la vida”, añadió. “Pero esto desató una crisis de identidad muy extraña”.

Cuando el médico respectivo, Gary Don Davis, fue contactado en su hogar de Little Rock, Arkansas, para hacerle preguntas sobre la concepción de Tucker, el doctor respondió: “Bueno, eso es sorprendente. Lo voy a revisar. Adiós”.

No se pudo volver a contactarlo y Don Davis murió en junio.

¿Por qué un doctor remplazaría en secreto el esperma de un donador anónimo o hasta del marido de la paciente?

Madeira, la profesora de Derecho en Indiana que está revisando estos casos, dijo que algunos especialistas tal vez hayan pensado que era más sencillo para la situación. La congelación del semen para uso posterior de los espermatozoides no fue el estándar médico recomendado, sino hasta finales de los años ochenta y muchos doctores quizá no tenían acceso rápido a esperma cuando las pacientes acudían a ellos.

“Puede que hayan pensado que estaban ayudando a sus pacientes al aumentar las probabilidades de que quedaran embarazadas con el uso de esperma fresco para tener tasas de fertilización más altas”, dijo Madeira.

Aunque recalcó que algunos de los médicos habrían tenido razones más perversas. “Sí te apuesto que muchos de estos doctores lo hicieron para sentirse poderosos —por temas de trastornos mentales o de narcicismo— o porque quizá se sentían atraídos por algunas de las pacientes”, dijo.

McMorries, el medico del caso Wiley, le reconoció en una carta que había mezclado su esperma con el de otros donadores para mejorar las oportunidades de concebir de su madre y escribió que las leyes sobre “mantener el anonimato de donadores” no permitieron que pudiera decirle.

“En ese entonces se pensaba que si la paciente quedaba embarazada no había manera de saber cuál esperma llevó a la concepción”, escribió.

Antes de la confesión del doctor y de las pruebas de ADN, Wiley pensó que ya había encontrado al padre biológico: Steve Scholl, escritor y editor en Los Ángeles que ahora tiene 65 años.

“Entablamos una relación hermosa de padre e hija y hasta presidió mi boda”, dijo Wiley. “Mis hijos lo llaman Abue”.

Wiley le dijo a Scholl después de enterarse de los resultados que no era realmente su hija biológica y él también se quedó sorprendido.

“Me tardé un tiempo en procesarlo”, comentó Scholl en entrevista. “Sentíamos mucho como que habíamos encontrado; no sabíamos cómo funcionaba la industria para la reproducción. Pero muy pronto decidimos que esto no cambiaba nada”.

Wiley todavía se refiere a él como papá.

Direitos Humanos recomenda reparar crianças discriminadas

Instituição de Direitos Humanos recomenda reparação integral para crianças e adolescentes que passaram a infância com grande desproteção de  direitos, tanto por não poder viver com sua família como por desenvolver uma vida em sociedade que os excluía, invisibilizava e os rechaçava.

Institución de DDHH recomienda reparación para menores víctimas de terrorismo de Estado

La directora de la INDDHH, Mariana Mota, informó sobre una resolución que la institución remitió a Vázquez y a Michelini a través de la cual recomienda la “reparación integral” para niños y adolescentes violentados por el terrorismo de Estado, desde el año 1968 y en el marco de la pasada dictadura cívico – militar (1973-1985).

Mota dijo a radio Uruguay que el planteo tiene como punto de partida una denuncia que presentó en 2018 el colectivo “Memoria en Libertad”, que está integrado por hijos de ex presos políticos, que eran niños cuando sus padres fueron recluidos, y quedaron en una situación de desprotección grave”.

Muchos de dichos niños tenían a ambos padres en prisión y transitaron su infancia con una gran desprotección de sus derechos, “tanto por no poder vivir con su familia como por desarrollar su vida en una sociedad que excluía o generaba rechazo hacia las personas privadas de libertad, por motivos políticos”.

Mota manifestó que la Ley reparatoria 18.596 es la única que hace referencia a los menores, pero solo a los hijos de presos políticos nacidos en cautiverio.

Aclaró que los niños nacidos antes de la prisión de sus padres deben tener un reconocimiento, porque si bien su condición de víctima es diferente a la de sus progenitores, quedaron “invisibilizados” y sufrieron una situación “muy lesiva de sus derechos”.

Recomendaciones

En tal sentido, la INDDHH recomienda: “Disponer medidas administrativas que garanticen la prestación de cobertura integral de salud y acompañamiento psicosocial, aprobar una normativa que contemple la reparación integral, realizar un acto público de reconocimiento de responsabilidad que incluya un pedido de disculpas por parte del Estado a las personas que siendo niños o adolescentes durante la dictadura sufrieron graves vulneraciones de sus derechos, e incluir en el relato histórico nacional lo acontecido con esta población, investigando la verdad y difundiéndola”.

Fonte: Uruguay Titulares
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A Lei de Incentivo à Cultura e a obesidade infantil

“O Museu Mais Doce do Mundo” das marcas Nestlé, Bauducco, Docile e Itubaína distribuiam doces. E os promoviam: “Diga sim à felicidade”, “Fui atrás da felicidade e voltei com um brigadeiro”, “Fui para um planeta mais doce” e “A vida é como um sorvete aproveite antes que derreta”. Mas no final “acabou-se o que era doce”.

Exposição solicita recursos da Lei de Incentivo à Cultura para fazer publicidade de grandes marcas

Com ingressos salgados, O Museu Mais Doce do Mundo tentou arrecadar R$ 2,5 milhões dos cofres públicos, mas recebeu parecer contrário da Comissão Nacional de Incentivo à Cultura

A exposição “O Museu Mais Doce do Mundo”, em cartaz desde 5 de abril em São Paulo, está chegando ao fim. Após 18 de agosto, a mostra será deslocada para o Rio de Janeiro, onde os cenários “instagramáveis” com referências a grandes marcas – como Nestlé, Bauducco, Docile, Itubaína e Nina Ricci – seriam recheados com o dinheiro público: os organizadores do evento foram autorizados a arrecadar até R$ 2.544.060,46 por meio da Lei de Incentivo à Cultura.

A Lei Rouanet, como é popularmente conhecida, permite que empresas destinem a projetos culturais valores que seriam usados no pagamento de impostos.A prática de usar essa legislação para promover marcas não é rara.O Museu Mais Doce do Mundo havia atraído o interesse da Multiplan, grande administradora de shopping centers brasileiros, entre eles o Village Mall, na Barra da Tjiuca, onde a exposição deve entrar em cartaz em 9 de setembro; e da Puig Brasil, representante da marca de cosméticos Nica Ricci, que tem um espaço de publicidade na exposição de São Paulo. Segundo apágina de acompanhamento da lei na internet, R$ 360 mil foram captados.

A exposição também tem um contrato de patrocínio de R$ 500 mil firmado com a Bauducco, que, em troca, tem o direito de customizar e equipar uma das salas da mostra com suas cores, além de poder distribuir produtos no fim da visita.

A expressão “era doce e se acabou” parece encaixar com perfeição na história da exposição. Após semanas de sucesso, com ingressos a até R$ 60, O Museu Mais Doce do Mundo teve um revés. A Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (CNIC) recomendou a suspensão do financiamento. Na visão do colegiado, o projeto não tem “valor artístico ou cultural” e, portanto, não se enquadra nos critérios estabelecidos pela Lei de Incentivo à Cultura. Segundo o parecerista, a exposição parece “um playground para brincadeiras” no qual o visitante pode fazer “selfies”.

Visitamos o “museu” em uma tarde de julho, quando as férias escolares aproximavam-se do fim. Assim como os membros da CNIC, ficamos com dúvidas sobre o valor cultural do espaço. A fila era composta em grande parte por mães e pais acompanhados de crianças pequenas, ansiosas para descobrir o que se escondia atrás do dizer“Diga sim à felicidade”estampado em uma porta colorida.

Na antessala da exposição, monitores educados explicavam aos pequenos que eles não poderiam pular na piscina de “marshmallow”. Uma mãe perguntou um pouco indignada: “Se é uma piscina, por que não pode pular?” A caixa preenchida com espumas em formatos cilíndricos é rasa, pensada para fotos “instagramáveis”. Ao pular, as crianças podem se machucar. Os pequenos, já um pouco decepcionados, são incentivados a gritar “marshmallow” antes que outra porta colorida se abra e dê acesso à exposição.

A piscina de mentira tem tempo contado. Mais monitores pedem educadamente, sempre de olho em um pequeno cronômetro à mão, que os pais tirem depressa as fotos que querem. Como recompensa pela eficiência, adultos e crianças recebem cones demarshmallows oferecidos pela Docile, que tem o logo estampado na altura dos olhos dos pequenos.

Após a primeira sala, a exposição se divide em dois andares, com salas e corredores preenchidos por doces de plástico e frases motivacionais estampadas nas paredes. No primeiro piso, visitantes podem tirar fotos com donuts,gummybears,cupcakes, quindins ou dentro de uma caixa com a palavra “sweet” (doce, em português) replicada diversas vezes.

Subindo as escadas, brigadeiros, biscoitos, gomas de mascar, garrafas de refrigerante, biscoitos e sorvetes compõem o cenário. As referências às marcas ficam por conta da identidade visual, da ambientação e das guloseimas ricas em açúcar distribuídas para os visitantes. Para ser justa, os doces, assim como o tempo da piscina, também são limitados: apenas um por pessoa.

Na justificativa do pedido de financiamento feito ao então Ministério da Cultura, rebaixado à categoria de secretaria pelo atual governo, o objetivo descrito pelo projeto é de“espalhar felicidade e cultura pop através de uma exposição interativa com temática do imaginário doce”.Não há nenhuma menção sobre as ativações de marcas que acontecem dentro da exposição.Em uma das salas, por exemplo, uma jovem vestida com os trajes estampados na lata de Leite Moça, da Nestlé, oferece um brigadeiro a cada pessoa que passa por ali. A Docile, além dos marshmallows, distribui balas de goma para os visitantes. 

No documento tampouco há uma descrição detalhada sobre o valor cultural da mostra, o que foi ressaltado no parecer do CNIC.Há apenas uma breve menção à intenção de apresentar aos visitantes “a fundo a história de alguns doces brasileiros, suas origens e como eles fazem parta [sic] da vida dos brasileiros”. Na exposição, é possível usar o aplicativo do museu para acessar vídeos explicativos sobre a origem dos doces: basta apontar o celular para pequenos desenhos nas paredes. Na visita que participamos, poucas pessoas fizeram isso. O mais importante era, sem dúvida, tirar fotos para as redes sociais.

Fica difícil entender o que há de “museu” naqueles cenários plásticos. Segundo oEstatuto dos Museus, sancionado em 2009, podem ser assim chamadas apenas “as instituições sem fins lucrativos que conservam, investigam, comunicam, interpretam e expõem, para fins de preservação, estudo, pesquisa, educação, contemplação e turismo, conjuntos e coleções de valor histórico, artístico, científico, técnico ou de qualquer outra natureza cultural, abertas ao público, a serviço da sociedade e de seu desenvolvimento”. Nenhum dos itens da longa lista de exigências é preenchido pela mostra.

O que sobra para as crianças, que não têm ou não deveriam ter acesso às redes sociais, são os doces distribuídos na exposiçãoe pequenos momentos interativos, como a piscina e um jogo de quindins voadores acompanhado por meio de óculos de realidade virtual patrocinado pela Huawei.

A ambientação da exposição, permeada por frases motivacionais, induz os pequenos a relacionarem o consumo de açúcar à felicidade. “Fui atrás da felicidade e voltei com um brigadeiro”, “Fui para um planeta mais doce” e “A vida é como um sorvete, aproveite antes que derreta” são alguns exemplos.

Quem derreteu no meio disso tudo foram oslimites da publicidade infantil. A exposição não tem classificação indicativa e crianças de até quatro anos não pagam para entrar. Segundo o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), o direcionamento de publicidade e de comunicação mercadológica a crianças de até 12 anos é abusivo.

Em 2017, onze grandes empresas de alimentos firmaram um acordo para reduzir propagandas voltadas para crianças. O compromisso estabelece limites para publicidades de doces, refrigerantes e chocolates a públicos compostos em 35% ou mais de crianças menores de 12 anos. A Nestlé, uma das signatárias do acordo, parece não ter levado as indicações em conta na hora de patrocinar a “sala do brigadeiro” em um espaço povoado por crianças.

O compromisso foi feito como uma tentativa de combate ao consumo excessivo de açúcar na infância, relacionado a problemas de sobrepeso e obesidade. Estudos do Ministério da Saúde indicam que 12,9% das crianças brasileiras de 5 a 9 anos são obesas. Em um documento de 2015, a Organização Mundial da Saúde recomendou que a ingestão de açúcar, independentemente da faixa etária, deve ser de no máximo 10% das calorias diárias, o que no caso de adultos fica em torno de 50 gramas por dia. Quatro unidades de marshmallows daDocile, segundo informações do site da marca, contêm 15 gramas de açúcar. Uma garrafa com 350mL deItubaína, 20 gramas.

Todas as marcas mencionadas ao longo do texto também possuem espaços no caminho de saída do espaço que, segundo a assessoria de imprensa da exposição, não fazem parte da mostra.Mesmo assim, os visitantes não têm alternativa senão passar por uma lata de dois metros de altura de Leite Moça; outra piscina de mentira, agora patrocinada pela Nina Ricci; uma moldura de fotos de marshmallows da Docile e um cubo de espelhos com o logo da Huawei antes de deixar para trás “O Museu Mais Doce do Mundo”.

Procuramos a assessoria de imprensa do evento para entender o uso do termo “museu” no nome da exposição. Luzia Canepa, diretora da mostra, afirmou que O Museu Mais Doce do Mundo “preserva características culturais e sociais dos doces, que estão na cultura de todos os povos como elementos de celebração, brincadeiras e alegrias” e ressaltou que o local não é de “comilança”, pois são oferecidas apenas três degustações aos visitantes.

Apesar da constatação empírica feita pela reportagem da presença de logos dentro da exposição, Canepa afirmou que os nomes das marcas “não estão estampados em instalações dentro do Museu”. A diretora disse ainda que “a exposição do nome de um patrocinador não é proibida nem antiética”.

Por meio da assessoria, O Museu Mais Doce do Mundo confirmou ter recebido o parecer negativo e afirmou que “o logotipo do governo federal será retirado da exposição por indicação da Secretaria da Cultura do Ministério da Cidadania”.

Fonte:O joio e o trigo

As recomendações da indústria de alimentos não visam somente a saúde do paciente

Reações ao racismo do presidente de clube de futebol

É sintomático que figuras exponenciais da assim chamada elite política e econômica tenham vindo em socorro do dirigente. Para essa elite, se tratou apenas de um comentário infeliz que não deveria ser sobrevalorizado. Fica-se com a  impressão de que, para o andar de cima da sociedade, o discurso da dignidade da pessoa humana, da ética, dos valores da inclusão de todos é um discurso para boi dormir, especialmente quando um de seus integrantes é acusado de racismo e discriminação. 

Clemens Tönnies ficará três meses afastado da direção do Schalke 04

A fala racista do presidente do Schalke e o poder do vil metal

Após o bilionário Clemens Tönnies insultar africanos, fica-se com a impressão de que, para a elite, o discurso da dignidade humana é para boi dormir, especialmente quando um de seus integrantes é acusado de racismo.

Clemens Tönnies ficou bilionário com sua empresa de produtos alimentícios (Tönnies Holding, de carnes e salsichas) em Rheda-Wiedenbrück, pequena cidade de 48.500 habitantes a pouco mais de 100 quilômetros de Gelsenkirchen, casa do Schalke 04. O time sempre foi a grande paixão de Tönnies e, desde 2001, ele é o presidente do clube.

Na qualidade de empresário, e como um dos homens mais ricos da Alemanha e do mundo (atual nº 1.349 da lista da Forbes), ele foi convidado pelos organizadores do evento Dia do Ofício, em Paderborn, a falar perante 1.600 convidados no começo deste mês.

Um dos temas do seu discurso foi a possível instituição de um imposto para combater as mudanças climáticas, especialmente em países da África. Em vez de mais um imposto, Tönnies propôs o financiamento e construção de 20 usinas elétricas na África por ano.

Ele justificou sua proposta com o seguinte argumento: “Assim, os africanos parariam de derrubar árvores e de produzir crianças quando fica escuro.”

Além da estapafúrdia afirmação racista, talvez um dos aspectos mais assustadores tenha sido a não reação da plateia. Ninguém protestou. Ninguém vaiou. Ninguém se levantou e deixou o recinto como atitude simbólica de repulsa. Nem o arcebispo convidado de honra sentado na primeira fila foi capaz de um mínimo gesto de desaprovação. Pelo contrário, ao final, o discurso foi aplaudido pelos presentes.

Não bastasse isso, após a repercussão negativa de sua fala, o próprio Tönnies propôs ao Conselho de Ética do Schalke 04 o seu afastamento temporário da presidência do clube por três meses. Ditou a sua própria sentença, que foi aceita sem mais delongas pelo conselho, com a justificativa de que a acusação de racismo contra o presidente é “infundada”.

É o caso de se perguntar: o que mais precisa ser dito para considerar como racista uma afirmação que insulta toda população da África?

Houve, porém, algumas vozes que se levantaram contra o racismo explícito manifestado pelo dirigente.

Pablo Thiam, por exemplo, que nasceu na Guiné e cresceu em Bonn, onde seu pai trabalhava como diplomata. Durante anos, Thiam jogou na Bundesliga, em clubes como Colônia, Wolfsburg, Stuttgart e Bayern. Atualmente, dirige o departamento dos times de base do Wolfsburg, além de ser o responsável pelo setor de integração que luta contra discriminação e racismo.

“Estou estupefato. Simplesmente me faltam palavras. Nem sei o que dizer. Com seu discurso, o presidente do Schalke contraria frontalmente todo trabalho que estamos desenvolvendo pelo diálogo e pela integração de migrantes e refugiados”, disse.

Para Thiam desculpas não bastam: “São desculpas de meia-pataca. Por acaso ele se desculpou com a população africana que insultou? Não. O seu pedido de desculpas se dirigiu exclusivamente aos próprios alemães. Nenhuma palavra sobre os africanos alvos da sua manifestação.”

Hans Sarpei, de origem africana e ex-jogador do Schalke, foi no mesmo diapasão: “Do clube e do senhor Tönnies espero que as palavras sejam seguidas por ações. É preciso se distanciar claramente de toda e qualquer discriminação e xenofobia. O presidente deve pedir desculpas publicamente a todos os africanos.”

Peter Lohmeyer não é apenas um dos atores de cinema mais conhecidos da Alemanha, mas também um dos mais famosos fãs de carteirinha do Schalke 04. Só que depois da difamação dos africanos pelo presidente do clube e da generosa pena de três meses de suspensão do cargo, Lohmeyer decidiu devolver a carteira de sócio.

“Faço isso porque sou fanático pelo Schalke, clube que sempre esteve na vanguarda e na luta contra discriminação e racismo. Tenho muito orgulho disso. Agora vem um açougueiro rico e questiona essa postura. O clube sempre se orgulhou de mostrar o cartão vermelho para palavras e atos racistas. Quem contraria esse preceito não é Schalke de coração. Está lá por outros motivos; quiçá por interesses pessoais”,a firmou o ator.

Na TV alemã pipocaram depoimentos de torcedores, especialmente das torcidas organizadas, muito contrariados com as declarações do dirigente. Muitos pediram sua renúncia. Na partida do Schalke pela Copa da Alemanha sábado último, centenas de fãs levantaram cartões vermelhos exigindo a saída do presidente.

É interessante verificar que a maioria das críticas veio de pessoas da grande massa torcedora, dos assim chamados cidadãos comuns. Também era de se esperar que a classe dirigente deste meganegócio chamado futebol se posicionasse claramente sobre o assunto.

Cartolas influentes, como Watzke, do Dortmund, ou Rummenige e Hoeness, do Bayern, todos muito falantes quando do alto do pódio fazem discursos sobre responsabilidade social, mantiveram silêncio sepulcral e se fecharam em copas. Não reações, como se sabe, na verdade representam uma tomada de posição, porque quem cala, consente.

O próprio arcebispo de Paderborn, Hans-Josef Becker, presente no evento, só se manifestou discretamente alguns dias depois, através de comunicado oficial, ressaltando que o arcebispado é contra qualquer tipo de discriminação, seja por palavras ou atos. Aproveitou para dizer que Tönnies já havia pedido desculpas, dando assim o caso por encerrado.

Não resta dúvida de que Tönnies é muito importante para o Schalke. Basta lembrar que foi a figura-chave na obtenção do patrocínio milionário da empresa russa Gazprom e que pessoalmente injetou recursos financeiros consideráveis no clube quando necessário. Além do mais, como um dos homens mais ricos da Alemanha, é muito bem relacionado nas altas rodas políticas e empresariais, não só do país como também da Europa.

É sintomático que figuras exponenciais da assim chamada elite política e econômica tenham vindo em socorro do dirigente. Para essa elite, se tratou apenas de um comentário infeliz que não deveria ser sobrevalorizado. Fica-se com a  impressão de que, para o andar de cima da sociedade, o discurso da dignidade da pessoa humana, da ética, dos valores da inclusão de todos é um discurso para boi dormir, especialmente quando um de seus integrantes é acusado de racismo e discriminação. 

Tönnies ficará três meses afastado da direção do Schalke 04, pelo menos formalmente. Nem pensa em renunciar ao cargo. Em novembro estará de volta. É tempo suficiente para refletir e se lembrar de que o mínimo a fazer é pedir desculpas publicamente a todos os africanos que insultou com seu discurso.

Fonte:  Deutsche Welle

ONU: “Crimes de ódio são precedidos por discurso de ódio”

“Palavras matam assim como balas. O Holocausto não começou com as câmeras de gás mas muito antes com discurso de ódio. Com a subida de extremistas, em toda a parte, nota-se um número crescente de grupos neonazistas e neofascistas”.

 

“Temos de lembrar que crimes de ódio são precedidos por discurso de ódio”

O Conselheiro Especial para a Prevenção do Genocídio, Adama Dieng, disse que “todos temos de lembrar que crimes de ódio são precedidos por discurso de ódio.”

Adama Dieng foi o autor da Estratégia e Plano de Ação das Nações Unidas contra o Discurso de Ódio, lançada este mês em Nova Iorque.

História

Em entrevista à ONU News, o representante lembrou vários exemplos históricos de violações de direitos humanos que começaram com palavras contra grupos étnicos ou religiosos.

O representante disse que “todos têm de lembrar que o genocídio dos tutsis em Ruanda começou com discurso de ódio.” Ele acrescentou que “o Holocausto não começou com as câmeras de gás, mas muito antes, com discurso de ódio e que “o que é observado em Mianmar contra a população rohingya também começou com discurso de ódio.”

Atualidade

Na atualidade, Dieng vê um aumento do extremismo no mundo e defende que é necessário combater este tipo de incitação.

O enviado disse que “o que é visto pelo mundo, com a subida de extremistas, seja na Europa, na Ásia, em toda a parte, quando se nota um número crescente de grupos neonazistas, grupos neofascistas, e quando é observada a forma como os migrantes e refugiados estão sendo vilificados, é preciso fazer todos os esforços para abordar este discurso de ódio.”

Combate

Dieng diz que deve ser lembrado que palavras matam. Segundo ele, “palavras matam assim como balas.”

Por essa razão, o conselheiro defende que sejam feitos todos os esforços para investir em educação e na juventude “para que a próxima geração entenda a importância da vida em conjunto.

Para o alto funcionário da ONU, é necessário “fazer todos os esforços para que ataques, como aquele no Sri Lanka, quando igrejas foram atacadas, na Nova Zelândia, em Pittsburgh, tudo tenha de parar.”

Para isso, Adieng sugere “um investimento em mobilizar a juventude, usar o verbo para que se torne uma ferramenta para a paz, para o amor, para aumentar a coesão social e a harmonia no mundo, em vez de ser uma ferramenta para continuar a cometer genocídio e crimes contra a humanidade.”

Estratégia

A Estratégia e Plano de Ação das Nações Unidas contra o Discurso de Ódio foi lançada este mês pelo secretário-geral da organização, António Guterres.

No lançamento, o chefe da ONU considera que esse ato de comunicação “é um ataque direto” aos valores centrais de tolerância, da inclusão e do respeito pelos direitos humanos e pela dignidade humana.

O secretário-geral afirmou também que as Nações Unidas, os governos, o setor privado, a academia, a sociedade civil e a comunidade internacional precisam de intensificar esforços.

Fonte:  ONU
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