Educação e criminalização não previnem discriminação.

Para nós que pensamos no discriminador como agente causador de sofrimento psíquico e/ou físico não podemos deixar
de insistir que o fato de alguem ou um grupo ter uma educacão formal não irá impedi-la de ter uma Conduta Discriminatória. Portanto de agir como um machista, um racista, um homofóbico, etc.
Leiam mais este exemplo:
“Um grupo de estudantes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) foi flagrado tendo uma atitude, ao menos, machista ao minimizar o estupro e ao não tratá-lo como crime. Em um bar na Savassi, na região Centro-Sul de Belo Horizonte, na noite desse sábado (20), a turma cantava “não é estupro, é sexo surpresa”, dentre outras frases sexistas”.
Leia mais em:
http://www.otempo.com.br/cidades/estudantes-da-ufmg-fazem-apologia-ao-estupro-e-geram-revolta-em-bh-1.919877

E como vemos no texto abaixo, não basta todo aparato policial e jurídico para prevenir a ação do discriminador. Apesar de todas providencias legais, os números das ocorrências só comprovam que as ações dos discriminadores não são inibidas pela criminalização:
“Vejam se não é premiar o agressor a situação revelada pelos dados a seguir; somente em 2012, foram registrados 197 feminicídios, 9.716 lesões corporais, 24.500 ameaças e 1.492 estupros apenas aqui no Ceará. Infelizmente, o resultado dessas agressões foram 7.781 boletins de ocorrência registrados, onde apenas 2.019 resultaram em inquéritos policiais, 2.435 medidas protetivas, e pasmem, apenas 348 prisões”.
Leia mais em:
http://anaeufrazio.blogspot.com.br/

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O que não quer mulher na política prova que educação não previne discriminação
O machismo e a medicina

Telmo Kiguel
Médico psiquiatra
Psicoterapeuta

Síndrome do Distúrbio Racial: seria um bom diagnóstico para o racista brasileiro? E para o antissemita?

A publicação de hoje consta de duas partes.

Inicialmente trechos do resumo do livro Americanah, reproduzido do blog da Editora Companhia das Letras.

E logo após nossos comentários sobre alguns conteúdos mencionados por Ifemelu, personagem do livro.

chimamanda-ngozi-adichieIfemelu é uma blogueira aclamada nos Estados Unidos e protagonista de Americanah, novo romance de Chimamanda Ngozi Adichie. Nos anos 1990, em busca de alternativas às universidades nacionais, paralisadas por sucessivas greves, a jovem Ifemelu muda-se para os Estados Unidos, deixando para trás sua família e Obinze, seu primeiro namorado. Ao mesmo tempo em que se destaca no meio acadêmico, ela se depara pela primeira vez com a questão racial e com as agruras da vida de imigrante, mulher e negra. O sucesso que obteve quinze anos depois, contudo, não atenuou o apego à sua terra natal, tampouco anulou sua ligação com Obinze. Quando ela volta para a Nigéria, terá de encontrar seu lugar num país muito diferente do que deixou e na vida de seu companheiro de adolescência.

Americanah foi o romance vencedor do National Book Critics Circle Award e eleito um dos 10 melhores livros do ano pela New York Times Book Review.

Por Ifemelu

Raceteenth ou Observações diversas sobre negros americanos (antigamente conhecidos como crioulos) feitas por uma negra não americana.

6. Ofertas de emprego nos Estados Unidos — a principal maneira nacional de decidir “quem é racista”

Nos Estados Unidos, o racismo existe, mas os racistas desapareceram. Os racistas pertencem ao passado. Os racistas são os brancos malvados de lábios finos que aparecem nos filmes sobre a era dos direitos civis. Esta é a questão: a maneira como o racismo se manifesta mudou, mas a linguagem, não. Então, se você nunca linchou ninguém, não pode ser chamado de racista. Se não for um monstro sugador de sangue, não pode ser chamado de racista. Alguém tem de poder dizer que racistas não são monstros. São pessoas com família que o amam, pessoas normais que pagam impostos.

Alguém tem de ter a função de decidir quem é racista e quem não é. Ou talvez esteja na hora de esquecer a palavra “racista”. Encontrar uma nova. Como Síndrome do Distúrbio Racial. E podemos ter categorias diferentes para quem sofre dessa síndrome: leve, mediana e aguda.

7.
Querido Americano Não Negro, caso um Americano Negro estiver te falando sobre a experiência de ser negro, por favor, não se anime e dê exemplos de sua própria vida. Não diga: “É igualzinho a quando eu…”. Você já sofreu. Todos no mundo já sofreram. Mas você não sofreu especificamente por ser um Negro Americano. Não se apresse em encontrar explicações alternativas para o que aconteceu. Não diga: “Ah, na verdade não é uma questão de raça, mas de classe. Ah, não é uma questão de raça, mas de gênero. Ah, não é uma questão de raça, é o bicho-papão”. Entenda, os Negros Americanos na verdade não querem que seja uma questão de raça. Para eles, seria melhor se merdas racistas não acontecessem. Portanto, quando dizem que algo é uma questão de raça, talvez seja porque é mesmo, não? Não diga: “Eu não vejo cor”, porque, se você não vê cor, tem de ir ao médico, e isso significa que, quando um homem negro aparece na televisão e eles dizem que ele é suspeito de um crime, você só vê uma figura desfocada,meio roxa, meio cinza e meio cremosa. Não diga: “Estamos cansados de falar sobre raça” ou “A única raça é a raça humana”. Os Negros Americanos também estão cansados de falar sobre raça. Eles prefeririam não ter de fazer isso. Mas merdas continuam acontecendo. Não inicie sua reação com a frase “Um dos meus melhores amigos é negro”, porque isso não faz diferença, ninguém liga para isso, e você pode ter um melhor amigo negro e ainda fazer merda racista. Além do mais provavelmente não é verdade, não a parte de você ter um amigo negro, mas a de ele ser um de seus “melhores” amigos. Não diga que seu avô era mexicano e que por isso você não pode ser racista (por favor, clique aqui para ler sobre o fato de que Não há uma Liga Unida dos Oprimidos). Não mencione o sofrimento de seus bisavós irlandeses. É claro que eles aturaram muita merda de quem já estava estabelecido nos Estados Unidos. Assim como os italianos. Assim como as pessoas do Leste Europeu. Mas havia uma hierarquia. Há cem anos, as etnias brancas odiavam ser odiadas, mas era meio que tolerável, porque pelo menos os negros estavam abaixo deles. Não diga que seu avô era um servo na Rússia na época da escravidão, porque o que importa é que você é americano agora e ser americano significa que você leva tudo de bom e de ruim. Os bens dos Estados Unidos e suas dívidas, sendo que o tratamento dado aos negros é uma dívida imensa. Não diga que é a mesma coisa que o antissemitismo. Não é. No ódio aos judeus, também há a possibilidade da inveja — eles são tão espertos, esses judeus, eles controlam tudo, esses judeus —, e nós temos de admitir que certo respeito, ainda que de má vontade, acompanha essa inveja. No ódio aos Negros Americanos, não há inveja— eles são tão preguiçosos, esses negros, são tão burros, esses negros.

Não diga: “Ah, o racismo acabou, a escravidão aconteceu há tanto tempo”. Nós estamos falando de problemas dos anos 1960, não de 1860. Se você conhecer um negro idoso do Alabama, ele provavelmente se lembra da época em que tinha de sair da calçada porque um branco estava passando. Outro dia, comprei um vestido de um brechó no eBay que é da década de sessenta. Ele estava em perfeito estado e eu o uso bastante. Quando a dona original usava, os negros americanos não podiam votar por serem negros. (E talvez a dona original fosse uma daquelas mulheres que se vê nas famosas fotos em tom sépia que ficavam do lado de fora das escolas em hordas, gritando “Macaco!” para as crianças negras pequenas porque não queriam que elas fossem à escola com seus filhos brancos. Onde estão essas mulheres agora? Será que elas dormem bem? Será que pensam sobre quando gritaram “Macaco”?) Finalmente, não use aquele tom de Vamos Ser Justos e diga: “Mas os negros são racistas também”. Porque é claro que todos nós temos preconceitos (não suporto nem alguns dos meus parentes de sangue, uma gente ávida e egoísta), mas o racismo tem a ver com o poder de um grupo de pessoas e, nos Estados Unidos, são os brancos que têm esse poder. Como? Bem, os brancos não são tratados como merda nos bairros afro-americanos de classe alta, não veem os bancos lhes recusarem empréstimos ou hipotecas precisamente por serem brancos, os júris negros não dão penas mais longas para criminosos brancos do que para os negros que cometeram o mesmo crime, os policiais negros não param os brancos apenas por estarem dirigindo um carro, as empresas negras não escolhem não contratar alguém porque seu nome soa como de uma pessoa branca, os professores negros não dizem às crianças brancas que elas não são inteligentes o suficiente para serem médicas, os políticos negros não tentam fazer alguns truques para reduzir o poder de veto dos brancos através da manipulação dos distritos eleitorais e as agências publicitárias não dizem que não podem usar modelos brancas para anunciar produtos glamorosos porque elas não são consideradas “aspiracionais” pelo “mainstream”.

Então, depois dessa lista do que não fazer, o que se deve fazer? Não tenho certeza. Tente escutar, talvez. Ouça o que está sendo dito. E lembre-se de que não é uma acusação pessoal. Os Negros Americanos não estão dizendo que a culpa é sua. Só estão dizendo como é. Se você não entende, faça perguntas. Se tem vergonha de fazer perguntas, diga que tem vergonha de fazer perguntas e faça assim mesmo. É fácil perceber quando uma pergunta está sendo feita de coração. Depois, escute mais um pouco. Às vezes, as pessoas só querem ser ouvidas. Um brinde às possibilidades de amizade, de elos e de compreensão.

O texto de hoje poderá ser melhor entendido acessando outras publicações abaixo.

Motivação para essa publicação:

“Ifemelu” postou em seu blog idéias semelhantes às já postadas por nós.

Textos correlatos:

1 – Propôs uma definição psiquiatrica para o racista: Síndrome do Distúrbio Racial.

Condutas discriminatórias precisam de diagnóstico compatível com o crime, defende psiquiatra

Conduta Discriminatória: tentativa de conceituação motiva correspondência entre psiquiatras.

O antissemita seria um doente? E o racista?

É possível o diálogo entre discriminado e discriminador?

De onde partirá a iniciativa de prevenir a Conduta Discriminatória Racista
Eis um discriminador racista e antissemita. Reconhecendo é possível prevenir.

2 – Enfatizou a invisibilidade do racista: “os racistas desapareceram”.

Violência e racismo no futebol

Protegendo o discriminador

Proteja o discriminador e modifique o discriminado

Debater o racismo, sem o racista, é muito complicado ou quase impossível.

A invisibilidade dos negros é indesejável. A dos racistas é paralisante.

3 – Lembrou que a conduta do antissemita pode vir acompanhada de inveja.

O antissemita seria um doente? E o racista?

O antissemita, o racista, o machista e a inveja

4 – “Mas os negros são racistas também”. Porque é claro que todos nós temos preconceitos”…

Uma contribuição exploratória psicodinâmica para o estudo da etiopatogenia da Conduta Discriminatória.

Conduta Discriminatória: tentativa de conceituação motiva correspondência entre psiquiatras.

Discriminados também discriminam 

O Feminismo, seus mitos e as mulheres machistas

5 – “Os Negros Americanos não estão dizendo que a culpa é sua”.

Progressos na inibição da Conduta Discriminatória

Projeto Discriminação – APRS

Agora uma possível discordância: diz respeito à conduta discriminatória racista que, segundo a personagem do livro, não viria acompanhada de inveja. Ela se refere aos Estados Unidos. Na nossa idéia, e o que temos acompanhado a respeito do racismo no futebol, os discriminados, também poderiam ser atacados por inveja: da sua fama (visibilidade) e de situação financeira invejável.

Esperamos que este livro estimule, aos brasileiro interessados em diminuir o sofrimento dos grupos discriminados, a procurar outras alternativas para prevenção das Condutas Discriminatórias além da educação e criminalização.

Telmo Kiguel
Médico psiquiatra
Psicoterapeuta

Convertendo gente sadia em enferma e cronificando doenças ao invés de curá-las

Para o médico venezuelano Oscar Feo, a indústria que produz sementes transgênicas e agrotóxicos é a mesma que está produzindo medicamentos
Para o médico venezuelano Oscar Feo, a indústria que produz sementes transgênicas e agrotóxicos é a mesma que está produzindo medicamentos

“Os interesses da saúde são substituídos pelos do mercado”

Maíra Mathias e André Antunes.

Da EPSJV/Fiocruz

Expoente do pensamento da Medicina Social latino-americana, o médico venezuelano Oscar Feo visitou a Escola Politécnica no dia em que a instituição completou 29 anos. Coordenador nacional da Universidade de Ciências da Saúde da Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América (Alba), Feo tem um profundo conhecimento da dinâmica da cooperação internacional em saúde e alerta que o interesse privado tem tido participação crescente na elaboração das políticas de saúde em nível global.

Nessa entrevista, ele explica o que entende por Complexo Industrial Médico e Financeiro da Saúde, fala sobre o lobby em torno da construção da proposta de Cobertura Universal em Saúde recentemente criticada pelo Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes) em manifesto publicado em seu site.

Feo defende que é necessário resgatar a potência do pensamento contra-hegemônico da Medicina Social e adotar um novo modelo de desenvolvimento.

EPSJV/Fiocruz – Eu gostaria que o senhor falasse um pouco sobre a influência do que chama de Complexo Industrial Médico e Financeiro sobre as políticas de saúde globais.

Oscar Feo – Entender o que acontece hoje no cenário das políticas internacionais da saúde implica compreender que a saúde passou a ser um espaço fundamental da economia. Hoje, a saúde é o local onde se jogam os interesses do lucro e da acumulação de um setor fundamental da economia mundial que é a indústria farmacêutica e a indústria técnico-médica. Trata-se da segunda indústria que mais lucra no mundo e isso faz com que as políticas de saúde sejam influenciadas pelos interesses do que estamos chamando na América Latina de Complexo Médico-Industrial e Financeiro da Saúde, conformado pelas grandes corporações privadas. Essas empresas não têm como interesse a saúde da população e, sim, a acumulação de capital e realização do lucro. O melhor exemplo disso é a criação da proposta de Cobertura Universal da Saúde.

Em sua conferência, o senhor resgatou o histórico de construção da proposta de Cobertura Universal em Saúde, que está sendo assumida pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Essa proposta foi construída com uma participação importante de fundações filantrópicas privadas como a Fundação Rockefeller e organismos financeiros internacionais, como o Banco Mundial. Baseado na sua visão sobre o papel da saúde na economia hoje, o que faz com que essas organizações se articulem em torno desse tema agora?

A proposta de cobertura universal é funcional ao mercado e ao capital. Ela foi assumida pela OMS [Organização Mundial da Saúde] e Opas [Organização Pan-Americana da Saúde] depois de ser desenhada nos grandes centros financeiros internacionais. A Fundação Rockefeller tem uma longa história na saúde e temos que relembrá-la. A Fundação Rockefeller é o braço filantrópico da ExxonMobil, indústria petrolífera fundada por John Rockefeller. Ela é o instrumento filantrópico para concretizar os interesses econômicos da Exxon. Em 1978, em uma cidade da extinta União Soviética [Alma-Ata, no Cazaquistão], se realizou uma reunião que postulou a ‘Atenção Primária em Saúde para todos no ano 2000’. Que fez a Fundação Rockefeller? No ano seguinte, reuniu um grupo de especialistas em seu centro de formação em Bellagio, na Itália, e converteu a Atenção Primária, que era uma concepção integral da saúde, em uma APS seletiva, voltada para a prestação de um pequeno pacote de serviços para os pobres, como imunização, orientação à amamentação, etc. É isso o que querem fazer com a cobertura universal. E ainda por cima nos roubam a palavra universal. O mesmo poderíamos dizer da Fundação Bill e Melinda Gates ou do Banco Mundial: são instrumentos do grande capital. São essas organizações – que constroem a proposta da Cobertura Universal em Saúde para propiciar o asseguramento privado como instrumento fundamental de lucro desse complexo industrial e financeiro. Não sei bem se em português acontece o mesmo, mas em espanhol cobertura é uma palavra que diz respeito à quantidade de serviços cobertos, profundamente vinculada à indústria seguradora. Nós dizemos que esse foi um ato falho. Nós da Venezuela e do Brasil nos opomos à proposta da cobertura universal da saúde e defendemos o acesso universal através de sistemas de saúde públicos e universais.

O senhor relembrou Alma-Ata, uma conferência da Organização Mundial da Saúde. Este ano, na 67ª Assembleia Mundial da Saúde da OMS, vemos o lançamento de um documento que monitora o progresso da adoção global da Cobertura Universal em Saúde assinado conjuntamente pela OMS e pelo Banco Mundial. Existe um rebaixamento do papel dos organismos internacionais hoje?

Os organismos internacionais são um grande espaço de confronto hoje. Neles se dão as mesmas contradições que vemos no conjunto das sociedades, pois os organismos também foram penetrados pelos interesses do capital e do mercado. O Parlamento Europeu move um processo contra a OMS em razão de a Organização ter mudado os critérios de declaração de uma pandemia mundial a partir da [Gripe A] H1N1. São exemplos concretos de como muitas vezes os interesses da saúde são substituídos pelos do mercado. A publicação no ano 2000 de um documento da OMS que classifica os sistemas de saúde e coloca o Brasil em um dos últimos lugares, enquanto que eleva a Colômbia – onde a saúde é totalmente privada – é um claro sinal de como o mercado está penetrando nos organismos de saúde. Essa é uma briga que temos que comprar. Os organismos internacionais são formados pelos Estados nacionais, então devem seguir as políticas que esses países defendem, e não as políticas advogadas pela Fundação Rockefeller ou pelo Banco Mundial. Agora mesmo, na reunião do Conselho Diretivo da Opas, marcada para o final de setembro, vai haver uma discussão sobre Cobertura Universal onde países como Brasil, Equador e Venezuela contestarão essa proposta e defenderão os sistemas universais de saúde. Os organismos internacionais seguirão sendo cooptados pelos interesses do capital e do mercado na medida em que nós não sejamos capazes de defender com força – e ganhar – nossas posições.

Agora e na conferência o senhor cita a questão da H1N1 e a pressão para que a OMS a reconhecesse como pandemia para alavancar a venda de medicamentos que ficaram encalhados, sem uso. Neste caso mais uma vez os Estados nacionais se viram enfraquecidos frente ao lobby da indústria farmacêutica. Como o senhor vê essa indistinção entre interesses de mercado e de Estado?

Há muitas epidemias que são vistas pelo mercado como oportunidades para a comercialização de seus produtos. É ai que temos que ter cuidado, porque se surge uma epidemia, os interesses do Complexo Médico Industrial podem fazer como terminemos fazendo para a epidemia de H1N1 comprando medicamentos e vacinas que depois nunca utilizamos. Os governos terminam se transformando em instrumentos para satisfazer as necessidades de lucro da indústria. E, para isso, é preciso ter ciência e conhecimento independentes. Implica que não podemos permitir que a indústria farmacêutica siga determinando o que deve ser investigado. Nesse sentido, países como o Brasil, que tem um desenvolvimento científico e técnico avançado, têm um papel importantíssimo. Nós precisamos construir em nossos países soberania sanitária. E isso se faz com investigação, com inovação tecnológica convertida em instrumento que vise à saúde das pessoas e não o lucro do mercado. Lamentavelmente há muitas denúncias sobre isso. Hoje a indústria farmacêutica está pouco interessada em curar as enfermidades, ela quer clientes. E, para isso, está promovendo políticas para mudar os padrões de diagnóstico de algumas doenças ou mesmo inventando doenças que não existem. Isso permite com que convertam gente sadia em gente enferma ou pré-enferma, angariando mais clientes. É uma indústria interessada em cronificar as doenças ao invés de curá-las, garantindo consumo permanente de seus medicamentos.

Atualmente assistimos ao quadro lamentável da epidemia de Ebola nos países africanos e alguns analistas argumentam que essa epidemia foi potencializada, de um lado, pela adoção de um modelo de desenvolvimento baseado na expansão da agroindústria exportadora, que, ao desmatar a savana, contribuiu para que os animais silvestres que transmitem o vírus se aproximassem das populações humanas; por outro, pela falta de interesse da indústria farmacêutica em pesquisar sobre uma doença que atinge principalmente populações empobrecidas. Hoje há, inclusive, indústrias que atuam tanto no fomento ao modelo agroexportador, produzindo agrotóxicos e fertilizantes, quanto na produção de medicamentos, caso da Bayer. O que essas ‘ligações perigosas’ nos dizem sobre o mundo hoje?

Essa é uma clara demonstração da integração de interesses. Hoje já não é mais é possível diferenciar os interesses do capital financeiro daqueles interesses do capital industrial, ou dos interesses dos donos dos meios de comunicação, por exemplo. A General Electric é dona da NBC [emissora de rádio e TV baseada nos Estados Unidos], a Westinghouse por sua vez, é dona da CBS [idem]. A indústria que produz sementes transgênicas e agrotóxicos é a mesma que está produzindo medicamentos. E, em muitos casos, o dono da indústria farmacêutica é o mesmo dono dos meios de comunicação que alertam sobre possíveis enfermidades criando na população matrizes de opinião, às vezes simplesmente difundindo o pânico nas pessoas que prontamente pressionam seus governos a comprar coisas desnecessárias. O atual modelo de desenvolvimento capitalista propala o extrativismo intensivo, que deteriora profundamente o meio ambiente, o agronegócio, que também deteriora o ambiente e tem um impacto totalmente nocivo sobre a saúde e a vida. Há locais em nosso continente em que o aumento da incidência de câncer está diretamente vinculado a esse modelo agroexportador intensivo. Há alguns anos na América Central, ocorreu uma epidemia de insuficiência renal crônica terminal, vinculada fundamentalmente às condições de trabalho nos plantios da cana-de-açúcar para a produção intensiva de etanol ou açúcar. Há vinculação direta entre o modelo de produção que busca a extração máxima do lucro e a deterioração do ambiente e da vida. Hoje estamos diante de um nível de deterioração do mundo que nos obriga a pensar em um novo modelo de desenvolvimento, de produção e de consumo. Precisamos uma mudança de paradigma.

Esse paradigma seria o Bem Viver?

Sim, o novo paradigma é o Bem Viver, um modelo de produção baseado não na acumulação de riquezas, mas na satisfação das necessidades coletivas, em equilíbrio com o meio ambiente. Essa é a diferença entre o modelo de desenvolvimento capitalista e um modelo de desenvolvimento alternativo, que [o presidente] Evo Morales na Bolívia chama de socialismo comunitário, na Venezuela chamamos de socialismo do século 21, em outros países recebe outros nomes, mas para nossos povos originários era simplesmente o ‘viver bem’. Viver bem é satisfazer as necessidades de todos e todas em harmonia com o ambiente. Mas vivemos num mundo individualista, consumista, cravado pela necessidade do dinheiro, e estamos defendendo algo que rompa com esses interesses. Algo muito mais simples: produzir aquilo que precisamos para viver. Hoje, ao contrário, a produção tem em vista o consumo supérfluo, massivo para o intercâmbio comercial lucrativo. O melhor exemplo é o que acontece com os alimentos. O mundo produz alimentos que poderiam nutrir toda a população mundial, até mais. Imperam a desnutrição e a fome. Por quê? Os alimentos se converteram em mercadorias, em commodities que se vendem e se compram. O alimento não é para alimentar, compra quem pode. É um modelo absolutamente falido e fracassado.

O senhor, juntamente com Asa Cristina Laurell, Nila Heredia, dentre outros, construiu sua trajetória dentro desse movimento que ficou conhecido na América Latina como Medicina Social. O senhor define a Medicina Social fundamentalmente como um “pensamento contra hegemônico” em oposição ao que seria o pensamento que dominou a saúde pública. Como essa hegemonia se dá hoje?

Na década de 1990 houve uma mudança fundamental: desapareceu a bipolaridade que existia e que cindia o mundo em capitalista e socialista. A partir desse momento, falamos de algo que se chama hegemonia planetária do capital. O que é hegemonia, segundo Gramsci? É quando a classe dominante faz com que as classes subordinadas da sociedade assumam suas concepções – as da classe dominante – sem coerção. O que é mais eficaz: dominar alguém pela força ou pelo pensamento? Hoje a hegemonia planetária do capital faz com que as pessoas pensem segundo sua lógica através dos meios de comunicação. Há de se compreender que uma tarefa fundamental é quebrar essa hegemonia. Por isso falamos da necessidade de construir pensamento e ação contra-hegemônicos. Que diz a hegemonia? Ela defende que as funções dos sistemas de saúde são a gestão, o asseguramento, o financiamento e a prestação de serviços. Isso se estuda nas Escolas de Saúde Pública. Nós dizemos não. Não aceitamos essa abordagem. Para nós, a função fundamental do sistema de saúde é a garantia do direito à saúde, e para garantir o direito à saúde nós não devemos ter somente a gestão. Temos que ter o controle total do sistema de saúde.

Qual é o papel da educação nesse processo?

Boa parte dos centros de formação está cooptada pelo pensamento hegemônico. A Escola Politécnica, por exemplo, é uma escola que nasce como parte do pensamento contra-hegemônico. Quando vou ao pátio, leio nas paredes frases de Paulo Freire, Antonio Gramsci, Karl Marx, José Saramago. Gramsci diz que uma escola politécnica não deve ser um local para se aprender técnicas, mas para aprender a vida. Resgatar esses elementos é fundamental, fazer com que o ensino não se conforme em torno do positivismo, do academicismo, do cientificismo e, sim, vise o mais importante: formar homens e mulheres livres para a transformação social. Esse é o desafio que temos pela frente. O que fazemos hoje? Formamos médicos ou enfermeiras para o setor privado, profundamente desumanizados, mercantilizados. O desafio é romper com esse modelo de formação que visa o mercado, para o uso excessivo da tecnologia, e construir um novo modelo de formação de profissionais para a vida, profundamente humanos e solidários.

Reproduzido do blog Brasil de Fato

Texto correlato:

O neuropsiquiatra e o ditador

Orgulho de ser discriminador

Paul Weston
Paul Weston

Prezado leitor.

Gostaria muito de saber sua opinião sobre esta manifestação.
Já viu algo semelhante (e tão explícito), sobre questões nossas, aqui no Brasil?
Qual foi a reação ao fato na grande imprensa e na internet?
Se não viu, pensa que isto possa ocorrer, em relação a algum grupo em nosso país?
O que pensa que deva ser feito para evitar este tipo de conduta discriminatória?
Esta manifestação é, na sua forma, diferente das que ocorrem em campos de futebol.
E nas suas essências, são diferentes?
Na sua opinião qual delas é mais perigosa para sociedade como um todo?
Qual delas é mais fácil de punir? E de prevenir?

Sobre o uso da palavra “racista” no video (Inglaterra) e na tradução.
Aqui utiliza-se a palavra/expressão discriminador.
Em muitos países a expressão “racista” tem o significado que aqui atribui-se a “discriminador”.

Veja abaixo o vídeo “I am a racist”. O vídeo é falado em inglês. Ao lado tem uma tradução em francês. E, a seguir, a tradução para o português.

Olá, meu nome é Paul Weston e eu sou um racista. Eu sei que sou racista porque muitas pessoas me dizem que sou racista. A extrema esquerda pensa que sou um racista, o Partido dos Trabalhadores pensa que sou um racista, conservadores pensam que eu sou um racista, democratas liberais pensam que sou um racista, a BBC pensa que sou um racista. Portanto, devo ser racista. Por que sou racista? É muito simples: eu desejo preservar a cultura do meu país, o povo do meu país e ao fazer isso eu sou designado racista na sociedade atual.

Isso é algo que tem sido movido pela esquerda, o cursor do racismo mudou consideravelmente. Para se tornar racista 30 ou 40 anos atrás, teria que realmente desgostar de estrangeiros. Eu não desgosto de estrangeiros. O que eu gosto mesmo, o que eu amo é meu país, minha cultura e meu povo. E eu vejo isso sob uma terrível ameaça atualmente.

A Inglaterra é um país muito pequeno que abriu suas portas para uma massa de imigrantes do Terceiro Mundo e estamos sobrecarregados. Nossas escolas não conseguem lidar com isso, nossos hospitais não conseguem. Na verdade, muito poucos setores ainda conseguem lidar. O sistema de bem-estar social está afundando também. Então, se eu quero defender o lugar que nasci e cresci, meu país, minha cultura britânica, meu patrimonio e minha história eu sou, aparentemente, de acordo com todo mundo diz atualmente, um racista.

Mas não acho que seja o caso. Não que eu não seja racista, eu vou assumir isso completamente. Porque claramente eu sou. Eu ouvi isso de tantas pessoas que só pode ser verdade. Eu sou provavelmente também islamofóbico. Uma fobia é um medo irracional de alguma coisa, e eu não tenho um medo irracional do Islã. Eu olho para o mundo hoje, para a Síria, por exemplo, onde 100 mil pessoas morreram nos últimos 2 anos, onde muçulmanos xiitas estão matando sunitas e vice-versa. Eu olho para lugares como Indonésia, Egito e China e as Filipinas. Em todo lugar que se olha, se vê problemas com islamismo. Eles são violentos e são, me atrevo a dizer para reforçar meu caráter racista, profundamente selvagens em ideologias políticas e religiosas.

Agora, muitas pessoas descordarão disso. A extrema esquerda dirá que não se pode criticar o Islã porque Islã é uma religião e agora há regras nesse país que dizem que se você criticar religião, está incitando o ódio religioso. Mas o Islã não é apenas uma religião, é uma ideologia política também e precisamos chamar dessa forma. É uma cultura que é política e religiosa. E eu gostaria de saber se posso dizer algumas coisas sobre isso. Nós temos um grande problema nesse país que não irá embora, vai piorar cada vez mais. Nós, como povo, estamos decrescendo demograficamente, e a população islâmica está crescendo nove vezes mais rápido do que qualquer outra.

Quando eu olho para o futuro, vejo uma grande guerra civil religiosa ocorrendo nesse país. As coisas impensáveis que estão acontecendo na Síria atualmente irão acontecer aqui antes de 2040, certamente antes de 2050. E eu não quero que a Inglaterra se torne assim, então vou denunciar o Islã como uma ideologia religiosa e política retrógrada e selvagem. E que vá para o inferno o que as pessoas pensem sobre isso. Porque se não fizermos algo sobre isso, vamos nos envolver em algo que a maioria das pessoas nem consegue imaginar na Inglaterra.

Então, precisamos denunciar isso pelo que é e começar a montar alguma defesa contra isso. O problema de montar uma defesa é que deparamos com a acusação de racismo, com o “Eu não sou um racista, mas…” Bem, aqui está: eu sou um racista. Se eu quero evitar uma guerra civil em meu país, estou preparado para ser chamado de racista. E você deveria aceitar ser chamado de racista também.

Vamos apenas dizer que somos racistas detestáveis e começar a denunciar uma ideologia que é a mais primitiva, selvagem e retrógrada que foi importada para dentro desse país pela esquerda, por pessoas como Tony Blair, que fizeram isso deliberadamente para debilitar meu país, meu povo. Eles fizeram isso deliberadamente e depois disseram que não temos permissão de discutir sobre isso. Bem, eu discuto sobre isso, e eu vou lhe dizer que você denunciou e retirou a Lei da Traição logo que chegou ao poder. Eu acho que você cometeu traição quando disse que nós vamos importar o terceiro mundo para esfregar a diversidade na cara da direita (política). Para mim, isso é traição.

Sua missão foi esquecer do melhor interesse das pessoas desse país para deliberadamente nos menosprezar e nos subverter, e isso é um ato criminoso. Não importa que você repeliu a lei, as leis podem retornar e algum dia você será julgado por traição, junto com o resto de seu gabinete e todos os políticos em altos cargos que permitiram esse ato criminal. E eu vou lhe dizer isso: não importa que você possa me processar por racismo ou incitar violência religiosa, eu não acredito nisso. Acredito apenas na defesa de meu país, a defesa do meu povo e da minha cultura. Todo o resto pode ir para o inferno. Eu sou um racista.

Tradução: Débora Fogliatto.

Por: Telmo Kiguel, médico psiquiatra e psicoterapeuta
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Quem ganha com a epidemia do vírus Ebola.

El gobierno de los Estados Unidos implicado en patentamiento de virus del Ebola

 Fabuloso negocio con el mortal virus

 

 

Según la solicitud de patente publicada en octubre de 2012 bajo el número US20120251502 A1, el gobierno de los Estados Unidos posee una invención basada en el aislamiento y la identificación de una nueva especie de virus Ébola en humanos, el “EboBun”, que fue aislado de los pacientes que sufrieron de fiebre hemorrágica en un reciente brote en Uganda”

 


Aunque el EboBun no es la misma variante que en la actualidad ha provocado el virulento brote epidémico en África Occidental, es evidente que el el gobierno de los EEUU necesita ampliar su cartera de patentes para incluir más cepas de Ébola y esa podría ser la razón por la que las víctimas estadounidenses del Ébola han sido trasladadas recientemente a EEUU.

 

A partir de la descripción de la patente sobre el virus EboBun, sabemos que el gobierno de EE.UU.:

1) Extrae el virus del Ébola de los pacientes

2) Afirma haber “inventado” ese virus

3) Pretende tener el monopolio de protección de patentes sobre el virus

 

.

El documento de patente también reivindica claramente que el gobierno de EE.UU. reclama la “propiedad” sobre todos los virus del Ébola que comparten al menos un 70% de similitud con el Ébola que él “inventó”.

 

Esto nos lleva a una pregunta obvia: ¿Por qué querría declarar el gobierno de EE.UU. el haber “inventado” el Ébola y luego reclamar un monopolio exclusivo sobre su propiedad?

 

Según especialistas en propiedad intelectual, esta patente ayuda a explicar por qué algunas víctimas de Ébola están siendo transportadas a los Estados Unidos y sometidas al control del Centro para el Control y la Prevensión de Enfermedades (CDC).

 

Estos pacientes llevan en su cuerpo valiosos activos de propiedad intelectual en forma de variantes del Ébola y el CDC desea ampliar su cartera de patentes mediante la recolección de muestras sanguineas, para estudiarlas y potencialmente patentar nuevas cepas o variantes del virus.

 

Los expertos afirman también que intentar patentar el Ébola es tan extraño como tratar de patentar el cáncer o la diabetes. ¿Por qué una agencia gubernamental reclamaría haber “inventado” una enfermedad infecciosa y luego reclamar el monopolio de su explotación para uso comercial?

 

¿Acaso espera el CDC cobrar royalties sobre las vacunas del Ébola? ¿Está buscando “inventar” más variantes y patentar esas también?

 

No casualmente las acciones de la compañía farmacéutica canadiense Tekmira subieron más de un 11% el pasado viernes cuando se empezó a presionar a la FDA para que acelerara los ensayos de vacunas contra el Ébola creadas por la compañía.

Lo que estamos viendo es un teatro médico, con un guion cuidadosamente escrito.

Un pánico global de pandemia, una patente del gobierno, importación del virus del Ébola a una ciudad importante de EE.UU., una vacuna experimental, la súbita aparición de una compañía farmacéutica poco conocida y una protesta pública contra la FDA (Administración de Alimentos y Medicamentos de EEUU) para que acelere la creación de una vacuna.

 

Imaginemos cómo podría ser el segundo acto de esta obra de teatro.

 

Un “accidente de laboratorio” en EE.UU., el “escape” del Ébola afectando a la población y una campaña nacional de vacunación obligatoria contra el Ébola que enriquece a Tekmira y a sus inversores, colocando a la CDC, con sus patentes de virus, como “salvadores del pueblo estadounidense”…

 

Esta obra ya se representó con anterioridad…la última vez se llamó “gripe porcina” AH1N1

 

La fórmula es siempre la misma: crear alarma, sacar una vacuna al mercado, luego de asustar a los gobiernos para que adquieran por miles de millones de dólares, vacunas que no necesitan.

 

Tekmira, con sede en Vancouver, desarrolla un tratamiento denominado TKM-Ébola del que ha completado una primera fase de pruebas clínicas “con éxito”, dijo en un comunicado y que “dada la gravedad de la situación, estamos evaluando cuidadosamente la opciones” de uso de su medicamento experimental.

“Esto incluye discusiones con agencias gubernamentales y ONG, incluida la OMS, en varios países sobre el uso potencial de TKM-Ébola para tratar individuos infectados con el virus del ébola”.

“No puede haber garantías de que se encuentre un marco adecuado para el uso de este producto. Seguiremos proporcionando información a medida que sea necesario cuando los caminos clínicos y normativos sean confirmados”, añadió la empresa.

El presidente de Tekmira, el doctor Mark Murray, añadió que “seguimos controlando estrechamente el trágico brote infeccioso de ébola. El actual brote subraya la crítica necesidad de un agente terapéutico efectivo para tratar el virus del ébola”.

Las pruebas clínicas de TKM-Ébola fueron realizadas en “voluntarios humanos sanos”.

Tekmira informó que “en julio, recibimos nota de la suspensión del ensayos de nuestro programa TKM-Ébola por parte de la Administración de Alimentos y Medicamentos de Estados Unidos (FDA)”.

Posteriormente FDA modificó la notificación a “suspensión parcial de ensayos, lo que permite “el uso potencial de TKM-Ebola en individuos con una infección de ébola confirmada o sospechada”.

“La compañía sigue en suspensión de ensayos de TKM-Ébola con respecto a la porción de dosis múltiple ascendente de la Fase 1 de estudio clínica en voluntarios sanos” añadió Tekmira.

 

Reproduzido do Observatorio Sudamericano de Patentes

Racista: uma definição que compete à Saúde Mental

O racismo enquanto um problema ignorado pela saúde no Brasil

Há 11 anos eu e Patrício, meu marido, nos conhecemos. Quando me percebi apaixonada, procurei dentro da minha cabeça alguma imagem da infância e da adolescência que indicassem que o companheiro poderia não ser branco, mas não encontrei nenhuma referência a um “príncipe encantado” negro. Essa foi a primeira vez que me percebi inserida numa sociedade racista.

Antes de apresentá-lo aos meus pais, fiquei me questionando se haveria algum problema. Não porque estávamos num relacionamento mais sério, mas porque Patrício, embora não fosse meu primeiro namorado, era o primeiro negro, e também o único cuja cor da pele foi anunciada antes da apresentação.

Antes de conhecer o Patrício, jamais havia sido parada numa batida policial. Na minha primeira vez – não a primeira dele – quando voltávamos da exibição de seu filme “Negro e Argentino”, uma amiga conduzia o carro sozinha na frente e nós dois estávamos no banco de trás (éramos quatro pessoas, mas um amigo havia descido no metrô). Tivemos que sair do carro sob a mira de armas e mostrar nossos documentos. Enquanto Patrício foi revistado com as duas mãos sobre o capô do carro, eu e minha amiga fomos questionadas insistentemente sobre a natureza da carona (perguntaram inúmeras vezes se não era um sequestro).

No dia do ataque do PCC em 2006, quando mais de 500 civis foram mortos (grande parte pela polícia), nós dois voltamos juntos a pé para casa, porque não havia mais ônibus circulando. Descemos a rua completamente vazia às 18 horas da tarde. Segurava com força a mão do Patrício, querendo mostrar que aquele era meu companheiro, como se com essa atitude pudesse protegê-lo, já que em São Paulo, mesmo em condições de normalidade, o assassinato de negros pela polícia tem um índice 3 vezes maior do que o de brancos.

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O racismo, que muitas vezes se difunde de maneira bastante sutil – em propagandas de produtos médicos mostrando apenas usuários brancos, em coberturas esportivas que mostram apenas mulheres loiras na plateia e que elegem um jogador branco como herói em meio a uma grande maioria negra, em “pesquisas médicas” que sugerem que negros sejam mais violentos em seu DNA – é algo muito difícil, quase impossível de se lidar.

Muitas vezes a defesa da igualdade de direitos provoca uma violência ainda maior contra aqueles que ousam dizer o óbvio: vivemos numa sociedade racista! Inúmeros são os exemplos de publicações denunciando o racismo que recebem como resposta manifestações de ódio ainda piores que as atitudes denunciadas.

Mas este é um problema que não se restringe à esfera social, invade também a esfera da intimidade do negro que, relegado à própria sorte no cuidado com a saúde mental e psicológica, quase nunca encontra suporte profissional para lidar com essas e outras questões do quotidiano que envolvem ser negro numa sociedade racista e desigual. Raras são as menções ao racismo enquanto um problema que envolve a saúde no Brasil.

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Por isso me chamou a atenção a entrevista com a psicóloga, professora, pesquisadora, escritora e ativista Jaqueline Gomes de Jesus no site Blogueiras Negras, em 25 de julho, Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha, por trazer o racismo como um problema psicossocial.

Destaco da entrevista, que merece leitura completa por sua potência democrática e sensibilidade, o seguinte trecho:

“A saúde, de forma geral, ainda é vista como um fenômeno meramente biológico, sem relações com o mundo psicossocial. Psicólogas e psicólogos têm questionado esse posicionamento que limita a compreensão sobre como as relações sociais e os processos de subjetivação podem ser vetores de adoecimento psíquico, especialmente quando falamos de uma população historicamente discriminada em uma sociedade racista, no que se inserem as pessoas negras.

Pessoalmente, tenho me focado na discussão sobre como a subcidadania é construída socialmente, particularmente por meio de relações degradadas nesse nosso mercado de trabalho tardiamente globalizado, e perniciosamente competitivo, o qual tem raízes profundas nos séculos de escravidão que marcaram a construção das nossas imagens e discursos sobre o humano. Isso não é assunto apenas para historiadores, sociólogos ou jornalistas, como já me responderam em um parecer de artigo científico, mas também para psicólogos.

A Psicologia, como ciência e profissão, enfrenta o desafio de superar a visão eurocêntrica e colonial que ainda silencia acerca do sofrimento vivido pelas negras e negros neste país, seja no âmbito individual quanto no coletivo. Entendo que a Psicologia Social, em particular, tem apresentado contribuições relevantes nesse sentido, nos frequentes estudos sobre estereótipos, preconceito e discriminação de cunho racial, e nos mais raros sobre processos de branqueamento e branquitude, ainda que estejamos distantes de uma Psicologia – como conjunto de saberes-fazeres unificados que reconheça os movimentos sociais e intelectuais pulsantes em produção de conhecimentos, para além dos campos acadêmicos, como os feministas contemporâneos, os antirracistas, os movimentos por terra e moradia, entre outros – que realmente poderíamos chamar de “descolonial”.”

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O racismo não é um problema do negro – é da sociedade brasileira – mas é no negro que ele deixa suas marcas e sequelas. Portanto, deve ser tratado e debatido também como um problema de saúde, para que soluções sejam encontradas, não apenas no âmbito particular das pessoas negras, mas também em nível nacional.

Débora Aligieri é advogada
Reproduzido do Blog de deboraligieri – Rede HumanizaSUS

O antissemita, o racista, o machista e a inveja

O antissemitismo é antigo, multi causal e multi facetado.

Para alguns pesquisadores seria, basicamente, uma discriminação religiosa.
O racismo seria uma visão equivocada da biologia a serviço de uma determinada supremacia grupal.
Aqui no Brasil é traduzida por uma pretensa superioridade dos brancos sobre índios e negros.
E o machismo seria a idéia preconcebida da superioridade do homem sobre a mulher.


Mesmo organizados, estes grupos discriminados, não conseguem prevenir a ocorrência de atos hostis contra eles.
Inclusive com o recente auxílio do Direito que criminaliza estas condutas.
A inconformidade com os ataques tende a aumentar por não se sentirem inferiores a seus algozes.
E da maior conscientização de que o problema das discriminações está na mente do discriminador. 
E cada vez mais trazem argumentos em que demonstram os valores de seus grupos.
Na expectativa que estes valores previnam essas Condutas Discriminatórias.
Vejamos alguns exemplos desta argumentação, inevitavelmente, ineficaz.


Os judeus argumentam com a grande quantidade de seus membros que já receberam o Premio Nobel.
E que Israel é um dos mais avançados centros tecnológicos da atualidade do qual o mundo todo se beneficia.
Atos racistas são freqüentemente perpetuados contra jogadores de futebol.
Famosos, ricos e muito valorizados pela importância que nós brasileiros damos a este esporte.
E as mulheres também tem uma argumentação de peso.
Todo homem teve uma mulher importante em sua vida que foi sua mãe.
E nem isto inibe a conduta machista.


Todas estas argumentações nos leva a pensar que estas condutas discriminatórias podem ser potencializadas por inveja.
Para muitos o Premio Nobel desperta admiração e inveja.
Ser negro, famoso e rico no Brasil também.
Ter sido gerado, alimentado, criado, educado por uma mulher.
E depender de outra para ter filhos, também pode despertar admiração e inveja.
Conclusão: a criminalização e a argumentação, que é uma forma de educação dirigida, não inibem a Conduta Discriminatória.
 
 
 
Telmo Kiguel
Médico psiquiatra
Psicoterapeuta

Debatendo o Estado Laico com Milton Ribeiro

laico2Milton.

A tua recente matéria me inspirou a um debate.

Focarei principalmente na laicidade e na conduta discriminatória do texto.

E menos na disputa político partidária.

Inicialmente é necessário deixar claro a importância da laicidade para este blog de Saúde Pública: alguns indicadores de discriminação, saúde e sociais são melhores em Estados Laicos, de fato. Não creio que avanços para um Estado Laico, de fato, possam surgir dos nossos partidos políticos. A oposição a ele, como escrevestes, sim.

Em nosso país esta é uma questão de política supra-partidária, infelizmente.
Progressos nesta área, penso, só ocorrerão se os que estiverem verdadeiramente interessados, promoverem debates fora dos parlamentos.
Entre o avanço da laicidade e os interesses da manutenção da governabilidade / sucesso eleitoral, os partidos políticos tem optado pela segunda opção.
Atualmente está em discussão, na Câmara Municipal de Porto Alegre, a retirada de símbolos religiosos.
Infelizmente não há debates públicos sobre o tema.

Quanto a “A dicotomia tipicamente gaúcha” referida por ti.
Infelizmente não temos pesquisas para saber o que, no fundo, significa isto.
Mas depois de alguns anos de dedicação ao tema tenho uma hipótese.
Creio que a nossa desagradável radicalização é devido a sermos um estado discriminador.
Ocorre mais de as pessoas “secarem” o time adversário do que torcerem pelo seu.
Mais de serem contra (anti) o partido adversário do que falar das idéias/propostas do seu.
O componente discriminatório, nesta conduta, deve ser muito importante.

“Isso é empobrecedor demais”, ainda no teu primeiro parágrafo.
Se as questões ficam assim postas é porque não há um bom debate de idéias/argumentos.
No caso o enfrentamento é feito por idéias pré-concebidas, de um ou de ambos os lados.
E idéias pré-concebidas nada mais são do que o Preconceito.
Que, por sua vez, é uma das origens da Conduta Discriminatória.

Espero que esteja iniciando mais um (mini) debate sobre o tão desejado Estado Laico.

Abraço
Telmo

Depois da Copa, futebol salva casamento.

As mulheres, os homens e o futebol

O futebol, pelo menos no caso argentino, é uma área social privilegiada da constituição da subjetividade masculina e de tem grande relevância na vida cotidiana dos homens. Grande parte da fascinação masculina por este esporte reside no que se denomina captura da cena esportiva: a imprevisibilidade, a surpresa, a ambiguidade entre ganhar e perder, a crença dos espectadores de que seu entusiasmo pode mudar as oportunidades de seu time, a suposição de que algo acontecerá aos jogadores quando são olhados pelo público. Captura atrelada a conformação do ideal ligado a masculinidade.

Um pouco antes de começar a pesquisa, comecei a perceber que falar de futebol é falar de um componente muito importante da vida cotidiana em nossa região: é um dos modos nos quais expressa-se o afeto, a paixão e os vínculos. Assim como as construções de gênero, masculinas e femininas. O futebol está “sexuado” e pintado de gênero, com predomínio masculino, mesmo quando há apreciadoras e até mesmo pelo fato de que já se tenha observado uma entrada massiva de mulheres apaixonadas por este esporte.

Em relação aos homens, há uma maneira particular de criação de subjetividade masculina em nosso país, expressa em uma maneira distinta de jogar futebol que tem mudado com o tempo. Poderíamos afirmar que o futebol argentino construiu um tipo particular de gênero masculino em nosso país e, vice-versa, o estilo particular de construção da masculinidade na Argentina marcou um estilo na criação de um futebol nacional. Há uma relação entre futebol e o “tornar-se homem” e “ser homem” na Argentina. E como o próprio conceito de gênero assinala por seu caráter relacional, não é possível falar de um “tornar-se homem” que não seja simultâneo a um processo de “tornar-se mulher”: há uma relação entre futebol e “tornar-se mulher” e “ser mulher” na Argentina; pelo menos nas vicissitudes do “devir mulher” convivendo com homens que têm uma bola de futebol no coração.

Sem dúvida, em nosso país o futebol constituiu-se como um organizador da identidade nacional quase desde seu início, diferenciando-se do futebol estrangeiro, em especial do inglês, do qual é herdeiro. Este esporte se constituiu em um dos modos de transformar os filhos de imigrantes em mestiços, com base nas possibilidades brindadas pela preferência da habilidade, acima da classe social de origem. Deu-se valor ao estilo rio-platense, ligado a arte e a criatividade mais do que a máquina e a potência. O campo de futebol foi caracterizado como espaço do homem livre, da verdade democrática. Esta imagem do homem livre se institui em relação à preservação de uma virtude masculina: o estilo infantil, puro. O campo se constitui em um mundo de crianças traquinas, malandras, “vivos”, que escapam das escolas e dos clubes.

Já em 1928, a revista El Gráfico caracterizava o estilo mestiço como o de um jogador leve, veloz, delicado, com maior habilidade individual e menor ação coletiva; manhoso, que tinha a indolência como virtude e que não precisa da força para impor-se. Estas são as características gerais do futebol nacional que é, fundamentalmente, o contraponto entre a habilidade e a força, sustentado na oposição entre cérebro e corpo. Expressa-se também outro tipo de contradição: entre a aristocracia do futebol e o trabalhador; o primeiro joga para se divertir; enquanto o segundo é descrito como luta e esforço. Assim cabe assinalar a coexistência de diferentes modelos, cada qual com seu estilo, que possui um tipo de corpo e de virtudes masculinas. E o público, os outros homens, identificando-se com os mesmos, dependendo do qual se torne mais próximo e afim.

Pelo menos desde a década de 1920, o futebol faz parte da genealogia masculina de nosso país. Desde então um pai transmite e deixa para seu filho homem três brasões identitários: um nome, um sobrenome e uma camisa. Pertencentes à legião da família, identificada com a camiseta, institui a linhagem em uma busca de se construir um pertencimento nacional. Pertencimento que na atualidade representa um dos poucos organizadores fortes de identidade, ou seja, assistir ao estalo e reordenamentos de vários organizadores da vida instituídos na modernidade. O amor por uma equipe permite um porto identitário de grande relevância frente às outras possibilidades de identidades fortes e depositários da ansiedade moderna, que se revelaram deterioráveis: o matrimônio, o trabalho, os partidos políticos, os pactos, as referências, os líderes.

Parece que o único que mostra-se perene é o futebol, já que, salvo raras exceções, se nasce e morre com a camisa. Um homem contemporâneo pode mudar de mulher, de partido, de chefe e até de país, mas nunca de equipe de futebol. Este fenômeno explica o assombro que produz o fato de que muitos homens que antes não prestavam atenção a este esporte, na atualidade o façam com fervor. Na realidade trata-se de um desfrute do último refúgio gerado pela paixão e que os da uma forte identidade, que permanece com eles. Apelam ao reservatório da genealogia do gênero masculino argentino que não encontra um equivalente na feminilidade: o nome, o sobrenome e a camiseta.

E, na clínica psicanalítica, a pesquisa pela preferência por alguma equipe de futebol e suas vicissitudes é uma boa via de acesso aos avatares da função paterna em um sujeito. “E você, menino, de que time é?”, ouve-se perguntar aos pequenos homens em nosso país, e a pergunta se refere a quem irá se filiar, a que modelo de masculinidade incorporou e qual escolhe incorporar. As respostas podem ser várias. O menino pode decidir pertencer ao clube do pai, ao do melhor amigo do pai, ao do esposo ou amor da mãe, ao do avô materno ou paterno, ao do tio, ao do grupo de amigos (esta parece ser uma escolha secundária), ao de um querido pai de um amigo, pode ser o clube da cidade ou do país para o qual se mudou em uma tentativa de adquirir uma identidade com os homens, como um roteiro de masculinidade.

E esse menino que escolhe pertencer à equipe do tio pode ter tomado a decisão ao perceber o amor que este sente pela camisa. Esse tio era o que levava o menino ao campo, e a condição de ser levado ao campo é de pertencer ao mesmo time que esse adulto. Claro que este mesmo menino pode seguir a profissão de seu pai, sua ideologia política, seus gostos estéticos etc.

Mulheres argentinas

Em relação às mulheres argentinas e o futebol, desde agora pode-se falar de sua relação, tolerante ou não, de apreciadoras ou não, com essa paixão masculina. Claro, não há porque desconhecer a integração gradual e crescente das mulheres em todos os âmbitos da vida social, entre os quais o futebol está incluído. Contudo este esporte não é qualquer âmbito da vida social argentina, mas é atribuidor de uma identidade mais forte e das menos modificáveis nesta pós-modernidade periférica. É um referente que assinala rapidamente quem é sujeito que não é. E deste fenômeno ninguém quer ficar excluído, nem as mulheres. Poderíamos organizar a relação das mulheres com o futebol em dois grupos: as mulheres que gostam de futebol e as que não gostam. As primeiras poderiam ser dividas, por sua vez, em dois subgrupos: as que adentraram ou lutam para ingressar como atoras diretas – jogadoras, árbitras, jornalistas, dirigentes e treinadoras – e as que simplesmente são apreciadoras do espetáculo, vêm as partidas ou as assistem pela televisão.

As que procuram ingressar na atividade devem enfrentar os obstáculos que surgem quando as mulheres decidem entrar em algum ramo de uma atividade social de predomino masculino.

Um atrativo que este esporte tem é o efeito de ser subjetivado em relação a um jogo coletivo que vai além das habilidades individuais, afinal se não há uma equipe não se pode jogar: é a aprendizagem de “passar a bola”, jogar em relação aos outros, e não ser “fominha”. Isto faz referência a uma tradição muito importante que o coletivo de mulheres não tem como acervo, precisamente por ter sido excluído da estimulação para a prática de esportes coletivos.

Em relação às mulheres, as que não gostam de futebol, poderíamos distinguir quatro grandes subgrupos. Um é o das que se sentem incomodadas, consideram-se excluídas de uma atividade que – enquanto dura a partida – tira todo o interesse de seu amado. Elas buscam a todo tempo uma maneira de persuadir seu parceiro de que, em prova de seu amor por elas, deva desistir de ir ao campo ou de ver a partida pela televisão. Nestes casos podemos advertir que o time escolhido é tido como “a outra”.

Também há as indiferentes. Estas mulheres não se importam, nem se incomodam com o futebol; na realidade há muito poucos exemplares que pertençam a este subgrupo. E há aquelas que acompanham. Mulheres que, com suficiente experiência de vida, aprenderam a estratégia de que, visto que não se pode vencer um poderoso inimigo, o mais inteligente é unir-se a ele. E há as perplexas: não se sentem incomodadas, mas não conseguem entender a fascinação masculina em ver vinte e dois sujeitos adultos correndo simultaneamente atrás de uma bola.

O que as pertencentes destes subgrupos parecem compartilhar, muitas vezes inconfessavelmente, é a inveja provocada pela paixão que eles sentem e que elas não encontram equivalente substituto no universo feminino. Em todo caso, interessem-se ou não por ele, como jogo e espetáculo, o futebol não está ausente dos afetos e da história de vida das mulheres que desenvolvem sua existência em um lugar onde o futebol é uma atividade de grande importância social.

Uma paciente, ao falar da relação com seu pai, relata que quando era criança lembra ter experimentado um ódio irreprimível aos domingos pela tarde, quando ele ficava apenas a escutar as partidas pela rádio. Já não ia aos campos porque seu filho homem, o irmão mais velho da paciente, havia deixado de acompanha-lo – os intelectuais nos anos setenta preferiam sair com a companheira do que serem fiéis a camisa -. Então, seu pai escutava o rádio, fosse em case, passeando no carro ou em alguma visita. Ele acompanhava fisicamente o restante da família aos domingos, mas sua cabeça e seu coração ficavam no estádio. Talvez junto às mulheres da casa sentia-se abandonado e sozinho. E, enquanto escutava a partida, o mundo parava. Nada mais o importava, nem sequer sua filhinha da alma. Com o tempo a paciente pôde compreender que esse ódio que acreditava sentir por seu pai era, na realidade, provocado pelo fato de que ele entrava em um mundo que a excluía por ser mulher, um mundo para transmitir e compartilhar apenas com o filho homem.

No relato de algumas das mulheres que participam e gostam de futebol, isto se conecta com sua relação com o pai: como um dom que receberam de seu pai, uma herança com a qual elas se filiaram ainda que não seja um legado típico para as mulheres.

Talvez, para entender as representações psíquicas das mulheres que participam do futebol, devamos apelar para um paralelo com o modelo clínico que é utilizado com a perspectiva de uma psicanálise revisitada a partir dos estudos de gênero, para trabalhar com as identificações vocacionais e trabalhistas das mulheres cujas mães foram donas de casa enquanto seus pais participavam na atividade do mundo do trabalho. Sabemos que estas mulheres, para adquirir sua própria modalidade feminina de inserção no mundo do trabalho, devem apelar para o reservatório de identificações via paterna e, com esse material, construir e agenciar representações próprias. Considero que grande parte da relação das mulheres com o futebol está intimamente conectada com o tipo de vínculo que teve com homens significativos. Nos pais das mulheres que gostam de futebol visualizamos a possibilidade de serem modelo de identificação para suas filhas, sem assimilar as características próprias encontradas em suas herdeiras como um indicador de masculinização das mesmas.

De todo modo, esta conquista só pode coexistir com aspectos paternos de reafirmação de sua diferença em relação às mulheres e de desconhecimento de algum dos atributos agenciados por suas filhas. Por isso estas meninas podem carecer de consciência da coexistência de reconhecimento/desconhecimento até que se vejam envolvidas em aventuras amorosas, trabalhista ou outras, que entrem em contradição com a imagem que formaram de si mesmas.

A paciente em questão, já maior de idade, como outras congêneres, achou mais atraente um homem que não gosta de futebol, para logo compreender, desiludida, que esse lugar pode ser ocupado por qualquer outra paixão. Contudo também chamou sua atenção pelo fascínio feminino do qual fala Lacan, essa experimentada ao ver um homem concentrado e integralmente em uma ação, em um ato. Assim, pode ceder frente aos sentimentos e os sacrifícios ao quais um homem está disposto a passar pela camisa de seus amores. Ela forma parte do coletivo de mulheres que atualmente tem percebido que em uma casa pode haver duas televisões e que existem muitos programas alternativos, amizades e familiares para visitar aos domingos pela tarde. E um desses programas pode incluir acompanhar o amado para ver uma partida. Elas também chegaram à conclusão de que desconhecer o futebol é desconhecer uma parte importante da vida nacional e dos homens argentinos. Sabem que o coração pode ser um músculo muito elástico e que pode abrigar carinho por outra equipe, além do legado deixado por seu pai. Podemos compreender que a consolidação deste processo vai de mãos dadas com as mudanças que estão ocorrendo no exercício da função patena e da democratização das relações ente os gêneros em seu sentido mais amplo.

Débora Tajer é psicoanalista.
Artigo publicado por Página/12 em 10-07-2014.
Tradução: Cepat.
Reproduzido do IUH

SUS: quem usa gosta; imprensa e não usuários não gostam

 O SUS que não se vê… Na Tevê.

Em abril de 2011 saiu na revista RADIS da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) um interessante artigo, intitulado “ O SUS que não se vê.”O texto foi elaborado a partir de análise de resultados de pesquisa feita pelo IPEA, com usuários e não usuários do SUS, que demonstraram a maior insatisfação com o sistema pelos não usuários, ou melhor, que não se reconheceram como tal. Explique-se:  os indivíduos que se auto-intitularam como “não usuários”, desconheciam que muitas vezes utilizavam serviços que o SUS oferece, sem sabê-lo que são do SUS. Já, “A pesquisa do Ipea demonstrou que a avaliação positiva do SUS se dá por quem utiliza os serviços assistenciais”, “Vivemos no Brasil um dilema ético: as pessoas que trabalham e que opinam não são usuárias do sistema, ou melhor, não se reconhecem como tais”,. Em países onde há sistemas universais, como Canadá e Inglaterra há crises e debates, mas as pessoas que criticam são e fazem questão de ser usuárias de seus sistemas públicos. Os gastos e a gestão da assistência médica hospitalar, são o que  normalmente chamam a atenção dos médicos, da população e da mídia.

Poucos sabem que o Sistema Único de Saúde está presente nos três níveis de atenção: Federal (M.S), Estadual ( Secretarias Estaduais de Saúde) e Municipal (Secretarias Municipais de saúde), estas últimas a principal executora das ações de saúde. O SUS inclui: vigilância em saúde, (controle e erradicação de doenças, vigilância sanitária e epidemiológica e vigilância ambiental) além da vacinação universal, estratégia de saúde da família, farmácia popular, dispensa de medicamentos especiais e administração de hemocentros, Serviço de Atenção Municipal de Urgência (SAMU), Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e toda a rede Postos de Saúde espalhados pelos mais de 5 mil municípios brasileiros. Em consonância com os Serviços dos SUS existe o  Sistema Nacional de Laboratórios de Saúde Pública – SISLAB, um conjunto de redes nacionais de laboratórios, organizadas em sub-redes, por agravos ou programas, de forma hierarquizada por grau de complexidade das atividades  relacionadas à vigilância epidemiológica, vigilância ambiental em saúde, vigilância sanitária e assistência  médica. (art. 1º Port. 2.031, de 23/09/04)

Mas,  será que existe no país quem nunca tenha utilizado o SUS? O que os resultados da pesquisa indicaram, indiretamente, é que boa parte dos brasileiros desconhece que o SUS não se restringe ao atendimento prestado em hospitais e/ou em centros e/ou postos de saúde e que, o controle a eliminação ou a erradicação de doenças da população é de responsabilidade do SUS. Também desconhecem que por meio da atenção básica foi possível atingir coberturas vacinais e de pré-natal que se aproximam da universalidade. “A pesquisa do Ipea demonstrou que a  avaliação positiva do SUS se dá por quem utiliza os serviços assistenciais”,

Além do que não se vê, há o  SUS que se vê, mas não se “enxerga”. Ou seja, há reações surpreendentes quando se comenta  que a realização de transplantes somente é possível porque existe o SUS. Que não há custo algum para o paciente, qualquer que seja sua classe social? Imagine-se o caos ético que provocaria a necessidade de pagamento por transplante. No entanto, o custo existe para o Sistema,  mas o benefício é incomensurável.   Vale a pena esmiuçar-se alguns dados. A fonte é www.datasus.gov.br .

No ano de 2012 foram realizados  no Brasil, 13.754  transplantes ), a um custo de R$ 384.328.381,00,( custo médio de R$ 27.493,00 ) enquanto o gasto total com todos os procedimentos hospitalares, clínicos e cirúrgicos  ( 11.092.589 procedimentos)  foi de R$ 11.656.121.321,77 ( custo médio de R$ 1.050,80). A tabela a seguir especifica a alta complexidade desses procedimentos:

Total de transplantes, realizados no Brasil e respectivo custo em 2012

TIPO DE TRANSPLANTE Total Custo em R$
 TRANSPLANTE ALOGÊNICO DE CÉLULAS-TRONCO HEMATOPOÉTICAS 645 46.068.452,73
 TRANSPLANTE AUTOGÊNICO DE CÉLULAS-TRONCO HEMATOPOÉTICAS 1.024 27.060.765,39
 TRANSPLANTE DE CORNEA 4.402 8.921.293,87
 TRANSPLANTE DE ESCLERA 25 295.563,52
 TRANSPLANTE DE CORAÇÃO 178 7.552.448,83
 TRANSPLANTE DE FÍGADO (ÓRGÃO DE DOADOR VIVO) 76 96.901.703,51
 TRANSPLANTE DE PÂNCREAS 31 1.335.180,42
 TRANSPLANTE DE PULMÃO UNILATERAL 25 1.293.289,36
 TRANSPLANTE DE RIM 4640 139.588.651,09
 TRANSPLANTE SIMULTÂNEO DE PANCREAS E RIM 115 6.887.577,65
 TRANSPLANTE DE PULMÃO BILATERAL 30 2.116.598,85
Total transplantes 11191 338.021.525,22
 TRATAMENTO DE INTERCORRÊNCIAS PÓS TRANSPLANTE 24.102 46.306.856,09
TOTAL 35.293 384.328.381,31

 

Fonte: www.datasus.org

Aí está uma informação que dificilmente aparecerá na TV ou em outros veículos midiáticos. É notório que  imagens e informações divulgadas pela mídia sobre o SUS estão  comumente associadas “às mazelas e dificuldades do setor, quase sempre a partir de uma suposta ineficiência do Estado, incompetência das autoridades ou dos profissionais da área”.

Airton Fischmann é Médico, especialista e mestre em Saúde Pública pela USP, Ex consultor da Organização Panamericana de Saúde e Médico aposentado da Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul.

Reproduzido do blog Imagem Política