Encerrando o debate com Flávio Aguiar incluindo editorial do Charlie Hebdo sobre laicidade.

Flávio e eu estamos encerrando o debate com a publicação dos nossos comentários feitos no último post. (*)

E com o editorial (1178) do Charlie Hebdo de 14/01/2015 escrito por Gérard Biard onde ele afirma:

…”todos os que, nesta semana, proclamaram “Eu sou Charlie” devem saber que isso quer também dizer “Eu sou a laicidade”.(**)
Felizmente, a significância que atribuimos, ao longo do debate, à laicidade, nos atentados de Paris, confirmou-se pelo editorial.
 
Caro Telmo

O caso que mais me intriga nisto tudo é o de Amédy Coulibali. Ele gravou um macro-selfie, em vt, confessando sua filiação ao Estado Islâmico. Se ele foi financiado pela Qaïda, foi uma heresia. Um modo de afirmar a sua “individualidade”. Ele sabia que ia morrer, ao contrário da maioria de nós, que sabe que vai morrer… um dia. Não, ele tinha data marcada. Ainda não estava na agenda, mas era para o que ele estava se preparando. Digamos, um suicídio controlado, levando muita gente com ele, como de fato ele fez.

Dentre as teorias que citam a introjeção da inferioridade e a educação para ser um teocrata, fico com a hipótese – quase certeza – de que vivemos a “era dos selfies”, dos “individualismos exacerbados”. Assim como, segundo o Hobsbawm, já vivemos a “Era das Revoluções”, a “Era dos Extremos”, etc. Ele quis sair do anonimato. Conseguiu. Teve seus vários minutos de fama.

Hoje em dia o indivíduo, ou seu simulacro, se olha na tela, telinha ou telão, e vê o mundo à sua frente: sua imagem, para a efêmera eternidade. Isto acontece com o Amédy e também com o cidadão (?) que se olha embaçado no reflexo da tela e se põe a insultar (ao invés de criticar) o governante, o desafeto, a namorada, etc. É o suprassumo do isolamento.

Agora, alguém pôs as armas nas mãos do Amédy. Ele não as conseguiu sozinho. Alguém lhe deu dinheiro para tanto, outro alguém fez a entrega. Outro mais adiante entregou os documentos, e mais ainda um outro fêz vista grossa, ou seja, alguém e alguéns lucraram muito com isto. Dentro e fora do Estado laico. E vão ficar impunes.

Antigamente se dizia, para resolver um crime: “cherchez la famme”. Hoje, se pode dizer: “cherchez la grana”.

Já o caso dos irmãos Couachi é um pouco diferente. Órfãos, fizeram um pacto de morte. Só faltou (talvez, vá se saber) aquele ritual de cortar os pulsos e misturar os sangues, coisa hoje evitada pelo temor de doenças várias. Conseguiram: morreram como a dupla de pistoleiros ao final de “Butch Cassidy”, com o Redford e o Paul Newmann. Correndo e atirando sobre o exército contrário. Pelo menos esta é a versão oficial. Vá se saber quem imitou o filme, se a dupla ou a versão oficial. Ou ambos. Porque depois daquele atirar no policial inerme eles estavam condenados à morte. Extra-oficialmente. (E não estou justificando a covardia deles, quero deixar bem sublinhado).

O que quero sublinhar é que o Estado laico às vêzes não é tão laico assim. É laico na letra da lei, e assim deve ser de fato, mas como o Estado é a ponta (grossa, muito grossa) do iceberg que de fato governa o mundo, há gente na parte visível do iceberg e outros na parte invisível que às vezes se acha e se dá os poderes de Deus. Ou do Diabo, não sei muito bem. Mas tanto faz.

 

Comentário de 22 de janeiro de 2015

Este comentário do Flávio confirma como esta questão é complexa, multicausal e multifacetada.

Pode-se abordar sob os mais diversos ângulos e só o futuro poderá nos dizer como eles se relacionam.

E cada um ainda pode escolher comentar o que lhe parece mais importante e sobre o que mais entende da questão.

Como médico psiquiatra com interesse pelas discriminações e laicidade, acabo escrevendo com esse foco.

Consigo organizar os episódios de Paris como uma crise.

Com antecedentes, personagens em várias posições, instituições participantes, etc. e consequências.

E usando o conhecimento de algumas pesquisas que envolvem laicidade, discriminação, violência, indicadores de saúde, etc..

Os assassinatos como os de Paris ocorrem, rotineiramente, em países muçulmanos entre as diversas correntes religiosas.

E nos enfrentamentos de grupos e/ou países muçulmanos com seus vizinhos.

Sabe-se, por pesquisas, que países mais religiosos são mais discriminadores.

E a discriminação religiosa é uma das mais importantes.

Esta é a discriminação em relação a outras religiões, aos que não tem crença e aos estados laicos.

Os chargistas seriam ateus e defendiam o estado laico com charges antiteístas.

Satirizando as tres religiões monoteístas.

Algum dia ainda saberemos melhor o porque do tipo de reação de cada grupo religioso.

E aproveitando o “cherchez la grana” do Flávio.

O que esperar de um grupo que numa teocracia tem, ao mesmo tempo, a grana, o controle do poder politico e da religião?

Que tolerem a contestação de seus dogmas religiosos, que saibam conviver com a laicidade, com outras crenças ou com os sem crença religiosa?

Exemplo: no Egito há 866 ateus ( maior número no oriente médio) e um deles foi condenado à prisão por 3 anos.

Por ser ateu.

 

 

 

(**) Editorial por Gérard Biard

Tradução de Alexandre Andrade (para Portugal).
Será que ainda haverá muitos «sim, mas»?
Na semana que agora termina, o Charlie, jornal ateu, realizou mais milagres do que todos os santos e profetas reunidos. Aquele que nos faz sentir mais orgulhosos é o facto de o leitor ter entre as mãos o jornal que sempre fizemos, na companhia daqueles que sempre o fizeram. O que mais nos fez rir foi os sinos da Notre-Dame terem tocado em nossa homenagem… Na semana que agora termina, o Charlie ergueu por esse mundo fora muito mais do que montanhas. Na semana que agora termina, como o desenhou magnificamente Willem, o Charlie fez muitos amigos novos. Anónimos e celebridades planetárias, humildes e abastados, incréus e dignitários religiosos, sinceros e jesuítas, aqueles que ficarão connosco para toda a vida e aqueles que estão só de passagem. Hoje, nós aceitamos todos, não temos tempo nem coragem para escolher. Mas não somos ingénuos. Agradecemos do fundo do coração àqueles milhões, simples cidadãos ou representantes de instituições, que estão verdadeiramente ao nosso lado, que, sincera e profundamente, «são Charlie» e que se reconhecerão. E estamo-nos nas tintas para os outros, que de qualquer modo não se importam…
Há uma questão que, ainda assim, nos atormenta: será que vai finalmente desaparecer do vocabulário político e intelectual o detestável qualificativo «laicistóide integrista»? Será que se vai deixar enfim de inventar sábias circunvoluções semânticas para classificar de forma equivalente os assassinos e as suas vítimas?
Nestes últimos anos, temo-nos sentido um pouco sós na tentativa de rejeitar à força do lápis as sabujices explícitas e as bizantinices pseudo-intelectuais que arremessavam à nossa cara e à dos nossos amigos que defendiam convictamente a laicidade: islamófobos, cristianófobos, provocadores, irresponsáveis, lançadores de achas para a fogueira, racistas, estavam-a-pedi-las… Sim, nós condenamos o terrorismo, mas. Sim, ameaçar de morte os desenhadores não está certo, mas. Sim, incendiar um jornal está errado, mas. Nós ouvimos de tudo, e os nossos amigos também. muitas vezes rir do assunto, porque é o que sabemos fazer melhor. Mas gostaríamos muito, agora, de rir de outra coisa. Porque isto está a recomeçar. Numa altura em que o sangue de Cabu, Charb, Honoré, Tignous, Wolinski, Elsa Cayat, Bernard Maris, Mustapha Ourrad, Michel Renaud, Franck Brinsolaro, Frédéric Boisseau, Ahmed Merabet, Clarissa Jean-Philippe, Philippe Braham, Yohan Cohen, Yoav Hattab e François-Michel Saada não tinha ainda secado e Thierry Meyssan explicava aos seus fãs no Facebook que se tratava, evidentemente, de uma conspiração judaico-americano-ocidental. Já se viam, aqui e ali, nalgumas bocas mais delicadas, caretas de cepticismo a propósito da manifestação do domingo passado, assim como, em surdina, os eternos argumentos que visam justificar, aberta ou implicitamente, o terrorismo e o fascismo religioso, e ainda a indignação por, entre outras coisas, termos homenageado agentes da polícia = SS. Não, neste massacre não há mortes mais injustas do que outras. Franck, morto nas instalações do Charlie , e todos os seus colegas abatidos durante esta semana de barbárie, morreram em defesa de idéias que talvez nem sequer fossem as suas.
Vamos mesmo assim tentar ser optimistas, embora os tempos não estejam para isso. Vamos esperar que, a partir deste 7 de Janeiro de 2015, a defesa convicta da laicidade passe a ser um dado adquirido para todos e que se deixe de, por postura, por cálculo eleitoralista ou por cobardia, legitimar ou mesmo tolerar o comunitarismo e o relativismo cultural, que abrem a porta a uma e uma só coisa: o totalitarismo religioso. Sim, o conflito israelo-palestiniano é uma realidade, sim, a geopolítica internacional é uma sucessão de manobras e golpes baixos, sim, a situação social das, como se costuma dizer, «populações de origem muçulmana» em França é profundamente injusta, sim, o racismo e as discriminações devem ser combatidas sem descanso. Existem felizmente diversas ferramentas para tentar resolver estes problemas graves, mas elas são todas ineficazes se faltar uma delas: a laicidade. Não a laicidade positiva, não a laicidade inclusiva, não a laicidade-sei- lá-o-quê, a laicidade ponto final. Só ela permite, uma vez que preconiza o universalismo dos direitos, o exercício da igualdade, da liberdade, da fraternidade, da sonoridade. Só ela permite a plena liberdade de consciência, liberdade essa que é negada, de forma mais ou menos aberta em função do seu posicionamento de “marketing”, por todas as religiões a partir do momento em que abandonam o terreno da intimidade estrita para descer ao terreno da política. Só ela permite crentes e aos demais, ironicamente, viver em paz. Todos aqueles que afirmam defender os muçulmanos ao aceitar o discurso totalitário religioso estão na realidade a defender os seus carrascos. As primeiras vítimas do fascismo islâmico são os muçulmanos.
Os milhões de anónimos, todas as instituições, todos os chefes de Estado e de governo, todas as personalidades políticas, intelectuais e mediáticas, todos os dignitários religiosos que, nesta semana, proclamaram «Eu sou Charlie» devem saber que isso quer também dizer «Eu sou a laicidade». Estamos convencidos de que, para a maioria daqueles que nos apoiam, isso é óbvio. Deixamos os outros desenrascarem-se.
Uma última coisa, mas importante. Queríamos enviar uma mensagem ao papa Francisco que, também ele, «é Charlie» esta semana: só aceitamos que os sinos da Notre-Dame toquem em nossa homenagem se forem as Femen a fazê-los soar.

 

Textos correlatos publicados aqui no blog:
http://saudepublicada.sul21.com.br/2015/01/19/continuando-o-debate-com-flavio-aguiar-sobre-charlie-hebdo-tabu-e-laicidade/

http://saudepublicada.sul21.com.br/2015/01/16/debatendo-charlie-hebdo-tabu-e-laicidade-com-flavio-aguiar/

http://saudepublicada.sul21.com.br/2015/01/12/freud-tabu-laicidade-e-charlie-hebdo/

 

Fonte do editorial: Associação República e Laicidade

http://www.laicidade.org/
Telmo Kiguel
Médico psiquiatra
Psicoterapeuta
 

Continuando o debate com Flavio Aguiar sobre Charlie Hebdo, tabu e laicidade.

Estamos nos “provocando” como os que pretendem atacar a laicidade ou como os chargistas franceses?
Espero que a nossa posição seja a dos que acreditam que uma crise possa gerar um bom e novo debate.
O da defesa dos estados laicos.
 
Vejam o comentário do Flávio Aguiar no nosso último post:
Há muitas diferenças entre o debate da laicidade na Europa e a inexistência do mesmo no Brasil
Certamente este é um tema de política suprapartidária.
Mesmo sabendo que os acontecimentos possam ocorrer no espaço público/político.
Seria interessante termos líderes e partidos políticos interessados no debate público da questão.
Não temos, infelizmente, estas personalidades públicas.
Em nenhum dos poderes republicanos, sejam os de direito e os de fato.
E para confirmar isto, a Zero Hora, representante de um poder de fato, entrevistou há poucos dias um ex-ministro da Educação.
Da França.
Para falar de laicidade… na França.
Vejamos alguns pensamentos de Luc Ferry sobre os últimos acontecimentos em seu país: 
 
“é o país da laicidade por excelência, nenhum país do mundo tendo sido mais militante que o nosso em relação à separação da religião e do Estado”.
…”devemos ter o direito de criticar as religiões, todas as religiões, mas também todos os filósofos”.
“Tem-se o direito de criticar as religiões, como todas as outras visões do mundo, o liberalismo, o comunismo, não? Ou então é o fim de toda liberdade!”
“Nunca gostei particularmente de Charlie, mas, por tomar uma frase que se atribuiu a Voltaire (equivocadamente, mas pouco importa), eu faria tudo por lhes permitir que continuem a publicar, e inclusive contra mim”.
“O Islã é o problema?”
“Não. É o islamismo fanático, o Estado Islâmico, a Al-Qaeda. Não se deve confundir muçulmano e islamista, religião e fundamentalismo fanático, e um dos desafios de hoje é justamente evitar o amálgama. Dito isso, o islamismo fanático se parece muito com o nazismo, ao menos em pontos fundamentais”.
 
O leitor tem o direito de argumentar, com toda razão, que o entrevistado tem preferência político partidária.
Portanto o debate ideal sobre o tema teria representantes de todos os ângulos da questão.
Inclusive os que são contra o estado laico e a favor das teocracias.
Algo que me intriga em toda esta questão da xenofobia em relação aos muçulmanos na França e em toda Europa.
Já vi algumas pesquisas sobre estas populações de imigrantes muçulmanos.
Alguém sabe de alguma que investigou suas posições em relação às teocracias e ao estado laico francês?
Muçulmanos na França mais apoiaram ou criticaram os episódios de 7 de janeiro?
 
Flávio: quanto aos “caras pálidas” suiços e a proibição da construção de novos minaretes.
Houve um plebiscito que foi antecedido por muitos debates públicos sobre laicidade.
Logo após ocorreram previsões (desejos de alguns?) de possíveis retaliações por parte de muçulmanos.
E nada ocorreu por lá.
Penso que o debate aberto, democrático sobre a laicidade ainda é o melhor caminho para paz.
Sabemos que o voto da maioria.. agrada a maioria. 
Resta às minorias civilizadas, democráticas, progressistas aceitar os resultados das votações.
 
Quanto a hipótese dos terroristas internalizarem uma identidade de “inferiores” e isso determinar sua ação criminosa.
É uma hipótese arriscada pois um grande número (talvez o maior?) de atos terroristas, atualmente, ocorre entre muçulmanos.
Uma outra seria que, tendo sido educados para serem teocratas, a imigração não os transformaria em democratas laicos.
Ou conheces mais alguma?
Telmo Kiguel
Médico psiquiatra
Psicoterapeuta

Debatendo Charlie Hebdo, tabu e laicidade com Flávio Aguiar

Há pouco espaço para aumentar as liberdades laicas aqui em nosso país e na Europa.
Somente com o diálogo e governantes interessados poderíamos progredir na questão.
De qualquer maneira sabe-se que lá já houve muito mais avanços do que aqui.

Escrevi no post anterior sobre o tema:
Muito foi e ainda será escrito sobre os assassinatos de Paris.
E quem escreve se depara com uma questão complexa, multifacetada, multicausal.
E com inúmeras consequências possíveis e imprevisíveis.
Seria bom que uma das consequências fosse o aumento dos debates sobre a laicidade.
Como pretendo continuar agora com o amigo, colunista e escritor Flávio Aguiar.
Em função de um comentário que fiz sobre o tema no seu post:
O terrorismo, a extrema-direita e o suicídio europeu, um continente em explosão
Ele utilizou meu questionamento para escrever:
O Charlie Hebdo, o Islã, os preconceitos discriminatórios e o Estado laico
De início ao fim ele escreve, também, como um bom psiquiatra.
A verdade é que nascemos imaturos a nossa educação vai ou não nos ajudar a amadurecer.
E faz parte do amadurecimento a aceitação do outro, do diferente.
E este processo nem sempre ocorre de forma homogênea.
E é nessas “ilhas” imaturas que conservamos os preconceitos.
E quando não lidamos bem com isto podemos nos deparar com uma Conduta Discriminatória.
Neste trecho do texto, parece que o discriminador e o inimigo do estado laico tem as mesmas características.
E está é uma ideia que defendo há um bom tempo.
Conheço uma pesquisa feita na Alemanha que serviu como reforço desta hipótese.
E talvez o Flávio pudesse entrevistar os autores da mesma.
Sabemos que o proselitismo é uma das características das religiões monoteístas.
Penso que a ostentação pública de seus símbolos religiosos é uma questão delicada.
Mas passa do limite se a motivação é hostilizar o estado laico ou a implantação de uma teocracia.
Como a Suíça interpretou e proibiu a construção de minaretes em 2009.
Mesmo liberando a construção de mesquitas e prática religiosa nas mesmas. É como se os minaretes invadissem o espaço laico.

Ao que parece, na Europa, dentre os monoteístas, os muçulmanos é que tem o estereótipo de teocratas.
E isto acaba sendo reforçado no texto abaixo:
Eu não sou Charlie. Sou Maomé. É impossível ser os dois
Por que não quebrar o tabu e colocar a laicidade como uma terceira opção tão importante quanto?
Talvez lá, como aqui, a questão não seja esclarecida/debatida de forma aberta e transparente.
Quando muito discute-se sobre os símbolos religiosos em repartições públicas ou os que as pessoas fazem questão de ostentar.
Se o debate do tema não fosse tabu poderíamos descobrir quando os símbolos são apenas símbolos.
Ou se seriam um tentativa de ataque/desafio/provocação à laicidade do país.
Israel: felizmente há muita oposição dentro e fora do país para evitar mais um estado teocrático no Oriente Médio.

Telmo Kiguel
Médico psiquiatra
Psicoterapeuta

Freud, tabu, laicidade e Charlie Hebdo

Um novo tabu: como defender o Estado Laico.

Muito foi e ainda será escrito sobre os assassinatos de Paris.

E quem escreve se depara com uma questão complexa, multifacetada, multicausal.

E com inúmeras consequências possíveis e imprevisíveis.

Freud fez algumas afirmações que devem ser lembradas no momento:

Uma das características/objetivos das religiões é normatizar a conduta humana.

A liberdade religiosa, na intimidade e nos templos apropriados, deve ser defendida.

Todo indivíduo é virtualmente inimigo da civilização.

O homem é o lobo do homem.

Aqui no blog debatemos sobre o que foi ou não publicado.

Já nos referimos a pesquisas sobre indicadores de saúde, discriminação, violência, etc. em Estados Laicos (EL).

Este o foco do texto de hoje.

As abordagens, até agora, evitaram a questão de como deve/pode ser feita a defesa da laicidade pelos que a ameaçam.

Tangenciavam a questão se referindo a eles como radicais/fanáticos religiosos.

E o que interessa é se sua ação religiosa pública/política é a favor ou contra o EL.

Vi entrevistas com líderes religiosos islâmicos na França.

Que diziam o óbvio: eram contra assassinatos por atos terroristas.

Jornalistas não perguntaram sobre suas posições em relação ao EL.

Seja em relação a França ou a estados teocráticos árabes.

Os motivos para um líder religioso não tocar no assunto é fácil de imaginar.

Mas e os dos jornalistas de não tocar no assunto como se fosse tabu?

A impressão é que, para alguns religiosos, fanáticos radicais são sempre os outros.

Por acaso os que são contra as liberdades laicas ou a favor da implantação das teocracias agem abertamente?

O desprezo/discriminação pelo EL nunca é frontal/transparente/explícito.

Os inimigos da laicidade se mantém tão invisíveis, dissimulados e indefinidos como os discriminadores.

O que pode determinar que a defesa do mesmo seja, também, de uma forma indireta, sutil, irônica, satírica.

Como as charges da Charlie Hebdo.

Ou como a proibição da construção dos minaretes na Suiça, em 2009.

Ou como disse José G. Temporão, ministro da Saúde, que o planejamento familiar é questão de Saúde Pública e não
religiosa (2007).

A impressão é que os inimigos do EL não aceitam oposição às suas ações.

Nem admitem que estão atacando, desprezando, discriminando, afrontando a Constituição do país.

E no caso, os chargistas não tinham o direito de escolher sua forma de defender a Constituição Francesa?

Telmo Kiguel
Médico Psiquiatra
Psicoterapeuta

Médicos com problemas: jornalistas “criam” e “curam” câncer de Lula

Conceição Lemes destroi câncer de Lula: “Mentira e desrespeito”, diz assessor

Por Conceição Lemes*

Nesse domingo, 4 de janeiro de 2015,  o jornalista Leandro Mazzini publicou em sua Coluna Esplanada, no UOLLula fez tratamento sigiloso e controlou novo câncer.

Na reportagem, ele diz que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva:

“combateu de um ano para cá um novo câncer e o controlou”;

“foi acometido de um câncer no pâncreas, que teria sido descoberto no início de 2014”;

“passou a visitar esporadicamente o Hospital Sírio Libanês em São Paulo durante a madrugada, entrando de carro pela garagem privativa do corpo clínico para evitar boataria. E tomou um forte medicamento para evitar a quimioterapia”.

“estaria tomando diariamente um medicamento importado dos Estados Unidos, que custa cerca de R$ 30 mil por mês (ainda não comercializado no Brasil). Seria sob o princípio do Bevacizumab, com uma versão mais recente e potente do popular Avastin, que ameniza o quadro clínico e a dor, e evita a quimioterapia”.

“Isso é mentira e um desrespeito com o ex-presidente”, rebate, indignado, José Chrispiniano, assessor de imprensa do Instituto Lula, em conversa com o Viomundo.

“Lula sempre tratou dos seus problemas de saúde com total transparência”, reforça. “Quando ele teve diagnosticado o câncer na laringe, a imprensa soube no mesmo dia. O próprio ex-presidente fez questão de que tudo fosse divulgado.”

O diagnóstico foi tornado público em 29 de outubro de 2011. Durante cinco meses, Lula submeteu-se a quimioterapia e radioterapia. Em 28 de março de 2012, os exames revelaram que o tumor havia desaparecido por completo.

Desde então, como todo paciente que teve câncer, Lula faz avaliações oncológicas de rotina no Hospital Sírio-Libanês, onde ele se tratou.

A última foi em 15 de novembro de 2014. Portanto, há 50 dias. Na ocasião, o Sírio-Libanês divulgou uma nota. E republicou-a no último domingo, 4 de janeiro de 2015, quando a reportagem de Mazzini foi veiculada.

lula-sírio

Diante dessa nota que informa que não se detectou nada de errado com a saúde de Lula, eu pergunto:

1) Por que, apesar de há mais de um mês a assessoria de imprensa do Instituto Lula ter negado veementemente o novo câncer e de a nota do Sírio-Libanês dizer que estava tudo normal com Lula, Mazzini publicou a matéria? Lembrem-se de que ele disse que o “tumor de pâncreas teria sido descoberto no início de 2014”.

2) Ao observar que o “tumor de pâncreas teria sido descoberto no início de 2014” e que a nova doença não consta da nota do Sírio-Libanês, o jornalista deixa subentendido que a equipe médica que cuida do ex-presidente e a assessoria de imprensa do Instituto Lula estão mentindo. Não caberia aí um processo?

3) Por que as supostas “fontes” do jornalista (“um médico do Sírio, que não compõe a equipe que cuida de Lula; um diretor do PT; um assessor especial do Palácio do Planalto; e um parlamentar amigo de Lula”) “escolheram” justamente um dos tipos de câncer mais agressivos e letais? De antemão, aviso: no PT, não há a figura do diretor.

4) Quem merece mais crédito: os oito médicos envolvidos na avaliação oncológica de Lula, cujos nomes aparecem na nota do Sírio-Libanês, ou um suposto médico anônimo, que prefere não se identificar? Lembro ao doutor hipotético que ele, de cara, está infringindo o Código de Ética Médica.

5) Que mão ou mãos estão por trás dessa falsa, cruel e malévola notícia?

NÃO HÁ TRATAMENTO QUE EVITE A QUIMIOTERAPIA NO CÂNCER PANCREÁTICO

Do ponto de vista de informação médica, a reportagem de Mazzini tem imprecisões e erros. Ela desmorona, não fica em pé, se for lida com atenção por alguém que lida com a área de saúde.

Primeiro: a matéria não diz se o tumor de pâncreas é uma metástase do câncer na laringe ou se ele é originário do próprio pâncreas.

O câncer de laringe pode dar metástase localmente, mais precisamente nos gânglios cervicais. Mas suas células malignas podem se disseminar à distância para fígado, ossos, sistema nervoso central e, principalmente, pulmão.

Assim, considerando-se que tumor de laringe habitualmente não dá metástase em pâncreas, supõe-se que Mazzini quis dizer que o novo câncer seria um tumor primário do pâncreas.

Segundo: ao contrário do que diz Mazzini, não existe tratamento – nem aqui nem no exterior — para evitar a quimioterapia e a radioterapia no câncer do pâncreas.

Terceiro: tampouco é um tumor “bonzinho”, que pode ser tratado facilmente com uma “aspirina”, como faz parecer nas entrelinhas, permitindo que Lula exercesse normalmente as suas funções não apenas durante todo o ano de 2014 como em 2013.

pâncreas, como todos sabem, é uma glândula localizada na parte superior do abdômen, atrás do estômago, colada ao duodeno. A sua principal função é a produção de insulina, hormônio responsável pela manutenção dos níveis adequados de glicose ( “açúcar”) no sangue. Mas ele também produz a enzima pancreática, fundamental no processo digestivo. É dividido em três partes: cabeça, corpo e cauda.

Pâncreas

Segundo o Instituto Nacional do Câncer  (Inca),  no Rio de Janeiro, 90% dos casos diagnosticados são do tipo adenocarcinoma, ou seja, se originam no tecido glandular do pâncreas. A maioria afeta a cabeça do órgão.

Os sintomas mais perceptíveis da doença são perda de apetite e de peso, fraqueza, diarreia e tontura.

Os tumores de cabeça do pâncreas provocam icterícia: pele e olhos ficam amarelados devido à obstrução do canal pancreático.

Há casos em que a doença se “esconde” na forma de dor na região das costas, e o paciente é tratado como tivesse um problema muscular ou de coluna. Outro sinal de alerta é o aumento do nível de glicose (açúcar) no sangue.

Pelo fato de os seus sinais (aquilo que o médico vê) e sintomas (aquilo que você sente) se confundirem com os de outras doenças, o câncer de pâncreas é de difícil detecção na fase inicial. Em consequência, seu diagnóstico tende a ser tardio.

O câncer de pâncreas é considerado um dos mais letais e destrutivos. O seu comportamento agressivo e a baixa eficácia das terapias atuais fazem com que seja muito alta a sua taxa de mortalidade.

Normalmente, os seus portadores morrem entre o primeiro e o segundo ano devido a recidivas e metástases (disseminação de células malignas do pâncreas para outros órgãos) no fígado ou no peritônio.

A sobrevida após 5 anos é inferior a 5% (Hospital de Câncer de Barretos). Ou entre 5% a 20% (Inca). E depende do tipo de tumor do pâncreas. Por exemplo, se ele é responsivo ao tratamento.

BEVACIZUMABE E VERSÕES MAIS NOVAS NÃO AUMENTAM SOBREVIDA 

“Quando o tumor de pâncreas está no início, o tratamento é cirúrgico”, explica a médica oncologista Solange Moraes Sanches, do Hospital A. C. Camargo, em São Paulo. “São cirurgias grandes, que exigem prolongada recuperação.”

“Nos casos avançados, o tratamento baseia-se em quimioterapia e a radioterapia também pode ser necessária”, afirma a oncologista. “São esquemas pesados, que produzem muitos efeitos colaterais.”

Ainda não há uma droga específica para o câncer de pâncreas. Usam-se quimioterápicos utilizados para combater outros tumores.

Há três opções aceitáveis.

1. Apenas o quimioterápico gencitabina.

2. A combinação de gencitabina com oxaliplatina ou outra platina.

3. Ou, então, o esquema conhecido como folfironox. Consiste na associação das drogas fluorouracil, oxaliplatina e irinotecano.

A opção por um ou outro esquema, depende de cada caso.

“Consequentemente, uma pessoa submetida a um tratamento para neoplasia de pâncreas necessita de certos cuidados que impediriam uma jornada exaustiva de trabalho”, enfatiza a doutora Solange Sanches.

Ou seja, se o ex-presidente tivesse feito um desses tratamentos, ele não teria condições de participar da campanha eleitoral de 2014 como participou. Pelo que todos nós vimos na televisão, ele estava bem disposto, com bom peso, com cabelo.

– E no primeiro semestre quem garante que ele não se tratou do suposto câncer de pâncreas? – alguém deve estar achando que nos pegou na curva.

Quer melhor prova de que tudo estava bem com Lula do que a coletiva que ele concedeu aos blogueiros, em 8 de abril de 2014? Confiram aqui como ex-presidente estava todo lépido e faceiro.

Ex-PR-LULA-encontro-com-blogueiros-TROCA-CAPA

Depois, em 16 de maio de 2014, Lula participou do IV Encontro Nacional de  Blogueiros e Ativistas Digitais, em São Paulo. Querem mais? Acessem o site do Instituto Lula para acompanhar a maratona do ex-presidente.

– E o bevacizumabe, mencionado pelo jornalista?

O bevacizumabe é o princípio ativo do Avastin, medicamento fabricado pela Roche. Não se trata de um quimioterápico clássico, mas de um anticorpo monoclonal. Ele reduz a chegada de sangue ao tumor, fazendo com que diminua a proliferação de suas células por falta de nutrição.

Segundo a sua bula, é indicado no tratamento de câncer colorretal, pulmão, mama, rim, ovário, tuba uterina e peritônio.

O bevacizumabe é comercializado no Brasil. Habitualmente, é utilizado em doses 5mg/kg a cada duas semanas. Normalmente sua aplicação é hospitalar por se tratar de medicação que é injetada na veia junto com soro.

“Só que o bevacizumabe não é usado sozinho, mas sempre associado à quimioterapia”, cientifica o oncologista Munir Murad, coordenador do Programa de Residência Médica em Cancerologia Clínica do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Em 2009, o prestigiado Journal of Clinical Oncology publicou um estudo realizado com 607 pacientes portadores de câncer metastático, onde o bevacizumabe foi usado em combinação com os quimioterápicos gencitabina e erlotinibe.

Eles foram divididos em dois grupos: 301 tomaram os quimioterápicos mais placebo (remédio com aparência do verdadeiro, mas que não tem qualquer ação terapêutica);  e 306 usaram quimioterápicos mais bevacizumabe.

A associação de medicamentos não mudou a sobrevida dos pacientes. O grupo que tomou bevacizumabe teve uma sobrevida média de 7,1 meses. E o grupo que usou placebo teve sobrevida média de seis meses.

Portanto, é mais um equívoco da matéria de Mazzini, já que o bevacizumabe não é usado da maneira que a matéria indica.

O jornalista se refere ao medicamento “milagroso” de Lula desta forma: “Seria sob o princípio do Bevacizumab, com uma versão mais recente e potente do popular Avastin, que ameniza o quadro clínico e a dor, e evita a quimioterapia”.

Só que o bevacizumabe é o próprio Avastin. Talvez as drogas que se enquadrariam nesse perfil  impreciso descrito por ele sejam as versões mais novas do bevacizumabe: o axitinibe ou o aflibercept, que já foram testadas para câncer de pâncreas avançado.

“Só que elas não são consideradas tratamento padrão para o adenocarcinoma de pâncreas nem evitam a quimioterapia”, atenta Murad. “Além disso, os estudos publicados até agora mostram resultados negativos.”

A adição do axitinibe ou do aflibercept à gencitabina não melhorou a sobrevida dos pacientes com câncer avançado de pâncreas em comparação com aqueles que só receberam o quimioterápico mais placebo. Ou seja, a estratégia de acrescentar uma dessas medicações se revelou ineficaz até agora.

“Por que então alguém que, como o ex-presidente Lula, pode ter acesso aos melhores tratamentos abriria mão do tratamento padrão para câncer de pâncreas por um que não funcionou em ensaios clínicos criteriosos?” questiona o oncologista Munir Murad. “A versão contada pelo jornalista não fecha, não tem sentido.”

Eunice G. acompanhou o caso do seu pai, que sobreviveu sete anos depois do diagnóstico de adenocarcinoma na cabeça do pâncreas com uma peculiaridade raríssima: o tumor não se disseminou para outros órgãos, ficou restrito ao pâncreas.  Ou seja, um caso extraordinário não apenas no Brasil mas no mundo.

“Foram vários ciclos de quimioterapia durante um ano e meio na fase inicial do tratamento, mais 28 aplicações de radioterapia, seguido de cirurgia, sem contar o restritíssimo regime alimentar, que é uma loucura”, nos conta Eunice.

“Na metade do caminho, foram mais sessões de quimioterapia e mais cirurgia. Houve a retirada total do pâncreas e meu pai ficou diabético, dificultando ainda mais a sobrevida”, prossegue.

“A cada tratamento, ele ficava um bagaço. Quem conhece pessoas que tiveram câncer no pâncreas sabe que o tratamento é uma paulada. A maioria não aguenta sequer completá-lo. Logo, Lula não estaria inteiraço durante 2014, como o Brasil inteiro pode ver que ele estava.”

Seria desinformação?  Ou pura e simplesmente má-fé?

Uma coisa é certa. Não se deseja câncer para o pior inimigo. Muito menos o de pâncreas, cujo diagnóstico representa praticamente uma sentença de morte. As supostas fontes do jornalista sabiam disso. Não à toa “escolheram” a dedo o novo tumor.

O objetivo é político: deixar a dúvida no ar, visando minar Lula com vistas às eleições presidenciais de 2018.

O que as supostas fontes talvez desconheçam é que, pelo menos segundo os hindus, o que desejamos de mal para outros, volta para a gente. É a lei do retorno. Aliás, qualquer um de nós pode ter um câncer.

“O que foi feito com ex-presidente Lula nessa matéria é cruel e desumano. Uma canalhice sem tamanho”, arremata Eunice G. “Os responsáveis por isso deveriam ser presos ou tratados apenas com bevacizumabe. Talvez para eles isso desse certo. Um verdadeiro ‘milagre’.”

*Conceição Lemes é a mais premiada repórter de Saúde do Brasil.

PS do Viomundo: Já imaginaram se a “reportagem” tivesse sido publicada no Reino Unido? O que aconteceria com o repórter e com o UOL? Quer saber? Clique aqui.

Uma possibilidade de progresso para enfrentar os racistas

Ação de médicos contra Ministério da Saúde solicita definição de “ações racistas”.

O Ministério da Saúde, em 25/11, lançou uma campanha contra o racismo no SUS com o slogan “Racismo faz mal à saúde”. Ver abaixo:

Campanha mobiliza a população contra o racismo no SUS

O Conselho Federal de Medicina, em 27/11, contestou a campanha e repudiou o “tom racista” do MS como pode ser visto abaixo:

CFM repudia campanha do governo sobre preconceito no SUS

A Associação Piauiense de Medicina (Aspimed), em dia 17/12, entrou com uma ação na Justiça Federal contra o Ministério da Saúde por prevaricação, desqualificação do trabalho médico e solicitando a interrupção de veiculação de todo o material publicitário da campanha. Ver abaixo:

Aspimed entra com ação na Justiça contra o Ministério da Saúde.

Eis o que diz um dos trechos da ação: “o vídeo coloca em risco a segurança de profissionais da saúde em seus postos, podendo gerar tumulto, uma vez que não deixa claro que tipo de ações possam ser consideradas racistas“.

Esperamos que esta ação progrida e, finalmente, possamos encontrar uma definição para a Conduta Discriminatória ou “ações racistas”.

Sem esta definição, como foi solicitado na petição, não conseguiremos prevenir o racismo.

Se este objetivo for atingido neste processo, estaríamos encaminhando, também, uma definição do racista.

Prevenção em Medicina, sabemos, se consegue ao definir o agente causador do sofrimento humano. E como é sua ação.

Infelizmente nenhum grupo discriminado luta pela prevenção da discriminação da qual é vítima.

Até hoje, em nosso país, não conhecemos uma proposta que encaminhe a questão desta forma.

Portanto o nosso desejo é que a ação chegue a termo e leve a esta definição.

E que não haja acordo para continuar mantendo o racista invisível antes que atue de forma criminosa.

O racista já é racista antes de ser criminalizado.

Todos conhecem pessoas que agem como discriminadores e que não foram criminalizados.

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Eis um discriminador racista e antissemita. Reconhecendo é possível prevenir.                                                                                           Racista, doente mental, condenada e inimputável

Telmo Kiguel
Médico psiquiatra
Psicoterapeuta

Médica diz: o Conselho Federal de Medicina não me representa.

 

Qual é a parte do racismo na saúde que o CFM não enxerga?

A saúde da população negra é um campo construído com subsídios da medicina baseada em evidências, de bases científicas irrefutáveis. Negá-la é ignorância científica!

Sou uma das sistematizadoras de tais saberes construídos fora da universidade, a muitas mãos, com o empenho de professores como Marco Antônio Zago, atual reitor da USP, e Elza Berquó, demógrafa da Unicamp e do Cebrap, como consta em meu livro “Saúde da População Negra no Brasil 2001” (Opas, www.twixar.me/Xm4).

A quase totalidade dos médicos brasileiros desconhece a saúde da população negra porque as faculdades de medicina não lhes ensinam (e por que não ensinam?). Num país racista, a categoria médica e as faculdades de medicina não são ilhas sem racismo.

É cruel esperar que a saúde esteja 100% em excelência de funcionamento para que profissionais da saúde se apropriem de tais saberes e das repercussões do racismo na saúde, como propugna o Conselho Federal de Medicina (CFM) em “Nota à Sociedade”, só porque o Código de Ética Médica diz que médico não pode discriminar. Hein… Hein…

Sou médica negra, formada na Universidade Federal do Maranhão em 1978. Pertenço a uma geração médica que tem no CFM a sua grande referência para fazer medicina. Pelo apreço ao CFM, no entrevero gerado pelo programa Mais Médicos, ao perceber que o conselho estava perdendo o eixo, conversei por telefone com o presidente Roberto D’Ávila, avaliando aquele momento político.

Sugeri que eram emergenciais para o CFM duas consultorias: uma de imagem e outra de mídia para se posicionar adequadamente no debate em curso. Ninguém em sã consciência é contra acesso real à atenção médica, e o CFM não conseguia dizer que não era contra o povo ter médico, mas contra a admissão de médicos estrangeiros à margem da lei!

Em comum com o CFM, defendo o Revalida, controle básico de qualidade científica, norma do governo. Reafirmo que o CFM quase nada fez contra a precarização do trabalho médico que o Estado brasileiro continua abençoando. Defendo uma carreira de Estado para médicos do SUS. Era preciso mais médicos? Era, e o Brasil não os possuía! Mas é imoral que o governo não dê solução à precarização do trabalho médico, como eu disse em “Os bastidores, a charlatanice e o escárnio da importação de médicos” (Portal do CFM, 14.6.2014, www.twixar.me/hm4).

O CFM caiu numa teia de confronto desnecessário com o governo e se perdeu, deixando de saldo o desabrochar de posturas conservadoras e até fascistas no meio médico, sobre as quais o governo também tem responsabilidades, pois criou uma peleja equivocada e abriu a caixa de Pandora, soltando os espíritos maus que se aninharam nas mentes que odeiam o PT. O governo tem poder, bastava tê-lo usado para trazer os médicos de que necessitava, sem rodeios e sem satanização da categoria médica nacional.

Mas o que está ruim sempre pode piorar, e o CFM, mais uma vez, “meteu os pés pelas mãos”, após a Campanha de Combate ao Racismo, lançada em 25.11.2014, sob a subjetiva alegação de um “tom” racista! Disse tudo: não conhece a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da População Negra (2009), e o “tom” deve ser uma subjetividade de quem assina a nota, da qual exijo ser excluída, pois diz falar em nome de mais de 400 mil médicos. O CFM não me representa quando nega o racismo insidioso e cotidiano nos serviços e nos profissionais de saúde porque falta com a verdade, segundo várias pesquisas sobre a temática! Como autarquia federal, o CFM perdeu o rumo. O que é muito grave.

Fonte: Jornal O Tempo
Por: Dra. Fátima Oliveira é médica e escritora.
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Uma “historinha” sobre falta de caráter, xenofobia e racismo de um médico idoso, que em nada difere de gente desprezível de outras profissões, pois o microcosmo das categorias profissionais é revelador das ideias dominantes numa sociedade de “racismo cordial”, onde ninguém se diz racista, só os outros são!

Na manhã de 1º de agosto passado, fui aos Correios do meu bairro com uma grande caixa para ser despachada. Como não havia lugar no balcão para a caixa de preciosidades para minha neta Clarinha, avisei a funcionária de que seria a próxima. Aguardei ao lado. Chegou a minha vez. Ao dizer: “Encomenda PAC”, um senhor todo pimpão, cabelos menos brancos que os meus, mas aparência de 70 e cacetada, fez de conta que eu não existia e entregou um envelope. Negra, aprendi a reagir quando fazem de conta que sou invisível.

Na maciota, mas firme, disse: “Senhor, é a minha vez! Estava na fila!”. E ele: “Isso aqui é rápido. É meu voto para o Conselho Regional de Medicina do Espírito Santo. Sabe o que é isso?”. Eu: “Senhor, espere! Estou sendo atendida!”. Ele: “Desculpe-me, não a vi! Sou muito educado! Pode passar, madame! Nordestino não respeita fila!”.

E o muito educado foi esbravejar no fim da fila: “Esse povo do Nordeste nem sabe o que é fila. Lá não existe isso. Conheço essa gente do meu consultório de ajudar pobres ali na favela. Há muitos desses nordestinos lá que eu ajudo! Favela não, que esse nome é discriminação e tá errado, da comunidade da Barragem Santa Lúcia. Sou caridoso. Atendo de graça lá. Ora, não vou me trocar com qualquer uma, sou médico, sou rico!”.

Gargalhei e, com o sangue fervendo, detonei: “E moleque, safado, xenófobo e racista. E cale a boca: sou tão médica quanto o senhor, há quase 40 anos…”. Ele (mirando a negra que vos fala): “Será? Então sou médico há mais anos que você!”. Eu: “E daí? Tá pensando que medicina nasceu só para o senhor, que é branco e do Sudeste? Deixe de bestagem e de xenofobia. Vou chamar a polícia para o senhor deixar de ser safado. Suma daqui, seu moleque, se não quiser sair algemado. Chispa!”.

Assustadíssimo, tropeçou nos próprios pés e, tremendo como vara verde, saiu feito um azougue… “Já vai? Espera a polícia, quero ver tua riqueza te safar!”. Mas ele fugiu! O único temor foi de o sujeito ter ou simular uma “sapituca” e eu ter de socorrê-lo ali…

Quando um médico setentão diz o que disse, demonstra que há caráter de todo tipo em qualquer profissão. Não é surpresa que médicos jovens portem cartazes “sou médico, sou culto, sou rico”, que evidenciam uma faceta da desfaçatez reinante; nem é coisa de outro mundo, é daqui mesmo, a exibição do corredor polonês do banditismo do racismo ocorrido em Fortaleza, uma criminosa intimidação a médicos cubanos. E Juan Merquiades Duvergel Delgado, médico, negro, cubano, tirou de letra: passou por ele – eternizando numa foto, que ganhou o mundo, a naturalização e a banalização do racismo brasileiro! Aliás, o maior mérito da importação de médicos, que oficializa a precarização do trabalho médico – pois até o governo solapa direitos trabalhistas e ainda quer aplausos –, é comprovar a falta de vergonha de ser racista sem medos!

Negro no Brasil vive num corredor polonês racista. Mas só negros percebem e sentem, como o aceite ou a omissão diante de práticas racistas institucionais, a exemplo do engavetamento da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da População Negra, que não andou um milímetro em sua implementação no atual governo. “Pra quem sabe ler, um pingo é letra”.

Fonte: Jornal O Tempo
Por: Dra. Fátima Oliveira
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Maconha ou narcotráfico: o que é pior? E o aborto?

“Narcotráfico está rindo da repressão às drogas”, diz presidente do Uruguai.
Se continuarem respondendo ao narcotráfico pela via da repressão, os governos latino-americanos estarão cultivando “uma esplêndida derrota”.

É a opinião do presidente uruguaio José “Pepe” Mujica, 79, que, entre outras leis de cunho liberal, aprovou durante sua gestão a regulação da produção e do consumo da maconha. “Se você quer mudar uma situação, não pode seguir fazendo a mesma coisa, tem que buscar outro caminho. Eu não sei por que o mundo não vê o que está acontecendo.”

O partido de Mujica, a esquerdista Frente Ampla, é o favorito para vencer as eleições do próximo domingo no Uruguai, reconduzindo ao cargo o antecessor do presidente, o também líder socialista Tabaré Vázquez. As pesquisas apontam uma vitória do médico oncologista por 52% a 42%. O segundo colocado é Luis Lacalle Pou, do partido Nacional.

Mujica, que deixará o cargo em março, recebeu a Folha em seu sítio, em Rincón del Cerro, nos arredores de Montevidéu. “Balanço de governo? Não sou dono de armazém, não faço balanços, é preciso olhar para a frente”, disse, bem humorado, no banco do jardim da modesta casa em que vive com a mulher e os cães.

Leia, abaixo, os principais trechos da conversa.

Folha – Como avalia a implementação da lei da maconha no Uruguai?

José “Pepe” Mujica – Nós não gostamos da maconha nem de nenhum vício. Mas pior que a maconha é o narcotráfico. O que está acontecendo é que, pela via repressiva, o narcotráfico está se matando de rir. Cada vez se trafica mais, se gasta mais dinheiro em polícia, em colocar gente nas prisões. Estamos cultivando uma esplêndida derrota.

Todos os governos da América Latina, desde esse ponto de vista, parecemos estados falidos. Cada vez armamos aparatos maiores para reprimir, cada vez temos mais gente presa, e cada vez há mais tráfico de drogas!

Nós queremos achar um outro caminho. Se você quer mudar, não pode seguir fazendo a mesma coisa, tem que buscar outra maneira. Eu não sei por que o mundo não vê o que está acontecendo, parece que colocamos uma venda sobre os olhos, como se a droga fosse uma coisa feia que não se pode mencionar.

Mas, e o cigarro, é bom? Por que não proibimos o cigarro? Porque não podemos, se fizermos isso, o mercado clandestino vai ser atroz. Essas coisas precisam ser discutidas de modo mais sério.

[O pintor espanhol Francisco ]Goya [1746-1828] disse que pintava seus monstros sob efeito da droga. Claro, não quero dizer que se tomarmos droga vamos pintar como Goya [risos], mas quero dizer que há muito que isso existe.

A legalização parcial nos permite identificar os consumidores e assim aconselhá-los e tratá-los. Aqui, nós temos um problema de dose. Se eu tomo uns três copos de uísque por dia, talvez não me faça bem, mas é suportável. Se eu tomo um litro, vão ter de me internar. É isso que queremos identificar. Hoje, como está tudo no mundo clandestino, quando identificamos o problema, é tarde demais.

O sr. também considera positivo o saldo da legalização do aborto? Por que é um tema tão difícil de ser discutido em tantos países?

Existe uma tradição política no Uruguai de colocarmos os problemas sérios sobre a mesa, e não escondê-los. Aqui neste país, em 1914/15 [gestão do colorado Battle y Ordóñez], o Estado reconheceu a prostituição e fundou uma universidade feminina para que as famílias conservadoras se animassem a mandar suas filhas estudarem, entre outras coisas. Naquela época, se pensava que a sociedade ia dissolver-se se as mulheres fossem estudar. O Estado também nacionalizou o álcool, e durante 50 anos era o único a produzir aguardente.

Assim estamos encarando esse tema. Ninguém está a favor do aborto, mas por muitas razões as mulheres, sozinhas, ou com problemas, continuam realizando-o. Se as deixamos sozinhas, isoladas, é uma covardia, uma irresponsabilidade. Muito mais se ela é pobre.

Nós oferecemos o serviço, mas a primeira ação é tratar de dissuadi-la e de oferecer apoio. Assim salvamos mais vidas. Se as mulheres persistem em sua decisão, nós o realizamos, e assim lidamos melhor com os problemas que ocorrem se o aborto se faz de modo incorreto. Ou seja, há um custo humano menor.

Isso quer dizer que essa política dá resultado desde o ponto de vista do princípio da defesa da vida, exatamente ao contrário do que dizem os opositores. Quando deixamos o assunto do aborto no mundo clandestino, a única coisa que estamos fazendo é colocar em maior risco as mulheres. A deixamos sozinha. E isso é uma covardia, uma irresponsabilidade. Sobretudo nas famílias pobres. Creio que acontece por preconceito religioso. Mas o Uruguai é o país mais laico da América Latina.

O que funcionou e o que não funcionou, nesses dez anos de Frente Ampla?

Bom, as pessoas continuam tendo o péssimo vício de morrer, e não podemos consertar isso (risos). Mas, agora falando sério, o mais importante é que tínhamos 39% de pobreza há dez anos, e agora temos 11%. Tínhamos 5% de indigência, agora temos 0.5%.

Fizemos um avanço considerável nesse ponto, mas não foi o suficiente para eliminar a pobreza e a indigência num pequeno país rico em recursos naturais e que não tem justificativa de ser tão pobre nem indigente. Não chegamos aonde deveríamos ter chegado.

Também demos resposta parcial a problemas importantes do porvir. Desde o ponto de vista energético, o Uruguai terá, em dez ou 15 anos, solucionado problemas de energia elétrica. Vamos ter em excesso para vender aos vizinhos. Por outro lado, estamos atrasados em infraestrutura, porque a economia, o transporte e o movimento portuário cresceram muito e não fizemos investimento a altura que facilite o fluxo de mercadorias. Estamos atrasados nisso.

Como foi a conversa com Dilma, há duas semanas, em Brasília?

Nossa relação com o Brasil é muito boa, sobretudo com governo federal. Às vezes aparece algum obstáculo com um Estado, sempre acudimos ao governo federal.

Algum Estado específico?

Depende das estações [risos]. Mas o governo federal sempre nos ajuda. Nossa preocupação é o que vai acontecer, quais são as perspectivas da discussão que temos com a Europa com relação a tratados de comércio.

Me preocupam os anúncios de acordos que os países do Pacífico estão fazendo na Ásia. Desde que falei com Dilma, China acertou um acordo importante com certos países da região eagora temos que nos posicionar frente a isso.

Minha preocupação é que aqui há um jogo de grandes potências que não podemos ignorar. Brasil, Argentina, Paraguai, Bolívia, nós temos um comprador cada vez mais forte que é a China. Se qualquer acordo que se faça desde essa costa do Pacífico ameace isolar a China, para nós será um problema difícil de resolver. Porque, sinceramente, não creio que os EUA vão comprar soja do Brasil nem de nós, por exemplo. Já não podemos renunciar à China, e por outro lado precisamos aumentar nossas relações de mercado. Temos um problema.

As medidas protecionistas de Brasil e Argentina prejudicam o Mercosul?

O Brasil sempre nos dá um lugar. A Argentina é mais esquemática. O Brasil é protecionista com o resto do mundo, mas não tanto conosco, com os integrantes do Mercosul. Já a Argentina é protecionista para todos. Por outro lado, a Argentina está passando por uma conjuntura econômica difícil.

E eu não concordo com essa análise apocalíptica de que a Argentina vai se derrubar. Eu fiquei velho ouvindo essa análise e a Argentina segue. No mundo, é preciso ter duas economias. Uma para o resto do mundo. E outra para a Argentina. É um país muito rico, de repente arranca. Sempre foi assim.

O baixo crescimento de Brasil e Argentina neste ano preocupam o Uruguai?

Preocupam, mas nós estamos com margem de flexibilidade para respirar. Por exemplo, nós procuramos ter um acordo especial em um setor, o de lácteos, com a China. É um setor chave de nossa economia e precisamos da compreensão dos vizinhos grandes, para que ajustemos uma esquininha da nossa economia. Não vamos prejudicar o Mercosul.

O que explica a longevidade de projetos políticos como a Frente Ampla, o PT (Brasil), a Alianza País (Equador), o MAS (Bolívia)?

Significa que as maiorias estão comendo melhor e dormindo melhor. Por isso votam neles. É uma resposta muito lógica. E o que mudará no dia em que nós, forças progressistas, dermos as costas a nossa razão de ser, a lutar por sociedades mais equilibradas, o dia em que fracassemos nisso, a história vai mudar, e as pessoas vão votar em outra coisa.

O que o sr. acha da reeleição?

Não gosto e sempre me opus. Não pelo presidente, mas sim pela corte a seu redor. Não sou reeleicionista porque os presidentes emanam uma atmosfera de poder. E abaixo dessa atmosfera se cultiva um afã de poder e de estabilidade das pessoas que compõem o governo. É bom varrer, passar a vassoura colocar outros.

O sr. é um defensor dos partidos.

Sim, o partido é algo muito mais coletivo, por isso não simpatizo com os “outsiders” da política. Os partidos têm muitos defeitos, mas por enquanto é a melhor ferramenta que temos para decidir a marcha de um país.

Sempre terão a vantagem de ser um coletivo. O presidente pesa muito, claro.

Mas se tem atrás um partido, tem um elemento de sobrepeso, de controle.

Creio que qualquer construção política precisa de mais prazo, tempo e vai além da vida ativa que pode ter uma pessoa, um personagem forte. Os personagens passam, as causas ficam. Por isso, me parece mais lógico que tenhamos um partido que nos suceda e não nomes próprios que nos sucedam.

Essa é a razão pela qual surgiram as repúblicas. As repúblicas foram um grito negando a monarquia e o direito de sangue feudal, e vieram ao mundo para proclamar que homens e mulheres somos basicamente iguais. Portanto, quando escolhemos um presidente, escolhemos um administrador, não um rei, não um monarca.

É bom que exista uma força coletiva que o respalde, mas que também que o contenha.

O que o sr. acha do fato de sua vida humilde ter ganhado tanta projeção internacional?

Me entristece. Porque nas repúblicas, em última instância, as decisões fundamentais são da maioria. E portanto, os governantes devemos responder às maiorias, não às minorias.

Se minha forma de vida for a forma de vida dos círculos economicamente privilegiados de meu país, não tenha dúvida de que minha forma de viver não está de acordo com a forma de viver da maioria do meu país.

Eu vivo como vive a imensa maioria do povo uruguaio. Eu não tenho a culpa se outros governantes, sem dar-se conta parece, mudam de quadro. Eu não mudei de quadro, pertenço a uma determinada classe social, represento essa classe social, tenho seus valores.

Por outro lado, pessoalmente, luto pela liberdade. E o que isso significa do ponto de vista pessoal? Ter tempo. Ter tempo para as coisas de que gosto. Se tenho uma vida muito complicada, muitas casas, muitos empregados, muitos carros, muito chofer, muita segurança, então vivo gastando tempo para atender a todas essas coisas. E eu quero uma vida sóbria, não pobre, com o imprescindível e necessário para que me sobre tempo para fazer as coisas de que gosto. Sou presidente porque sou um lutador social. Amanhã não serei presidente, mas enquanto os ossos me respondam, vou seguir lutando, assim até o caixão, não me aposento.

Como tenho minha vida comprometida, preciso do maior tempo da minha vida dedicado a isso. Isso pode surpreender, mas não é improvisado. É largamente pensado. Tenho um discurso de mais de 30 anos, de quando saí da cadeia, em que mais ou menos disse essas coisas que te estou dizendo agora.

O sr. vê no que faz hoje uma continuidade com sua atuação como guerrilheiro?

Em termos de objetivos, sim. De lutar para tentar conformar uma sociedade mais justa. Quando éramos mais jovens, éramos mais ingênuos. Pensávamos que podíamos mudar o mundo. Na medida em que fomos envelhecendo, o objetivo de justiça e equidade segue sendo o mesmo, mas nos damos conta de que o caminho é muito mais longo e mais difícil.

Não podemos mudar o mundo, mas sim melhorar um pouquinho o bairro onde vivemos. Depois virão outros, e outros e outros.

O sr. se arrepende da opção pela luta armada?

Cada coisa tem seu tempo. A América era outra América, o mundo era outro mundo. E éramos funcionais à época em que vivíamos. Hoje sou um pacifista extremo. Porque antes podíamos pensar que havia guerras justas e injustas. Hoje, quando contemplamos os fatos, sabemos que todas as guerras são injustas, porque os que pagam o maior preço, sem ter nada que ver com a guerra, são os mais humildes.

Em todas as partes da Terra é preciso lutar para diminuir os conflitos. Ainda que isso suponha andar muito mais devagar.

No Brasil, estamos a vésperas da entrega do relatório da Comissão da Verdade. Como o sr. vê a diferença com que Brasil, Argentina e Uruguai encaram o assunto? A Argentina está julgando amplamente, o Uruguai julgou parte, no Brasil, é difícil que caia a Lei de Anistia.

A ditadura argentina teve um grau de violência e de abusos que deixou provas contundentes por todos os lados. A ditadura uruguaia não escreveu tantos papéis. É um país mais pequeno e os que têm as fontes da verdade as guardam. E não podemos torturá-los. Na Argentina, teriam guardado, mas como cometeram muitos abusos, há provas por todos os lados. Nós condenamos àqueles sobre quem tínhamos provas. E não podemos condenar a quem não temos prova, também não podemos torturar. Nem inventar evidências.

Somos prisioneiros de nossa própria tradição institucional, essa é a diferença. O Brasil teve seu processo, acho que cada sociedade faz o que pode. Admiro o que fez a África do Sul. Tomara que a Colômbia possa beber dessa fonte. Porque ter 50 anos de conflito armado e depois colocar-se a fazer Justiça aí, pode não acabar nunca. Foi muito inteligente o que fez a África do Sul, a confissão social dos que tinham alguma responsabilidade eximia de culpa jurídica, mas se assumia a culpa social. É de uma maturidade notável para uma sociedade.

Mas nós seguimos investigando, buscando desaparecidos, analisando DNA, e de vez em quando encontramos algo.

O sr. pensa naqueles que o torturaram?

Não, eu não cultivo isso. Não me dedico a viver escravizado, nem pela Justiça nem pelo ódio, porque minha vida segue adiante, mas reconheço que sou bastante excepcional, sou um lutador social e um lutador político.

Aqueles que me torturaram e me detiveram encarcerado, se não fossem eles, teriam sido outros. Eles estavam cumprindo uma função de poder reacionário nesse momento. Não posso me agarrar a isso até a morte. E não posso tentar ganhar a um torturador. Tento ganhar a família, os filhos, todo o mundo que o rodeia.

Se apareço com uma cara vingadora, para ajustar velhas contas, não vou estar em condições de ganhar politicamente o que vem adiante. Em minha luta política adoto a tática mais conveniente para avançar no porvir.

Mas reconheço que tem gente que não vê essas coisas politicamente e pensam de uma forma diferente. Aspiro para que, no futuro, existam oficiais e soldados das Forças Armadas que pertencem às minhas filas, para que pensem parecido a como eu penso. E trabalho para isso no longo prazo.

Mas isso não significa que eu me esqueça do que aconteceu comigo. Há coisas que não podemos esquecer, mas temos que carregar na mochila e aprender a andar com elas.

Fonte: Folha de São Paulo em 26/11/2014

Psicanálise, discriminação, publicidade e saúde mental

O psicanalista Jorge Bruce
O psicanalista Jorge Bruce

Apresentaremos entrevista com Jorge Bruce, psicólogo e psicoanalista.

As descrições são basicamente do Peru, seu país de origem.

Mas poderíamos encontrar muitas delas aqui no Brasil.

Objetivo: divulgar melhor a questão da Conduta Discriminatória como uma questão de Saúde Mental.

Quanto ao entendimento/compreensão das questões emocionais, pensamos que valem para qualquer local.

Jorge Bruce esteve em Porto Alegre para participar do evento abaixo:

http://www.aprs.org.br/agenda/icalrepeat.detail/2014/11/22/132/63/forum-interdisciplinar-de-discussao-sobre-a-maldade-a-etica-e-a-corrupcao-no-cotidiano

Telmo Kiguel
Médico Psiquiatra
Psicoterapeuta